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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"


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DA ÁSIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

DOS FEITOS , QUE OS PoRTUGUEZES FIZERAM 

NA CONQUISTA , E DESCUBRIMENTO DAS 

TERRAS , E MARES DO ORIENTE. 

DÉCADA SÉTIMA / 

PARTE PRIMEIRA* 










\ 






LISBOA 

Na Regia Officina Typografica* 

anno m. dcc.lxxxii. 

Çom Licença da Real Mcza Cenforia , c Privilegia Real* 




3>S 

|-p£> 

V- 1 
ot-l 



ÍNDICE 

DOS capítulos, que se contém 

NESTA PARTE I. 

DA DÉCADA VII. 



LIVRO I. 

CAP. I. De como EIRey D. João fup- 
plicou ao Papa proveffe o Império 
da AbaJJia de Patriarca : e de hu- 
ma breve relação do Patriarca D. João 
Bermudes , que lá foi cm tempo do Go- 
vernador D. bjlevão da Gama : e de ou- 
tras muitas co ufas. Pag. i. 
CAP. II. De huma breve relação daChri- 
Jlandade das terras do Malavar , e de 
feus Bifpos : e de como o Arcebifpo de Goa y 
e Primaz da índia D. Fr. Aleixo de Me- 
nezes , Religiofo da Ordem de Santo Agos- 
tinho , por ordem do Papa Clemente VIII. 
governou aquella Igreja , e ficou fuffra- 
ganea ao Arcebifpado de Goa por morte 
do Arcebifpo Mar Abrahão , e depois os 
foi vifitar em pejfoa: e dos grandes tra- 
balhos que pajfou até a reduzir ao gré- 
mio da Igreja Catholica : e do Synodo Dio- 
cefano que ordenou , em que tirou infini- 
tos erros , e abusões : e de outras cou- 
fas. 13. 

CAP. 



Índice 

CAP. III. De como EIRey D. "João efle an- 
uo de i^S4' elege o pêra Vifo-Rey da ín- 
dia a D. Pedro Mafcarenhas : e da Ar- 
mada com que partio : e do que fucce- 
deo na viagem até chegar à Cidade de 
Goa. 30. 

CAP. IV. De como os Capitães de Baçahn , 
e Chaul ajuntaram navios , e fe foram 
lançar fobre a barra de Surrate , jabcn- 
do eftarem dentro as galés : e de como o 
Vijo-Rey D. Pedro Majcarenhas mandou 
Jeu fobrinho Fernão Martins Freire com 
huma Armada áquelle negocio : e dos tra- 
tos que teve com Caracen , Capitão de 
Surrate : e de como fe affentou cerrarem- 
fe as galés: e da chegada de D. Fernan- 
do de Menezes a Goa. 38. 

CAP. V. De como o Turco mandou outro 
Capitão , chamado Cafár , a bufe ar as 
galés que ejlavam em Ba corá: e de como 
tomou algumas nãos de Ormuz : e de ou- 
tras coujas que pafpíram. 46. 

CAP. VI. De como o Vifo-Rey defpachou as 
nãos pêra irem a Co chim tomar a car- 
ga : e do que aconteceo a D. Affonfo de 
Noronha com EIRey do Chembe , e Je em- 
barcou pêra o Reyno onde chegou : e como 
a não Santa Cruz defappareceo. 5*0. 

CAP. VIL Do que aconteceo a Fernão Mar- 
tins Freire em Surrate : e da Armada 

que 



dos Capítulos. 

que o Vifo~Rey ordenou pêra o EJlreito 
de Meca : e do recado que mandou ao Im- 
perador da Abajjia : e do que aconteceo 
a Vajco da Cunha com EIRey de Chembe 
fobre as pazes. 57. 

CAP. VIII. Do que aconteceo a Manoel de 
Vafconcellos no EJlreito : e de como Per- 
não Farto lançou os Padres em Ar quico m . 
e do que aconteceo ao Padre Meflre Gon- 
çalo até d Corte daquelle Imperador : e 
de todos os Reys que houve dejde a Rai- 
nha Sabá até efte Cláudio : e do que o 
mefmo Padre paffou com o Emperador. 66. 

CAP. IX. De como D. Diogo de Noronha , 
Capitão de Dio , perfuadio a Tartacan , 
que lançajje a Bifcan fora das terras de 
Dio , como fez : e de como D. Diogo de 
Noronha lançou mão de todo orendimen- 
to daquella Alfandega : e de outras cou- 
fas que pajfáram. 83. 

CAP. X. De como fe levantaram contra o 
Idalcan alguns Capitães feus : e dos tra- 
tos que houve antre Anel Maluco , e o 
Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas. 88. 

CAP. XI. De como o Vifo-Rey D. Pedro 
Mafcarenhas alevantou Mealecanpor Rey 
de Vifapôr : e dos contratos que com eíle 
fez : e de como paffou a Pondá , e o en- 
tregou a Calabatecan. 93. 

CAP* XII. De como fale ceo o Vifo-Rey D. 

Pe- 



Índice 

Pedro Mafcarenhas : e das partes , e qua- 
lidades de Jua pejjòa. 103» 

LIVRO 11. 

CAP. I. De como por morte do Vifo-Rey 
D. Pedro Mafcarenhas fucceâeo na 
governança da índia Francijco Barreto : 
e da Armada que fe queimou na ribeira 
de EIRey com hum foguete. 1 1 r . 

CAP. II. De como o Governador Francif 
co Barreto paffou a Bonda a fe ver com 
o Mealecan : e de como proveo as Tana~ 
darias daquellas partes > e mandou D. 
Antão de Noronha a tomar pojje de to- 
do Concan. 117. 

CAP. III. Dos recados que pajfdram antre 
D. Diogo de Noronha , Capitão de Dio , 
e Me li que Xeque fobre a Alfandega : e 
de outras muitas coufas que Juccedê- 
ram. . 122. 

CAP. IV. Das coufas que fucce deram em 
Ceilão : e dos ardis de que o Madune ufou 
pêra inimizar Tribuli P andar com os 
Portugueses : e de como depois Je concer- 
tou com elles pêra o dejlruirem , como 
fizeram. 132. 

CAP. V. De como hum Capitão Pegtí , cha- 
mado Xhnidifotão ; matou EIRey Brama , 

€ 



dos Capítulos. 

e fe apoderou do Rey no , e mandou ma~ 
tar Diogo Soares de Mello : e de outra? 
muitas coufas que fucce deram. 13 o. 

CAP. VI. De como Mandar agri , cunhado 
deElRey Brama , veio com grandes exér- 
citos fobre Pegu , e tornou a conquijlar 
aquelle Keyno : e das façanhas que os 
Portuguezes fizeram em defensão da for- 
taleza , onde a Rainha efiava : e do que 
fez o Mandar agri Rey de Pegú y quan- 
do os veio foc correr. 148. 

CAP. VII. Da Armada que efe anno de 
Jincoenta e finco par tio do Rey no , de que 
era Capitão mor D. Leonardo de Soufa : 
e da perdição da não Algaravia nova : e 
de como o Governador Francifco Barre- 
to mandou D. Álvaro da Silveira por 
Capitão mor ao Ma lavar : e do que acon- 
teceo a Mealecan até Rilgão : e dos tra- 
tos que o Idalcan teve com Anel Maluco 
fobre lho entregar. 15^. 

CAP. VIII. De como Rama Rayo Rey de 
Bifnagd mandou Jeu irmão Vinga ta Rayo 
em favor do Idalcan : e de como os Capi- 
tães da conjuração foram desbaratados , 
e o Mealecan com Anel Maluco fugiram 
pêra o Izamaluco , e do que lã lhes fuc- 
ce deo. 163. 

CAP. IX. Do que aconteceo a D. Antão cie 
Noronha no Concan : e dos recontros que 

. te- 



Índice 

teve com alguns Capitães do Idalcan : e 
da grande vitoria que alcançou do Xa- 
coli. 1 6j. 

CAP. X. De como o Governador Francifco 
Barreto teve novas do desbarato de Mea- 
lecan : e da vinda de alguns Capitães ao 
Idalcan : e de como mandou recolher D. 
Fernando de Monroy , e D. Antão de No- 
ronha. 17 ç. 

CAP. XI. De como o Governador Francif- 
co Barreto defpachou as nãos do Reyno: 
e do que aconteceo a D. Álvaro da Sil- 
veira no Malavar : e das pazes que oÇa- 
morim pedio y efe lhe concederam. 1 80. 

LIVRO III. 

CAP. I. Da embaixada que o Governa- 
dor Francifco Barreto mandou a Cam- 
baya por Triftão de Paiva , efobre que : 
e dos navios que mandou a recolher o Pa- 
dre Mejire Gonçalo , que eflava na Abaf 
fa : e da Armada que defpedio pêra o 
EJlreito , de que foi por Capitão mor D. 
Álvaro da Silveira : e das coufas que Mi- 
guel Rodrigues , Fios fecos , fez pela cof- 
ta do Idalcan. 186. 

CAP. II. Do que aconteceo a Trijlão de Pai- 
va em Cambaya : e de como os que fica- 
ram 



dos Capítulos. 

ram nos baixos de Pêro dos Banhos aca- 
baram a naveta , e nella vieram a Co- 
chim. 192. 

CAP. III. Do que Miguel Rodrigues Cou- 
tinho fez pela cofta do Idalcan : e do que 
accnteceo a 'João Peixoto na jornada do 
F (ir eito : e de como de o em Su aquém , e 
matou a que lie Rey , e cativou alguma gen- 
te , e roubou os Paços. 198. 

CAP. IV. Do que fuccedeo a D. Álvaro da 
Silveira na viagem : e das de [a venças 
que teve com Bernaldim de Soufa 5 Capi- 
tão da fortaleza de Ormuz : e do que 
lhe aconteceo no EJlreito de Ba cor d. 203. 

CAP. V. Das coufas que ejle anno aconte- 
ceram em Ceilão: e da guerra que fepro- 
feguio contra oTribuli P andar : e de co- 
mo elle fugio pêra Jafanapatão , onde foi 
morto : e da guerra que o Madune tornou 
a fazer a EIRey da Cota. 208. 

CAP. VI. Da Armada que efle anno deftn- 
coenta e féis partio do Reyno , de que 
era Capitão mór D. João de Menezes 
de Siqueira : e do que lhe fuccedeo na via- 
gem : e do em que o Governador Francij- 
co Barreto proveo fobre as coufas do Pa- 
triarca : e da viagem que fizeram as nãos 
até o Reyno. 213. 

CAP. VII. De como o Patriarca 5 e o Em- 
baixador do Prejle trataram com o Go- 
h ver- 



Índice 

remador Francifco Barreto fohrefua ida : 
e dos entretimentos , e efcufas de que 
ufou j e do confelho que fobre ijjb tomou , 
em que fe ajjentou fojje oBifpo Z). André 
de Oviedo : e de como mandou d Ilha de S. 
Lourenço Bali bazar Lobo de Soufa. 220. 

CAP. VIII. Da Armada que o Governador 
Francifco Barreto mandou ao Ma lavar : 
e de como elle partio para o Norte , e 
D. Diogo de Moronha fe foi ver com el- 
le a Baçaim. 227. 

CAP. IX. De hum Embaixador de EIRey 
do Cinde , que veio ao Governador Fran- 
cifco Barreto : e do tempo , em que os Ma- 
gores conquijldram aquelle Reyno da mão 
dos antigos Gentios. 230. 

CAP. X. Dafamofa Ilha deSalfete de Ba- 
çaim : e dofeu efpantofo Pagode , chama- 
do doCanari: e do grande labyrintho que 
a Ilha tem. 236. 

CAP. XI. Do muito notável , e efpantofo 
Pagode do Elefante. 250. 

CAP. XII. De como o Governador Francif- 
co Barreto houve ds mãos as fortalezas 
de AJfari , e Manord : e de como António 
Moniz Barreto foi tomar pofje delias por 
mandado do Governador : e de outras cou- 
fas , em que proveo até fe partir pêra 
Goa. 261. 

CAP. XIII. Do que aconteceu na jornada 



dos Capítulos. 

a Fero 'Barreto : e do enga?ío que com el- 
le ufou o Príncipe do Cinde : e de huma 
façatthofa fer pente , que hum foi d a do cha- 
mado Gafpar de Mont arroio matou. i~ o. 
CAP. XIV. De como Fero Barreto Rolim 
defiruio a Cidade de Tatá , e todas as 
Villas , e Lugares de huma , e outra ban- 
da do Rio : e donde nafceo o erro aos Geó- 
grafos modernos chamarem d Provinda 
do Cinde Dulcinda. 276. 

LIVRO IV. 

CAP. I. Do que aconteceo d náo S. Paulo 
até Cocbim: e de como Pêro Barreto 
Rolim deftruio a Cidade de Da bui. 28 y. 

CAP. II. De como o Governador Francifco 
Barreto pajfou aterra firme embufca dos 
Capitães do Idalxd : e da batalha que 
lhes deo , em que os desbaratou : e de ou- 
tras coufas. 290. 

CAP. III. De algumas coufas , em que o 
Governador Francifco Barreto proveo : e 
de alguns Capitães que de fp achou pêra 
fora : e de huma grande vitoria que João 
Peixoto houve em Bardes de hum Portu- 
guês arrenegado. 298. 

CAP. IV. Do que aconteceo na viagem a 
Manoel Travajfos 2 até lançar o Bifpo no 

Por* 



Índice 

Porto de Ar quico: e do que fuccedeo ao 
Bifpo até Baroâ. 304. 

CAP. V. Do que fuccedeo a Balthazar Lo- 
bo de Soufa na viagem até d Ilha de S. 
Lourenço : e da defcripção dejla Ilha , e 
das de Cômoro : e qual feja a Minuthias 
de Ptolomeu. 310. 

CAP. VI. Do que aconteceo ao Bifpo D. 
André de Ouvi e do até chegar a fe ver 
com o Emperador da Ethiopia : e do que 
com elle pajfou. 310. 

CAP. VII. De como D. Duarte Deça Ca- 
pitão de Maluco prendeo ElRey de Ter- 
nate em huma afperijjima prizao : e das 
grandes guerras que por ijjb fe leva?2tãr 
ram em todas aquellas Ilhas contra os nof 
fos Portuguezes. 326. 

CAP. VIII. Da dijferença que ha antre 
Perfas e Árabes [obre a opinião de fuás 
feitas : e de como o Rey da Per/ia man~ 
dou aos Reys do Decan o titulo de Xas 7 
com condição que Jeguiffemfua feita. 334, 

CAP. IX. De huma relação de Nizamo* 
oca , e de fua morte : e de como o que lhe 
juccedeo no Rey no fe ajuntou com o Cu- 
tubixà contra o Idalcan , e largou o Ini- 
zamoxá ao Mealecan , que tinha pre- 
z°- 339° 



LI- 



dos Capítulos. 

livro v. 

CÀP. L Das coufas , que aconteceram 
na guerra de Goa : e de hum ajfal- 
to que os nojjbs deram na outra banda , 
em que houve algum de [arranjo : e de co- 
mo os inimigos entraram a Ilha de 'João 
Lopes. 347- 

CAP. II. Da Armada que efle anno defin- 
coenta e fete partio do Reyno , de que 
era Capitão mor D. Luiz Fernandes de 
Vafconcellos : e de huma breve relação 
da devoção , que os ?nareantes tem ao 
Bemaventurado 8. Fr. Pêro Gonçalves , a 
que elles chamam o Corpo Santo. 3^2. 

CAP, III. Das coufas que fuccedêram em 
todo efte anno em Maluco : e de como os 
moradores prenderam D. Duarte Deça % 
e foliaram aquelle Rey. 35^. 

CAP. IV. Da embaixada que o Governa- 
dor Francifco Barreto mandou a EIRey 
de Chaul , efobre que : e de como os Mou- 
ros entraram na Ilha de Chorão , donde 
foram lançados com grande damnofeu: e 
de como o Governador mandou metter nel- 
la Z>. Francifco Mafcarenhas. 369. 

CAP. V. De como o Governador Francijco 
Barreto defpachou as nãos pêra o Rey* 
vo > e os Mouros começaram a f aliar em 



Índice dos Capítulos. 

fazes , que fe lhes concederam : e de co- 
mo o Inizamoxá prendeo o Embaixador 
que o Governador lhe mandou : e do exer- 
cito que logo de [pedi o pêra lhe fazer 'hu- 
ma fortaleza no Morro : e de como Ál- 
varo Paes de Sotomaior partio pêra o 
E/lreito , e ficou em Chaul por caufa da 
guerra. 376. 

CAP. VI. Da Armada com que o Governa- 
dor Francijco Barreto partio pêra o Nor~ 
te , e chegou a Chaul : e das pazes que 
lhe os inimigos mandaram commetter , e 
do que nijfo paffou. 384. 

CAP. VII. De como o Governador Francif- 
co Barreto mandou dejapojjar D. 'João 
de Ataíde da Capitania de Ormuz , pêra 
onde foi D. Antão de Noronha : e do que 
mais fez até fe partir pêra Goa. 391. 

CAP. VIII. De como o Governador Francij- 
co Barreto fe partio pêra Goa : e da gran- 
de Armada , e apercebimentos que fez 
pêra ir ao Achem. 395% 



DE- 



DÉCADA SÉTIMA. 
LIVRO I. 

Da Hiftoria da índia. 



CAPITULO I. 

De como EIRey D. João fupplicou ao Pa- 
pa provejje o Império da ÂbaJJla de Pa- 
triarca : e de huma breve relação do 
Patriarca D. João Bermudes , que la foi 
em tempo do Governador D. EJlevão da 
Gama : e de outras muitas coufas. 

Epois que EIRey D* João def- 
pedio a Armada pêra a índia 
efte anno de 1553 * ^ e 9 ue ^°* 
por Capitão mor Fernão de Al- 
vares Cabral , logo determinou 
de prover em duas coufas: huma, mandar 
fucceíTor ao Viíb-Rey D. Affonfo de No- 
ronha ; e a outra , fupplicar ao Papa lhe con- 
cedeíTe Patriarca , e Bifpos pêra o Império 
CQUtoTomJV.PJ, A da 




3 ÁSIA de Diogo de Couto 

da Abaffia , pela muita inftancia com que 
2queiles Imperadores lho tinham mandado 
pedir; porque defejavam de dar obediência 
á Santa Sé Apoftolica , e renunciar os Patri- 
arcas hereges , que de Alexandria lhes man- 
davam , por quem havia tantas centenas de 
annos fe governavam. E era eíle defejo tão 
antigo, que já o Imperador Zeriaco trelavô 
de Cláudio , que ao prefente reinava , por 
morte do Patriarca que os regia , não quiz 
acceitar mais outro de Alexandria , e dizia 
» que antes perderia todos os feus Reynos , 
» que confentir mais lhe vieííem Patriarcas 
» hereges ; » e aílim dez annos , que depois 
viveo , lhe não entrou algum em feus Rey- 
nos. E depois feu filho Alexandre efteve na 
mefrna opinião treze annos , até que o por 
vo fe lhe queixou , por lhe irem faltando 
Sacerdotes pêra lhe adminiíirarem os Sacra- 
mentos ; pelo que lhe foi necèíTario mandar 
a Alexandria pedir Patriarca , donde lhe man- 
daram dous ; hum delles fe chamava Mar- 
cos 7 e o outro Jacob, que lhe havia defuc- 
ceder. E aílim foram ambos continuando 
muitos annos , até falecer o Jacob , e ficar 
o Marcos fò adminiftrando aquelle Império , 
(que he o que D. Rodrigo de Lima , que 
lá foi por Embaixador no anno de vinte e 
féis , ainda achou vivo , e confeífou ao Pa- 
dre Francifco Alvares , que foi neíla jorna- 
da ? 



Dec. VIL Liv. I. Cap. I. 3 

da , fçgundo elle ô refere no livro que del- 
ia compoz , que era de cento e vime annos , 
porque quando fora áquelle Império fizera 
feíenta , e que havia íincoenta que o admi- 
jiiftrava , a fora alguns que depois viveo. ) 
Elle quando lá vio D. Rodrigo , e hum Re- 
ligiofo , que feguia a Igreja Latina Roma- 
na, ( íegundo conta o mefmo Padre Frari- 
cifeo Alvares , ) dava graças a Deos , e di- 
zia , que fe chegava o tempo de fe cumprir 
huma profecia, que havia nos livros Abexins , 
que dizia , » que aquelle Império não teria 
» mais de cem Patriarcas providos por Ale- 
» xandria , e que apôs elles viriam outros pro- 
» vidos pelo Summo Pontífice de Roma , e 
» que elle era o derradeiro dos cento. » No 
que fe enganou , porque até hoje perfeve- 
ram Patriarcas hereges , pofto que alguns an- 
nos depois lhe foi hum Catholico , provi- 
do pelo Papa Paulo III , que foi o D. João 
Bermudes , que D. Chriítovão da Gama le- 
vou , como fica dito no Cap. V. do VIL 
Liv. da quinta Década. E porque defte Pa- 
triarca não falíamos mais , depois que Dom 
Chriítovão da Gama foi lá morto , nem ti- 
vemos tão inteira informação de fuás cou- 
fas como agora , que no-la mandaram da 
Ethiopia , o faremos aqui brevemente y e o 
daremos melhor a conhecer. 

Efte homem era Portuguez , e tinha ido 
A ii a 



1. 



I 



4 ÁSIA de Diogo de Couto 

a Abaífia com D. Rodrigo de Lima , quan- 
do lá foi por Embaixador em tempo do Go- 
vernador Diogo Lopes de Siqueira , e levou 
comíigo hum leu fobrinho , chamado Dom 
Garcia de Noronha , fegundo hum Tratado , 
que elle mefmo fez dascouías que lhe fuc- 
cedêram no tempo que efteve na Aba/lia , fen- 
do Patriarca. E depois de D. Rodrigo de 
Lima de lá vir , faleceo naquelle Império o 
Patriarca Marcos , de que atrás falíamos , 
por cuja morte o D. João Bermudes perfua- 
dio ao Imperador da Abadia , que mandaf- 
fe dar obediência á Igreja Romana , e pe- 
dir ao Summo Pontífice Patriarca Catholi- 
co ; e como elle lhe eílava afFeiçoado , def- 
pedio-o pêra Roma com cartas ao Papa, emiiiâ 
que lhe pedio lho mandaííe a elle por Pa-i 
triarca. E indo neíta jornada , que foi o 
anno de trinta e finco, ou trinta e féis, foi 
cativo de Turcos , e levado ao Cairo , don- 
de por fua induftria fahio , e foi ter a Ro- 
ma , e o fanto Padre o ouvio muito bem 
e leo as cartas do Imperador Cláudio. E fa- 
bendo o rifco em que aquella Chriílandade 
ficava 5 logo fagrou o D. João Bermudes em 
Patriarca , e o enviou com cartas a Portu-i 
gal pêra EIRey D. João o III. , em que lhe 
dava conta daquelle negocio , e lhe pediam 
y> quizeíTe foccorrer aquelle Imperador , poisííeít 
a nenhum dos Príncipes Chriftãos tinha me 

»lhor 



r 

Cl; 
l 

? 



Dec. VIL Liv. I. Cap. I. $ 

> lhor apparelho pcrâ iflb. » E efta foi a cau- 
fa , por que EIRey o defpedio em companhia 
do Vifo-Rey D. Garcia de Noronha , a quem 
deo por regimento mandaííe huma boa Ar- 
mada defoccorro áquelJe Imperador , e nel- 
la lhe enviaíTe o Patriarca. E como o Vifo- 
Rey D. Garcia de Noronha achou a forta- 
leza de Dio de cerco, em cujo foccorro fe 
occupou todo aquelle verão , e no feguinte 
faleceo , não teve tempo pêra o mandar. E 
o Governador D. Eftevão da Gama , que lhe 
fuccedeo, achando eftas inftrucçôes nos pa- 
lpeis de D. Garcia de Noronha , quiz fazer 
•aquella jornada , que na quinta Década con- 
otámos, aílim pêra eíle effeito, de que então 
njnão tínhamos tão perfeita informação , co- 
■ mo pêra o das galés. Em fim , morto Dom 
ojChriílovão da Gama, ficou o Patriarca na- 
>iquelle Reyno até que o Imperador teve a- 
í-iquella batalha com o Grada Amet , que cor- 
tou a cabeça a D. Chriílovão da Gama , em 
que o desbaratou, e matou com a ajuda dos 
Portuguezes , como na mefma quinta Deca- 
ia fe verá no IV. Cap. do IX. Liv. , e o Im- 
perador tornou a cobrar feu Reyno , de que 
andava quafi esbulhado. 

E como todas aquellas coufas , Embai- 

ía radas , e petições que fez ao Papa, foram 

j Seitas por neceílidade , vendo-fe agora po- 

lerofo, eeítava entregue de todo ás maldi- 



tas, 



6 ÁSIA de Diogo de Couto 

tas , e excommungadas feitas dos hereíiar- 
cas Eutichiano , e Diofcoro Alexandrino 3 
e tinha mandado trazer de Alexandria Patri- 
arca herege , fendo ainda vivo D. Chrifto- 
vão da Gama ; e porque o elle não foubef- 
fe , tinha-o pofto no Reyno de Ambea , met- 
tido em hum Mofteiro , que eftava n'um gran- 
de lago de trinta léguas, onde o mandou le- 
var aílim , depois que fe vio defaíTombrado 
dos Mouros. E como aquelle Patriarca era 
máo , e herege , vendo-fe favorecido do Im- 
perador , logo começou a tratar maldades 
contra o D. JoãoBermudes , pêra o defacre- 
ditar , e fazer aborrecido a todos. E pêra 
iílo fallou fecretamente com huns Frades he- 
reges , e os induzio a que lançafTem de noi- 
te em certa parte da cafa de D. João Ber- 
mudes , hum vafo de ouro da Igreja ; e 
achando-o ao outro dia menos , começaram 
a fazer grandes eílrondos publicamente , di- 
zendo que D. João Bermudes o tomara : e 
fizeram ainda mais , que lhe foram dar de 
fupito em cafa, acharam o vafo na parte, 
onde o elles tinham poílo , do que fe elle 
refentio , e enfadou muito por entender a 
perverfidade de tão má gente , que foi a cau- 
ía de não querer eílar alli mais , nem ficar 
naquella terra. E indo-fe pêra Tigare, foi 
por todo aquelle caminho maídiçoando os 
lugares , e povoações por onde paíTava , e 

di- 



Dec. VIL Lrv. I. Cap. I. 7 

dizia algumas vezes aos que o acompanha- 
vam , que via hurnas formigas negras def- 
truir toda aquella terra , como de feito acon- 
teceo ; porque dahi a muito pouco tempo 
entraram por eila huns Cafres muito bárba- 
ros , chamados os Galas , e a deftruíram de 
todo , como adiante fe verá nefta Década. 
Chegado o D.João Bermudas a Baroá , dei- 
xou-fe alli ficar alguns annos efperando em- 
barcações , em que fe pudeíTe paffar á índia , 
até que ao porto deDaleca foram ter huns 
navios noíTos , de cujos Capitães , ou em 
que tempo nos não fouberam dar certa in- 
formação , e nelles fe embarcou pêra a ín- 
dia , e depois pêra o Reyno. E em Lisboa 
fe apofentou em S. Sebaílião da Pedreira , 
fóra da Cidade , onde o nós vimos ; e alli 
viveo alguns annos , e ainda em tempo de 
EIRey D. Sebaílião era vivo , e depois mor- 
reo com moílras de muito grande Catholi- 
co , e ainda de fantidade. 

E todavia defejando agora EIRey Dom 
João o III. de tornar a accender aquella 
Chriftandade , pêra que de todo fe não apa- 
gaíTe, fupplicou ao Papa Júlio III. , que ao 
prefente governava a Igreja de Deos , man- 
daíle hum Patriarca , e dous Bifpos áquelle 
Império , por cartas que tinha de novo da- 
os; quelle Imperador, em que lhe íignificava a 
grande vontade , e defejo com que queria 

dar 



8 ASIÀ de Diogo de Couto 

dar obediência á Santa Igreja Romana ; por- 
que tornavam a apertar com elle os traba- 
lhos, e guerras , que o faziam bufcar efte 
íbccorro , e remédio. Daqui tomou EIRey 
D. João motivo pêra efcrevcr ao feu Em- 
baixador que tinha em Roma , que inílafle 
muito fobre aquelle negocio , e pediíTe ao 
Padre Ignacio de Loyola , vifta a importân- 
cia delle, lhe défle alguns Religiofos dou- 
tos , e virtuofos pêra mandar aquelle Im- 
pério, 

Vendo o Summo Pontífice aquelle tão 
fanto zelo de EIRey D, João , quillo fatis- 
fazer ; e tratando com o Padre Ignacio de 
Loyola, Fundador da Companhia dejefus, 
fobre aquelia matéria, elle lheoffereceo al- 
guns Varões efcolhidos pêra as dignidades 
que pedia. Enefte Março de íincoenta e fin- 
co andando o Papa Júlio III. occupado nef- 
ta obra , veio a falecer , e fuccedeo-lhe na 
Cadeira de S. Pedro Marcello II., que tam- 
bém faleceo no primeiro dia de Maio fe- 
guinte. E por leu falecimento foi eleito Pau- 
lo IV. , que approvando por boa a tenção 
de EIRey D. João , pedio ao Padre Igna- 
cio lhe cíéfle os Religiofos fobre que já fe 
falia va , e elle lhe aprefentou pêra Patriar- 
ca o Padre João Nunes Barreto , Portuguez , 
que já tinha andado em Africa , exercitan- 
do as obras de mifericordia no refgate dos 

ca- 



Dec. VIL Liv. L Cap. I. 9 

cativos , que era irmão do Padre Ignacio Nu- 
nes , que eftava por Reitor da Companhia 
da índia, ambos Varões devida exemplar, 
e de muitas letras , e virtude. E pêra Bifpos 
os Padres Belchior Carneiro , Portuguez , e 
André de Oviedo, que então eftava por Rei- 
tor da Companhia em Nápoles. E efte fà- 
grou Jogo com titulo deBifpo Hierapolita- 
no , e ao Belchior Carneiro paíTou letras pê- 
ra o fagrarem na índia , e Jhe dep titulo de 
BifpoNiceno ; e a ambos paíTou letras, em 
que os fazia Coadjutores , e futuros fuccef- 
fores do Patriarca. Eftes Varões chegaram 
ao Reyno acompanhados de outros Padres 
doutos , e virtuofos , que o Padre Ignacio 
elegeo pêra eíla Mifsão , e foi já a tempo, 
que eftavam as náos de verga d'alto pêra 
partirem pêra a índia. E porque não era 
poífivel embarcar-fe o Patriarca tão depref- 
i a , ordenaram os Prelados da Companhia, 
que foíTem alguns Reíigiofos naquella Ar- 
mada pêra paliarem diante a Abaffia a fa- 
zerem a faber áquelle Imperador da eleição 
do Patriarca, e Bifpos, e de como ficavam 
no Reyno pêra fe partirem nas náos feguin- 
tes ; e pêra faberem o animo com que aquel- 
]e Imperador eftava , porque quando o Pa- 
triarca chegaffe , foubeíTe o que havia de fa- 
zer. 

E parece certo que tinha Deos noííb Se- 
nhor 



io ÁSIA de Diogo de Couto 

nhor poftos os olhos nas coufas do Orien- 
te ; porque no mefmo tempo em que o Sum- 
mo Pontífice eftava occupado neíta obra do 
Patriarca d3 Abaília , chegaram áquella Ci- 
dade Simão Sulaca , Bifpo deCaerimi, Ci- 
dade cabeça da grão Meíbpotamia ; e Mar 
Elias, Bifpo de Ninive, e fe lançaram aos 
pés do Vigário de Chrifto , e lhe deram a 
obediência de Catholicos , poríí, e por to- 
dos os léus íubditos ; porque até então fe- 
guíram os erros do falfo Neftor , cuja cabe- 
ça era o Patriarca de Antioquia, que o Sum- 
mo Pontifice recebeo com muita alegria, e 
contentamento ; e fagrou ao Simão Sulaca 
em Patriarca de Mufal ; e ao Mar Elias em 
Bifpo de outro lugar feu fuffraganeo. E el- 
les deram à obediência de Catholicos por (i, 
e pelos maisBifpos de fuás jurdiçoes, e os 
defpedio com grandes Breves Apoftolicos. 
E no mefmo tempo fagrou também a Mar 
Jofeph em Arcebifpo de Ninive , pêra ir ás 
terras do Malavar inftruir aquellesChriftãos 
do Apoílolo S. Thomé por ferem governa- 
dos por Mar Abrahão , Arcebifpo Neíloria- 
no , como todos os atrás foram , que eram 
providos pelos Patriarcas de Babylonia , a 
quem também paffou Breves Apoftolicos ; e 
com elle mandou o Bifpo D. Ambroíio 
Monte Celi , feu Penitenciário , de cafla Ita- 
liano y Frade Dominico , pêra ir em compa- 
nhia 



Dec. VIL Liv. I. Cap. I. ir 

nhia do Patriarca de Mufal , e dahi paflar 
aos Georgianos a ver fe os podia reduzir á 
obediência da Igreja Romana. 

Chegados eíles Patriarcas , e Bifpos a 
Mufal, tomou o Patriarca pofíe , e ajuntou 
os Bifpos fuffraganeos , e deram obediência 
ao Papa. O que fabido pelo Patriarca de An- 
tioquia , fe paflbu a Babyionia , e alli fe fez 
cabeça dos hereges Neftorianos, ficando a- 
quelle Patriarcado dividido em dous ; mas 
o Catholico durou pouco, porque o mata- 
ram os Turcos; e prefumio-íe que por or- 
dem do Patriarca de Babylonia. E o Arce- 
bifpo de Ninive com o Bifpo D. Ambro- 
íio , que ainda eftavam com elle , tiveram 
tempo pêra fugir aos hereges , e foram ter 
a Ormuz , e dalli á índia efte verão em que 
andamos ; e por ordem do Governador Fran- 
cifco Barreto paíTáram á Serra , elle , e o 
Mar Jofeph , e tomou poífe daquelle Arce- 
bifpado , e depoz o Mar Abrahao com fen- 
timento dos Chriflãos que o acceitáram. E 
o D. Ambrofio depois de o deixar de poí- 
fe daquella Chriftandade , fe tornou pêra 
Goa , e em S, Domingos leo a fagrada 
Theologia aos Religiofos daquella Ordem, 
E depois indo-fe embarcar a Cochim pêra 
oReyno, faleceo naquella Cidade , e jaz en- 
terrado na Cafa de S. Domingos. Foi efte 
homem douto nas Letras Divinas 7 e huma- 
nas, 



1 2 A S I À de Diogo de Couto 

nas , grande Mathematico , e Geógrafo ; 
muito vifto nas letras Gregas , e Caldeas. E 
antre os papeis que lhe ficaram fe acharam 
algumas lembranças deitas coufas , que nos 
hum Religioíb da Ordem de S. Domingos 
deOj de que nos aproveitámos peraeftas in- 
formações. 

E já que eftamos com efta Chriítanda- 
de , e feus Bifpos nas mãos , parece que não 
fera defpropoíito fazermos hum breve dif- 
curfo de todas fuás coufas até darem obe- 
diência á fanta Sé Apoftolica , pofto que o 
mais próprio lugar delias he a onzena Dé- 
cada , pêra onde guardamos a relação de 
tudo. E por iíTo não faremos aqui mais , 
que tocar de paflagem o fubftanciai ; por- 
que fenão chegarmos áquelle tempo ou pe- 
la muita idade , ou pelo pouco gofto , da 
parte dos homens , e feus efquecimentos y 
com que procedemos nefte negocio , ao me- 
nos ficará já aqui efta lembrança. 



CA- 



Década VIL Liv. I. 13 

CAPITULO II. 

De huma breve relação da Chriftandade das 
terras do Malabar , e de feus Bifpos : e' 
de como o Àrcebifpo de Goa , e Primaz 
da índia D. Fr. Aleixo de Menezes , Re- 
ligiofo ãa Ordem de Santo Agoftinho , por 
ordem do Papa Clemente VIII. governou 
aquella Igreja , e ficou fuffraganea ao Ar- 
cebifpado de Goa por morte do Àrcebifpo 
Mar Abrahao , e depois os foi vifitar em 
pejfoa: e dos grandes trabalhos que paf- 
Jou até a reduzir ao grémio da Igreja 
Catholica : e do Synodo Diocefano que or- 
denou y em que tirou infinitos erros , e 
abusões : e de outras coufas. 

NO primeiro Cap. do X. Liv. danoíTa 
quarta Década , que já anda imprefta , 
damos larga conta , e relação das partes , por 
onde o Bemaventurado Apoílolo S. Thomé 
andou pregando a nova Lei de feu Meftre 
Chrifto Jeíus noíTo Redemptor ; e no fim def- 
ta fetima fe verá fua morte , e milagres. E 
nefte Capitulo diremos brevemente de como 
fe governou até agora aquella Igreja , funda- 
da por elle nos Reynos doMalavar, aííim 
no efpiritual, como no temporal. PaíTado o 
Santo Apoílolo da Ilha Sacotorá (como fe 
verá em fua lenda) a eítas partes da índia, 

mi- 



14 ASIÀ de Diogo de Couto 

milagrofamente vfcio aportar á cofia do Ma- 
Javar , e nao fe fabe em que porto ; mas 
devia de íèr em hum dos Reynos de Co- 
chim , porque Jogo por elle começou a fe- 
mear a femente da Lei Evangélica , ou fof- 
fe no Reyno de Cranganor , ou no de Cou- 
lão , em que tinha ainda hoje Igrejas fuás, 
vai pouco niíTo y mas por ambos eftcs Rey- 
nos andou convertendo muitas almas á Lei 
de Chrifto , e nelles lhe acudiram , e o fe- 
guíram homens virtuofos , que elle acceitou 
por difcipulos , e inílruio mui bem na Lei 
do fanto Evangelho, E depois de ver o mui- 
to fruito que tinha feito por aquellas par- 
tes , tratando de palfar a outros Reynos , fa- 
grou os difcipulos que lhe melhor parece- 
ram em Bifpos , e os deixou governando 
aquella Chriftandade , e elle fe paflbu pêra as 
partes de Tartaria , China , e outras , co- 
mo temos dito no Cap. I. do Liv. X. dà 
nofla quarta Década , e por ellas andou con- 
vertendo grande número de infiéis y e idó- 
latras, até fe palfar a Meliapor, onde foi 
morto , e onde cada dia reíplandece com 
muitos milagres. 

Os Bifpos que deixou naquellas partes 
do Malavar governando aquella Chriftanda- 
de , fundaram Igrejas na Cidade de Cran- 
ganor , e na de Coulão , que ainda hoje fe 
vem nos mefxnos lugares , e confervam em 

mui- 



Dec. VIL Liv. I. Cap. IÍ. i? 

muitas coulas fua memoria, e antiguidade , 
e antre ellas em huns padrões , e em lami- 
nas de metal , de terras , e rendas , que a- 
quellesReys concederam pêra a fabrica da- 
queiles Templos, que nós ainda achámos na 
Feitoria de Cochim , que andaram des do 
principio daquella fortaleza , por entrega da 
cafa , de Feitor a Feitor , ha bem poucos an- 
nos. E querendo eu faber delias , pêra por 
obrigação doofficio as recolhermos na Tor- 
re do Tombo , como coufa tão auriga , e 
tanto pêra fe guardar, e honrar, já nos não 
fouberam dar razão delias , nem os Feito- 
res que de lá vem a fabem dar. Em fim , 
paflados muitos tempos depois da morte do 
Bemaventurado ApoftoloS. Thomé, fuílen- 
tando-fe aquella Chriftandade na Fé , e dou- 
trina que lhe elle eníinou , fazendo o tem- 
po mudança naquelles Reynos , como o tem 
feito em todas as Monarquias do Mundo , 
até a ellas irem os Mouros Arábios, íegui- 
dores da falfa doutrina , e lei de Mafame- 
de , que fe apofentáram pelos portos marí- 
timos de todo aquelle Malavar , como ain- 
da hoje eftam , parece que avexados delles 
os Chriftãos , fe recolheram ás ferras , e ma- 
tos daquelles Reynos , onde fundaram fuás 
povoações , e viveram naquella primeira dou- 
trina até lhe faltarem osBifpos, e Sacerdo- 
tes delia y que fe nadaram foccorrer ao Pa- 

tri- 



ió ÁSIA de Diogo de Couto 

triarca de Babylonia , que era cabeça dos 
hereges Neílorianos , que os proveram de 
hum Arcebifpo Metropolitano , com titulo 
de Arcebifpo do Indo ; e de dous Bifpos 
íuffraganeos , hum com titulo de Biípo de 
Sacappa , e o outro de Macina , que não 
fabemos hoje onde fejam , mais que achar- 
mo-los affim nomeados em fuás efcrituras i 
mas por conjecturas fe prefume que fejam 
pêra a parte do Cathayo , e China , por 
onde o gíoriofo Santo andou fazendo gran- 
de conversão. E eíle nome de Arcebifpo do 
Indo reteve até á morte de Mar Abrahão, 
que (como no primeiro Capitulo diíTemos) 
foi fagrado em Roma , e viveo até os ân- 
uos de 1597., íeguindo fempre os erros Neí- 
íorianos , de que toda aquella Chriftandade 
eftava infada ; porque depois que foi go- 
vernada por Arcebiípos Armemos, que eram 
feguidores daquella falia feita , perderam o 
lume da Fé, em que eflavam doutrinados pe- 
lo Santo Apoílolo , emifturáram nella aquel- 
les falfos , e diabólicos erros Neílorianos , 
cm que aquelles Prelados os foram crcando. 
Em firn , morto o Arcebifpo Mar Abra- 
hão , tendo~fe já havia muitos anhos extin- 
guidos os Bifpos íuffraganeos de Sacappa , 
e de Macina , fendo Sutnmo Pontífice em 
Roma Clemente VIII. , avifado diffo, paf- 
fou dous Breves Apoílolicos ? hum feito a 

vin- 



Dec. VIL Liv. I. Cap. II, 17 

vinte e hum de Janeiro de noventa e fete , 
c outro a vinte e fete do meíhio mez de no- 
venta e oito, em que mandava aoArcebif- 
po de Goa D. Fr. Aleixo de Menezes » que 
» como Primai da índia Oriental mandaíFe 
» tomar polTe daquella Igreja , e Arcebifpa- 
» do , e de toda aquella Chriílandade dò 
» gloriofo Apoftolo S. Thomé; e não con- 
» fentiííe mais entrar nella Bifpo , nem Pre- 
» lado Arménio , por ferem todos hereges ; 
» e que creaíTe no dito Arcebifpado Gover- 
»nador, e Vigário Apoftolico, pêra o go- 
» vernar aílim no efpiritual , como no tem- 
»poral, em quanto a Igreja Romana a não 
» provia de Bifpos. » 

E porque falíamos no temporal , he de 
faber , que os Prelados defta Chriílandade 
são Juizes no temporal dos Chriftaos feus 
fubditos j o que parece foi também dado em 
privilegio ao Bemaventúrado S. Thomé A- 
poflolo por aquelles antigos Reys Gentios, 
o que aré hoje fe guarda infalliveímente , fem 
nunca fe quebrar. 

Por virtude deites Breves , tratou logo 
o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de Menezes com 
muita caridade do proveito efpiritual da- 
quelies próximos , e zelo do ferviço de Deos 
noflb Senhor. E porque também lhe ficava 
em obrigação como Primaz da índia , por 
aauella Igreja não ter Cabido , aquém per- 
CeutQ.Tom.1V. PI. B ten- 



i8 ÁSIA de Diogo de Couto 

tencefle o governo delia , no tempo da Sé 
vagante , e elle fer Metropolitano de todas 
as Igrejas da índia , determinou mandar pro- 
ver nifTo , como fez , pêra tornar a fomet- 
ter , e íujeitar aquelía Igreja á obediência 
da Romana; o que trataram as peflbas que 
a iíTo enviou , por todos os modos que lhe 
pareceram neceífarios. Mas como todos a- 
quelles Sacerdotes Chriítãos eítavam entre- 
gues áquellas diabólicas , e abomináveis her 
relias do Hereíiarca Neílor , não quizeram 
obedecer aos rogos , e perfuasoes que fobre 
iflb lhe fizeram; do que o Arcebifpo Dom 
Fr. Aleixo de Menezes lentio graviílima dor ? 
e grande defconíbiação ; e todavia não de- 
fiflio de obra tão fama ? e de tão grande 
obrigação fua , antes porefpaço de deus an- 
jios foi continuando por feus Miniílros na- 
quelle negocio , em que todos faziam pou- 
co , ou nenhum fruito , antes achavam a to- 
dos cada vez mais endurecidos. 

Pelo que commovido o Arcebifpo de pie- 
dade de ver tantas mil almas , que do tem- 
po do Apoílolo S. Thomé le confervavam 
na Fé de noíTo Senhor Jefus Chriílo , no meio 
de tanta gentilidade , e efpalhadwas por tão 
diverfas partes, rodeadas de tantos ídolos, 
e pagodes , em que o demónio era cada ho- 
ra tantas vezes venerado , e fujeitas fuás 
Igrejas, e Templos .a tantos , e tão diver- 

fos 



Dec. VIL Liv- L Cap. II. 19 

íos Reys rodos idólatras , fem poderem ter 
communicação com outros Chriftãos até os 
Portuguezes entrarem com fuás Armadas nef- 
te Oriente , onde começaram a povoar Ci- 
dades, e fundar fortalezas: E vendo quan- 
to efte negocio era de ferviço de Dcos , de- 
pois de lho mandar encommendar por to- 
das as Religiões , determinou de elle em pef- 
foa viíitar aquella Chriftandade , pêra ver fe 
com fua prelènça os podia obrigar , mode- 
rar , e trazer á obediência da Santa Igreja 
Romana , com tão grande zelo defta obra , 
que Jhe não deixava tempo, nem lugar pê- 
ra ver os grandes trabalhos , rifcos , e pe- 
rigos a que com ella fe oíFerecia ; e affim 
poz logo em effeito fua fanta determinação , 
provendo fua Igreja de Governador , pêra 
em fua aufencia a ficar governando. E no 
principio do anno de noventa e nove fe em- 
barcou pêra Cochim , acompanhado de mui- 
tos Clérigos , Cónegos , e outros Sacerdo- 
tes , e de criados , e doutra mais gente ne- 
ceflaria ao ferviço de fua peífoa , e digni- 
dade. Chegando áquella Cidade , foi mui bem 
recebido ; e depois que tomou fuás informa- 
ções , fe partio pêra as ferras , onde os Chri- 
ftãos viviam , acompanhado de muitos mo- 
radores daquella Cidade. 

Entrando o Arcebifpo D. Fr. Aleixo de 
Menezes naquella Chriftandade , começou lo- 

B ii go 



20 ÁSIA de Diogo de Couto 

go a viíitar as Igrejas , e Prelados delias, 
em quem achou muito grandes dificulda- 
des , pelas larguezas , e íimonias com que 
viviam , offerecendo-fe-lhe tantos trabalhes , 
e rileos de lua peiToa , que por muitas ve- 
zes efteve perdido ; mas como a obra a que 
hia era tao lanta , favoreceo-o noíío Senhor 
relia de maneira , que fe livrou de todos 
com muita prudência , e foffrimento , e de 
muitas conjurações que contra el!c fizeram , 
levando avante feu intento com as eíperan- 
ças em Deos noíTò Senhor , por cujo ref- 
peito eílava oferecido a tudo que iheacon- 
teceffe , que houve por bem , e foi fervido, 
pelos merecimentos do feu Santo Apoítolo 
Thomé , de fahir , e levar ao cabo o que 
tanto delejava. E aílim com muita clemên- 
cia , e bondade quietou todos os tumultos 
que contra elle fe levantaram ; e por fim de 
muitas admoeílaçoes , orações, e pregações, 
que fez por todas fuás Igrejas, os trouxe á 
luz da verdade , e á confifsao da fanta Fé 
Catholica , dando todos os Sacerdotes, co- 
mo cabeças, e todos os mais íubditos , obe- 
diência á Santa Igreja Romana ; o que o Ar- 
cebiípo feíiejou muito no íntimo de feu co- 
ração cem grandes alegrias 5 e louvores a 
Deos no fio Senhor, cuja a obra era. 

Finalmente , vendo o Arcebiípo que ti- 
nha alcançado o fim tão deíejado de feus t ra- 
fa a- 



Dec. VIL Liv. I. Cap. II. 21 

bailios , tratou de ajuntar Synodo Dieceía- 
no em alguma parte mais accommodada da- 
quella Chriftandade ; aííim pêra maia a con- 
firmar na Fé Catholica , como pêra nella 
plantar de novo os lantos , e bons coftumes 
da Igreja Romana , e extirpar tantas abo- 
minações , vícios , e herelias , como antre el- 
]es havia , e pêra reformação de íua vida , 
ebons coftumes. Eaflentou que fe tizefle eí- 
te ajuntamento na Igreja de Diamper , o que 
fez logo a faber a Cidade de Cochim , e ao 
Capitão delia D. António de Noronha, que 
aífentou com os Vereadores , e muitos mo- 
radores , dele acharem prefentes a tão boa, 
e fanta obra , pêra onde logo partiram com 
grande alvoroço , por verem recolher na ma* 
nada deChrifto ovelhas tão bravias , emon- 
tezinhas. 

Tanto que o Arcebifpo D. Fr. Aleixo 
de Menezes fe difpoz pêra ifto , fez logo 
chamamento de todos os Sacerdotes , e pef- 
foas principaes que havia naquclle Arcebif- 
pado , fazendo-lhes a faber por luas cartas , 
que havia de começar o Synodo a vinte dias 
de Junho , em que cahia a terceira Domin- 
ga depois da fefta do Pénteoofte ; ao que to- 
dos logo acudiram com grande alvoroço. 
E no tempo determinado le ajuntaram na- 
quelle lugar de Diamper as pelloas feguin- 
tes. 

Pre- 



22 ÁSIA de Diogo de Couto 

Prelados , e Sacerdotes , cento fincoenta 
e três , a fora Diáconos , e Subdiaconos , e 
outros Procuradores dos povos , com outras 
peflbas principaes , feiscentos e íeíTenta , a 
fora todo o povo do lugar de Diamper, e 
doutros vizinhos , e finco Religiofos da Com- 
panhia , Theologos , e doutos na lingua Ma- 
la var, e dous delJes na Caldea , e Affyria, 
Fr. Braz de Santa Maria da Ordem de San- 
to Agoílinho , Theologo , e Confeííor do 
meímo Arcebifpo , com outros Cónegos da 
Sé de Goa, Clérigos feus criados, e outros 
Religiofos, que foram em companhia do mef- 
mo Arcebifpo , e o Capitão de Cochim , Ci- 
dade, e alguns moradores. O Synodo fe ha- 
via de celebrar na Igreja da vocação de To- 
dos os Santos, Depois do Arcebifpo fazer 
fuás preparações, e admoeílações , e tomar 
fuás informações , entrou na matéria do Sy- 
nodo , na primeira acção , que continha fin- 
co Decretos , todos de preparações , e ad- 
moeílações pêra atalhar alguns inconvenien- 
tes ; e aííim foi profeguindo nas acções , de 
que daremos breve relação. 

A fegunda foi de dous Decretos , em que 
todos os prefentes fizeram profifsão , e Pro- 
teítação da Santa Fé Catholica , tomando- 
Ihes o Arcebifpo a todos juramento da Fé, 
dando a obediência ao Papa em fuás mãos. 

A terceira de vinte e dous Decretos. O 

pri- 



Dec. VIL Liv\ I. Cap. II. 23 

primeiro continha quatorze Capítulos de cou- 
fas pertencentes á doutrina da Fé Catholi- 
ca , e todos os mais pêra deftcrrar as abu- 
sões , ritos Neítoria nos , e máos coftumes da- 
quella Chriftandade , e pêra emendar , e alim- 
par as Efcriíuras , Miííaes , e Breviários , que 
andavam falfificados com muitos erros, e he- 
refias mifturadas , e as principaes verdades 
Catholicas tiradas ; e fe deo ordem pêra íè 
rezar o Officio Divino a feu modo , con- 
formando-íè com o Breviário Romano , e 
pêra fe deíterrarem dos feus livros , e catá- 
logos muitos hereges ; de quem elíes reza- 
vam por Santos , com outras coufas em gran- 
de bem daquella Chriftandade. 

A quarta acção continha vinte e três De- 
cretos fobre os Sacramentos dô Bautiímo , 
e Confirmação , de que até então não havia 
ufa , e no Bautiímo andavam muito defvia- 
dos da Santa Igreja Catholica , e miftura- 
dos infinitos erros , herefias , e defordens in- 
toleráveis, e abominações mui prejudiciaes , 
que tudo fe emendou , reformou , e alim- 
pou de infinitas herefias Neftorianas. 

A quinta acção continha nove Decretos 
de doutrina do fanto Sacramento da Euca- 
riília , e do modo que fe havia de dar aos 
Chriftãos; porque tudo andava corrupto, e 
inficionado de muitas herefias : com mais 
quinze Decretos fobre o fanto Sacrifício âa 

Mif- 



^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mifla , em que catholicamente fe tiraram 
mil abusões, e erros, que naqueila Igreja fe 
ufavam. 

A fexta acção era de quinze Decretos , 
que continham a doutrina do Sacramento da 
Penitencia, que tiraram , e degradaram in- 
finitos erros que nelle havia , efe declarou, 
e eníinou o modo que fe havia de ter con- 
forme á Igreja Catholica; porque fe não ufava 
deite Sacramento em quaíi todo eíle Arce- 
bifpado , antes era aborrecido nelle. Com 
mais três Decretos da doutrina do Sacramen- 
to da Extrema-Unção , jde que antre aquel- 
les Chriílãos até então não havia conheci- 
mento , nem fe fabia o effeito , e efficacia , 
e inftituiçao delle , pela falta de Miniftros Ca- 
tholicos ; em que fe dava ordem de como 
fe haviam deufar, e fe dava a conhecer lua 
virtude , e efteitos. 

A fetima acção era de vinte e três De- 
cretos , que continham o Sacramento da Or- 
dem Sacerdotal , em que mui doutamente fe 
tiraram as abusões, que naquelle Arcebifpa- 
do fe ufavam, torpezas, e ritos dos feus Sa- 
cerdotes , e defierráram as manifeftas íimo- 
ijias , que antre todos corriam. E fe man- 
dou trasladar os Breviários , e livros de re- 
zar ao modo da Igreja Catholica em lingua 
Surana , e accrefcentar-lhe o Symbolo de 
Santo Athanafio, e tirar delles infinitas he- 

re- 



Dec. VII. Li v. I. Gap. II. 25- 

reíías , que andavam em ufo ; e ordenou o 
Arcebifpo Freguezias com feus Párocos, E 

{)orque lhe tirou as íimonias , de que aquel- 
es Sacerdotes fe íuftentavam , pedio o Sy- 
nodo a EIRey noíTo Senhor , que mandaí- 
fe prover aquelles Vigários , como faz a to- 
dos os da índia , e lhes ordenafle mil e qui- 
nhentos cruzados cada anno , pêra fe repar- 
tirem por todos. E o Arcebifpo D. Fr. Alei- 
xo de Menezes fe oíFereceo , e fe obrigou 
por lua vontade aos prover de fuás rendas, 
em quanto EIRey o não fazia , como fez , 
em quanto foi o recado ao Reyno ; com que 
EIRey D. Filippe nofíb Senhor, como mui- 
to Catholico , e Chriílianillimo Príncipe , lo- 
go como o foube lhes ordenou dous mil cru- 
zados , cobrados na Alfandega deDio, que 
lhes são mui bem pagos. Aífim mais pedio 
o Synodo a EIRey , que mandaífe prover 
aquellas Igrejas de vinho pêra fe dizerem as 
MiíTas , o que elle com o mefmo zelo man- 
dou, que IhesdéíTem duas pipas delle cada 
anno ; e em quanto efte recado tardou os 
proveo o Arcebifpo cada anno de fua ca- 
fa com pipa e meia. Continha mais efta fe- 
tima acção dezeleis Decretos de doutrina fo- 
bre o Sacramento do Matrimonio , de que 
até então ufavam mui defviados da Igreja 
Catholica , deílruindo mil abominações , de 
que por todo aquelle Arcebifpado le ufava ; 

e 



i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

e reformou $ e emendou outros infinitos er* 
ros , que até então eftavam introduzidos. 

A oitava acção continha quarenta e hum 
Decretos de reformação das coufas daquel- 
la Igreja , e do uío dos fantos Óleos, pe- 
dras de Ara , Cálices > è outras coufas do 
que até então não ufavam , e hum catalogo 
de todos os dias de feda , que a Igreja ce- 
lebra , e outras muitas coufas neceííarías , e 
importantes. 

A nona , e derradeira acção continha vin- 
te e finco Decretos , todos de reformação da- 
quella Chriftandade , em que lhes dava mui- 
to bom modo de viver, e lhes tirou infini- 
tos erros , e abusões ; enfinando-lhes muito 
fantos , e bons coftumes pêra fe poderem go- 
vernar. Efte Synodo fe celebrou , e acabou 
com muita quietação , e applaufo de toda 
aquella Chriftandade , e o Arcebifpo deo or- 
dem pêra fe trasladar em lingua Aífyria , e 
Caldea , e fe repartir pelos Prelados de to- 
do aquelle Arcebifpado. E ordenou o Padre 
Franciíco Roz da Companhia , por faber 
bem eftas línguas , pêra ficar adminiftrando 
todo aquelle Arcebifpado; e mandou depois 
ao Summo Pontífice o Synodo , pêra que 
viífe o modo que fe tivera na reformação da- 
quella Chriftandade , que com entranhas de 
pai , e bom , e verdadeiro Paftor o fcftejou 
com muitas graças, e louvores que deo ao 



DecVII. Liv. L Cap. II. 27 

Altiílimo Deos , e proveo ao Padre Fran- 
cifco Roz em Bifpo daquella Cbriftandade , 
fazendo-o fuffraganeo ao Arcebifpado Me- 
tropoli de Goa , que hoje eftá de poíTe , fa- 
zendo muitos lerviços a noflb Senhor , e 
grande fruito por toda aquella Chriftandade. 
E porque íe veja quanto aprouve á Di- 
vina Mageftade efte Synodo, íèrá bem que 
não paíTemos por hum cafo que nelle acon- 
teceo muito milagrofo , e foi efte. O dia que 
fe acabou o Synodo , ordenou o Arcebiípo 
D. Fr. Aleixo de Menezes huma Procifsão , 
em que déííem todos graças a Deos noílb 
Senhor pela mercê que lhes fizera em deixar 
acabar aquella obra tanto em feu ferviço , 
como foi trazer aquelles povos á luz da ver- 
dade. E eftando a Procifsão ordenada den- 
tro na Igreja , efperando que déíle o tempo 
algum jazigo pêra poder fahir pêra fora , 
porque havia três dias que chovia fem cef- 
far , por fer na força do inverno ; e nefte 
dia mais que nos outros , parecia que fe ti- 
nham abertas as cataratas do Ceo , com o 
que todos eftavam parados, e fe recolheram 
por onde puderam , por não caberem na 
Igreja. O Arcebifpo veftido em Pontifical, 
cfteve nos degráos do Altar muito efpaço , 
efperando que celTaífe alguma coufa aquel- 
3e diluvio de agua; e vendo que todavia hia 
por diante com tanta braveza , que come- 

§ á - 



28 ÁSIA de Diogo de Couto 

çáram aquelles tenros Chriítãos (que são mui 
dados a agouros , e prognofticos ) a resfriar 
daquelle alvoroço. E o que era ainda peior , 
que alguns que ainda não eftavam bem nas 
coufas da Fé , diíTeram a outros , que fe- 
riam tão fracos como eíles , que aquella obra 
não era de Deos , pois elle não dava tem- 
po pêra fe poder fazer a Procifsão. E ou o 
Arcebifpo fofle avifado diflb , ou o fufpei- 
tafle, quafi agaftado contra todos, mandou 
que fahifie a Cruz fora da Igreja, e que fe 
profeguiiíe a Procifsão , havendo que era 
menos inconveniente molharem- fe todos , que 
ficar aquelle agouro nos corações de alguns 
fracos. E dando o recado ao que levava a 
Cruz , foi perafahir, e não featreveo com 
a grande força da agua que chovia. O que 
vifto pelo Arcebifpo , do lugar donde eftava 
bradou que fahiífe , que fahifle a Cruz , co- 
mo logo fez. Em fahindo fora da porta da 
Igreja , e em fe levantando em alto , coufa 
maravilhofa ! fupitamente ceifou a chuva , e 
ficou o ar tão claro , fereno , e bem aíTom- 
brado , que não fe vio no meio do verão 
outro mais alegre dia ; com que a Procif- 
são fe profeguio , e acabou com grandes 
louvores de Deos noíTo Senhor. Os que dan- 
tes eftavam com aquellas dúvidas , vendo 
tão claro milagre, lançaram de íi todas fo- 
ra , e levaram eítes novas a feus povos , fi- 

can- 



Dec. VII. Liv. I. Cap. II. 29 

cando toda aquella Chriíhndade confirmada 
na verdade do que oArcebifpo lhe tinha en- 
íinado no Synodo , e na obediência que to- 
dos tinham dado á Santa Igreja Romana. 

Outro cafo aconteceo também de não 
menos admiração. Efle foi, que em quanto 
durou o Synodo , como o Arcebifpo no 
principio deJle tinha mandado , que todos 
os que quizelTem diíputar dascoufas da Fé, 
pôr duvida , ou fallar nas que íe decreta- 
vam , o pudclTem fazer livremente , e vir 
com fuás dúvidas publicamente á Congrega- 
ção de todos, onde lhes elle fatisfaria ; in- 
duzidos alguns pelo demónio , e afFerradcs 
ainda a feus erros , e com o ódio que ti- 
nham á Santa Igreja Romana , fe ajuntaram 
fora ; e dadas as mãos pêra fe unirem neP- 
te mal que queriam fazer , em virem encon- 
trar o que fe decretava , e baralharem a Con- 
gregação ; e entrando com eíles intentos na 
Igreja, tanto que chegavam ao Arcebifpo, 
que eftava veftido em Pontifical, ficavam co- 
mo mudos , e tolhiam-fe-lhes os pés, e as 
mãos , fem poderem bullir comfigo , nem 
ainda fallar, eaílim fe tornavam pêra fora, 
e lá pelejavam huns com os outros , e fe 
reprendiam de cobardes , acanhados , e pê- 
ra pouco , pois fe fahiam fora fem porem 
por obra a determinação que levavam. E 
tornando- fe a ratificar em feus damnados in- 

ten- 



30 ÁSIA de Diogo de Couto 

tentos , entravam outra vez de novo na Igre- 
ja , onde lhes acontecia o meímo que da pri- 
meira : andando neftes propoíitos três dias 
contínuos, que gaitaram em entrar, efahir, 
fem fazerem coufa alguma do a que hiam ; 
até que convencidos interiormente de feus 
próprios males , confeíTáram fua culpa , e pe- 
dindo perdão delia , fe reduziram , e deram 
obediência á Santa Igreja Romana , e ao Ar- 
cebifpo em feu nome. Acabado o Synodo , 
foi o Arcebifpo D.Fr. Aleixo de Menezes 
viíkar todas as Igrejas daquella Chriílanda- 
de , fazendo dar á execução todas as coufas 
que no Synodo fe determinaram ; e deixan- 
do tudo pofto em ordem , fe tornou pêra 
Cochim, e dahi pêra Goa. 

CAPITULO III. 

De como FJRey D. João efte anno de 15* 5*4. 
elegeo pêra Vijo-Rey da índia a D. Pe- 
dro Mafcarenhas : e da Armada com que 
partio : e do que fuccedeo na viagem até 
chegar d Cidade de Goa. 

HAvendo quatro annos que D. AfFonfo 
de Noronha efrava na Índia , defejou 
EIRey de o mandar vir, e prover naquelle 
lugar de hum Fidalgo , a que todos tiveíTem 
ttiuito grande refpeito , e que foíTe muito ri- 
co , porque trataiTe mais do que cumpria ao 

bem 



Dec. VIL Liv. I. Cap. III. 31 

bem daquelle Eftado , que ao feu particu- 
lar ; e que também não tiveíle filhos , por- 
que a governança da índia não andaile de 
promeio. Efta era a razão , por que o Sena- 
do de Roma não conlentia elegerem-fe Le- 
gados pêra andarem nos exércitos com os 
Conluies, que foíTem feus parentes , porque 
o haviam por grande prejuízo. E huma das 
coufas, que fe deve louvar mais naquelle gran- 
de governo do Império da China , he , que 
nas eleições que fazem dos Officiaes da Juf- 
tiça , e Fazenda pêra todas as Províncias , 
nunca elegem fenão peíTbas de huma pêra 
outra mui diftantes , e onde não tenham pa- 
rentes , nem amigos , porque aflim poíTam 
governar mais livremente , fem haver quem 
lhes faça fazer defordens. Aífim querendo 
EIRey eleger pêra efte Império Oriental , 
tão apartado delle , huma peflba livre , e 
deíinterefíada , não achou por então outra 
que o fofle mais que D. Pedro Mafcarenhas , 
que elle tinha dado por Mordomo mór do 
Príncipe D. João feu filho, (que era faleci- 
do no principio defte anno de íincoenta e 
quatro em que andamos , em idade de dez- 
efeis annos,) e commettendo-o pêra ifíb, fe lhe 
efcufou com dizer » que era de mais de fe- 
)> tenta annos , e que não tinha já forças , nem 
» difpofiçao pêra os trabalhos de tão comr 
nprida viagem , como era a da índia ; e 

» que 



32 ÁSIA de Diogo de Couto 

» que também não fe atrevia a mandar , e 
» governar gente ião livre, e voluntária co- 
y> mo nella havia. » E por muitas vezes que 
lhe EIRey niíío fallou , fempre Ihepedio de 
mercê que oeícufafíe; masElRey pelo que 
lhe relevava , ( que era fervir-fe delle efles 
poucos annos que viveííe , por fua muita 
prudência , authoridade , e mais partes ne- 
ceifarias pêra quem ha de governar a índia, 
ou pelo que outros diziam , que defejavam 
de o lançar fora do Reyno alguns privados 
pela fombra que lhe elle fazia, e pelo mui- 
to refpeito que lhe EIRey tinha,) não de- 
fiftio do negocio , antes lhe lançou o Infan- 
te D. Luiz, que era muito grande feu ami- 
go , e a quem o D. Pedro tinha muito gran- 
de refpeito , que pelo gofto que fentio a Eí- j 
Rey , apertou com D. Pedro muitas vezes , ! 
fem o poder render áqueile negocio , até 
que o Infante concluio com lhe dizer » que 
» hum delles havia de ir á índia ; que fe eí- j 
» le fe não quizefle embarcar , que elle o fa- 
» ria , porque aííim o tinha promettido a Eí- 
31 Rey feu Senhor, e irmão.» Vendo Dom, 
Pedro Mafcarenhas a grande obrigação em 
que o Infante o punha , lhe diííe » que an- 
» tes elle queria tomar fobre íi aquelles tra- 
» bailios , e ir acabar por eíTe mar , que não 
» inquietar-fe S. A. » 

Dada eíta palavra , mandou EIRey â] 



Dec. VIL Liv. I. Gap. IIL 33 

D. Pedro Mafcarenhas , que fizeíTe feus a* 
pontamentos , como fez , e lhe concedeo tu- 
do , porque o menos que pedio foi pêra li , 
que foi , que os oito mil cruzados de orde- 
nado , que os Vifo-Reys tinham na pimen- 
ta da Cafa da índia , fe pagafle delles em 
Goa ; porque elle não havia miíter coufa ai* 
guma no Reyno , que tinha muita renda , 
e não queria poupar nada na índia , fenão 
gaftar tudo em ferviço deS. A. E aflim lhe 
concedeo Provisão , pêra que todos os Fi- 
dalgos , e moradores da Cafa de EIRey, que 
íè embarcaíTem na fua Armada , venceffem 
foldo , e moradia em quanto andaííem na 
índia. E affirma-fe , que algumas vezes pe- 
dira de mercê a EIRey , que lhe diífefle a 
peflba que lhe havia de fucceder na gover- 
nança , fe Deos fizeíTe delle alguma coufa 
na índia ; e que até niífo o quizer3 fatisfa- 
zer , elhodiílera; mas o mais certo he , que 
fempre fe efcufou diífo : todavia ao tempo 
que o defpedio , lhe difle » que tiveífe mui- 
» ta conta com Francifco Barreto , porque 
» tinha grande fatisfação de feus ferviços ; » 
no que claramente lhe deo a entender, que 
lhe íuccedia. Só o cargo de Capitão mór 
do mar da índia , que lhe pedio pêra Fer- 
não Martins Freire feu fobrinho , filho de 
fua irmã, (fobre quem elle queria defcarre- 
*| gar a mór parte dos trabalhos do governo , ) 



Couto.Tom.JKPJ. C fe 



34 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe lhe não concedeo , porque houve no Con- 
felho fobre aquelle negocio diíferentes pare- 
ceres; mas deo-lhe por regimento , que pu- 
zefle na índia em confelho de Capitães ve- 
lhos, fe era necelíario aquelle cargo; eque 
afFentando-le que fim, o provei! e em quem 
lhe parece lTe. 

Defpachadas as coufas da índia , e as 
náos , íbiElRey em peííoa fazeilas á vela, 
e o Infante D, Luiz levou oVifo-Rey Dom 
Pedro Mafcarenhas até o metter dentro na 
náo, e fez-íe á vela por fim de Março def- 
te anno de íincoenta e quatro. A Armada 
era de féis nãos muito formofas , S.Boaven- 
tura , em que o Viío-Rey hia. A Conceição > 
de que era Capitão Manoel de Caftanhoíò. 
De Santa Cruz , Belchior de Soufa , da com- 
panhia de Fernão de Alvares Cabral , do 
anno paflado , que tinha arribado ao Rey- 
no* A náo Efpadarte , de que era Capitão 
Fernão Gomes de Soufa , que hia defpacha- 
do com a Capitania deCochim. Da náo Fra- 
mcnga era D. Manoel Tello , que levava a 
Capitania de Dio. E da outra náo era Ca- 
pitão Francifco de Gouvea. Embarcáram-fe 
neíla Armada dous mil homens de armas 
em que entravam mais de quatrocentos mo- 
radores da Cafa de EIRey , antre Fidalgos , 
€ de todos os outros foros. 

Os Fidalgos conhecidos são os feguin- 

tes: 



Dec. VIL Liv. I. Cap. III. 3f 

tes : Fernão Martins Freire , D. Francifco 
Maícarenhas , filho do Capitão dos Ginetes , 
fobrinho do mefrno Vifo-Rey , o que de* 
pois foi Conde de Santa Cruz, e Viio-Rey 
da índia. D. Pedro Maícarenhas > irmão de 
D, João Maícarenhas , que iuftentou o fe- 
gundo cerco de Dio. Ruy Barreto Maíca- 
renhas de Ludo; D. Rodrigo Coutinho de 
Montemor o Novo , fiiho de D. Gonçalo 
Coutinho , o que os Mouros mataram no 
Bori , como no fim da quarta Década Liv. 
X. Cap. HL fica dito. João Lopes Leitão j 
Lourenço deSoufa, filho de Álvaro deSou- 
ía de Aveiro ; Chriftovão Pereira Homem j 
D.João Béllez j primo de EIRey deBéllez 5 
o« que fe fez Chriílão , e ficou em Lisboa í 
rç quando aquelleRey veio pedir foccorro pe- 
o ra cobrar feuReyno. Efte D.João caiou de- 
n pois na índia com huma parenta dos Reys , 
o ou dos Guaziz de Ormuz. D. António de 
Noronha , de alcunha o Catarraz , que de- 
pois foi Vifo-Rey da índia , que trouxe mil 
cruzados de ordenado cada anno pêra feu 
entretimento. 

Partidas as náos , foram feguindo fua der- 
ú rota, em que todas tiveram muitos contraí- 
ra tes , e por fim tomaram diíFerentes portos* 
m A náo Framenga , de que era Capitão Dom 
Manoel Telio, arribou aoReyno deftroça- 
iiin da. A Efpadarte foi muito tarde tomar Mom- 
»: C ii ba- 



36 ÁSIA de Diogo de Couto 

baça, edahi paliou a invernar a Ormuz. As 
náos Santa Cruz , e Conceição tomaram por 
fora da Ilha de S. Lourenço , e foram to- 
mar Cochim entrada de Novembro. A náo 
S. Francifco chegou tarde a Moçambique , 
e ficou alii invernando: fóoVifo-Rey, que 
levava melhores Officiaes , paíTou o Cabo de 
Boa Efperança cedo , e chegou a Moçam- 
bique entrada de Agoíto ; e fazendo fua 
aguada, e tomando provimentos, fe partio 
pêra Goa , e furgio na barra a vinte e três 
de Setembro, onde foi vifitado da Cidade, 
e Fidalgos , e logo defembarcou , e fe foi 
pêra Goa , íem querer aguardar que lhe fi- 
zeffem recebimentos , por vir anojado pelo 
falecimento do Príncipe D.João; e o Vifo- 
Rev D. AfFonfo de Noronha lhe entregou 
a índia , e fe foi logo pêra Pangim nego- 
ciar fua embarcação. Simão Botelho, Vea- 
dor da Fazenda , acudio logo a defearregar 
a náo do Vifo-Rey , e a recolher o cofre 
do cabedal ; e mandou que fe tiraíTe logo 
o cofre, que vinha no porão, tendo a náo 
ainda toda a carga dentro em íi ; e defeui- 
dando-fe os Officiaes de lhe metterem outro 
Jaftro , deo-lhe hum dia hum tempo rijo, e 
achando-a defalaftrada , e com o pezo todo 
em fima , a virou logo , e a aílbçobrou ; e 
acudindo-lhe oVeador da Fazenda com to- 
dos os Officiaes , já lhe não puderam valer 



* 



o 



Dec. VIL Lrv. L Cap. III. 37 

I o que fentio tanto, que fe foi metter Fra- 
[ de ern S. Domingos , onde viveo alguns an- 
I nos Sacerdote , e morreo religiofamente. O 
Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas apofentou- 
I fe nas cafas do Sabayo , o amigo apofento 
I dos Governadores ; e porque eram de dous 
I fobrados , e de mui compridas efcadas , e 
j elle era velho, e muito magro , davam-lhe 
j muito trabalho ; pelo que mandou negociar 
as cafas da fortaleza , em que os Capitães 
j fe coftumavam agazalhar , e paflbu-fe pêra 
I ellas , e foi o primeiro Vifo-Rey que alli 
i fe apofentou , e depois o fizeram todos ; 
i porque na verdade he apofento mais pro- 
I prio pêra os que governarem , por eítar fo- 
bre o cães , e nada pode entrar pelo rio af- 
{ i fima , que elles não vejam. Eíle anno cafou 
: o noíTo Catholico Rey D. Filippe com a Rai- 
nha Maria de Inglaterra , com cujo cafa- 
I mento feefperava a total reparação das cou- 
1 las da Fé naqueilc Reyno. 



CA- 



38 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO IV. 

De como os Capitães âe Baçaim , e Chaul 
ajuntaram navios , e fe foram lançar fo- 
bre a barra de Surrate , fabendo ejlarem 
dentro as galés : e de como o Vifo-Rey 
I). Pedro Majcarenhas mandou feu fobri- 
nho Fernão Martins Freire com huma Ar- 
mada áqaelle negocio : e dos tratos que 
teve com Caracen , Capitão de Surrate : 
de como fe ajjentou c errar em- Je as ga- 
lés : e da chegada de D. Fernando de Me- 
nezes a Goa. 

Ty Ecolhidas as galés a Surrate y e toma- 
Jl\ da a barra pelas caravelas , como no 
fim da Sexta Década no Cap. ultimo do X. 
Liv. fica dito > logo correram as novas a 
Baçaim, e Cbaul , onde eftavam por Capi- 
tães Francifco de Sá dos Óculos , e João 
de Mendoça Cação , que com muita prefla 
armaram dez navios de remo cada hum : 
embarcando- fe nelles com muita gente , e mu- 
nições , deram á vela pêra Surrate , em cuja 
barra acharam as caravelas, e furgíram to- 
dos nos poços , onde fe deixaram eftar até j 
lhes vir recado do Vifo-Rey , aquém efcre- 
vêram de fua jornada. O navio que Dom 
Fernando de Menezes defpedio a Mafcare 
com as novas da vitoria , chegou a Goa hu- 
ma 



Dec. VIL Liv. L Cap. IV. 39 

ma noire , juntamente com as das galés fe- 
rem recolhidas a Surra te; edando-íe as no- 
vas a D. AtFonfo de Noronha , que eftava 
na cama, faltou fóra delia em camifa com 
tamanho alvoroço , que como doudo aífim 
mal comporto fahio fora á lala , onde já ha- 
via muitos Fidalgos , parentes , e amigos , 
que com e!le eftavam em Pangim ; e ven- 
do-o os criados daquelía maneira , chega- 
ram a elle , e lhe pediram que fe recolhef- 
fe , e ainda apegaram delle pêra o levarem; 
mas o bom velho que citava como deíaíli- 
fado com as novas do filho, por ferem tão 
boas , refiftio a todos , dizendo » que o dei-» 
» xaflem , ainda que eftivefle pouco honefto , » 
e todavia tomou hum roupão que lhe trou- 
xeram , eaíiini em pé etteve perguntando aó 
Capitão do navio muito particularmente pe- 
la batalha, porque o fiiho nas cartas fe re- 
portava a elle. E depois que foube tudo , o 
mandou ao Vifo-Rey , que já eftava reco- 
lhido; cdando-lhe a nova, a recebeo com 
muito alvoroço, e fez mercê ao Capitão do 
navio, mandando logo que fe repica/Tem to- 
dos os finos da Cidade , por oride fe cfpalhá- 
ram tão boas novas. Ao outro dia pela ma- 
nhã foi o Vifo-Rey a Pangim a vifitar Doíti 
Affbnfo de Noronha , e dar-lhe os parabéns 
da vitoria do filho. 

f Paliado eíte alvoroço.-, aíTentdu 6 Vtfò-j 

Rey 



4o ÁSIA de Diogo de Couto 

Rey de mandar logo huma Armada a Sur- 
rate , pêra o que fez preparar trinta navios 
de remo , e dous galeões. E porque defe- 
java de fazer feu fobrinho Fernão Martins 
Freire Capitão mor domar da índia, ajun- 
tou todos os Capitães do confelho , e fem 
lhes declarar efta fua tenção , lhes moílrou 
o Capitulo do Regimento de EIRey fobre 
aquelle negocio, como no primeiro Capitu- 
lo diíTemos ; e como os mais dos que alli 
eftavam eram de tanta authoridade , que 
qualquer delles lhes parecia lhe cabia aquel- 
le lugar, votaram fobre o cafo, e concor- 
daram fer muito neceííario haver aquelle car- 
go , apontando pêra iflb muitas razões. E 
fendo todos conformes , mandou o Vifo- 
Rey fazer hum auto pelo Secretario, em que 
todos fe affignáram. 

Feito ido , logo alli nomeou pêra aquel- 
le cargo feu fobrinho Fernão Martins Frei- 
re , o que tomaram todos muito mal ; por- 
que aquelle Fidalgo era Reinol , criado lern- 
pre em Corte , e nunca curfára a milicia ; 
mas caláram-fe , porque não podiam fazer 
outra coufa. Nomeado o Capitão mor do 
mar, começou logo a correr com a Arma- 
da, a que deo tanta preífa , que quando fo- 
ram dez de Outubro , fahio pela barra fo- 
ra i/Com todos os navios , de que eram Ca? 
fitaes D. Francifço Mafcarenhas , D. Dio- 
go 



Dec. VIL Liv. I. Cap. IV. 41 

go Lobo , Gafpar de Mello , Ruy de Mel- 
lo da Camará , Pêro Barreto , e Jeronymo 
Barreto Rolim , ambos irmãos , e primos de 
Francifco Barreto , que foi Governador da 
índia ; Fernão Peres de Andrade , Baftião 
Machado , André Pereira , Manoel Trava- 
ços , Jeronymo de Mefquita , João de Sou- 
ia , Ruy de Mello Pereira , Vicente Bello 5 
Heytor Nunes de Góes , António Ribeiro , 
António de Siqueira , Barnabé de Sá , Af- 
fonfo Pereira de Lacerda, Heytor de Mel- 
lo Pereira , Francifco de Mello Pereira , 
Chriftovão de Mendoça , Diogo de Men- 
doça , Francifco Sodré , Gemez Barreto em 
hum galeão, Pêro Rodrigues Barriga Feitor 
da Armada em outro 5 carregados ambos de 
provimentos , e munições pêra a Armada. 
Deo o Vifo-Rey por regimento ao Capitão 
mor, que fe não lahiífe de fobre a barra de 
Surrate, até lhe entregarem todas as galés; 
eque tanto que lá chegaíTe, defpediífe os Ca- 
pitães de Baçaim , e Chaul pêra luas forta- 
lezas , e que ficaííem com elle todos os na- 
vios que lá tinham ; e lhes efcreveo cartas 
de agradecimentos pela prefteza com que 
acudiram ao ferviço de EIRey. O Capitão 
mor foi em breves dias furgir fobre a bar- 
ra de Surrate , onde achou aquellas Arma- 
das ; e os Capitães de Baçaim , e Chaul o 
Tilitáram : vendo as cartas do Vifo-Rey que 

lhes 



42 ÁSIA de Diogo de Couto 

lhes elle deo , lhes entregaram logo todos 
os navios que tinham , e cada hum em feu 
navio fe foram pêra Tuas fortalezas. 

Caracem , Capitão de Surrate , (que era 
genro de Coge Çofar, ) tanto que foube fer 
o Capitão mor do mar da índia naquella bar- 
ra , Jogo o mandou vifitar, e fazer muitos 
cumprimentos , que elle agradeceo ; e em 
companhia do que lhe levou o recado , en- 
viou hum homem, que elle pêra ifíb elegeo , 
por quem lhe mandou pedir da parte do Vi- 
fo-Rey da índia » lhe mandafle entregar as. 
» galés , e os Turcos que dentro eftavam , 
a por ferem inimigos dos Portuguezes ; por- 
» que pelos contratos das pazes os não po- 
» dia recolher em nenhum dos feus portos; 
» e que não quizeffe que chegaflem as cou- 
)> ias a rompimento , porque o Viío-Rey vi- 
» nha muito aportado a correr com elle em 
» muita amizade, porfaber quão aíFeiçoado 
» fora fempre ás coufas dos Portuguezes. » 
Caracem recebeo bem efte recado, e ao En- 
viado fez muitas honras, e refpondeo » que 
)> quanto ao Turcos , que lhe mandava pe- 
» dir , eram idos pêra Cambayete ; e que ain- 
» da que alli eftiveram , não era licito entre- 
»gar homens, que com trabalho ferecolhê- 
» ram a feu porto ; e que quanto ás galés 
» não lhe convinha entregallas , porque ti- 
» nha fuás náos em Meca , e que chegando 

»lá 



Dec. VIL Liv. L Cap. IV. 43 

» lá as novas fe lhas enrregafle , lhe lança- 
» riam os Turcos mão delias. » Com efta re- 
fpoíta , e defengano tornou o Capitão mor 
a fazer grandes requerimentos a Caracem , 
fobre o que foram , e vieram muitos reca- 
dos , e por fim do negocio fe rcfumio Ca- 
racem nifto » que eUe deejava de fuftentar 
» a amizade dos Portuguezes , e refalvar as 
» náos que tinha em Meca , e fobre tudo 
» fuftentar feu credito ; e que o melhor meio 
» que pêra iífo havia era , que fe cerraíTem 
» as galés em três, ou quatro partes de fei- 
» cão , que mais não pudeíTem fervir , e que 
» aílim ficaria eile cumprindo com fua obri- 
»gação, e o Vifo Rey íatisfeito > pois elle 
d deixava as galés em eftado , que tanto nron- 
» tava como queimadas. » A eíla refolução 
lhe mandou dizer o Capitão mor » que não 
» podia acceitdr aquelles partidos , íem dai 
aconra diflb ao Vifo-Rey ; que elle defpe- 
» dia íogo hum navio ligeiro, e com o que 
» elle lhe mandaile fe rclumiria. » E com i£ 
to defpedio o navio com cartas pêra o Vi- 
fo-Rcy y em que lhe relatava tudo o que 
era paíTado, deixando- fe ficar no porto em 
que eftava até lhe tornar refpoôa. 

Chegado o Catur a Goa , poz o Vifo- 
Rey aquelíe negocio em Confelho ; e aflen- 
tou-fe y que fe accekaffe o que Caracem pro- 
metia y porque era o mais que elle podia 

fa- 



44 ASIÀ de Diogo de Couto 

fazer , pelas razões que dava ; e com iílo 
defpedio o mefmo navio , por quem man- 
dou o aflento que fe tomou , e eícreveo a 
Caracem huma carta de muitos cumprimen- 
tos. Chegada a refpofta , e dada a carta do 
Vifo Rey a Caracem , adernou com o Ca- 
pitão mór , que fe cerraíTern as galés em féis 
partes cada huma , e que foííem a iífo pef- 
foas que o viífem ; ao que mandou o Ca- 
pitão mór Ruy Freire, hum Fidalgo feu pa- 
rente , e com elle o Patrão mór da índia. 
Chegados eftes homens a Surrate , Caracem 
os recebeo bem , e apoíentou na Cidade , e 
logo mandou vir muitos officiaes , que co- 
meçaram aquella obra ; o que fizeram á von- 
tade dos noflbs , em que fe detiveram fete 
dias; e aqui os deixaremos, porque he ne- 
ceííario continuar com D. Fernando de Me- 
nezes , que deixámos em Mafcate. 

Efíe Fidalgo depois de fe prover do ne» 
ceflario , deo á veia pêra Goa com toda a 
Armada que lhe ficou, levando as galés que 
tomou repartidas pelos Capitães , que no 
fim da fexta Década no Cap. XX. do Liv. X. 
diíTemos. E como traziam vento em popa > 
chegaram alguns dias de Novembro a Goa. 
E logo na barra achou D. Fernando de Me- 
nezes recado de feu pai , como feu tio Dom 
Nuno Alvares era falecido , e lhe mandou 
dó feito pêra defembarcar. D, Fernando o 

fen- 



Dec. VII. Liv. I. Cap. IV. 45: 

fentio tanto , que defembarcou em Pangim 
ió, onde feu pai o recebeo com muito amor, 
e alvoroço ; os outros Capitães foram entrais 
do pelo rio dentro com as galés dos 7'ureos 
diante ; e aílim ellas , como a mais Arma- 
da , formofamente embandeiradas, falváram 
a Cidade com toda a artilheria até furgir no 
cães. Os Capitães todos juntos foram aoVi- 
fo-Rey D. Pedro Mafcarenhas , que os re- 
cebeo com muita honra , e palavras , e fo- 
bre tudo com obras , porque a todos fez 
mercês ; e depois diílo foram todos a vifitar 
D. Affoníp de Noronha , que os recebeo 
mui honradamente , e com palavras de mui- 
tos louvores. Ao outro dia foi D. Fernan- 
do de Menezes em huma manchua com pou- 
cos parentes , que pêra iflb efeolheo , a vi- 
íitar oViío-Rey, que o efperouá porta da 
fala , onde o abraçou , e lhe diíTe muitas , 
e mui avifadas palavras de honra , e louvor 
feu , e de todos os que o acompanharam. 
Paliada efta vifita , que foi breve, recolheo- 
fe D.Fernando pêra feu pai, e trataram lo- 
go de fua embarcação. 



CA- 



j{6 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

De como o Turco manchu outro Capitão , 
chamado Cafár , a bufe ar as galés que 
eftavam em Ba corá : e de como tomou al- 
gumas nãos de Ormuz : e de outras cou- 
fas que pajfáram. 

DEpois do Turco ter defpachado Ale 
Chelobi pêra tomar as galés a Mora- 
dobec , (como no fim da fexta Década no 
Cap. XX. do X. Liv. fica dito,) havendo 
que era homem arrifeado , e de não muito 
negocio 5 defpedio nas fuás cofias hum Ja- 
nilTaro , chamado Cafár , grande coííairo , 
esforçado , e de bom confelho , ( que foi o 
que tomou Luiz Figueira , como na outra 
Década atrás no Cap. III. do IX. Liv. fe 
diííe , ) e lhe deo por regimento , que onde 
quer que achafle Ale Cheíobi lhe tomaííe 
as galés, e as levaíTe ao porto de Meca. O 
Cafár fe foi a Suez , e negociou duas ga- 
lés , e dousBargantins , hum delles a galeo- 
ta que foi de Luiz Figueira. E fahindo-fe do 
Eítreito o Agofto paflado , foi correndo a coi- 
ta da Arábia, e chegando áenceada da Ma- 
cieira , achou as novas da perdição das ga- 
lés ; e lançando efpias em terra pêra faber 
da nofla Armada , deixou-fe alli ficar até lhe 
tornar recado de como já era partida pêra 

a 



Dec. VII. Liv. I. Cap. V. 47 

a índia. E como era* coífairo , e muito prá- 
tico nas coufas daquclle mar , determinou de 
fe ir na efteira da Armada , porque fempre 
lhe ficaria por elia coufa que preaííe. E fe- 
guindo fua derrota , antes que chegafle á 
ponta de Dio , defemmafteou , e deixou-ie 
ficar ao mar pêra efperar pelas náos que ha- 
viam de vir de Ormuz, que forçado haviam 
de ir demandar aquella paragem. E andan- 
do aqui, lhe foram cahir nas mãos por ve- 
zes quatro náos ; huma de hum foão Sal- 
gado , outra de hum Cirieiro de Dio , e as 
outras duas de Taná , ou Chaul , em que 
tomou fó em dinheiro cento e fincoenta mil 
cruzados. E porque as náos lhe faziam e£ 
torvo, metteo-lhes alguns Turcos , e as def- 
pedio pêra Meca, e em fua companhia hum 
dos Bargantins , e os Portuguezes que achou 
nas náos , deixou ir nellas prezos a ferro. 
Indo aílim eftes navios , vieram apparecer a 
huma galeota de hum Balthazar Lobato , que 
também vinha de Ormuz , que vendo as 
náos , e reconhecendo-as , as foi demandar, 
fem faber o que era paflado. Os Portugue- 
zes que hiam nellas , em vendo a galeota , 
e conhecendo-a , parece que infpirou Deos 
em todos hum mefmo confelho , porque a 
hum mefmo tempo fe foltáram , e tomaram 
as armas , e remettendo com os Turcos , os 
niettêram todos á efpada. O Bargantim ou- 
via- 



48 ÁSIA de Diogo dê Couto 

vindo a revolta , e vendo a galeora , aco- 
]heo-fe o mais que pode. Balthazar Lobato 
chegou a huma das náos , e entrou dentro f 
e dos Portuguezes foube tudo o que era paf- 
fado , e a paragem em que as galés ficavam ; 
e acharam antre efles cativos João de Qua- 
dros , e tomando parecer íobre o que fa- 
riam , aííentáram , que fe foíTem por dez- 
efetegráos de mar em fora demandarChaul, 
ou Dabul , porque affim fe defviariam da 
paragem em que os Turcos ficavam; e mu- 
dando o rumo, foram feu caminho. O Cá- 
far ficou naquella parte alguns dous , ou três 
dias mais efperando por hum galeão de hum 
Gomes Farinha , que lhe diíTeram ficava atrás ; 
e vendo que cardava , emmaíleou , e deo á 
vela pêra o Eílreito de Meca ? e foi gover- 
nando pelos mefmos dezefete gráos , pêra ir 
demandar os Ilheos de Cúria Muria. E quiz 
a deíaventura , que aos dous dias deitem 
com as mefmas náos , que hiam em compa- 
nhia de Balthazar Lobato ; e demandando-as, 
as alcançou , e as tornou a tornar. Balthazar 
Lobato vendo as galés, deo ávéla toda, e 
foi-lhe fugindo tudo o que pode , e o Cá- 
far apôs elle com o baftardo dado ; e co- 
mo o vento era frefco , foi-o entrando , c a 
tiro de camello lhe atirou huma bombarda- 
da a amainar. Os que hiam na galeora, que 
feriam perto de trinta peflbas, tomaram an- 
tre 



Dec. VII. Liv. I. Cap. V. 49 

tre fi confelho fobre o que fariam , c foram 
todos de parecer, que pois a galé os entra- 
Va , e lhe não podiam fugir, que amainaf- 
fem , já que não podiam pelejar com a ga- 
lé ; que menos mal era ferem cativos , que 
metterem-nos no fundo , porque logo íè ref- 
gatariam. Só hum Francifco Anes, da obri- 
gação de Fernão de Soufa de Távora , reque- 
reo , e bradou » que tal não íizefTem , eque 
» fe deixaflem ir feu caminho, queDeos os 
» ajudaria; e que quando lhe não pudeíTem 
» fugir , que não fabia coufa mais honrada , 
» que morrerem todos com as armas nas 
» mãos ; » mas como elle era fó , amainaram 
a vela , e entregara m-fe. O que vifto pelo 
Francifco Anes, defpio huma coura de la- 
minas, que tinha armada, e tirou hum mor- 
rião , que levava na cabeça , e a efpingar- 
da , e a eípada , e deo com tudo ao mar , 
dizendo » que jí que fuás armas lhe não ha- 
» viam de valer , que não queria que foííem 
»a poder dos inimigos.» O Cafár metteo 
todos a banco ; e ao Francifco Anes pelas 
armas que lançou ao mar (que não faltou 
quem lho diffeíTe) tratou mal ; e tomando 
as náos comíigo, fe foi na volta da cofiada 
Arábia , e entrou em Meca profpero. De- 
pois fe refgatáram todos eftes homens. O 
Grão Turco logo foube da deílruição de fua 
Armada , o que fentio muito , por lhe ficar 
Couto. Tom. IV. P. L D aquel- 



50 ÁSIA de Diogo de Couto 

aquelle Eílreito fem guarda, além da gran- 
de perda que recebeo em quinze galés , que 
daquella pancada perdeo , com tanta artilhe- 
ria , e a melhor chufma que tinha no Eílrei- 
to 5 o que tudo lhecuftou hum poço de ou- 
ro ; e com aquella mágoa mandou com mui- 
ta preffa reformar as mais galés que havia 
ainda em Suez , das da companhia do Baxá 
Eunuco, que foi cercar a fortaleza deDio, 
fendo Capitão António da Silveira. 

CAPITULO VI. 

De como oVifo-Rey defpachou as nãos pêra 
irem a Cochim tomar a carga : e do que 
aconteceo a D. Affonfo de Noronha com 
EIRey do Chembe , e fe embarcou pêra o 
Reyno onde chegou : e como a náo Santa 
Cruz defappareceo. 

VEndo o Vifo-Rey D, Pedro Mafcare- 
nhas , que de íeis náos com que parti- 
ra do Reyno , não havia mais novas , que 
da Conceição, e Santa Cruz , que eftavam 
em Cochim , e que a fua fe perdera na bar- 
ra , determinou negociar alguma náo mais 
pêra mandar pimenta ao Reyno , pelas ne- 
ceffidades em que ficava. Pelo que fe corij 
tratou com hum Antão Martins , cafado em 
Goa , que tinha naquelle porto huma mui 
formoíà náo ? chamada S. Paulo 7 que fez 

no 



Dec. VIL Liv. I. Cap. VI. fl 

no rio deAneola, que porfer grande, no- 
va , e eííar muito bem negociada , a efco- 
Iheo D. Affoníb de Noronha pêra ir nella : 
o Vifo-Rey lhe deo rodas as coufas que lhe 
foram neceflarias , e o Antão Martins , fe- 
nhorio da náo , mandou por Capitão delia 
hum genro íeu , chamado António Fernan- 
des ; e como foi tempo, fe embarcou pêra 
Cochim , defpedindo-fe D, Affoníb de No- 
ronha do Vifo-Rey, que correo muito pon- 
tual com fuás coufas , e levou licença fua 
pêra em Cochim acabar de concluir as pa- 
zes , que tinham começadas com EIRey do 
Chernbe. 

Chegado áquella Cidade , tratou fobre 
efle negocio que defejava de acabar , pêra 
levar as novas diífo a EIRey ; e correram 
antre elle, e o Rey da Pimenta recados , e 
vieram aífentar , que fe videm pêra concluí- 
rem as pazes ; o que D. Affonío de Noro- 
nha logo poz por obra ; e negociando to- 
dos os navios que pode , fe partio pêra o 
Chembe , acompanhado do Capitão , Alcai- 
de mor , e dos cafados principaes , e foi fur- 
gir defronte do Pagode, donde lhe mandou 
recado, ea pedir-íheabbreviaííe aquelle ne- 
gocio , porque eftava pêra fe embarcar pê- 
ra oReyno, enão fe podia deter. Mas co- 
mo eftes Gentios tem grandes fuperftições , 
e nada fazem fem eleição de horas , e fem 
D ii con- 



?2 ÁSIA de Diogo de Couto 

confuharem com feus Pagodes tudo , fo- 
ram-lhe feus Brâmanes achando tantos in- 
convenientes , que de dia em dia gafiáram 
féis , ou fete , fem acharem hum bom* Ven- 
do D. AfFonfo de Noronha tamanha dila- 
ção , rnandou-lhe dizer » que fe hia embar- 
» car pêra o Reyno , e que fe não podia de- 
)) ter mais que aquelle dia , e que viíTe o 
» que determinava.» EIRey lhe mandou pe- 
dir » que fe detiveífc até o outro dia , que 
» fem dúvida lhe viria fallar , e que lhe man- 
» daííe Chriílovão de Azevedo Alcaide mor 
)> com o lingua , e alguns piães pêra o acom- 
» panharem ,» o que logo lhe mandou. E 
ao tempo que efperava por EIRey , ouvi- 
ram em terra grandes gritas , e apôs ellas 
viram vir fugindo Chriílovão de Azevedo, 
e recolher-fe ao feu balão , que eílava com 
a proa em terra ; e chegando a D. AfFonfo 
de Noronha muito aíFrontado , lhe diííe : 
» Ah Senhor , que nunca vi tão má gente 
» como cila ; chegando ás cafas de EIRey, 
» deram em mim , e feriram o lingua , e ma- 
)) táram-me alguns moços , e eu milagrofa- 
» mente efcapei : ide-vos , que aqui não ten- 
» des que fazer. » Vendo D. Affonfo de No- 
ronha tamanha maldade 5 poz os olhos nos 
Ceos , e levou as mãos ás barbas , dizen- 
do : » Ah Senhor , não fe pudera agora fa- 
» zer troca , de quatro annos que governei 

»a 



Dec. VIL Liv. I. Cap. VI. 5-3 

» a índia por hum fó , pêra me vingar def- 
» te negocio ? » e aílirn fervendo em ira , e 
furor mandou levar ancora , e foi-fe com 
aquella mágoa pêra Cochim. E porque fe 
fazia tempo de fe embarcar , mandou dar 
prefla ao aviamento das náos, e a carga prin- 
cipalmente da náo Santa Cruz , que eftava 
aberta, que foi vifta pelos Officiaes , que ju- 
raram que eftava pêra fazer viagem; porque 
a cubica dos homens he tamanha, que faz 
ter em pouco todos os perigos da vida , 
pondo os Officiaes os olhos , não no rifco 
que corria huma náo aberta pelo meio , le- 
, não no proveito que eíperavam daqueila via- 
gem , por não haver naquelle anno mais que 
três náos. D. Affònfo de Noronha foi cor- 
rendo com a carga , e defpachando muitas 
coufas de Juftiça , porque os Vifo-Reys , e 
Governadores , que acabavam feu tempo , por 
efpecial Provisão tinham os mefmos pode- 
res , em quanto eftavamem Cochim , na Juf- 
tiça , e carga das náos. 

Recolhida a carga , deram á vela até quin- 
ze de Janeiro defte anno de 1555 , em que 
com o favor Divino entramos , embarcan- 
do-fe nefta Armada muitos Fidalgos , pêra 
irem requerer feus ferviços ; e dos que po- 
demos faber os nomes , são os feguinies : 
D. Fernando de Menezes , filho do Vifo- 
Rey D. Affonfo de Noronha j D. Manoel 

Mal- 



£4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mafcarenhas , irmão do Conde de Santa 
Cruz , que faleceo pouco depois de chegar 
ao Reyno ; Gil Fernandes de Carvalho; e 
D. Jeronymo de Caíiello-branco , que fe 
embarcaram na náo Santa Cruz com Bel- 
chior de Soufa; porque a náo de D. AfFon- 
fo de Noronha hia muito pejada, e defap- 
pareceo no caminho , íem nunca fe faber co- 
mo , nem onde ^ mas preíumio-fe que fe abrio 
pela proa , por onde já abrira vindo do Rey- 
no , e acabaram alli aquelles dous Fidalgos , 
e esforçados Cavalleiros , que todos geral- 
mente fentíram , fem chegarem a lograr o 
galardão de feus feitos , nem pendurarem 
nos Templos da Europa os pendões de feus 
troféos , porque a morte invejofa delles os 
atalhou em flor; mas por muito que ella fa- 
ça , náo o poderá fazer á memoria que nef- 
ta noíía eícritura lhe temos dado , porque 
fobre ifFo não tem ella poder algum. A náo 
Conceição , e S. Paulo , em que D. AíFonfo 
de Noronha hia , chegaram ao Reyno. Foi 
efte D. AíFonfo de Noronha, filho de Dom 
Fernando de Menezes , fegundo Marquez 
de Villa-Réal , e de Dona Guiomar Freire, 
Senhora da Villa de Alcoutim , por cujo ca- 
famento fe 2juntou aquelle Condado á cafa 
de Villa-Real , e EIRey D. João lhe fez 
mercê, que os primeiros filhos dos Marque- 
zes íe intitulaífem Condes de Alcoutim. Foi 

cf- 



Dec. VIL Liv. I. Cap/VI. j? 

eíle D. AíFonfo de Noronha cafado com 
Dona Maria Deça , irmã de D. Pedro Deça , 
o de Santos o Novo , teve delia D.Fernan- 
do de Menezes o Gago , que he efte que com 
eMe veio á índia , e tomou as galés. Dom 
Miguel de Noronha , D.Jorge de Noronha , 
e outro. Teve mais Dona Catharina Deça , 
que fendo Dama da Rainha Dona Cathari- 
na , caiou com D. Rodrigo de Mello , Con- 
de de Tentúgal : feu filho D. Fernando com 
tomar as galés na índia o não vimos defpa- 
chado , nem luzirem nelle muitas mercês ; 
ainda que fe dizia , que Ihefahíram com as 
fortalezas de Çofala , e Moçambique. Viveo 
D. AfFonfo de Noronha pobre ; e tanto , que 
depois de fer de íetenta annos, fervio a In- 
fante Dona Maria de feu Mordomo mor , 
e Governador de lua cafa. Foi de meã ef- 
tatura , bem aíTombrado , homem de verda- 
de , continente , de pouco artificio , pelo que 
foi havido por de não muito negocio : mor- 
reo de mais de fetenta e finco annos , com 
muitos filhos , e netos honrados. E a eíle 
também Deos noíTò Senhor o honraria na 
Gloria , porque era muito bom Chriííão. Al- 
gumas coufas fez na índia muito boas, ba- 
teo patacões de prata , que foi a melhor moe- 
da que na índia houve , porque por Tua pu- 
i reza corria em todos os Reynos eílrangei- 
ros. Começou a fortaleza, queeílá no. mon- 
te 



5*6 ÁSIA de Diogo de Cottto 

te dos Reys Magos , fobre o banco da bar- 
ra pêra defensão daquelle canal , fe vieílem 
galés contra Goa , do que fe temia , a que 
poz nome Caflello-Real ; mas ficou imper- 
feita , e aííim efteve muitos annos , porque 
não coftumavam os Vifo-Reys acabar o que 
os outros começaram , por lhes não appro- 
varem fuás coufas. E fendo Governador da 
índia Manoel de Soufa Coutinho , fe refor- 
mou , e ao fopé mandou fabricar huma for- 
te couraça, que corre até aborda da agua, 
pêra ficar mais fenhora da barra , que con- 
tinuou Mathias de Albuquerque , e o Con- 
de da Vidigueira D. Francifco da Gama a 
acabou , e mandou alimpar , e perfeiçoar a 
fortaleza, que D. Affonfo de Noronha fez, 
que eftava hum mato bravo , e fazer nella 
cafas pêra apofento dos Capitães ; e em feu 
tempo fe começou da outra banda da praia 
defronte hum forte , que fe chama S. Fran- 
cifco , fobre o banco grande, que refponde 
a eftoutro , com o que ambas aquellas bar- 
ras ficam feguras , e fe podem cerrar com 
huma cadeia de maíios , que não deixem paf- 
far embarcação alguma, por pequena que feja ; 
e com eíias obras corre a Cidade de Goa , 
e faz as defpezas do dinheiro de hum por 
cento , que os moradores concederam pêra 
a fortificação da Cidade. 

CA- 



Década VIL Li v. I. 57 

CAPITULO VIL 

Do que aconteceo a Fernão Martins Frei- 
re em Surrate : e da Armada que o Vi- 
fo Rey ordenou pêra o Ffireito de Meca : 
e do recado que mandou ao Imperador da 
AbaJJia : e do que aconteceo a Vafco da 
Cunha com EIRey de Chembe Jobre as 
pazes. 

DEpois da chegada de D.Fernando de 
Menezes a Goa , a poucos dias che- 
garam ao Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas 
as novas das náos que tomou o Cafár , o 
que elle fentio muito , e determinou deman- 
dar huma Armada ao Eftreito de Meca , pê- 
ra ver fe fe podia encontrar com aquelle cof- 
fairo ; pêra o que mandou preparar alguns 
navios de alto bordo, e outros de remo , e 
ajuntar marinheiros pêra efta jornada. Dom 
Pedro Mafcarenhas, filho de D. Nuno Maf- 
carenhas , que tinha vindo com o Viíb-Rey , 
(e era hum Fidalgo de grande opinião , e 
deícjofo de fervir a EIRey em lugares hon- 
rofos , ) tanto que teve efla nova fe foi ao 
Vifo-Rey , e lhe pedio de mercê aquella Ar- 
mada , pêra começar a fervir a EIRey por 
aquelle lugar , pêra delle fubir a outros , 
que elle trabalharia por merecer. O Vifo- 
Rey lhe refpondeo por termos , que nem 

lho 



5*8 ÁSIA de Diogo de Couto"! 

lho concedeo , nem lho negou de todo ; e 
todavia fempre elle efperou que lha déíTe. 
O Vifo-Rey corria com ella em fegredo , 
fem íe declarar com alguém ; e porque a 
coita do Malavar eftavâ ÍÒ , defpedio pêra 
ella a Gomez da Silva , (hum Fidalgo Gal- 
lego grande cavalleiro , em quem muitas ve- 
zes temos fallado ernnoffas Décadas,) elhe 
deohumagalé, eíinco navios, que por en- 
tão lhepareceo bailavam. Andando occupa- 
do nifto , lhe chegaram cartas do Rey da Pi- 
menta , com outras do Capitão de Cochim , 
em que lhe pedia aquelle Rey lhe mandaf- 
fe hum Capitão velho , com feus poderes , 
pêra aííentar com elle os contratos das pa- 
zes ; porque D. Affoníb de Noronha , pela 
grande preíTa que tivera de fe embarcar pê- 
ra o Reyno, não quizera acabar aquelie ne- 
gocio , pondo-lhe a culpa que clk tinha ; 
porque como fe fentio culpado , quiz dar 
efta defculpa , (coufa muito ordinária neíles 
Gentios de todo o Oriente , e ainda de mui- 
tos Chriftãos da nolla Europa , o que 1q fen- 
te mais culpado , acudir primeiro a fazer o 
queixume , por faberem quão ordinário he 
no Mundo a primeira informação fazer mais 
imprefsão nos ânimos dos homens.) O Vi- 
fo-Rey , podo que não faltou quem lhe dif- 
fe a verdade do cafo , quiz diílimular , e en- 
facar aquelle Rey } porque como era che- 
ga- 



Dec. VIL Liv. I. Cap. VII. 79 

gado de tão pouco á índia , não quiz logo 
entrar com terror , nem moftrar-fe pouco fof- 
frido ; porque quando também foíTe necef- 
fario , haviam de achar nelle rigor, e cas- 
tigo. E dando conta daquelle negocio aos 
Capitães doconfelho, pareceo a todos bem 
fua determinação , e logo alli elegeo a Vaf- 
co da Cunha , que acabada de fer Capitão 
deChaul, pcra íe ir ver com aquelleRey, 
por fer hum Fidalgo muito prudente , de 
grande confelho, e muito reíòluto nos ne- 
gócios da índia ; e lhe deo todos os feus 
poderes pêra aflentar as pazes com aquelle 
Rey, e fe fez á vela com finco, ou féis na- 
vios, quaíi no mefmo tempo queGomez da 
Silva partio pêra o Malavar ; e em quanto 
faz feu caminho , continuaremos com Fer- 
não Martins Freire , que deixámos em Sur- 
ra te no negocio das galés. 

Alli eíleve no poço , em quanto Ruy 
Freire , e o Patrão mor fe detiveram em cer- 
rar as galés , que foram fete dias , e em to- 
dos elles correram antre o Capitão mór , e 
o Caracem muitos recados , com prefentes , 
e brincos curiofos de hum pêra outro. Con- 
cluído o negocio , e desfeitas as galés em 
féis partes cada huma , ordenou o Capitão 
mór ficar naquella enceada Pêro Barreto Ro- 
lim com dez navios pêra efperar as náos , 
que haviam de vir do Achem fem Cartazes ; 

e 



6o ASIA'de Diogo de Couto 

e elle fe fez á vela pêra Baçaim. E porque 
nefta jornada de Pêro Barreto não íuccedeo 
coufa notável , o deixaremos aqui. 

Fernão Martins Freire achou em Baçaim 
muito dinheiro , que o Vifo-Rey lhe tinha 
mandado , com que fez huma paga aos Tol- 
dados ; e depois de fazer alguns negócios , 
deo á véía pêra Goa , aonde chegou em pou- 
cos dias , e o Vifo-Rey pelo honrar o ef- 
perou no rio na fua manchua , e orecolheo 
nella com muitas honras , e depois lhe fez 
mercês a elie, e a todos. E porque não ef- 
perava mais que por elle pêra fe declarar na 
Armada que fazia pêra o Eílreito , o com- 
metteo com ella ; mas fobre mais navios , 
ecoufas que lhepedio, defarmáram ; o que 
vifto pelo Vifo-Rey , mandou chamar Dom 
Pedro Mafcarenhas, que lha tinha pedido, 
e o commetteo com ella ; e como elle ti- 
nha já fabido que Fernão Martins Freire 
lha engeitára ,. tomou- fe tanto diíío pelas 
coufas que ambos tinham paííado , que em 
fe fahindo do Vifo-Rey , fretou hum navio , 
em que logo fe embarcou pêra Dio , onde 
invernou com D. Diogo de Noronha , Ca- 
pitão daquella fortaleza , e o anno feguin- 
te fe embarcou pêra o Reyno fem querer 
ver o tio. Vendo-fe o Vifo-Rey defarma- 
do de Fernão Martins , e de D. Pedro , 
deo a Armada a Manoel de Vafconcel- 

los> 



Dec. VIL Liv. I. Cap. VII. 61 

los , que foi correndo com ella com mui- 
ta preíla. 

E porque trazia muito encommendado 
de EIRey mandar viíitar o Imperador da 
Abaília , e mandar-lhe as cartas que Jhe ef- 
crevia fobre o Patriarca , e Bifpos , que o 
Papa lhe tinha concedido, ajuntou aconíè- 
Iho o Bifpo D. João de Albuquerque, eos 
Prelados das Religiões , e lhes deo conta da- 
quelle negocio , e a todos pareceo bem que 
fe mandaíTc hum Religiofo da Companhia, 
e com elle Diogo Dias do Prefte , que fe 
achou prefente naquelle confelho , por fer 
hum dos que lá andaram em tempo de Dom 
Chriílovão da Gama, e que a voltas da vi- 
íltaçao apalpaífe o animo com que aquelle 
Imperador eítava na mudança doscoftumes, 
e recebimento do Patriarca Catholico ; eque 
achando-o fácil , como EIRcy defejava , fi- 
caííe o Religiofo com elle inílruindo-o nos 
coítumes Romanos , e prcparando-o pêra 
quando chegaífe o Patriarca ; porque fe não 
havia de abalar de Goa fenao depois que 
foubeíTe fe eítava capaz do que fe perten- 
dia. 

Concluídos niílo, nomeou o Provincial 
da Companhia , o Padre Meflre Gonçalo, 
por fer hum Varão douto , e de vida ex- 
emplar ; e por companheiro ao irmão Ful- 
gencio Freire ; que fora Feitor de Baçaim ; 

e 



6i ÁSIA de Diogo de Couto 

e pêra o levar, mandou o Vifo-Rey nego- 
ciar huma galeòta , de que fez Capitão Fer- 
não Farto, (por fer o mais antigo homem 
daquelle Eltreito , e ter entrado nelle fete , 
ou oito vezes,) que partio de Goa em Fe- 
vereiro , em que também Manoel de Vafcon- 
cellos fe fez à vela com a fua Armada , que 
era de três navios d'alto bordo, e finco fuf- 
tas , de cujos Capitães não achámos os no- 
mes , que foram feguindo fua viagem , em 
que os deixaremos , porque he neceflario con- 
tinuarmos com Vafco da Cunha , que deixá- 
mos partido pêra Cochim. 

Chegando efte Fidalgo áquella Cidade , 
defpedio Chriftovao de Azevedo , Alcaide 
mor , com recado ao Rey da Pimenta » de 
» como era chegado com poderes do Vifo- 
» Rey , pêra acabar de concluir as pazes com 
»eile, por lhas elle mandar pedir por fuás 
» cartas ; que elle eftava preftes pêra tudo , 
» que vifle o modo que niífo queria ter ; e 
» por lhe elle mandar dizer, que eílava mui 
» alvoroçado pêra cumprir tudo o que el- 
» crevêra ao Vifo-Rey , que fe foíTe ver com 
y> elle , o fez ; » e foi furgir com huma forn- 
iria de embarcações , que em Cochim fe a- 
juntaram defronte do Pagode de Vaigeta , 
onde logo teve recado de EIRey de viíira- 
ção , e lhe pedio » que aquelle dia defcan- 
d çaííe , que ao outro pela manhã fe viriam ; » 

no 



Dec. VII. Liv. I. Cap. VIL 63 

no que o enganou , porque gaitou quatro 
em recados , e entretimentos , e ao quinto 
.lhe mandou dizer » que fe queria que íe vif- 
» fem , havia de fer á borda da agua , com 
» fó finco Portuguezcs de efpadas , e rode- 
-las , e que elíe havia de ter dez dos feus 
» Naires. » Nifto não reparou Vaico da Cu- 
nha , e lhe mandou dizer » que era diflb mui- 
» to contente ; » e aífim fe ficou preparando 
pêra as viflas do dia feguinte. Eftando já 
preíles , efperando que EIRey chcgafle , ha- 
vendo que não haveria dúvida nas viftas , 
chegou hum Naire , que fervia delingua de 
EIRey, e difle a Vaíco da Cunha »queEl- 
»Rcy lhe mandava pedir, que fenãoenfa- 
y> daflè , que lhe fuccedêra hum negocio de 
» muita importância , porque o não podia 
» ver ; que lhe rogava muito , que ficafíe pe- 
» ra o outro dia , que fem dúvida fe viria 
» ver com elle. » Vafco da Cunha muito en- 
fadado daquelles enganos , levou o Naire pe- 
los cabellos , e apunhando da efpada, difle 
ao lingua : » Dizei a efie Naire que lhe não 
» corto a cabeça , porque leve a EIRey ef- 
» te recado; que lhe vá dizer, que a mim 
» me chamam Vafco da Cunha , que fou 
» muito conhecido por toda a índia , e que 
» melhores efcravos tenho na minha eftreba- 
» ria peraYervirem os meus cavallos , do que 
» elle hc. » O lingua difle» que não fecof- 

» tu- 



64 ÁSIA de Diogo de Couto 

» tumava a fallar aflim aos Reys ; » do que 
Vafco da Cunha fe irou tanto , que arran- 
cou da eípada , e diíTe ao lingua » que fe 
» lhe não davaaquelle recado, Jhe havia de 
» cortar a cabeça. )> O lingua muito medro- 
fo lho deo ; tnas como era em lingua Ma- 
lavar , que Vafco da Cunha não entendia , 
feria qual ellequizeííe. Vafco da Cunha foi- 
tou o Naire , que fe tornou muito aflbm- 
brado pêra a terra , e lá contou a EIRey o 
que lhe fuccedêra. Tanto que feelle delem- 
barcou , mandou Vafco da Cunha levar an- 
cora, e tomar o remo pêra fe ir pêra Co- 
chim ; e fendo hum tiro de efpingarda af- 
faíiado da terra , lhe capearam da praia : o 
que viílo por Chriílovão de Azevedo , che- 
gou-fe ao navio de Vafco da Cunha , e lhe 
diífe » que o bom feria tornar a voltar a 
y> ver o que aquelle Rey queria ; » ao que 
elle muito apaixonado lhe refpondeo » que 
»feíirafle de diante delle, porque mais me- 
» recia elle que IhecortaíTem a cabeça , que 
» ao Rey da Pimenta ; » e paflando por di- 
ante , fe foi pêra Cochiin , ficando aíTim ef- 
tas coufas , fem fe tomar nellas conclusão. 
Era ifto na femana Santa , e logo dia de Paf- 
coa pela manhã entrou Gomez da Silva , 
Capitão móf doMalavar, pela barra dentro 
com quatro, ou finco parós de Malavares, 
que tomou com todo íeu recheio. E reco- 

lhen- 



Dèc. VIL Liv. I. Cap. VIL 6$ 

Ihendo alli as náos de Malaca , China , Ben- 
gala , e mais partes , fe partio pêra Goa , 
aonde chegou com hiima formofa frota de 
navios , carregados de muitas fazendas. Qua- 
íi no mefmo tempo furgio também na bar- 
ra de Goa a náo Efpadarte da companhia 
do Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas , que 
foi invernar a Ormuz , como diífèmos. E 
porque Fernão Gomez de Soúfa , que nel- 
]a vinha por Capitão, trazia a Capitania de 
Cochim , o defpachou logo o Vifo-Rey pê- 
ra ir entrar nella ; e o mefmo fez a AíFon- 
fo Pereira de Lacerda , Capitão que lá ef- 
tava , pêra de lá ir fervir a Capitania de Co- 
lumbo em Ceilão ; e defpachou também Dom 
Duarte Deça , pêra ir entrar na Capitania de 
Maluco , que foi embarcado na náo Con- 
ceição, de que era Capitão D, Jorge Deça, 
que eílava defpachado com aquellas via- 
gens. Defpedidos eftes Capitães , e recolhi* 
das as Armadas , fe cerrou o inverno. 



Couto* Tom. IF.P.L E CA- 



66 ÁSIA de Diogo de Couto 
CAPITULO VIII. 

Do que aconteceo a Manoel âe VafconceUos 
7to EJlreito : e de como Fernão Farto lan- 
çou os Padres em Arquico : e do que a- 
conteceo ao Padre Mefire Gonçalo até d 
Corte daquelle hnperador : e de todos os 
Reys que houve defde a Rainha Sabá até 
ejle Cláudio : e do que o mefmo Padre paf- 
Jbu com o hnperador. 

PArtido Manoel de VafconceUos de Goa , 
como diflemos atrás no Cap. VIL , e em 
fua companhia Fernão Farto , que levava os 
Padres pêra irem a Aballia , foram feguindo 
fua derrota até haverem vifta da cofta da Ará- 
bia , e Manoel de VafconceUos fe foi lan- 
çar com toda a fua Armada a Monte de Fé- 
lix , como levava por regimento , pêra alli 
efperar as náos que haviam de vir do Achem ; 
e alli efteve até fe lhe gaílar a monção , fem 
lhe vir cahir alguma nas mãos. E fendo tem- 
po de fe recolher a invernar em Mafcate, 
pêra recolher as náos de Ormuz , e lhe ir 
dando guarda até Goa , por fe recearem do 
coífairo Cafár 3 fe fez á vela , e foi furgir 
naquelle porto , onde defapparelhou , e ef- 
teve até Setembro , e entrada de Outubro , 
em que recolheo a íi todos os navios. E por- 
que eíla jornada não foi de mais effeito , con- 
cluímos aqui com ella. 

Tan- 



Dec. VII. Liv. I. Cap. VIII. 67 

Tanto que Fernão Farto houve viíla da 
coda de Arábia , foi demandar a boca do 
Eftreito da banda do Achem , por onde en- 
trou , e foi dalli tomar Maçuá. E no porto 
de Arquico lançou os Padres , e Diogo Dias 
do Prefte , e elie fe foi pelo Eftreito pêra 
tomar falia das galés j e achando certeza que 
não fe buli ia com ellas , e que fó as deCa- 
fár eílavam varadas , voltou pêra Goa , e 
deo relação ao Viío-Rey do que paliava. 
Os Padres depois que defembarcáram em Ar- 
quico , com algum apparelho que alli acha- 
ram , foram ter ás terras doBarnagais, que 
os recebeo bem , e lhes deo todo o necef- 
fario pêra paífarem á Corte do Imperador 
Cláudio , a que os ajudaram alguns Portu- 
guezes que alli eílavam, que os receberam , 
e agazalháram muito bem , e fe negociaram 
pêra os acompanhar , como fizeram , e par- 
tiram de Baroá muito bem providos de tu- 
do , e foram na derrota da Província de Go- 
rajé, onde o Imperador eftava , que he to- 
da de Gentios , e jadão-fe de procederem 
dos Romanos , que alli ficaram , de quando 
aquellas Províncias foram fuás; e em pou- 
cos dias chegaram á Corte , onde foram mui- 
to bem recebidos de noventa e três Portu- 
guezes , homens muito limpos, e honrados, 
que ficaram da companhia de D. Chriftovão 
<Ja Gama, Eftava neíle tempo aquelle Impe- 
E ú rio 



62 ÁSIA de Diogo de Couto 

rio muito attribulado , equaíi perdido com 
guerras , que lhe faziam dous cruéis inimi- 
gos : huns , eram os Mouros de Adel favo- 
recidos dos Turcos deZebit, que jades do 
tempo de D. Chriftovao da Gania continua- 
vam , como no Cap. XIII. do VIII. Liv. 
da noíTa quinta Década dêmos larga conta ; 
e os outros , huns Cafres crucis , e bárba- 
ros i chamados os Gallas , que confinão pe- 
lo certão com as terras daquelle Império , 
que faziam muitas , e mui continuas entra- 
das por ellas com grandes dam nos , e crue- 
zas j com o que aquelle Imperador andava 
inquieto , e attribulado. Os Portuguezes , que 
diííemos , cujo Capitão era Gaípar de Sou- 
fa , agazalháram na Corte os Padres muito 
honradamente , e fizeram faber ao Impera- 
dor de ília chegada , que os mandou viíitar , 
e prover. 

E primeiro que paíTemos daqui , fera 
bem que demos relação de todos os Reys , 
que reinaram nefta parte da Ethiopia , des 
da Rainha Sabá até hoje ; porque no Cap. 
X. do VII. Liv. da noíTa quinta Década a 
não dêmos de mais > que daquelles Impe- 
radores , que fuccedêram depois que defcu- 
brimos a índia , pela não termos tão perfei- 
tamente como hoje , que no-la mandou de 
Já o Padre Belchior da Silva , Sacerdote 
Theologo Pregador , Canania de nação , naf- 

ci- 






Dec. VIL Lit.l. C ap. VIII: 6 9 

eido em Goa , que no anno de noventa e 
oito , fendo Vilb-Rey da índia o Conde da 
Vidigueira, o mandou por adminiftrador da 
Chriftandadedaquelle Império até prover de 
Religiofos em quantidade , havendo commo- 
didadepera fe embarcarem. Ecomo efte ho- 
mem era curioíb , tirou de huns livros an- 
tigos , que achou em huma daquellas Igre- 
jas , o catalogo de todos os Reys , que reina- 
ram na Ethiopia fobre o Egypto , depois 
da Rainha Sabá, a quem fe deve dar mais 
credito que a outros eferitores ; porque 
fempre os Chroniílas próprios tem mais au- 
thoridade no fundamento de feus Reynos , 
c origem de feus Reys , que os alheios. 

E porque entre alguns eferitores ha gran- 
de controveríia fobre eíta Rainha Sabá , que 
alguns cuidaram mal , que he a mefma que 
Candalfes 3 diremers agora o que fobre iílo 
eferevem , e fe he eíta a que chamam Ni- 
tochris , Nicaula , cu Candaffes , e a difFe- 
rença que ha de huma a outra. Jofefo ? e 
Heródoto conformam ambos no tempo do 
reinado deita Sabá , ouNitochris (como lhe 
elles chamam. ) Dizem eftes , que depois que 
em Egypto reinou Mene , que fundou Mem* 
fis 5 ( poQo que Apolodoro diz , que a fun- 
dou Ephapho,) reinaram trezentos e trin- 
ta Reys , de que os dezoito foram Ethio- 
pes. E depois deites reinou Nitochris , que 

Jo- 



7o ÁSIA de Diogo de Couto 

Jofefo diz , que foi Rainha do Egypto fo- 
bre a Ethiopia , e que fora vifirar a EIRey 
SaJamão. 

As hiftorias Abexins dizem , que a Rai- 
nha CandaíTes, por outro nome Guindich , 
era da Cidade de Acuxuma , e que em feu 
tempo entrara a Chriíiandade naquella terra , 
pelo modo que fe conta nos Aótos dos A- 
poftolos , onde diz que apparecêra hum Anjo 
a S. Filippe , e lhe diíTera , que fe alevan- 
tafle , e fe foíle pêra o meio dia , e feguif- 
fe aquella eílrada deferta , que vai de Jeru- 
falem a Gaza ; o que S. Filippe fizera , e na- 
quelle caminho encontrara hum Eunuco da 
Rainha CandaíTes , que vinha de vifitar o 
Templo de Jerufalem , ehiafobre huma car- 
reta lendo huma profecia de Ifaias ; e que 
S. Filippe Jhe perguntara fe a entendia ; e 
refpondendorlhe que nao, lha declarara, e 
por ella fe converteo logo alli , e S. Filip- 
pe o bautizára. E que chegando eíle Eunu- 
co á Rainha, lhe contara tudo o que paífá- 
ra com o Santo, e ella fe converteo logo, 
e o feu Reyno com ella. Pelo que fe verá 
a grande differença que ha da Rainha Can- 
daíTes á Rainha Sabá ; porque eíla concor- 
reo em tempo de EIRey Salamão , que foi 
antes da vinda de Chrifto ; e a outra no de 
S, Filippe , que ha muitos annos de diffe- 
rença, E fegundo parece a alguns doutos , 

não 



DeCo VIL Liv. I. Cap. VIII. 71 

não era muito que nefta Rainha Sabá fe a- 
cabafle a Dinaftia 21. e EIRey Sefac. Di- 
zem mais Jofefo , Nauclero , e Cedreno , 
que antre as coufas que a Rainha Nicaula 
levou , e offèrcceo a Salamão , foi a arvo- 
re , ou parra de Balfamo , e que dalli por 
diante ficou plantada em Judéa ; porto que 
Solmo diz, que eíta preciofa parra , depois 
que os Romanos fe fenhoreáram do Egy- 
pto , a plantaram em muitas partes. Era ef- 
ta Rainha tamanha Senhora , que fe eílen- 
dia feu Império des do mar do Egypto até 
o de Çofala. 

Já que eílamos com eílas coufas entre 
mãos, fera bom quemoílremos que Provín- 
cias são as de Ophir , e Tharfis , onde Sa- 
lamão Rey dejerufalem mandava bufcar as 
coufas preciofas pêra o Templo , pelas va- 
rias opiniões que ha fobre iíTo antre os ef- 
critores. E trataremos primeiro da de Ophir , 
que todos tem por Çofala ; porque parece 
que aílim chamavam então a toda aquella 
Cafraria , donde hia o ouro pêra o Tem- 
plo de Salamão 5 e que o Rey de Çofala , 
que todos tem por Ophir, devia de fer na- 
quelle tempo Senhor de tudo o que hoje 
poffue o Manamotapa ; ecomo fe nomeava 
por Rey de Çofala , comprendia debaixo 
defte titulo todas as terras que polfuia. Mas 
a verdade lie , que Ophir he huma Provín- 
cia 



jz AS1A de Diogo de Couto 

cia de Manamotapa , que fe chama Mafca- 
pa, onde eftá huma grande, e formoíiffima 
ferra, que fe chama Afura , ouAufur, que 
tem muita femelhança no nome com Ophir. 
Efta ferra fe vê de muito longe por fer mui- 
to alta , e não deixam fubir a ella nenhum 
Portuguez , porque he mui rica de ouro ; e 
alguns que lá foram ás efcondidas , acharam 
ruinas de grandes edifícios que alli eftiveram , 
que os Mouros muito antigos affirmáram , 
pelo ouvirem ailim a feus antepaffados , que 
já alli eftivera a Rainha Sabá. Mas o mais 
certo he , que teve alli fortaleza , e feitoria ^ 
como também o foi aquelle grande edifício f 
chamado Zimbaoe , que eftá no Reyno de 
Butua. E eftas fortalezas , ou feitorias man- 
dou aquella Rainha fazer pêra fenhorear a- 
quellas minas de ouro , por ferem as mais 
profperas de toda aquella Cafraria , de que 
ella (conforme as efcrituras Abexins ) foi fe- 
nhora , e depois delia feu filho Salamáo , e 
daqui fe tirou o ouro , que ella levou a of- 
ferecer ao Templo de Jeru falem. 

Pelo que fe enganam os que dizem, que 
Ophir era huma Ilha porta no mar do Sul, 
que foi defcuberta por Chriílovao Cólon , 
que devem de dizer pola Hefpanhola. E al- 
guns fazem Çamatra a Ophir , e outros a 
põe por outras partes , não fei com que fun- 
damento. E prova mais eíla minha opinião 



Dec. VIL Liv. I. Cap. VIII. 73 

a tradição dos livros Caldeos dos Chriftãos 
das ferras deS. Thomé, que dizem Ophir, 
eAufur, eque eíla heÇofala, conforme ao 
que me efcreveo o Bilpo da mefma ferra 
\D. Francifco Roz. 

A Província Tarfis , onde Salamao tam- 
bém mandava fuás Armadas a bufcar cou- 
fas pêra o Templo , por fem dúvida tenho 
íer todo aquelle feio de Pegú , e Tanaça- 
rim , que e/n alguma coufa parece eíte no- 
me. E em Oneíècrito author Grego achá- 
mos , que fallando na Tapobrana , diz , que 
era de finco mil eftadios , e que eítava apar- 
tada dos povos Praíís fobre o Gange efpaço 
de vinte jornadas. E deixando fe falia aqui 
de Çamatra , íe de Ceilão , porque iíío te- 
nho averiguado no Cap. V. do I. Liv. da 
minha quinta Década , onde fe ifto verá mui- 
to bem, vamos á Provinda Tarfis, que te- 
nho poia de Pegú, eTanaçarim, que One- 
fecrito chama Parfijs , que diz eflar fobre o 
Gange , em que differe tão pouco, que não 
he mais que na primeira letra ferT, ou P. 
Eíla Província he riquiífima de ouro , e pe- 
draria , e infinidade de marfim , pela gran- 
de cópia, e número de Elefantes que nella 
ha. E as Armadas de que a Divina Efcritu- 
ra falia, que Salamao mandava a Ophir , e 
Tarfis, fendo tão diílante como he odeÇo- 
fala a Pegú, não ha pêra que pôr dúvida a 

if- 



74 ÁSIA de Diogo de Couto 

iiTo , porque as coufas hiam-fe bufcar aonde 
as havia, E ainda não duvido que as náos 
que hiara a Pegú bufcar as coufas que dif- 
fe, que paífaííem diante a Malaca, eaÇa- 
matra , e a Manancabo , e ainda a Timor 
a bufcar o ouro, e a rica, e formoia ma- 
deira de Aguila , e de Sândalo branco , e 
Vermelho , e todas as mais coufas preciofas 
que ha por aquellas partes. E como faziam 
tão differentes viagens donde fe haviam de 
efperar monções , de força , e neceífidade fe 
haviam de derer o tempo detresannos, que 
a Efcritura Divina diz. 

E quanto ao que diz Rábano , author 
que fe tem por grave , que Ophir era hu- 
ma Ilha deferta no mar da índia , onde ha- 
via muitas feras , e muito ouro , não lhe 
acho fundamento ; porque fe era deferta , e 
cheia de bichos peçonhentos , quem a pe* 
netrou , e vio o leu ouro pêra dar razão 
delle ? E hoje temos defcuberto tudo o que 
ha nefte mar do Oriente , a que chamamos 
índia , aíhm intra , como extra Ganges > e 
não fabcmos Ilha alguma que tenha ouro , 
nem ainda terra firme, fenao osReynos de 
Pegú , e Sião , e Manancabo , e Çamatra. 
Senão fe eflas Armadas paliaram adiante ás 
Ilhas de Salamao , que eílani junto á terra 
firme da nova Guinea , onde diz haver mui- 
to ouro , que ha poucos annos que são fa* 

bi- 



Dec. VII. Liv. I. Cap. VIII. 75 

bidas de nós. E pela ventura que deftas Ar- 
madas fe ficaíTem chamando as Ilhas deSa» 
lamao , porque não acho donde pudeíTem 
ter efte nome. Tornemos agora á Rainha 
Sabá. 

Alguns efcritores duvidam que ella foíTe 
Rainha herdeira direitamente daquelle Rey- 
no, e allegam pêra iíío Lei feita por Sa!a- 
mão , em que defende, que na herança da- 
quelle Reyno nunca fucceda fêmea , como 
o affirma o Bifpo Zagazabo , de que dêmos 
relação no Cap. V. do L Liv. da noíía quar- 
ta Década , de quando foi por Embaixador 
a Portugal em companhia de D. Rodrigo 
de Lima, que era douto, affim nas letras Di- 
vinas , como humanas ; e trata iílo muito 
bem em hum livro, que compoz dascoufas 
da Ethiopia , muito diligentemente. Ao que 
alguns efcritores dão fuás razões, e vem as 
mais a concordar, que fe chamaria Rainha 
por fer mulher de Rey , como he coftume 
antre os Reys Chriílaos, principalmente no 
noífo Reyno de Portugal , onde as mulhe- 
res dos Reys, depois de viuvas, em quanto 
vivem , não per-dem o tal nome , nem a ve- 
neração que fe lhes deve. Mas a mim me 
parece que foi verdadeira herdeira daquel- 
le Reyno , e que fuccedeo nelle a feu pai 
por não ter filho, aíTim como fuccedeo no 
de Caftella a Catholica Rainha Dona Ifabel. 

E 



j6 ÁSIA de Diggo de Couto 

E poíto que o Bifpo Zagazabo allegue 
aquellaLei, pode fer nãoleja feita por Sa- 
lamão Rey de Jerufalem , fenao por leu fi- 
lho Salamão, , que houve neíta Rainha Sa- 
bá , como logo diremos ; porque o Rey de 
Jerufalem não era Senhor dos Reynos da 
Ethiopia pêra lhes dar Leis. Eque ieja ver- 
dade que efia Rainha Sabá viera prenhe de 
EIRey Salamão , quando o foi vifitar a Je- 
rufalem , fe verá muito claro no Tratado 
do Padre Francifco Alvares , que quando foi 
áquelle Império com D.Rodrigo de Lima, 
diz que achara huma Chronica em lingua 
Abexim , em cujo principio dizia , que fo- 
ra feita em Hebraico , e depois em Caldeo, 
que começava defta maneira : 

Sabendo a Rainha Maqueda os grandes , 
e admiráveis edifícios que EIRey Salamão fa- 
zia em Jerufalem , determinou de os ir ver , 
e carregou alguns camellos de ouro pêra as 
defpezas daquella obra. E indo feu caminho > 
fendo perto da Cidade de Jerufalem, eftan- 
do pêra paliar hum ribeiro , que fe fervia 
com huma ponte de páo , ou por dous for- 
mofos madeiros, arrebatada de hum elpiri- 
to profético, defcavalgou , e polia de gio- 
Ihos adorou aquelles madeiros , dizendo : 
» Que nunca Deos permittilTe que feus pés 
» tocaftem aquellas traves fobre que havia 
)) de padecer ainda o Salvador do Mundo ; » 

e 



Dec. VIL Ljv. I. Cap. VIII. 77 

e foi rodeando o rio , e bufeando váo. E 
chegando ajerufalem, feapreíentou a Sala- 
mão , -e lhe offereceo os does que levava > 
e lhe pedio » que mandaííe tirar dalli aquel- 
» les madeiros , » dizendo a razão porque. E 
vendo os edifícios , difíe : )i Que não lhe íbu- 
» beram dizer da grandeza daquella obra , 
» e que verdadeiramente era muiro maior do 
)) que lhe difleram j e que f§ foubera a ma- 
y> gnificencia delia , não trouxera tão peque- 
» nos does ; mas que tornaria a feus Rey- 
)> nos , eque dela lhe offèreceria outros ma* 
» iores ; » e nos dias que efieve em Jerufa- 
lem , houve Salamão nella hum filho , que 
fe ficou creando na Corte até idade de dez- 
efeis annos , que era tão feroz, efoberbo, 
que por fe queixarem os povos delle ao pai , 
o mandou pêra Ethiopia , onde a mai rei- 
nava , e lhe nomeou o Reyno de Gaze ; e 
que viera a fer tamanho Senhor , que fenho- 
reára de mar amar, eque no da índia tra- 
zia de comino fetenta nãos groflas pêra de- 
fensão de feuEftado. Tudo até aqui he da 
Chronica Abexim , que o Padre Francifco 
Alvares refere no livro que compoz daquel- 
la viagem. Donde inferimos o que diílemos , 
que não ficou ao marido defta Rainha Sa- 
bá herdeiro algum por fua morte , e que 
o filho que houve de Salamão veio a herdar 
tudo; e que antes de vir aferRey fe cha- 
ma- 



7% ÁSIA de Diogo de Couto 

mava Mihilecha , e a raãi mandou que fe 
chamaíTe Salamao como o pai > e nelle fe 
começa o catalogo dos Reys que depois del- 
ia houve , como o nós aqui fazemos, 

Salamao , Amna Sahacam , Baren Gabo , 
Sabacio , Thoafca , Adona , Áufayo , Gma- 
cio , Choâ , Luvo , Autata , Bahaca 5 Sava- 
da , Adina , Gotolea , Safalea , Elgabul , 
Bautaul , Bavares L Bavares II. Mahafe , 
Nalque, Balzol. 

No oitavo anno deite Balzol , dizem fuás 
efcrituras que nafceo Chriílo , e depois de 
feu Nafcimento reinaram os Reys feguintes. 

Chempas Gad, ou Bhur Sagad, Grima 
Cafár , Sarado , Cucu Bacheon , Sargay , Ze- 
ray , Sana Afgad , Cheona Gaya , Macugna, 
Safarad, Agdar. 

Abraha , e Cabaha , ambos irmãos , que 
reinaram juntos , e conformes , em cujo tem- 
po foi á Ethiopia hum Patriarca , chamado 
Minatos , e por outro nome Pantaleão , que 
pregou a Lei de Chriílo ; e poílo que no 
principio fugiram delle , depois que enten- 
deram fua doutrina 5 a tornaram a ouvir, e 
muitos fe converteram á Fé de Chriílo , e 
lhe puzeram nome Abafalão , que quer dizer , 
pai da paz. A elles fuccêderam os feguintes* 

Hafpha , Aríid , Anci , todos três irmãos , 
que governaram fucceffivamente, Arada , Afa 
dadova, Amamid. 

No 



Dec. VII. Liv. I. Cap. VIII. 79 

No reinado deite Amamid foram ter 
a Abaília muitos Frades fantos a pregar a 
Ld de Chrifto , e dous Reys Chriílãos com 
grandes exércitos por via do mar Roxo, e 
os naturaes fe recolheram pêra os matos , e 
os Reys ficaram fenhoreando a terra ; mas 
fuás elerituras os não nomeam , nem dizem 
fe reinaram juntos , mas dizem que depois 
delles houve os Reys feguintes. 

Thazena , Caleb , Gabra Mafeal , Con- 
ftantinus , Bafgar , Zanfagad , Frey Senay , 
Adoraza , Aidar , Madai , Calaudamo , Gri- 
ma Asfar , Zergaza , Digna Michael , Bud 
Gaza , Arma , Asbanani , Digna Zana > Am- 
bafa o dem o Delnaad. 

Todos eítes Reys dizem que vem por 
linha direita da Rainha Sabá , ou de Sala- 
mao feu filho , e que eíloutros que fe fe- 
guem são de outro Tribu ; por onde pare- 
ce que aquelles dous Reys , que entraram a 
çonquiftar aquelle Reyno , fe acabaram nelle. 

Hicu Namale , Agba Acheon , Bhar Sa- 
gad , Hesba Sarad , Cama Afgad , Udamo 
Arad , Anda Cheon , Ceifa Arad , Ud Do- 
ma , David , Theadros , Ifac , Andreas , Asbi 
navi, Andajefus, Bad Linavi , Jarai acob, 
Beda Mariad , por outro nome Zeriaco. 

Hefcander , por outro nome Alexan?» 
dre , que faleceo no tempo que Vafco da 
Gama defeubrio a índia , que foi o com 

que 



8o ÁSIA de Diogo de Couto 

que fallou Pêro de Covilhã , que foi por 
terra. 

Anda Cheon , por outro nome Naut , 
que reinou doze annos. 

David feu filho , que ficou menino de- 
baixo da tutoria de íua mãi Helena, que he 
o que mandou o Imperador Mattheus ao 
Reyno, e a quem EIRey D.Manoel man- 
dou D. Rodrigo de Lima. 

Oena Saged , filho de David , em cujo 
tempo foi D. Chriftovao da Gama áquelle 
Império. 

Cláudio , ou Athana Saged , filho de Be- 
na Saged , que he eíle que reina nefte tem- 
po , e eíle foi morto pelos Mouros , e fuc- 
cedeo-lhe elle. 

E tornando a continuar com o Padre 
Meftre Gonçalo , depois de defcançar alguns 
dias , muito bem fervido , e agazalhado de 
todos os Portuguezes, foi levado ao Impe- 
rador Cláudio , que o recebeo muito bem , 
e eíle lhe deo as cartas de EIRey, e do Vi- 
fo-Rey , efcritas em lingua Portuguez , e 
Abexim , que elle recebeo com muito alvo- 
roço , e por ellas entendeo a tenção de EI- 
Rey ; e defpedindo o Padre , mandou que 
o proveíTem de todo o neceíTario ; e dahi a 
alguns dias o ouvio , prefentes os feus Gran- 
des , e elle lhe deo a embaixada que leva- 
va, que continha o feguinte. 

» Que 



Dec. VII. Liv. I. Cap. VIII. 8r 

» Que EIRey de Portugal leu irmão lhe 
)> mandava pedir , que a exemplo de feu pai > 
» e avô , feguiííe o verdadeiro caminho de 
» íua falvação, e communicafle com os Ca- 
» tholicos , dando a obediência á Santa Sé 
» Apoílolica , e Igreja Romana í como ca- 
:» beça de toda a Chriílandade ; que elle ti- 
» nha (ignificado ao Summo Pontífice feu de- 
» lejo , conforme ás cartas que elle fobre 
» aquelle negocio lhe efcrevêra. Que rnovi- 
» do de feu fanto zelo, lhe tinha concedido 
» hum Patriarca , e dous Bifpos , que fica- 
» vam em Lisboa , pêra virem na primeira 
» Armada ; que havia elle de eftimar muito 
3) o amor com que o Vigário de Chriílo fe 
» movia a acudir a feus rogos , e a lhe man- 
» dar os mais efcolhidos Varões que pode , 
)) pêra o inílruirem a elle , e aos feus nos 
» coflumes Romanos , pêra poderem digna- 
» mente fer chamados irmãos dos Fieis , e 
» filhos da Igreja. » EIRey ouvio mui bem 
tudo o que lhe o Padre difle; mas como et- 
tava traftornado de feus primeiros intentos , 
e tinha determinado de não mudar os cof- 
tumes antigos de feus antepaííados , ficou tur- 
bado , e confufamcnte refpondeo com pala- 
vras duvidofas , ou por fer inconftante de 
natureza , ou por eftar perfuadido , e acon- 
felhado dos feus , moftrando-fe logo muito 
arrependido do que fobre iífo tinha efcrito 
Couto.Tçm.IF.P.1. F a 



82 ÁSIA de Diogo de Couto 

a EIRey ; e refpondeo ao Padre » que elle 
)) não fabia de carta alguma que efcrevefle 
» a EIRey de Portugal feu irmão íobre a- 
» quella matéria , porque nunca tivera ten- 
» cão de mudar as cerernonias , que havia 
» tantas centenas deannos íeufavam naquel- 
»ies Reynos ; que fe alguma couía faltava'; 
» a carta , o feu Secretario a efcreveria , fem 
» lho elle mandar. Mas que por íima de tu- 
» do elle era grande fervidor de EIRey de 
» Portugal , e não deixava de lhe agradecer 
» a boa vontade, zelo, e trabalho, que na- 
» quellas coufas tinha moílrado. » O Padre 
Medre Gonçalo vendo a tenção de EIRey, 
não tratou de apertar logo com elle , mas 
deixou-fe ficar al!i , adminiftrando os Sacra- 
mentos aos Catholicos , e viíitando o Im- 
perador algumas vezes , tornando-o a pal- 
par pêra ver fe achava nclle alguma mudan- 
ça , declarando-fe com elle , e moftrando- 
lhe pela Eícritura quão neceífario era pcra 
fe falvarem , deixarem o Bautifmo da Cir- 
cumcisao , e tomarem o da agua , e darem 
com iífo a obediência a Igreja Romana ; mas 
como elle eftava obftinado , e refoluto com 
os feus Grandes de não confentir mudança 
na lei, defenganou o Padre de todo. E por 
fim de razões diíTe » que bem podia ir o Pa- 
» triarca , porque folgaria de o ver , e que 
»em Maçuá acharia todo o apparelho necef- 

» fa- 



Dec. VIL Liv. I. Cap. IX. 83 

» fario pêra feu caminho ; e que depois de 
aferia, Deosnoffo Senhor tinha poder pe- 
» ra o encaminhar a feguir o que fofíe me- 
» lhor pêra lua falvação. » Com eííe deíen- 
gano íe deixou o Padre ficar até á monção, 
em que o haviam de ir Lufcar , exercitando 
com os Catholicos o officio da caridade j e 
aílim o deixaremos até feu tempo. 

CAPITULO IX. 

De como D. Diogo de Noronha , Capitão de 
Dio , perfil adio a Tartacan , que lançaf- 

fe a Bifcan fora das terras de Dio , co* 
mo fez : e de como D. Diogo de Noronha 
lançou mão de todo o rendimento daquel- 
la Alfandega : e de outras coujas que 

pajfd>am> 

NO fim da fexta Década no Cap. XIX. 
do X. Liv« demos conta de como 
D. Diogo de Noronha , Capitão de Dio, 
tomou a fortaleza , que os Mouros tinham 
na Cidade , e de como deitou fora da Ilha 
os Abexins: e com tudo ifto nunca quiz bul- 
lir na Alfandega , que fe arrecadava a me- 
tade pêra o A bifcan , ( por huma Provisão 
de EIRey de Cambaya , por não romper cora 
elle ; ) mas como o Abifcan era homem in- 
quieto , e muito foberbo , não deixou de 
bufcar todos 0$ modos pêra tornar a met- 

F ii ter 



84 ÁSIA de Diogo de Couto 

ter pé na Ilha de Dio 5 até determinar de o 
fazer por força , e commetteo a entrada por 
alguns paíTos , que lhe D. Diogo de No- 
ronha mandou defender com as manchuas 
pelo rio , e com foldados ; com o que te- 
ve efte verão grandes trabalhos , e inquie- 
tações. E vendo D. Diogo de Noronha que 
nunca teria bom vizinho no Abexim , tra- 
tou de o lançar fora de todo daquellas ter- 
ras , porque antes queria vizinhar com quaír 
quer outro Mouro , que com elle ; e pêra ií- 
to teve efte modo. 

Na fexta Década no Cap. XVI. do X, 
Liv. dêmos conta , como os Senhores da 
Província de Cambaya iè levantaram cada 
hum com o que governava , quando viram 
EIRey morto. Deftes foi hum delles Tarta- 
can , Turco de nação , (que governava aqueí- 
la parte de Junager até o Pagode dejaque- 
te , ) e era valoroíò 5 de boa natureza y e 
muito bem inclinado. A efte defpedio Dom 
Diogo de Noronha hum homem leu em hum 
navio ligeiro, por quem o mandou vifitar, 
e a pedir-lhe mandaíTe hum homem de con- 
fiança , porque tinha que tratar com elle cou- 
fas , que importavam muito a elles ambos, 
Efte homem recebeo elle muito bem , e ef- 
rimou a viíitaçao ; e logo mandou embar- 
car no mefmo navio hum Mouro , chama- 
do Melique Xeque , Guzarate de nação , ho- 
mem 



Dec. VIL Liv. I. Cap. IX. 8? 

roem de que elle fiava muito , a quem Dom 
Diogo de Noronha recebeo honradamente ; 
e recolhendo-fe com elle a huma camera , 
lhe diíTe eftas palavras : 

» Mandei pedir a Tartacan hum homem 
» de confiança pêra faber delle , qual era a 
» razão , que pois o tempo lhe offerecia ta- 
» manhas occaílões pêra fe fazer grande Se- 
» nhor , e ainda Rcy de todo Cambaya , 
» porque fe defcuidava naquelle negocio , 
» fendo elie hum Capitão dos maiores , e 
amais beneméritos que havia em todo aquel- 
»,Ie Reyno , e em quem melhor eftava tu- 
» do -j que pois iíto aílim era , porque con- 
» fentia alli tão feu vizinho Abifcan , que era 
)> hum Abexim fraco , falfo , e fem mereci- 
» mento algum , e de quatro dias naquelle 
» Reyno , e vir elle a ter tanto bico , pelo 
)) defcuido delle Tartacan , que lançara mão 
» de hum Eftado tamanho , como aquelle que 
» poífuia ? Que convinha a feu credito , e 
» authoridade lançallo fora daquellas terras, 
» eapoífar-fe delias , com o que ficaria o mor 
» Senhor de todos os de Cambaya , e que 
» elle o ajudaria por mar, e por terra, pe- 
* lo grande gofto , e proveito que tinha de 
» o ter a elle por vizinho. » Com iflb lhe dif- 
fe outras muitas coufas, e o metteo em tan- 
tas vaidades , que o fez cuidar poder fer ain- 
da Rey de Cambaya. O Melique Xeque lhe 

'agra- 



86 ÁSIA de Diogo de Couto 

agradeceo aquellas lembranças, e IhediíTe, 
» que elle as faria a Tartacan , a quem íi- 
» gnificaria as obrigações em que lhe ficava 
» por aquella vontade. » E defpedindo-o Dom 
Diogo de Noronha , o tornou a enviar no 
mefmo navio. Chegado elle ajunager, deo 
conta a Tartacan de tudo o que tratara com 
elle D, Diogo de Noronha , e lhe fez tam- 
bém fobre aquellas coufas muitas admoeíla- 
çoes , com o que levado Tartacan de vai- 
dade , e de ambição , quiz logo pôr mãos 
áquellaobra, e começou a ajuntar fuás gen- 
tes , e poz em campo paflante de vinte mil 
homens , e defpedio recado a D. Diogo de 
Noronha de fua determinação , e pedir-lhe 
» que o favorece/Te com huma Armada pe- 
» la coita de Madre Faval, porque elle co- 
» meçava a marchar. » E aflim nefte mez de 
Abril , em que andamos , partio de Junager ; 
e entrando peias terras do Abifcan , tomou 
logo as Cidades de Por , Mangalor , Patê , 
e outras ; e D. Diogo de Noronha , tanto 
que teve feu recado , defpedio alguns na- 
vios pela coíla até Gogá , que não fizeram 
mais, que andarem á vifta da terra por cum- 
primento, Abifcan tanto quefoube que o ou- 
tro lhe entrava por fuás terras, e osdamnos 
que por ellas hia fazendo , ajuntando fuás 
gentes, o foi bufcar, eencontrando-fe vie- 
ram a batalha, cm que o Abexim foi des- 

ba- 



Dec. VIL Liv. I. Cap. IX. S 7 

baratado de todo , e o Tartacan o foi fe- 
guindo até o lançar fora das terras , e o 
metter pelas deCambaya, onde fc acolheo ; 
c deita vez ficou o Tartacan fenhor de to- 
do aquelle Eílado , deixando-fe ficar na Vil- 
Ia de NovaNager alguns dias, até concer- 
tar , e aíTegurar as coufas da terra. AHi o 
mandou D. Diogo de Noronha viíitar , e 
antre ambos correram todo aquçlle tempo 
grandes cumprimentos ; e ficaram correndo 
cm tanta amizade todo o tempo que andou 
por aquellas terras, que vinham os do feu 
exercito á Ilha , e a ver a fortaleza com li- 
cença de D. Diogo , que foi. nifto tão libe- 
ral , que entraram de huma vez perto de qui- 
nhentos Mouros na fortaleza ; e quando lhe 
deram febate , já .as fuás calas citavam che- 
ias delles ; e acudindo D. Diogo de Noro- 
nha com a gente que havia , os lançou fora 
fem efcandalo. Efte defcuido , ou confiança 
deíle Capitão lhe eftranhou EIRey tanto , 
que dizem que por elle ( e por aquella pa- 
lavra que diiTe , quando tomou a fortaleza 
da Cidade aos Abexins , como na fexta Dé- 
cada no Cap. XIX. do X. Liv. diííemos ) 
o não poz nas fuccefsoes da governança da 
índia. Apoílado o Tartacan do Eílado do 
•Abifcan , fe recolheo pêra Junager , e deixou 
por Governador naquellas partes aMelique 
Xeque, que veio a Dio a failar com Dom 

Dio- 



88 ÁSIA de Diogo de Couto 

Diogo de Noronha , e ficou fazendo feu af- 
fento na Villa de Nova Nager. Tanto que 
D. Diogo vio recolhido o Tarracan , logo 
deitou mão de toda a Alfandega , que era 
o que elle pertendia , e lançou fora os of- 
íiciaes Mouros, que alii eftavam da mão do 
Abilcan , e começou a arrecadar os rendi- 
mentos peraElRey , e daqui lhe ficou apo£ 
fe que até hoje dura. 

CAPITULO X. 

De como fe levantaram contra o Idalcan 

alguns Capitães feus : e dos tratos que 

houve antre Anel Maluco , e o Vijo- 

Rey D. Pedro Mafcarenhas. 

NO Cap. VIII. do IX. Liv. da quinta 
Década demos larga conta de como 
por morte de Maluco Re/ de Vifapór , e 
do Decan , fuccedeo Abrahemo feu irmão , 
que foi o que fe concertou com o Gover- 
nador Martim AfFoíifo de Soufa , pêra que 
lhe entregaíTe Mealecan feu tio, que oAce- 
decan Senhor de Bilgão ? e de todo o Con- 
can tratava de metter de poíTe do Reyno , 
concertando-fe o Idalcan com o Governa- 
dor , que mandaífe a Mealecan pêra o Rey- 
no, ou pêra Maluco , e por iíTo lhe Jargou 
as terras firmes de Salfete , e Bardes , o que 
o Governador não fez. Succedeo eíle ve- 
rão 



Dec. VII. Liv. I. Cap. X. 89 

rao em que andamos alevantar-fe contra EI- 
Rey Abrahemo hum grande Capitão fcu , 
chamado Anel Maluco > Governador de to- 
do o Concan , e em authoridade , e poder 
outro Acedecan. Efte íentindo-fe offendido, 
e aggravado de EIRey , como tinha muita 
gente, poíTe , e poder, efobre tudo a mal- 
dade , e tyrannia , que em todos eftes Mou- 
ros de contino reina , folicitou outros Ca- 
pitães principaes do Reyno , que também 
fentio defgoíloíbs , e fizeram todos antre íí 
huma conjuração contra EIRey, e trataram 
de o deíapoíTar do Reyno. E para efta mal- 
dade ter alguma cor de deículpa , affirmáram 
pertencer o Reyno mais a Mealecan , que 
eltava em Goa , que ao fobrinho Abrahemo. 
AíTentados nifto , quizeram-fe valer de 
Rama Rajo Rey do Canará , e do Vifo-Rey 
da índia , pêra quem logo defpedíram feus 
Embaixadores em muito iegredo. O que en- 
viaram ao Vifo-Rey , entrou na Ilha de Goa 
muito encubertamente , e vio-fe com elle 
em fegredo ; e da parte de Anel Maluco 
lhe deo conta de tudo o que eítava antre 
elles ordenado , pedindo-lhe » que lhe qui- 
» zeíTe dar Mealecan pêra o fazerem Rey , 
» e favorecellos pêra ilTo ; e que pêra o fa- 
» zer com mor gofto , e vontade , elles of- 
)> fereciam pêra EIRey de Portugal todas as 
» terras do Concan com fuás Alfandegas , e 

» Ta- 



90 ÁSIA de Diogo de Couto 

» Tanadarias , que montavam todos os an- 
» nos de vantagem de hum milhão de ouro. » 
O Vifo-Rey deo orelhas áquelle negocio, e 
informou-fe bem da poiTe daquelles Capi- 
tães , e achou que eram os principaes do 
Reyno , e que fera dúvida levariam avante 
o que pertendiam ; e certificado bem deíie 
negocio , o poz em coníelho dos Fidalgos 
velhos, e de alguns moradores, e Cidadãos 
principaes ; e debatida a matéria , afientá- 
ram todos » que fe deviam de acceitar os 
» partidos que commettiam , porque fe fea- 
»juntaíTem ao Eílado as terras do Cancsn, 
)> ficaria profperiílímo ; e que fegundo as cou- 
» fas eftavam difpoítas , fe arrifcava pouco 
» entrar na liga ; quanto mais , que elles não 
T> queriam mais que entregarem-lhe o Mea- 
)) lecan ; porque pêra o metterem lá de pof- 
y> fe do Reyno , elles bailavam , e o Rey de 
» Bifnagá , que era o mais poderofo de to- 
)) dos os vizinhos , a quem fempre fe havia 
» de favorecer pêra tornar a cobrar aquelle 
» Reyno que fora feu , pelo grande provei- 
» to , efegurança que diíío reíultava ao Ef- 
» tado da índia ; porque nunca elíe fora prof- 
)) pêro , fenão no tempo em que o Reyno 
y> de Bifnagá eílava inteiro , o que não teve 
» depois que o Idalcan lhe tomou algumas 
» Cidades , que vizinhavam com Goa; por- 
» que o commercio dos Canai ás fora fem- 

» ure 



Dec. VIL Liv. I. Cap. X. 91 

» pre mais proveitoíb emcommum , que to- 
» dos. » Depois de todos votarem nifto lar- 
gamente , o fez oVilo-Rey por derradeiro, 
e diííe » que lhe parecia bem dar-fe-lhe o 
» Mealecan , e todo o favor que foífe necef- 
» fario pêra fua paífagem ; mas não que fe 
» metteíle na liga oRey deBifnagá, porque 
» como era muito poderofo , logo havia de 
» querer lançar mão dos Reynos do Decan ; 
» e que pela ventura lhe crefeeria a cubica 
» de fe tomar a fazer fenhor da Ilha de Goa , 
» ( que era a mais eftimada , e religiofa cou- 
)>fa, que os Canarás fempre tiveram.) Que 
))o poder dos conjurados era tamanho, que 
» bailava pêra tudo íèm mais ajuda. E que 
)) fe fe achaífe naquelle jogo o Rey de Bif- 
)> nagá , toda a honra havia de ficar fua, pe- 
)> lo poder que trazia; e que não vinha bem 
)> aos Portuguezes , pelo credito em que ef- 
» tavam , que lhes era neceflario fuflentar. )> 
Tantas coufas diííe fobre ifto , que conven- 
ceo a todos , eaííentáram, que fe déííem al- 
guns Pormguezes aos Capitães da liga pêra 
os ajudarem. Eíla refoluçao foi a total per- 
dição daquella jornada ; porque tanto que o 
Idaican foi avifado de todo aquelle nego- 
cio, e queElRey de Bifnagá ficava fora da 
liga , logo lhe mandou Embaixadores a lhe 
pedir foccorro contra os alevantados , com- 
xnettendo-lhe grandes partidos , que elle ac- 

cei- 



92 ASIÀ de Diogo de Couto 

ceitou , quando fe vio engeitado da outra par- 
te. AiTentado aquelle negocio , defpedio o 
Vifo-Rey o Embaixador com os apontamen- 
tos do que fe lhe havia de conceder , que 
eram os feguintes. 

» Que tanto que os Capitães tomaflem 
» em Pondá poffe de Mealecan , logo lhe en- 
» tregariam as Tanadarias do Concan pêra as 
» prover de Capitães , e que começariam logo 
» as terras a render peraElPvey de Portugal. 

» Que todas as coufas que eftavam af- 
» fentadas nas pazes paliadas ficafíem no ef- 
» tado em que eílavam , fem fe innovar cou- 
» fa alguma nellas. 

Chegado efte Enviado a Bilgao , onde 
eftava And Maluco com os conjurados, af- 
íignáram os contratos , e os tornaram a man- 
dar ao Vifo-Rey , com outros que conti- 
nham o feguinte. 

» Que o Vifo-Rey alevantaria na Cida- 
» de de Goa a Mealecan por Rey de Vi- 
» fapôr , e que em pefíba o iria entregar a 
» Calabatecan dentro em Pondá, porque alli 
» o havia de efperar com dez mil homens , 
» e que dalli o havia de levar a Anel Malu- 
» co , e aos conjurados onde eftiveílem. 

Defpedido eíle Embaixador , ficaram el- 
les ajuntando fuás gentes ; e o Vifo-Rey tam- 
bém como teve efte recado , fez feus prepa- 
ramentos pêra aquella jornada. 

CA.- 



Década VIL Liv. I. 93 

CAPITULO XI. 

De como o Vifo-Rey D. Pedro Majcarenhas 
alevantou Mealecan for Rey de Vifapôr : 
e dos contratos que com elle fez : e de 
comopajjou a P onda, e o entregou aCa- 
labatecan. 

TEndo o Vifo-Rey preftes , e negocia- 
das as coufas que pertendia pêra aquel- 
la jornada , que determinava fazer com gran- 
de mageftade , porque era muito vao , e gran- 
diofo , ordenou hum dia pêra o auto do a- 
levantamento do Mealecan em Rey , e deo 
recado aos Vereadores , pêra que com todos 
os moradores fe achaífem preíentes , o mais 
cuftofamente que pudeíTem ; e que ordenai- 
fem todas as feitas poíliveis pêra obrigarem 
muito áquelle Rey , com que haviam de fi- 
car tendo tanta vizinhança, e amizade. Eo 
meímo pedio a todos os Capitães , e Fidal- 
gos. Tinha o Vifo-Rey mandado ordenar 
no terreiro do Paço hum formo fo cadafalfo , 
toldado todo por lima , e elle todo alcati- 
fado , e guarnecido de pannos de ouro , e 
fedas , e o terreiro todo enramado , e em- 
bandeirado , e pelas janellas muitos inftru- 
mcntos alegres , e guerreiros ; e elle pêra 
fua peífoa tinha mandado fazer grandes opas 
de borcados ricos , e todos os feus criados , 

c 



94 ÁSIA de Diogo de Couto 

e guarda vertidos muito cuílofamente. E pa* 
ra El Rey Mealecan tinha mandado fazer mui- 
tas Cabayas de borcado a feu modo , e de 
veludos de cores , de efcarlaras finas , e qua- 
tro cavallos formoíiílimcs guarnecidos á gi- 
neta de jaezes de prata dourados , com ca- 
parazões riquiífimamente broslados. Ao dia 
aprazado abalou o Vifo-Rey de fua cafa a- 
companhado de todos os Fidalgos, e Cida- 
dãos a cavallo , todos tão ricamente traja- 
dos , que foi coufá muito pêra ver. E em 
fua companhia muita fomma de trombetas , 
charamelías , e atabales ; e com efta pompa 
chegou ás cafas do Mealecan , que já eílava 
efperando por elle a cavallo com dous filhos 
ieus , e muitos criados ; e tomando-o o Vi* 
fo Rey á fua mão direita, o levou comíigo 
até o cadafalfo , onde fe fubíram , e aflen- 
táram cada Jium em fua cadeira , debaixo de 
hum muito rico , e formofo docel de bor- 
cado , e alii o alevantou por Rey de Vifa- 
pôr , e de todo o Decan , conforme a feu 
coítume; o que fefez com muitos inftrumen- 
tos , e falvas de artilheria, e muitas fedas, 
momos , e invenções , que a Cidade lhe ti- 
nha ordenado. Foi efte auto feito com a 
mor mageftade , e folemnidade que podia fer, 
e com tão grande concurfo de gente , Mou- 
ros , e Gentios, que não cabiam pela Cida- 
de. Acabado efte auto , fez o Vifo-Rey com 

aquel- 



D BC. VIL Liv. I. Cap. XI. 9? 

aquelle Rey novos contratos , que o Secre- 
tario doEítado aprefentou , queElRey com 
íeus filhos aííignou , cuja íubítancia era o fe- 
guinte. 

» Que elle dava , e doava a EIRey de 
» Portugal , e a todos íeus iucceííbres, daquel- 
» le dia pêra todo fempre , as terras firmes de 
)> Salfcte , e Bardes , e todo o Concan com 
» fuás Alfandegas , Tanadarias , e jurdições. 

» Que as fortalezas de Pondá , Banda , 
» e Curale fe entregariam logo a Capitães 
» Portuguezes , tanto que elle foíTe entregue 
» a Calabatecan. 

» Que ficariam em Goa fua mulher , e 
)> filhos em reféns , até fe fegurarem as cou- 
» fas do Bala gate. 

)> Que todos os mais concertos , que efta- 
» vam feitos com Anel Maluco, fe guarda- 
)> riam muito inteiramente. 

» E que elle Mealecan depois deeftarno 
» Reyno , poderia mandar levar deGoaviu- 
» te cavalíos forros dos direitos, e dous mil 
» pardáos de fazendas , e brincos , fem pa- 
» garem direitos , nem lagimas. » 

Aílignados eílcs contratos, tornou oVi- 
fo-Rey a levar EJRey para íua cafa , e co- 
meçou a preparar as coufas pêra a paílagem , 
mandando ajuntar toda agente de armas que 
havia na Ilha de Goa , e nas mais circumvi- 
zinhas, edeo recado aos Capitães pêra ajun* 

ta- 



96 ÁSIA de Diogo de Couto 

tarem a foldadefca toda de Goa , e ao Ca- 
pitão da Cidade , pêra que eílivefle preftes , 
e apparelhado com todos os moradores de 
cavallo. Ordenado ifto tudo , mandou o Vi- 
fo-Rey ao Tanadar mór Anronio Ferrão , 
que com todos os piaes Gentios , e Chriítãos 
le paiTaíTe da outra banda do paífo de Sant- 
iago , porque ao outro dia fe havia de aba- 
lar , como fez , e partio de Goa nefta or- 
dem. 

Os Capitães das bandeiras da foldadef- 
ca , que eram finco , ( Martim Affonfo de 
Miranda , D. Fernando de Monroy , Dom 
Antão de Noronha , Baílião de Sá , e Fer- 
não Martins Freire , ) foram diante com fua 
foldadefca , que feriam perto de três mil ho- 
mens ; e logo apôs eiles abalou o Vifo-Rey 
de Goa , e tomou Mealecan , novo Pvey , á 
fua mão direita. Hia o Vifo-Rey veílido de 
huma opa roífagante de borcado alto com 
muitas pontas de pedraria , e fobre os h om- 
bros hum muito rico , e formofo colar de 
pedraria , huma efpada , e adaga de ouro ef- 
ínaltada. Levava diante de íi a fua guarda 
com fua libré de cores , e no meio o feu 
Capitão da guarda-, e mais atrás doze for- 
mofos ginetes ajaezados de ouro , e prata > 
com telizes dedamafco de cores, franjados 
de ouro , e detrás delles o feu Eftribeiro ri- 
camente veílido j mais atrás féis Porteiros de 

maf- 



Dec. VIL Liv. I. Cai>. XI. 97 

mafTas de prata , e quatro de canas ; e de- 
trás de todos o feu Veador ; e detrás dclle 
hum Rey de Armas de Portugal , com hu- 
ma opa rica, e no peito as armas Reaes em 
huma lamina de ouro grande ; e diante de 
tudo ifto hiam atabales, trombetas , e cha- 
ramelas , e outros inftrumentos. Detrás do 
Vifo-Rcy hia Gafpar de Mello Capitão da 
Cidade 5 com duzentos moradores de for- 
roofos ginetes , e armados cie fortes , e ga- 
lantes armas. 

Com eíta mageílade chegou ao Paffo de 
Sant-Iago , onde fe apofentou aquella noi- 
te , e a outro dia defpedio os Capitães das 
bandeiras , e Gafpar de Mello Capitão da 
Cidade , com todos os moradores , por Ca- 
pitão geral de todo aquelle exercito , e com 
elles hum Capitão do Rey novo, pêra irem 
tomar pofle da fortaleza dePondá, e elpe- 
rarem alli até elie chegar. Eíles Capitães paf- 
fáram á outra banda , e foram marchando 
pêra Pondá ; e antes de chegarem á fortale- 
za , lhes fahio hum Capitão , chamado Mea- 
]e , que eftava nella da mão do Idalcan , que 
não quiz entrar na liga; e com duzentos de 
cavallo efcolhidos veio commetter a rtofia 
dianteira , e travaram huma arrezoada efca- 
ramuça , em que os noííos lhes derribaram 
dezefete , e feriram muitos , e com efte to- 
que fe foram recolhendo j e não fe fiando 
CQuto.Tom.IKPJ. G da 



98 ÁSIA de Diogo de Couto 

da fortaleza , deíviando-fe delia, fe foram 
pêra o cerrão : os noííos chegaram á forta- 
leza , que acharam defpejada , e fora delia 
affentáram fuás tendas , e fe valaram á ro- 
da ; e o Capitão Gafpar de Mello partio a 
gente toda em quatro quartos pêra vigiarem 
de noite. 

Aqui aconteceo hum cafo de muito en- 
fadamento , e que houvera de dar grande 
trabalho ao Eftado; e foi eíle. Hia na com- 
panhia Francifco Barreto , que não quiz le- 
var bandeira , porque efperou que Gafpar de 
Mello (que era feu tio) lhe largaJTe o go- 
verno de toda a gente de pé, e que ficaífe 
elle com a de cavallo , e elle aífim lho pe- 
dio ; mas não lho quiz conceder , porque 
cntendeo que os Capitães das companhias o 
não haviam de confentir. E como elle Fi- 
dalgo era homem naturalmente arrogante, 
amigo de honra , e demandar, aquella noi- 
te fahio a roldar os quartos , e acaba va-fe 
o primeiro que vigiava D. Fernando de Mon- 
roy , ( que me contou ifto , ) e perguntou aos 
foldados, quem lhe fuccedia , que lhe di£ 
feram , que Martim Affonfo de Miranda ; e 
deípedindo hum pagem , lhe mandou por el- 
le dizer , que vieííe vigiar. Martim Affonfo 
eftava-fe já armando pêra fe ir vigiar , quan- 
do efte pagem chegou , e em lhe dando o 
recado de Francifco Barreto , tomou-fe tan- 
to 



Dec. VIL Liv. L Cap. XI. 99 

to diflb , que fe tornou a defarmar > e lan- 
çar na cama , e deo recado aos feus »que 
» fe outra vez tornaíTe alguém com outro re- 
» cado , o não acordaflem - y » e affim o fize- 
ram , porque Francifco Barreto tornou ale- 
gundar ; e foi a coufa de feição , que ficou 
D. Fernando de Monroy vigiando ambos os 
quartos. 

Ao outro dia pela manhã , eftando os Ca- 
pitães aflentados ao foalheiro em converfa- 
çao , chegou o Martim Aífonfo de Miran- 
da, armado em huma coura de laminas, hu- 
ma gineta na mão , e fallou a todos. Fran- 
cifco Barreto , que eftava alli, quiz galan- 
tear fobre elle fazer vigiar dous quartos a 
D. Fernando de Monroy ; mas como Mar- 
tim Affonfo hia enfadado , e tomado , fof- 
freo-lhe mal as galanterias ; e affim de pa- 
lavra em palavra chegaram a fedefeompor, 
e a levar mãos ás armas , ao que acudio to- 
do o exercito , e fe repartio em dous ban- 
dos. Gafpar de Mello , Capitão geral , acu- 
dio áquclle negocio ; emettendo-fe nomeio 
d 5 ambos 5 liou-fe com elles ; e como era á 
porta da fortaleza , e elle homem muito gran- 
de , e forçofo , aos impuxões os foi metten- 
do dentro , e fechou fobre íl as portas , e 
defpedio hum correio com huma carta ao 
Vifo-Rey , em que lhe dava conta do nego- 
cio. Efta carta lhe deram já de noite j e ven- 
G ii do 



ioo ÁSIA de Diogo de Couto 

do a importância docafo, íe padòu logo a 
Gaçaim , onde efíava por Tanadar André 
Gorjão , e com elJe, e com poucos de ília 
guarda , e criados fe foi pelo rio aílima a 
Derubate ; e dahi em huma faca andeira par- 
tio pêra Pondá , onde chegou á meia noi- 
te; centrando na fortaleza , mandou vir per- 
ante íi aquelles Fidalgos , e os reprendeo. 
E fallando primeiro com Francifco Barreto , 
Jhe dilfe : » Se quer vós , Senhor, que foís 
» hum Fidalgo , de quem EIRey confia a In- 
» dia , em tal tempo , e em terra de infiéis 
afazerdes eíla união? Que conta haveis de 
» dar a EIRey de coufa tão mal feita , co- 
» mo foi pordes hoje a índia em balanço ?> 
E fallando com Martim Aífonfo de Miran- 
da , o reprendeo também afperamente 3 mas 
com palavras graves , e muito honradas , 
(porque de todas aquellas três partes , que o 
grão Capitão Gonçalo Fernandes de Córdo- 
va punha ao que havia de governar , que 
são, fer clemente , ter mão larga , e boca 
prudente ; efta he a mais neceíTaria que to- 
das , porque com taes palavras me pode hum 
Vifo-Rey reprender , ou negar huma coufa , 
que lho agradeça tanto } como íè ma dera. ) 
O Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas os fez 
logo amigos , ficando o reíto da noite na for- 
taleza , e pela manhã fe partio pêra o PaíTo 
de Sant-Iago* onde ficava o Rey novo. 

Al- 



De€. VIL Liv. I. Cap.XI. iot 

Alli fe deteve três dias até lhe vir reca- 
do, que era chegado Calabatecan , a quem 
havia de entregar EIRey ; pelo que logo pal- 
iou da outra banda , onde os nofíos Capi- 
tães o efperavam com tendas armadas. Alli 
fe aífentou o Vifo-Rey debaixo de humas 
arvores, e com elle EIRey , cada hum em 
fua cadeira rica , em fima de formofas al- 
catifas ; e aífim da Cidade, como dos paf- 
fos todos da Ilha , houve todo aquelle dia 
grandes falvas de artilheria , e o meímo fs 
fez no exercito. Eftando aífim , chegou hum 
Capitão dedous mil cavallos , que o Cala- 
batecan mandava pêra acompanhar EIRey 
até Pondá ; e defcendo-fe , chegou ao Vi- 
fo-Rey com as mãos cruzadas , e lhe fez feu 
acatamento , e depois fe poz de joelhos di- 
ante de EIRey , e com as mãos no chão lhe 
rnetteo a cabeça antre as pernas , em final 
de lua fujeição , como antre elles fe coíluma. 
Levava eíte Capitão as mangas da Cabaya , 
que eram largas , com huma fomma de pa- 
godes de ouro , moeda do Balagate , que 
cada huma valerá quinhentos reis ; e ao abai- 
xar que fez, fe lhe efpaiháram todos pelas 
alcatifas ; e depois de alevantado , foram 
recolhidos pelos pagens do Viíb-Rey , fo- 
bre o que houve algumas rebatinhas , que 
também deram gofto. Coílumavam os Mou- 
ros neítes Reynos iílo ? deixarem aquelle di- 

nhei- 



102 ÁSIA de Diogo de Couto 

nheiro aos pés de feu Rey em final devaf- 
fallagem. 

Feito ido , abalou o Vifo-Rey com to- 
da aquella mageítade Real pera Pondá , e 
fora da fortaleza acharam Calabatecan , que 
aflim a cavallo fez fua cortezia aEiP^ey, e 
o Vifo-Rey fe agazalhou com EIRey , e 
Calabatecan , ficando fora o mais exercito ; 
o noíío com as coitas na porta da fortale- 
za , e o dos Mouros hum pouco defviado , 
tendo aquella noite muito grande vigia. Ao 
outro dia fez o Vifo-Rey entrega do Mea- 
lecan a Calabatecan , do que mandou fazer 
hum auto pelo Secretario , em que elles , e 
os Capitães Mouros fe aífignáram ; e depois 
deram todos a menagem nas mãos de EI- 
Rey , conforme a feu coftume 5 e fizeram feus 
juramentos , e folemnidades. Ao outro dia 
fe defpedio EIRey do Vifo-Rey , e elle lhe 
deo hum Capitão com cem foldados pera o 
irem fervindo , e acompanhando até Vifa- 
pôr. O Calabatecan levou EIRey a huma 
aldêa , que eftava adiante , pera alli efperar 
recado do Anel Maluco , a quem defpedio 
logo correio com cartas de tudo o que era 
paflado. O Vifo-Rey deixou na fortaleza de 
Pondá a D. Antão de Noronha com feis- 
centos foldados com feus Capitães , pera lhes 
darem mezas ; e Coge Cemaçadim , com 
gente decavailo pera andar quietando asal- 

dê- 



Dec. VIL Liv. I. Cap. XII. 103 

dèas , e povoações. E por fe achar abala- 
do do trabalho daquelle caminho, fe reco- 
lheo pêra Goa, fem acabar de concluir nas 
coufas do Concan. 

CAPITULO XII. 

De como faleceo o Vifo-Rey D. Pedro Maf- 
carenhas : e das partes , e qualida- 
des de Jua pejfoa. 

CHegado o Vifo-Rey a Goa , fe deitou 
logo em cama , por vir muito mal dií- 
poílo ; e como era de fetenta annos , idade 
mais pêra orepoufo, que pêra o trabalho, 
foi-fe logo achando mal , e a declarar-fe- 
ihe huma febrezinha lenta j e affirmava-fe, 
que lhe nàfcêra do trabalho daquella noite, 
que acudio a Pondá ás differenças daquelles 
dous Fidalgos. Em fim, a febre apertou com 
elle de feição , que começaram os Médicos 
a defconfiar , e difleram ao feu Confeflbr, 
que fizeíle com elle , que trataífe das cou- 
fas de fua alma ; o que lhe elle diíTe com 
palavras muito prudentes , e de muita con- 
íblação, que lhe elle agradeceo , dando lo- 
go de mão a todas as coufas, e ferecolheo 
com elle, fazendo feu teítamento muito de 
vagar , ordenando todas fuás coufas muito 
bem ; depois tomou os Divinos Sacramen- 
tos da Eucariíjtia , e Extrema- Unção , e fez 

to- 



104 ÁSIA de Diogo de Couto 

todos os mais autos de Catholico Chriílão, 
e bom penitente. 

Depois de tudo ifto feito , e elle muito 
confolado , e conforme com a vontade de 
Deos , fentindo-fe no cabo , mandou cha- 
mar Francifco Barreto; e chegado elle, lhe 
difTe , que fe aíTentaffe em huma cadeira de 
eftado , que tinha ao longo da cama ; o que 
elle não quiz fazer ; e depois de porfiar hum 
pouco , lhe diíTe: » AíFentai-vos , Senhor, 
» neíTa cadeira , que o quer affim S. A. , e 
» vós lho mereceis,» e então feaífentou; e 
o Vifo-Rey praticou com elle fó algumas 
couías , e lhe pedio » que tanto que noíTo 
)> Senhor o levaíTe pêra íi , recolheíTe íeus 
» criados, que ficavam defagazalhados , por- 
» que não tivera tempo de lhes fazer bem.» 
Francifco Barreto lhe refpondeo » que Dcos 
)> noíTo Senhor lhe daria faude pêra os ^go- 
» vernar a todos , o que elle eftimaria mais 
» que todas as governanças ; e que quando 
» elle diíTo foíTe fervido , elle faria o que lhe 
» devia; » e com iíto lhe diííe outras pala- 
vras muito graves , moftrando muito gran- 
de fentimento de o vernaquelle eflado. Era 
ifto aos quinze dias do mez de Junho de 
quinhentos e fincoenta e finco annos , e aos 
dezefeis faleçeo com muitas moftras de ver- 
dadeiro Chriílão , e de arrependido pecca- 
dor , e com grande mágoa , e dor de to- 
dos , 



Dec. VIL Liv. I. Cap. XIL iojT 

dos, tendo governado nove mezes. Abrio- 
fe leu teftamento, e achou-fe mandar, que 
oenterraflem na Sé de Goa, e que feus of- 
fos foflem depois levados pêra o Reyno ; e 
aífím o levaram a íepultar com amor pom- 
pa funeral que podia fer , e fe lhe fizeram 
íeus Officios , e fahimentos com grande fo- 
lemnidade , e triíleza de todos. Nefte auto 
aífillíram todos os Fidalgos, e Vereadores, 
veílidos de dó. 

Era D.Pedro Mafcarenhas filho doCa- 
x pitão dos ginetes D. Fernão Martins Maf- 
carenhas. Foi Eílribeiro mor de EIRey Dom 
João , e depois vendeo eíle cargo ao fegun- 
do Conde da Vidigueira; e conta* fe deile h li- 
ma coufa que lhe diíTe , que fe lhe notou 
a grande vaidade , e foi, que perguntando- 
lhe o Conde , quando lhe comprou o car- 
go , pelas obrigações deile , lhe refpondè- 
ra , que pelas não querer faber lho vendia. 
Foi depois General das galés do Reyno : 
nefte cargo cobrou nome de muito bom Ca- 
pi ao. Depois o mandou EIRey por Embai- 
xador a Alemanha a coufas muito impor- 
tantes, ondeefteve alguns annos com amor 
cafa , e apparato que todos os Embaixado- 
res , que até então houve , e ficou por fua 
prudência , authoridade , liberalidade , e to- 
das as mais partes , muito querido do Im- 
perador Carlos Quinto , e muito acredita- 
do 



io6 ÁSIA de Diogo de Couto 

do com todos os Potentados de Alemã- 
nha. 

Depois foi por Embaixador a Roma , e 
de lá trouxe os Padres da Companhia ao 
Reyno , (como na quinta Década no Cap. I. 
do VIII. Liv. temos dito , ) e cobrou em to- 
das eftas coufas tanto credito com EIRey , 
que quando ordenou cafa ao Principe Dom 
João feu filho , lho deo por Mordomo mor > 
e lhe entregou todo o governo de fua cafa ; 
porque quiz EIRey que tiveffe feu filho mui- 
to grande refpeito á fua idade , e muita au- 
thoridade. Foi caiado duas vezes , e de ne- 
nhuma teve filhos : a primeira com Dona 
Filippa Henriques , filha de Simão de Mi- 
randa , Camareiro mor do Cardeal D, Hen- 
rique ; e a fegunda com Dona Helena , fi- 
lha de Pêro Mafcarenhas, o das differenças 
com Lopo Vaz de Sampaio , que era feu 
fobrinho , filho de feu primo com irmão João 
Mafcarenhas , e neto de D. Nuno Mafcare- 
nhas , irmão do Capitão dos ginetes Dom 
Fernando Martins Mafcarenhas , pai deíle 
D.Pedro; epor não haver filhos de nenhu- 
ma deitas mulheres , perfilharam elle , e fua 
mulher Dona Helena ?*!afcarenhas a Dom 
João Mafcarenhas, (o que foi Capitão de 
Dio , quando foi o fegundo cerco,) e a 
Dona Helena fua mulher, filha de D. João 
de Caítelio-branco , que era fobrinha dam- 

bOS y 



Dec. VIL Liv. I. Cap. XII. 107 

bos ; porque D. João Mafcarenhas era fi- 
lho de feu irmão D. Nuno Mafcarenhas , 
e D. Helena filha de D. Catharina , filha de 
Pêro Mafcarenhas , que foi cafada com efte 
D. João de Caftello-branco , filho de Dom 
Martinho de Caftello-branco , Conde de Vil- 
la-Nova. 

Foi efte Vifo-Rey homem mui inteiro 
na juftiça ; e tanto que chegou á índia , man- 
dou fazer hum rol de todos os cargos que 
eítavam vagos , e que hiam vagando ; e man- 
dou lançar pregões , que todos os criados 
deElRey, que na índia andavam fervindo, 
acudifíem com feus papeis pêra os defpacha^ 
rem, o que todos fizeram , e elle osfoidef- 
pachando conforme a feus ferviços , fem dar 
cargo algum a criado feu ; porque dizia , que 
os cargos que eram de EiRey, não fe ha- 
viam de dar fenao a feus criados que o fer- 
viam , e não aos dos Vifo-Reys , a quem 
não tinha obrigação alguma. 

Aqui fe conta delle huma coufa igual a 
todas as fuás , e foi , que andando elle def- 
pachando eftes homens, lhe aprefentou feus 
papeis hum criado de hum valido do Rey- 
no, que havia três annos que andava na ín- 
dia : efte tardando-lhe o defpacho , appare- 
ceo muitas vezes diante do Vifo-Rey , (por 
lhe vir muito encommendado do amo , ) e lhe 
fez luas lembranças , e de huma lhe difle: 

»v. 



io8 ÁSIA de Diogo de Couto 

»V. S. não medefpacha, fendo eu hum ho- 
» mem , que ha três annos que ando neítas 
» partes íervindo , e que mereço me façam 
» mercê?» O Vifo-Rey mui fevero lhe re- 
fpondeo : » Ando agora defpachando os de 
»vime, e quinze annos ; como chegar aos 
» de três , então terei lembrança de vós. » 

Eftando hum dia no tronco fazendo au- 
diência aos prezos , e vindo diante delíe hum , 
que trazia hum grilhão nos pés por dividas 
de EIRey, lhediíTe » que havia muito que 
» alli eíhva prezo daquella maneira , por- 
» que devia a EIRey huma quantia de di- 
» nheiro , e que EiRey lhe devia muito mais , 
» mas que lho não queriam defeontar, ele- 
» var em conta. » Perguntando o Vifo-Rey 
pelo cafo , e fabendo fer verdade , mandou 
chamar logo o Veador da Fazenda , e lhe 
diffe: )> Aquelle grilhão que aquelle homem 
atem, tirai-lho , e lancem-no a mim, e a 
»vós , já que fomos Officiaes de EIRey, e 
» não queremos pagar fuás dividas ; » e lo- 
go mandou foltar o homem , e que fe lhe 
abateífe a divida da que fe lhe devia. Fol- 
gou muito de ouvir os homens, e de lhes 
fazer juftiça. Todos os dias tinha certas ho- 
ras limitadas pêra ouvir partes , o que fa- 
zia deitado em huma camilha. 

Tanto que entrou na índia , quiz tirar 
alguns coítumes , fòbre o que fez algumas 

leis, 



Dec. VIL Liv.-.I. Cap. XII. 109 

leis 5 que não foi poííivel guardarem-fe. Hu- 
ma delias era , defender os fombreiros altos 
de tomar a chuva , e Sol , por efcufar aos 
homens os gaílos dos que lhos traziam ; e 
elle também os não trouxe, e uíou dehuns 
fombreiros de lã com feus cordões , a que 
fe chamaram muito tempo delle os Mafca- 
renhas. Depois vendo que o Sol era intole- 
rável, e as chuvas defeompafíadas , tornou 
a largar os fombreiros altos , com condi- 
ção , que os trouxeflem eícravos próprios , 
cativos , por forrarem as deípezas dos que 
os trazem , que são Gentios , a que com- 
mummente chamam bois de fombreiro. Quiz 
defender os cavallos aos Fidalgos , pelas deí- 
pezas que lhes faziam ; o que lhe mandava 
EIRey também em feu regimento , e que fó 
os cafados os tiveíTem ; mas atalhou-o a 
morte. 

Defendeo que nenhuma mulher pública 
andaífe em Palanquim , íenão defeuberta. Or- 
denou na fortaleza de Ormuz feiscentos fol- 
dados , com obrigação de dormirem dentro 
na fortaleza (ifto no inverno , ) mas que no 
verão não pagariam mais de quatrocentos. 
Em Baçaim ordenou outros feiscentos pêra 
fegurança daquella fortaleza pelas alterações 
de Cambaya. Em Chaul cento. E fez regi- 
mento , que os Capitães das fortalezas não 
tiyeífem outras vigias , fenão os foldados 

da 



lio ÁSIA de Diogo de Couto 

da obrigação delias , porque coftumavam a 
pagar muitas vigias fantafticas ; e que no nú- 
mero dos da obrigação das fortalezas en- 
traíTem os homens que lhe davam a elles, 
a fora outras coufas muito bem ordenadas. 
E em tudo viveo tão puro, e morreo com 
tantas moftras de contrição , que fe pode crer 
que eftará no Ceo gozando do galardão de 
íuas obras. 




DE* 



III 







DÉCADA SÉTIMA. 
LIVRO II. 

Da Hiítoria da índia. 

■ ■ ■■ ■■ I. ■■ ■ ■ ■■ ,1 I I— — w— » 

CAPITULO I. 

De como por morte do Vifo-Rey Z>. Pear o 
Mafcarenhas fuccedeo na governança da 
Índia Francifco Barreto : e da Armada 
que fe queimou na ribeira de EIRey com 
hum foguete. 

EStando o corpo do Vifo-Rey Dom 
Pedro Mafcarenhas em íeu araude , 
pofto naCapella mór da Sé de Goa, 
mandou o Chanceller trazer o cofre das fuc- 
cefsões , que eftavam em S. Francifco ; e 
abrindo-o, tirou a primeira, e a entregou ao 
Secretario, que a amoftrouem alto ao povo, 
pêra que vifle que eftava cerrada, e íellada 
com o fello pendente das Armas Reaes , e 
a deo ao Capitão da Cidade, que naquelle 

au- 



ih ÁSIA de Diogo de Couto 

auto prefídia , pêra que com o Ouvidor ge- 
ral a examinaflèm bem, feeftava inteira , e 
fem ie nella tocar. Feito ido , a abrio o Se- 
cretario , e a foi Jendo alto, eachou-fe nel- 
la Francifco Barreto , que eílava prefenre vef- 
tido dedo; eem o nomeando, foi logo le- 
vado nos braços de todos , e na Capella mór 
deo a menagem do Eftado da índia nas mãos 
do Capitão da Cidade Gafpar de Mello, na 
forma coftumada naquelles Eílados. 

Feito efte auto , que foi aos dezefeis de 
Junho deite anno de fincoenta e finco , en- 
terraram o corpo de D. Pedro Mafcarenhas , 
e o Governador Francifco Barreto fe reco- 
Iheo a S. Francifco, até lhe defpejarem os 
Paços ; e a primeira coufa que fez , foi man- 
dar chamar todos os criados , que foram do 
Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas , e os cpn- 
folou , e recolheo em fua cafa, e fefervio 
delies nos rnefmos cargos, que o Vifo-Rey 
lhes tinha dados. E todos os officios , de que 
tinha providas algumas pelToas , os confir- 
mou , e nada revogou do que o Vifo-Rey 
tinha feito. 

E não havendo mais que oito dias, que 
o Governador eílava de porte , fuccedeo a 
mor perda, e defavcntura , que nunca a ín- 
dia teve, e foi , que vefpera de S.João, já 
de noite , lançou hum homem hum fogue- 
te de humss cafas , junto a nòíTa Senhora do 

Ro- 



Dec. VII. Liv. II. Cap. I. 113 

fario , que o demónio encaminhou pêra a 
ribeira das Armadas, e foi cahir íbbre o ga- 
leão S. Mattheus , que eílava varado , cu- 
berto de palha, que tomou logo fogo com 
tanta braveza, que foiefpanto ; e como es- 
tava a balra vento dos mais galeões, que es- 
tavam varados também junto delle, e o ven- 
to era rijo , foi-fe pegando o fogo de ga- 
leão em galeão com tamanho eftrondo , e ter- 
remoto, que parecia que fe aílblava toda a 
Cidade. O Governador vendo aqueííe in- 
cendio , acudio á ribeira com todos os Fi- 
dalgos, moradores, e foldadefca que havia, 
e arremettêram a defcubrir todos os galeões 
que eíiavam varados , e aos mais que efta- 
vam no mar , que dos que o fogo tinha to- 
mado poíTe, não houve remédio algum. O 
Governador andava como doudo , mettido 
pela agua , e pela lama , e ainda antre o& 
galeões que ardiam, arrifcado ás labaredas, 
e traves que cahiam , por remediar que a 
mais Armada fe não perdeíTe. Eneíle traba- 
lho o feguíram todos ; e houve foldados , 
que commettéram neíte negocio grandes te- 
meridades , mettendo-fe nos galeões que ar- 
diam , por verem fe lhe podiam valer; mas 
nada aproveitou , e muitos fe recolheram mui- 
to queimados,, e abrazados , a quem o Go- 
vernador abraçou, e a hum lançou a cadeia 
que trazia ao pefcoco, e a outro deo o feu 
Couto.Tom.IT.PX H an- 



U4 ÁSIA de Diogo de Couto 

annel de íinete , e a outros outras peças , 
que depois mandou refgatar ; eaífim andava 
animando a todos por acudirem ao trabalho, 
promettendo mercês , que depois fez ; e foi 
eíía diligencia que poz , tal , que foi parte 
pêra fe falvar toda a mais Armada. Durou 
eíte incêndio toda aquella noite , e o dia íe- 
guinte, em que fe queimaram, e confumí- 
ram leis galeões Reaes , quatro caravelas , 
e duas formofas galés , coufa que todos ien- 
tíram muito , porque era a mor força que 
o Eítado tinha. O Governador o fendo em 
eílremo , e houve aquella defaventura em 
principio de feu governo, por grande moi- 
na lua, e mandou tirar grandes devaflas , e 
inquirições febre aquelle negocio , e deitar 
grandes pregões, em que perdoava gra vi (li- 
mos cafos aquém lhe deícubrifle quem quei- 
mara a Armada, fem nunca fe poder faber 
coufa alguma ; pelo que houve muitas lu£ 
peitas , e juizos temerários , mas a verdade 
foi , que hum Joáo Rodrigues , de alcunha 
o Calandar ( que lie o mefmo que peregri- 
no ) foi o que lançou o foguete que difle- 
mos , fem ter tal tenção, e depois que vio 
o incêndio fe paflbti pêra o Balagate , e dahi 
pêra Cambaya , onde andou muitos annos 
como peregrino , e dalli cobrou a alcunha 
Calandar. Foi eíte homem depois caiado 
em Ormuz , onde vive© muitos annos. O Go- 

ver- 



Dec. VII. Liv. II. Cap. I. n? 

vernador fempre fufpeitou que aquelle da- 
mno fora mandado fazer por ordem do Idal- 
can , pelo favor que fe deo a Mealecan ; e 
receando-fe da mais Armada , armou mui- 
tas manchuas pêra andarem de longo da Ar- 
mada , e da ribeira , vigiando ; e ordenou , 
que os Capitães da foldadeíca vigiaííem de 
noite aos quartos na ribeira , pêra acudirem 
aonde foffe neccíTario : eílcs Capitães vigia- 
vam huns na varanda da Igreja das Chagas, 
e outros nas terecenas dos maftos. Em to- 
do eíle inverno houve muitos banquetes , jo- 
gos , e paííatempos , e aos Toldados íe de- 
ram mezas muito abaíladas. 

Como o Governador Francifco Barreto 
era homem de grande animo , determinou 
de em feu tempo tornar a renovar aquella 
perda , e fazer outros tantos navios , como 
os que fe queimaram , e logo mandou ar- 
mar algumas quilhas, e trazer dos rios vi- 
zinhos muita madeira pêra começar a pôr 
as mãos á obra , como fez , pedindo á Ci- 
dade ajuda pêra iíTo , que lhe ella deo , e 
acudio com o que pode; e os Brâmanes de 
Goa tomaram á fua conta fazerem huma ga- 
lé , que foi huma das mais formofas peças 
que vi , e delles tomou o nome , e fe cha- 
mou a galé Bramana ; e os mais Gentios ou- 
rives, e mercadores deram de ferviço pêra 
ajuda de outra galé dous mil e quinhentos 
H ii par- 



nó ÁSIA de Diogo de Couto 

pardáos. O Governador por não perder tem- 
po 5 defpedio correios pêra as fortalezas do 
Norte, Chaul, e Baçaim , eeícreveo áquel- 
les Vereadores , e povo , que o quizellem 
ajudar com alguma coufa pêra a reforma- 
ção da Armada ; » o que lhe elles concede- 
ram com muito goílo ; e paflbu Provisões 
pêra os Capitães , e Feitores daquellas for- 
talezas , pêra que dos rendimentos delias ar- 
maíTem logo em cada huma delias dous ga- 
leões , e duas caravellas : eeícreveo aqsOfr 
ficiaes de Dio , que mandaííèm pêra iílo áquel- 
Jes Feitores todo o dinheiro que as nãos de 
Meca rèndeíTem em Agoílo ; e tal prcfla 
deo em feu tempo , que quando chegou Dorn 
Conrtantino (que lhe fuccedeo) lhe tornou 
a entregar outras tantas vaíilhas novas , co- 
mo adiante melhor diremos, E de fe que- 
rer poupar a fazenda de EIRey , fuccede 
muitas vezes mor perda delia \ porque de fe 
não determinarem os Vifo-Reys, e Gover- 
nadores a fazerem humas terecenas , ao me- 
nos pêra galés , e navios de remo , ficam to- 
dos os invernos arrifcados a outra íemelhan- 
Jte defaventura , gaitando- fe pelo miúdo mui- 
ro mais do que efta obra poderia cuftar ; 
porque todos os annos íe defpendem , fó em 
cubrir toda a Armada de palha , dous mil 
pardáos ; e em tantos annos com eítas def- 
pezas fe poderiam ter feitas dez terecenas. 

E 



Dec. VIL Liv. II. Cap. L 117 

E poílo que os galeões não caibão nellas , 
por tao barato havemos cubrirem-fe de re- 
lha , como de palha ; porque ainda que fe 
quebrem muitas , não deve de montar a me- 
tade do que cada anno fe gaita na palha , a 
fora o rifco que correm , que vai tanto , 
quanto o feguro de toda a Armada : mas 
eíles defcuidos , e defordens (que aílim lhe 
podemos chamar ) nafcem de alguns Viíb- 
Reys , e Governadores eftarem com olho 
em feus refpeitos particulares , e rambem de 
outros, quando fuccedem , não quererem aca- 
bar as obras, que os que acabaram tinham 
começadas; porque a poucos vimos parecer 
bem as coufas daquelies , e muitas, em que 
tinham feito grandes defpezas , fe perderam 
por efíe refpeito , que não apontamos por 
não infamarmos a alguém, 

CAPITULO II. 

De como o Governador Francifco Barreto 
pajfou a F onda afever com o Mealecani 
e de como proveo as Tanadarias âaquel- 
las partes , e mandou D. Antão de No- 
ronha a tomar pojje de todo Concan. 

DEpois de Mealecan ficar entregue a Ca* 
labatecan , (como atrás temos dito no 
Cap. X. doí. Liv. ,) fe recolheo pêra aquel* 
Ja aldeia a efperar o recado de Anel Malu- 
co ; 



n8 ÁSIA de Diogo de Couto 

co ; e em quanto alli eíleve , lhe acudiram 
todos os moradores das povoações ao redor 
ao verem , e darem fua obediência como a 
feu Rey. O Governador Francifco Barreto , 
tendo por novas eftar ainda alli , defpedio 
hum correio com huma carta , em que lhe 
pedia » f e não abalaífe, porque lhe impor- 
)> tava muito verem-fe ; a que elle refpondeo , 
» que o faria , e que vifle onde queria que 
» o efperaífe ; » com o que fe começou a pre- 
parar , e ordenar fua paíTagem , que quiz fof- 
le com tamanha mageítade , como a do Vi- 
Íò-Rey D. Pedro Mafcarenhas , por não di- 
minuir na authoridade do Eftado. E mandou 
logo ajuntar toda a foldadelca em íeis ban- 
deiras , cujos Capitães eram , Martim AfFon- 
fo de Miranda , (de quem o Governador de* 
pois de fueceder na governança fe moílrou 
mais amigo , que de todos os Fidalgos , por- 
que não cuidaífe que pelos defgoftos paf- 
íados lhe ficara tendo má vontade ) Álvaro 
Paes de Soto-Maior , D.Fernando deMon- 
roy , Jeronymo Barreto Rolirh , Pantaleao 
de Sá , e D. Álvaro da Silveira, Ç deo re- 
cado ao Capitão da Cidade , que já era Jor- 
ge de Mendoça ,( porque Gafpar de Mello 
eftava prezo, por huma affronta que dentro 
na Camará fez a hum Vereador, ) pêra que 
ajuntaíTe toda agente decavallo que na ter- 
ra havia y e ao Tanadar mor, pêra que tam- 
bém 



Dec- VIL Liv. IL Cap. II. 119 

bem o fizcfle á gente das Ilhas , e aldeias 
de ília obrigação. 

Preíles tudo , paíTou o Governador a Ga- 
çairn , e dalli mandou recado a Mealecan , 
e ao Accedecan , que oefperafrem no cam- 
po de Pondá , porque ahi o iria ver, e vi- 
fitar ; e mandou logo paílar toda a gen- 
te a Salfcte, e elle fe paílou por derradei- 
ro , e de lá paíTou á terra firme pelo lugar 
de Durubate , (por onde D. Pedro Maíca- 
renhas paíTou aquella noite , ) e foi marchan- 
do pêra Pondá , com o mefmo apparato , 
poder , e na mefma ordem , que o Vifo-Rey 
rinha paíTado. Neíla ordem chegaram a Pon- 
dá , onde eíiava D. Antão de Noronha , que 
o fahio a receber com toda a gente que ti- 
nha, pofta em armas, e lhe deo grandes fal- 
vas de arcabuzaria , e fez outras muitas fei- 
tas ; e aquelle dia fe apofentou o Governa- 
dor na fortaleza. Ao outro dia chegou Mea- 
lecan com o Calabatecan , e mais Capitães 
que com elle citavam, O Governador o fa- 
hio a receber fora , e depois de paíTadas as 
cortezias ordinárias , fe recolheram em ten- 
das , que pêra iíTo eftavam armadas , e tor- 
naram de novo a confirmar os contratos, que 
citavam aflentados.com o Vifo-Pvey D. Pe- 
dro Mafcarenhas , e lhe paíTou EIRey Pro- 
visões pêra logo lhe entregarem as forta- 
lezas de Banda > Curale, e outras daquellas 

par- 



120 ÁSIA de Diogo de Couto 

? artes ; porque das íujeitas á jurdiçao de 
onda , logo mandou tomar pofle , e as pro- 
veo de Tanadares , e recebedores , Mouros , 
e Gentios. 

Paliadas eftas coufas , fe defpedio Mea- 
lecan do Governador , e fe tornou pêra a 
mefma aldeia a cfperar o recado de Anel Ma- 
luco , pêra começar a fubir o Gate. O Go- 
vernador ficou dando ordem ao recebimen- 
to das Tanadarias da jurdiçao de Pondá , 
que eram doze , Autrúos , Pernas , Batiga- 
cao , Àjuré , Soppá , Orubá , Daúr , Atiga- 
rá , Chandovari , Sanguifler , Armarbarca , 
e Dobati. Todas eftas arrendou a Gentios 
naturaes , aífim , e da mefma maneira que 
corriam em tempo dos Mouros , íem inno- 
var coufa alguma nos Foraes , antes lhes fez 
muitos favores, e deo muitas liberdades; e 
deixou hum Jorge Manhas , de fua obriga- 
ção , por recebedor de todas , com poderes 
de Veador da Fazenda, e lhe ordenou mil 
piaes da terra, com feus Naiques, reparti- 
dos por todas as Tanadarias pêra fua fegu- 
rança , e pêra o favor da arrecadação de luas 
rendas. 

Feito ifto , em que gaftou alguns dias , 
deixou na fortaleza D. Fernando de Mon- 
roy com quinhentos homens , e recolheo 
D. Antão de Noronha pêra o mandar to- 
mar poífe das Tanadarias de Banda , Cura- 

1*. 



Dec. VIL Liv. IL Cap. II. 121 

le , e das mais daquellas parres , e de todo 
o mais Concan , que era o mais importan- 
te , e partio-fe pêra Goa. 

Chegado áquella Cidade , defpedio Jo- 
go D. Antão de Noronha pêra o Concan 
com quinhentos Toldados Portuguezes , de- 
baixo de três bandeiras , cujos Capitães eram , 
Jorge de Moura , João Lopes Leitão , e hum 
foão Pereira , que , fegundo nos parece , era 
Chriííovão Pereira Homem , e lhedeo mais 
oitenta moradores de cavailo , muito bem 
concertados, e por Capitão do campo hum 
D. João , que foi Mouro , e em Goa fe fez 
Chriftão , (hum dos principaes Capitães do 
Reyno do Idaican , bom Caval-leiro , e mui- 
to fiel,) e lhe deo mil e quinhentos piães 
com feus Naiques. Nefta jornada paliaram 
com D. Antão de Noronha per aventurei- 
ros muitos Fidalgos , e Cavalleiros ; e dos 
que pude faber os nomes , são os feguintes. 

D. Luiz de Almeida , filho de D. Lo* 
po de Almeida, Alexandre de Soufa, que 
foi Capitão de Chaul , Álvaro Pereira , Ruy 
Barreto , João de Mello da Cunha , Jerony- 
mo de Soufa , Diogo de Vaíconcellos ? Luiz 
Pinto Pimentel , Garcia Queimado , Vafco 
Corrêa , e outros. E pêra Tanadar da for- 
taleza de Banda hia António Ferrão , Tana- 
dar mor de Goa , e pêra Juiz da Alfande- 
ga António do Valle. Preíles D. Antão de 

No- 



122 ÁSIA de Diogo de Couto 

Noronha , paííou-fe a Bardes , e dalli tomou 
o caminho de Banda , onde o deixaremos , 
porque he neceffario continuarmos com ou- 
tras coufas , que nefte tempo fuccedêram. 

CAPITULO III. 

Dos recados que pajfdram antre D, Diogo 

de Noronha , Capitão de Dio , e Me li que 
Xeque jobre a Alfandega : e de ou- 
tras muitas coufas que Juc cederam. 

A Trás no Cap. IX. do I. Liv. dêmos 
conta de como Tartacan deitou fora 
das terras de Dio ao Abiícan , e de como 
deixara por Governador naquelias partes que 
elle poíluia ; a Meiique Xeque Guzarate. Efte 
como fe vio alli com o poder , e mando , 
começou logo a querer puxar por ametade 
do rendimento da Alfandega de Dio , aflim 
como a arrecadava o Abiícan ; e aflim o 
mandou tratar com D. Diogo de Noronha , 
de quem fe tinha medrado grande fervidor , 
e amigo, aprefentando-lhe o direito que nif- 
fo tinha. D. Diogo de Noronha vendo fua 
tenção , e requerimento , o mandou defen- 
ganar, afHrmando-lhe » que na Ilha de Dio 
» ninguém havia deter quinhão, porque to- 
ada era deElRey de Portugal : que fe con- 
» tenta fle Tartacan de pofluir as terras , que 
» foram do Abifcan. » Sobre ifto correram 

mui- 



Dec. VIL Liv. II. Cai». III. 123 

muitos recados , íem D. Diogo de Noronha 
deferir a elles ; antes mandou fortificar os 
paíTos da Ilha , e proveo os rios de man- 
chuas , porque lhe não pudeíTe entrar na Ilha. 
Vendo o Melique Xeque quão duro o acha- 
va naquelle negocio, o mandou commetter 
em fegredo com cem mil Madrafaris , que 
cada hum tem dòus larins de prata, que vi- 
nham a montar íincoenta mil patacoes , pê- 
ra que lhe largaííe amctade da Alfandega ; 
e que quando nao quizelTe , que lhe fazia a 
faber, que havia de mandar carregar as náos 
de Cambaya na Cidade deGogá, e que lhe 
havia de impedir todas as fazendas , que por 
terra coííumavam ir a Dio , com o que a- 
queiia Alfandega fentiíle maior perda , que 
fe lhe largara ametade do feu rendimento. 

Efte ponto poz D. Diogo de Noronha 
em coníelho das peííbas principaes que al- 
li eftavam, e quaíi todos foram de parecer 
» que fe havia de largar a ametade da AI- 
»fandega, antes que perdella toda; porque 
» fe Melique Xeque fazia o que dizia , fica- 
3> ria aquella Alfandega deferta , e que o 
» tempo podia depois oíFerecer outra occa- 
» fiao, em que fe lançafle mão da Alfandega.» 
Depois de votarem todos fobre ifto largo, 
o fez D. Diogo de Noronha , e diffe : » Que 
» elle era de contrario parecer de todos ; 
» porque quanto aos inconvenientes que a- 

jxm- 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

» ponravam , eram de feição , que Te podiam 
» atalhar. E que irem as náos de Cambaya 
» carregar a Gogá ; iíío fe lhe poderia de* 
» fender com a Armada , que elle logo lan- 
» caria ao mar, E que quanto ás fazendas y 
» que vinham por terra , era o que impor- 
»tava menos , que fó as náos de Meca era 
» o íubítancial, e que eflas forçado haviam 
» de vir a Dio , fem lho ninguém poder de- 
» fender. E que quando iíío não tivera re- 
» médio , ainda era de parecer, que antes 
» EIRey de Portugal perdefle três, ou qua- 
)> tro annos todo o rendimento daquelia Al- 
» fandega , que dar nella quinhão a EIRey 
» de Cambava ; porque tendo- fe efte nego- 
» cio aílim em tezo , fe enfadariam os Mou- 
» ros da guerra , c os mercadores chamariam 
* pelos proveitos , que todos os de Cambaya 
» tinham de trazerem fuás fazendas áquella 
» Ilha , e que forçado fe haviam de tornar 
» a largar , e que aílim ficaria toda aquella 
» Alfandega livre pêra o Elhdo. » Ifto pa- 
receo tão bem a todos , que fe tornaram a 
retratar , e feguíram o parecer do Capitão 
D. Diogo de Noronha. 

Com efta refoluçao mandou D. Diogo 
de Noronha dizer ao Melique Xeque » que 
» quanto ao dinheiro com que o commettia , 
)> não era elle homem que por nenhum the- 
» fouro da vida foífe contra o ferviço de feu 

)) Rev : 



Dec. VII. Liv. II. Cap. Hl. 12? 

»Rey : que dos ameaços que lhe fazia lhe 
»dava pouco, porque elle iria em peflba a 
» Gogá , e traria as náos que lá carregaíTem , 
» e as tomaria por perdidas. E que a Jhe de- 
» fender a paííagem por terra ás fazendas , 
)) folgaria muito , porque então o obrigaria 
)) ao ir bufear aNovaNager, onde eftava , 
» e lançailo fora daqueilas terras , que elle 
» tinha tyrannizadas a ElPvey de Cambaya , 
)) e tornar-lhas a entregar. » Com efla reipof- 
ta começou Melique Xeque a lançar gente 
de guerra da outra banda , e a defender a 
palíagem aos mercadores ; o que fabido por 
. D. Diogo de Noronha , defpedio hum Lou- 
renço Pereira por Embaixador a EIRey de 
Cambaya a pedir-lhe que houveííe por bem 
ficar aquella Alfandega toda a EIRey de 
Portugal , porque aífim lhe vinha melhor > 
que comer ametade delia aquelle alevanta- 
do , porque era bem enfraquecello no cabe- 
dal , pêra fe não poder fuflentar em fua ty- 
rannia ; porque quando EIRey fe quizeíTe 
reuituir em feuEflado, o pudene fazer com 
mais facilidade. Eíle homem chegou a Cam- 
bayetc , e achou o Rey moço em poder do 
Ithimitican , porque havia pouco tinha fu- 
gido de Madre Maluco pêra eile , por ar- 
rufos que teve; mascumprio-fe niílo aquel- 
le adajo Italiano , que diz ? fugio da certa , 
e foi darn/isbrazasj affim .cite fugio do que 

o 



nó ÁSIA de Diogo de Couto 

o fez Rey , e o trazia na liberdade que que- 
ria , pêra outro tyranno que logo o fechou , 
e encerrou de feição , que ninguém o via , 
e elle ficou governando tudo , ficando o mo- 
ço como huma eílatua , fem eleição de que- 
rer em nada ; porque como o tinha debai- 
xo de fua chave , fazia tudo o que queria , 
e mandava foberanamente , com capa de di- 
zer, queElRey o mandava aífim ; e por der- 
radeiro lhe veio a tirar o Reyno , e entre- 
gallo aos Magores , como adiante na nona 
Década fe verá. 

Chegado Lourenço Pereira ao Ithimiti- 
can , deo-lhe o recado de D. Diogo de No- 
ronha , que elle logo ouvio bem , e mandou 
que fe detivefle até faber a vontade de El- 
Rey i e aílim ficou muitos dias fem lhe da- 
rem refpoíla , porque era homem de pouco 
negocio , e tacanho ; e os homens que hão 
de negociar com Mouros , o hão de fazer 
com a mão aberta. Enão To o não ouviram 
fem iífo , mas ainda o trataram mal , como 
fizeram a efte. Do que D. Diogo de Noro- 
nha foi logo informado, e deípedio Diogo 
Pereira , ( hum Cavaileiro honrado de lua 
obrigação , homem prudente , liberal , e gran- 
diolo no trato de fua peíloa, e cafa,) que 
chegando á Corte , achou o Lourenço Pe- 
reira muito mal tratado do Ithimitican , por- 
que lhe fez muitas , ç públicas defcortezias , 

e 



Dec. VII. Liv. II. Cap. III. 127 

e eftava como reteudo , e encurralado. Dio- 
go Pereira fe vio com o Ithimitican , e tra- 
tou com elle o negocio que levava a car- 
go , fobre o que levou differente modo , e 
com tudo iíTo não lhe refpondeo a propo- 
ílto , de que aviíbu a D. Diogo de Noro- 
nha pelo mefmo Lourenço Pereira , que fe 
foi pêra Dio ; e fabendo das avexaçoes que 
lhe lá fizeram , tomou-fe ciiíTo tanto , que lo- 
go determinou de fe vingar do Ithimitican. 
E tendo noticia certa , que tinha huma náo 
fua em Meca com cartaz , que lhe paflbu 
o Vifo-Pvey D. Pedro Maícarenhas , pêra 
ir defcarrcgar em Gogá , e que fe efperava 
por ella na entrada de Agcfto, determinou 
de fe fatisfazer nella ; pêra o que armou qua- 
tro navios, de que deo a Capitania a Duar- 
te Paim de Mello, e lhe deo por regimen- 
to , que fe fofle pôr na enceada dos Rabãos ; 
e que como aquella náo appareceíTe , a fizef- 
fe arribar a Dio, fem tocar nella, nem fa- 
zer força alguma , nem affronta aos merca- 
dores. Duarte Paim de Mello fe foi pêra 
aquella enceada , onde efteve poucos dias , 
porque logo houve vifla da náo , que era 
muito formofa , e vinha a mais rica que 
nunca partio do porto dejudá; porque co- 
mo era forra , embarcáram-íe nella todos 
os mercadores groílos com todo o ouro , 
prata , coral , e outras fazendas ricas , da 

mor 



128 ÁSIA de Diogo de Couto 

mor parte das outras náos , que eram obri- 
gadas a ir a Dio a pagar os direitos. O Duar- 
te Paira vendo a náo , a foi demandar , e a 
fez amainar, e recolheo dentro o Capitão, 
eOfficiaes, fem haver alteração alguma da 
fua parte ; porque como vinham com fegu- 
ro , não houve refufar. E como os teve no 
feu navio, os quietou, e fegurou , affirman- 
do-lhes , que o Capitão de Dio não queria 
mais , que fazer com elies certa diligencia ; 
e indo feu caminho, foram furgir na bahia 
de Dio , e todos os navios á roda delia* 
D. Diogo de Noronha mandou recado a 
Duarte Paim de Mello, que não deixaíTe en- 
trar, nem fahir delia peflba alguma até feu 
recado, porque nãofoííe a Cambaya algum 
primeiro que o feu. E no mefmo dia def- 
pedio hum correio muito apreífado , com nu- 
ma carta pêra Diogo Pereira , em que man- 
dava , que tanto que aquella viííe, logo de 
noite fe partiílè defconhecido pêra Cambaye- 
te, onde acharia hum navio, e que fe em- 
barca (Te logo nelle , e fe viefle pêra Dio. 
Efte correio chegou á Cidade de Amadabá 
em poucos dias , e deo a carta a Diogo Pe- 
reira , que tanto que a vio , diílimulou com 
o negocio ; e em anoitecendo , fe veftio em 
trajos de Mouro , e poílo em hum formo- 
fo cavallo fe partio pêra Cambayete, onde 
chegou ao outro dia ; e achando o navio 

que 



Dec. VIL Liv. II. Gap. III. 129 

que lhe D. Diogo de Noronha tinha man* 
dado , fe embarcou nelle , e fe veio pêra 
Dio. D. Diogo de Noronha , tanto que o 
teve lá j mandou defcarregar a náo em mui* 
tas embarcações ^ fem dar pelos requerimen* 
tos que os mercadores lhe fizeram ; e que fe 
metteflem todas as fazendas na Alfandega 
pêra pagarem os direitos , o que lhe man- 
dou fazer com favor, dizendo aos mercado- 
res , que aífas de amizade lhes fazia em lhes 
não tomar a náo com todo o recheio. Ven- 
do os mercadores que não tinham remédio , 
antes de fe lhes bullir nas fazendas , man- 
daram commetter a D. Diogo de Noronha 
com dez mil Venezianos de ferviço , e que 
os deixafle ir pêra Gogá ; mas como Dom 
Diogo de Noronha o não vencia interefle 
algum , pelejou com quem lhe levou o re- 
cado. Pagos os direitos , lhes tornaram fuás 
fazendas , e lhes deo licença pêra fe irem 
pêra Gogá , dizendo aos mercadores » que 
» diííeíTem ao Ithimitican , que foubeífe tra- 
»tarbem os homens, que lhe lá mandavam 
» os Capitães de Dio. » Iílo fentio elle mui- 
to, mas foffreo; porque como tinha tyran- 
nizado o Reyno , não quiz bullir em cou- 
fa alguma por não perder tudo. Efte anno 
rendeo a Alfandega de Dio com eíla gran- 
de pancada , cento e vinte mil pardáos , de 
que fe fizeram as defpezas da fortaleza ; e 
CoHto.Tom.IF.P.I. I man- 



130 ÁSIA de Diogo de Couto 

mandou depois ao Governador Franciíco 
Barreto feífenta mil pardáos. 

Pouco depois difto na entrada de Setem- 
bro , entrou pela barra de Dio dentro hu- 
ma fuíla muito embandeirada , atirando mui- 
tas bombardadas. A efte tempo andava Donv 
Diogo de Noronha pafleando em huma va- 
randa fobre ornar; e vendo entrar o navio 
eom tanto alvoroço, (como tinha por car- 
tas do inverno, que o Vifo-Rey D, Pedro 
Mafcarenhas ficava mal ,) houve que era 
morto, e que elle fuccedia na governança, 
porque a merecia a EIRey. O Capitão do 
navio entrou na fortaleza , e lhe pedio ai- 
viçaras , que Franciíco Barreto era Gover- 
nador da índia , por morte do Vifo-Rey 
D. Pedi o Mafcarenhas , e lhedeo cartas do 
mefmo Governador. D. Diogo de Noronha 
ouvindo aquillo que não elperava , ficou 
íobrefaltado; e chamando pelos criados, man- 
dou que lhe levalTem o Capitão do navio 
ao tronco , porque fora com tamanho alvo- 
roço dar-lhe novas da morte de hum tão 
honrado Fidalgo , como o Vifo-Rey Dom 
Pedro Mafcarenhas ; e aílim foi levado o po- 
bre homem nos ares , e mettido no tronco. 
D. Diogo de Noronha deitou as cartas do 
Governador por eífe chão , c começou a paf- 
fcar , e a dizer: » D. Diogo na índia , e 
a Francifco Barreto Governador delia ? ora 

» if- 



Dêc. VII. Liv. Ií. Cap. III. í^f 

» iílo he acabado : faze-te D. Diogo Cleri- 
» go i já que não preftas pêra nadaè » Depoiâ 
que fe andou defafFogando hum efpaço, cha- 
mou o Alcaide mór , e lhe mandou , qud 
íòltafíe o Capitão do navio > e que emban- 
deirafle a fortaleza i edefparaíTe aartilheria > 
e que feílejaíle aquelle doudo de Francifco 
Barreto , porque não queria que difleíTem * 
que de inveja o deixara de fazer ; e que El- 
Rey podia dar a lua governança a quem 
quizeííe* E tomando o dinheiro que tinha 
junto , ( que era os feíTenta mil pardáos que 
diflemos , ) o mandou embarcar iio mefmo 
navio, em companhia de outros > e refpon- 
deo ao Governador ás fuás cartas. Efte di- 
nheiro chegou a Goa depois das náos do 
Reyno, que o Governador feílejóu muito $ 
porque ihe foi a muito bom tempo ; e ef- 
creveo a D. Diogo de Noronha cartas che- 
ias de obrigações , e agradecimentos , dos 
muitos ferviços que tinha feitos aElReyna- 
quella fortaleza* Agora deixaremos hum pou- 
co eítas coufas , porque he neceífario con- 
tinuemos com as que fuccedêram neíle tem- 
po em Ceilão , primeiro que entremos na$ 
do verão* 



I ii CA- 



I32 ÁSIA de Diogo de Covto 

CAPITULO IV. 

Das coufas que fucceclêram em Ceilão : e 
dos ardis de que oMaãune ufoupera ini- 
mtzar Tribuli Pandar com os Portugue- 
ses : e de como depois Je concertou com 
elles pêra o deftruirem > como fizeram. 

FUgido Tribuli Pandar da prizao , em que 
D* Duarte o tinha , ( como já na fexta 
Década no Cap. XII. doLiv. X. fica dito,) 
foi-fe elle pôr no lugar de Bandale (depois 
que fez os damnos que diíTemos. ) O Madu- 
ne como era manhofo , e aquellas defaven- 
ças todas lhe ficavam cortadas á medida do 
que defejava , defpedio logo peíToas de re- 
cado a Tribuli Pandar , por quem o man- 
dou perfuadir a fe vingar das affrontas , que 
os Portuguezes lhe tinham feito, offerecen- 
do-lhe pêra iflò toda ajuda que quizeíTe , de 
gente, e dinheiro; o que lhe o Tribuli Pan- 
dar acceitou , e elle Jhe mandou feiscentos 
Chingalás com feus Modeliares ; e com a 
gente que mais ajuntou , começou a fazer 
muito grande guerra aos noíTos , e deítruio 
os lugares de Paneturé , Caleturé , Macú > 
Berberi, Galé , c Beligao , e derribou por 
elles todos os noflbs Templos , que os Fra- 
des de S. Franciíco cm todos eíles lugares 
tinham , e nelles feitos muitos Chriítaos com 

gran- 



Dec. VII. LiV. II. Ca?. IV. 133 

grande edificação , e exemplo de vida , re- 
cebendo alguns delles deita vez gloriofo mar- 
tyrio por mãos defte Bárbaro , que a nenhu* 
ma coufa perdoava ; e a muitos dos Chri- 
ftãos cativou , tratou mal , e ainda metteo 
a tormentos. Nefta conjunção chegou AfFon- 
fo Pereira de Lacerda (que atrás deixámos 
partido deCochim) pêra ir fueceder naquel- 
]a Capitania ; e depois de tomar poíTe del- 
ia , íabendo os grandes damnos , que o Tri- 
buli Pandar tinha feitos , tratou de lhe fa- 
zer toda a guerra que pudeíFe , pêra o que 
fez luas preparações. OMadune, que não 
, perdia occaíiao í tanto que vio o Tribuli Pan- 
dar bem homiziado com os Portuguezes , 
defpedio embaixadores a AfFonfo Pereira de 
Lacerda, por quem o mandou vifítar, eof- 
ferecer-lhe contra o Tribuli Pandar tudo o 
que lhe fofle neceflario ; o que AfFonfo Pe- 
reira de Lacerda lheacceitou, eagradeceo, 
fazendo antre ambos concertos , que cada 
hum por fua parte fizeíle guerra ao Tribu- 
li Pandar , e não levaíTem mão delia , até 
de todo o não deftruirem ; porque em quan- 
to fofle vivo, havia de dar trabalhos áquel- 
]a Ilha. Eftes concertos fe fizeram com con- 
dição, que fe arrecadariam pêra EIRey de 
Portugal os direitos da terra, e portos , que 
antigamente lhe pagavam , que o Madune 
lhe trazia ufurpados , e eram os feguintes : 

»Dos 



J34 ÁSIA de Diogo de Couto 

»Dos portos de Lição mil fanoes , de 
» Bel icote trezentos , as terras da Rainha três 
» mil e trezentos , as de Mapano fetecentos , 
» as de Muliara dous mil , o Regir dous mil 
» e quinhentos , o porto do Matual três mil 
a e trezentos e vinte , o de Columbo dous 
» mil 3 Paneturé quinhentos e felTenta , o por- 
» to de Maçú, Beligão, e Galé , e Chuça- 
is ri nove mil e fetecentos,» E aíTentáram mais, 
que o Capitão prendeíle o Camareiro mór 
do Rey da Cota , e feu cunhado Alaca , Mo- 
deliar, e hum filho do Cw^pitão preto, (que 
eram as três peflbas de que mais o Madu- 
ne fe temia , ) fazendo os Embaixadores crer 
ao Capitão , que eftes eram os induzidores 
das coufas doTribuli Pandar, que o favo* 
recêram nos damnos que tinha feito ; por-> 
que havia o Madune , que como não tivef- 
fe eftes contra íl , logo lhe feria muito fá- 
cil fazer-fe fenhor de toda a Ilha. 

Feitos todos eííes contratos á vontade do 
Madune , fem Affònfo Pereira de Lacerda 
entender fuás invenções , logo fe prepararam 
pêra profeguirem a guerra ; e o Capitão pren» 
deo as peííoas que o Madune pertendia , e 
o Camareiro mór mandou no começo do ve- 
rão pêra Goa, a quem o Governador Fran- 
cifco Barreto recebeobem, e o mandou en- 
tregar aos Frades de S. Francifco, onde es- 
teve , e lhe mandou dar todo o nççeííario^ 

c 



Dec. VII. Liv. II. Cap. IV. 135: 

e o trataram com tantos mimos , que o vie- 
ram a fazer Chriílao , e o bautizáram com 
grandes feftas , fendo o Governador Fran- 
cifco Barreto feu Padrinho, e lhe poz o feu 
nome ; e depois o tornou a mandar pêra Cei- 
lão com mimos , e honras. 

Adernados os contratos antre o Madu- 
ne, e Affonfo Pereira de Lacerda , defpe- 
dio o Madune hum filho feu baíhrdo, cha- 
mado Rajú, (que foi omór inimigo, eque 
mor trabalho deo áquella fortaleza que to- 
dos , e que lhe poz dous muito apertados 
cercos, hum fendo Capitão Manoel deSou- 
fa Coutinho , e outro João Corrêa de Bri- 
to , como na nona , e decima Década fe di- 
rá. ) EíteRajú com grande exercito foi con- 
tra oTribuli Pandar pela parte deCaleturé. 
Affonfo Pereira de Lacerda mandou Ruy 
Dias Pereira com duzentos homens, e An- 
tónio de Efpindola com cento , pêra irem 
cada hum por fua parte accommetter a Ci- 
dade de Palanda , onde o Tribuli Pandar 
eítava , porque o Rajii havia de ir por ou- 
tra parte , porque aííim lhe não pudeííe en- 
capar. Chegados todos a ella , aííentados 
feus exércitos , commettêram os noíTos a Ci- 
dade com muita determinação; e poílo que 
o Tribuli Pandar fe defendeo muito valo- 
rofamente , todavia ella foi entrada com mor- 
te de muitos de dentro y e o Tribuli Pandar 

ven- 



x^6 ÁSIA de Diogo de Couto 

vendo- fe perdido, teve modo com que eft, 
capou , e fugio pêra Tanavaré , e os nof* 
fos lhe entraram as cafas , ç cativaram íua 
mulher, que era filha do Madune , e havia 
pouco tinha recebido i e lhe tomaram todo 
o ferviço de fua cafa , e peflba , e com if* 
fo fe recolheram pêra Columbo , e o Rajú 
pêra Ceitavaca. OTribuliPandar não fe ha- 
vendo por feguro em Tanavaré , fe paííou 
ás fetç Corlas , até onde o Rajú depois o 
feguio, e lhe ficou pondo cerco muito de* 
vagar, como adiante fe verá. 

C AP1TULO V. 

J)e como hum Capitão Vegií, chamado Xi- 
midifotao , matou EIRey Brama , e fe 
apoderou do 'Reyno , e mandou matar Dio- 
go Soares de Mello : e de outras muitas 
coufas que fuccedêram* 

DEixámos as coufas de Pegú no Cap. 
IX. do VIL Liv. da fexta Década, em 
fe recolher o Brama de fobre a Cidade de 
Camambé , fem a poder tomar. E porque 
em todos eítes annos , que fe mettêram em 
meio atégora , fuccederam muitas coufas no^ 
taveis , que deixámos de contar , porque for- 
ram efpalhadas , nos pareceo bem recopilára- 
mos todas nefte Capitulo , enefte lugar, porf- 
^ue entram nellas alguns feitos famofos de 

Por» 



Dec. VIL Liv. II. Cap. V. 157 

Portuguezes , que não he bem fe percão , 
nem nós o façamos á ordem que levamos 
nefta hiftoria , que he contar as coufas alheias 
110 tempo do inverno , em que fomos en- 
trados. 

Pelo que fe ha de faber , que em quan- 
to o Brama andou conquiftando a Cidade de 
Sião, e de Camambé, fe alevantou cá em 
Pegu hum grande Capitão , chamado Ximin- 
do , e começou em fegredo a convocar gen- 
te , e a fe cartear com algumas Cidades prin- 
cipaes , pêra em quanto o Brama andaffe au- 
fente (cuidando que fofle devagar) fe ale- 
vantar com o Reyno. Antre eftas Cidades 
entrava também a de Pegu , que era a ca-* 
beça do Reyno , cujos moradores folgaram 
de elle tomar aquella empreza, por íer Pe- 
gu > e fe livrarem da fujçição dos Bramas; 
e vindo EIRey daquella jornada , em que 
o deixámos, chegou a Pegu, fem faber ain- 
da coufa alguma da conjuração , e fe foi met- 
ter na Cidade , e defpedio Diogo Soares dç 
Mello pêra fe ir aCofmim, que era oBan<- 
del , onde o navio do trato já era chegado 
pêra lhe fazer os direitos ; e com iíTp def- 
pedio feus Capitães , pêra que foílem defcan- 
çar. E ficando fó , e bem delcuidado , lhe 
deram novas , que o Ximindo ficava na Ci- 
dade de Cevadi , (que era poucas léguas , ) e 
Ijnjç na de Pegú havia alguma alteração, por^- 

que 



138 AS1A de Diogo de Couto 

que EIRey eftava na fortaleza , a huma par- 
te da Cidade, onde fe provêo, e fortificou 
muito bem ; e defpedio recado a Diogo Soa- 
res de Mello, pêra que fe tornaífe logo pê- 
ra e!le , e fez chamamento de alguns Capi- 
tães de mais perto. 

Efte recado tomou a Diogo Soares de 
Mello no Bandel , e logo com muita preíla 
ajuntou todos os Portuguezes que alli ha- 
via , e por todas as povoações daquelles rios , 
que feriam perto de duzentos , e fe foi pe- 
lo rio aífima pêra Pegú , achando já os ca- 
minhos quaíi impedidos por ordem do ale- 
vantado, de que eícapou por fua induílria , 
e esforço ; e chegado á Cidade , fe foi pe- 
la banda de fora demandar os Paços de EI- 
Rey , e entrou pelos pateos , a tempo que 
elle eftava em huma varanda ; e em o ven- 
do entrar, que o conheceo , fealevantou com 
grande alvoroço , e lhe difle de íima : » Ah 
» irmão , (porque aílim lhe chamava elle íèm- 
» pre , ) eu no meu Elefante , e tu no teu 
acavallo, venha todo o Mundo;» e fahin- 
do pêra fora , o recebeo com muitas honras , 
c o mandou agazalhar com todos os Portu- 
guezes dentro na fortaleza por fua guarda. 
Eaílirn todas as noites vigiavam cada quar- 
to vinte e finco Portuguezes na fua ante- 
câmara , onde EIRey todos os quartos os 
liia viíltar , e IHq dava grandes banquetes, 



Dec. VIL Liv. II. Cap. V. 139 

c dinheiro pêra jogarem , e elle eftava mui- 
tas vezes vendo o jogo , e aos que perdiam 
mandava dar mais dinheiro, 

E chegando-lhe os Capitães que tinha 
mandado chamar , foi bufcar o alevantado , 
dando a dianteira a Diogo Soares de Mel- 
lo com os Portuguezes todos. O Ximindo , 
que eftava na Cidade de Cevadi , em lhe 
dando o recado que o Brama o hia bufcar, 
fe fahio com todo o poder, e furtando-lhe 
a volta , deo fobre a Cidade de Pegú tão de 
fupito, que a entrou logo, porque os con- 
jurados lhe deram lugar pêra iflb , e a Rai- 
nha fe fechou no caftello com os feus or- 
dinários , e com alguns vinte Portuguezes 
que alli ficaram, e fe defenderam muito va- 
lorofamente do Ximindo , que bateo o caí- 
tello mui furiofamente ; e affirmavam, que 
hum Fidalgo Capitão do navio da viagem 
provera o alevantado de pólvora , e muni- 
ções pêra iflb. O Brama teve recado dillo 
pela poda ; e voltando a grande preíTa , che- 
gou á Cidade de Pegú, e fabendo-o o Xi- 
mindo , fe acolheo logo delia , e foi fugindo 
pêra os matos , já fem poder, porque todo 
fe lhe foi. EIRey fe deixou ficar fora fem 
querer entrar na Cidade , e mandou alguns 
Capitães que foífem dentro , e mataflem á 
efpada todos os moradores delia , mulheres , 
meninos , e ainda todos brutos animaes , por- 
que 



140 ÁSIA de Diogo de Couto 

que na Cidade traidora nem a elles fe ha- 
via de perdoar ; e que íb os que fe acolhef- 
fem ás cafas de Diogo Soares de Mello , 
(porque tinha alli feu fato, e criados,) fe 
lhes perdoaífe : o que os Capitães fizeram 
com tamanha crueza , e carniçaria , que foi 
eipanto. O Capitão Portuguez , que alli ef- 
tava com todos os que tinha em fua com- 
panhia, parece que tiveram avifo de Diogo 
Soares de Mello , e naquella revolta tive- 
ram tempo de fe acolherem ás fuás cafas , 
(que fe entulharam de gente , cafas, pateos , 
e até por fima dos telhados , e ainda por 
derredor das paredes da banda de fora , ) aon- 
de os Bramas não chegaram , porque lhe ti- 
nham tanto refpeito , que chegando á vifta 
das cafas de longe , todos os que hiam a 
cavallo , ou em Palanquim , logo fe apeavam 
por obediência ; efcapando mais de doze mil 
almas , que áquelle circuito fe acolheram , 
e tudo o mais até os cães , e gatos foram 
mettidos á efpada. 

Acabado eíle cruel facco , chamou o Bra- 
ma Diogo Soares de Mello , e lhe diífe , 
que foíTe com todos os Portuguezes , e que 
tomaflem na Cidade tudo o que quizeflem , 
porque a fazenda dos traidores razão era 
que fedéíTe aos leaes ; e mandou a hum Ca- 
pitão Brama , que lhe prendefle aquelle Ca- 
pitão Portuguez , que alli eítaya fazendo as 

via- 



Dec. VIL Liv. II. Cáp. V. 141 

viagens , pelo favor que dera a feus inimi- 
gos , cujo nome calamos por razões que a 
iíTo nos moveram, por não afFrontarmos fi- 
Jhos , e netos , que tem no Reyno bem hon- 
rados. Diogo Soares de Mello com os com- 
panheiros entraram pelas cafas , e tomaram 
o que puderam , e elle foi levado por pef- 
foas , que fabiam as cafas dos ricos ; e affir- 
ma-fe , que fó em pedraria tomara pêra íi 
perto de três milhões de ouro , e que os 
léus também houveram bom quinhão. Abai- 
tados elles , e fatisfeitos , mandou o Brama 
a todo feu exercito, que fofle faquear a Ci- 
dade , o que os Bramas fizeram , fem nella 
deixarem coufà alguma. Paliado ifto , man- 
dou EIRey queimar todos aquelles corpos 
mortos no campo em fogueiras mui gran- 
des , que pêra ifib fe fizeram ; e depois da 
Cidade limpa , e defpejada , entrou EIRey 
nella, efoi ver a Rainha ao caftello , e fez 
muitas mercês , e honras aos Portuguezes que 
a defenderam. Diogo Soares de Mello na- 
quelle alvoroço pedio de mercê a EIRey, 
que maradaííe foltar o Capitão Portuguez , 
que tinha prezo , .0 que lhe elle concedeo, 
ainda que contra lua vontade.Todas eftascou- 
fas fuecedêram defde a era de quarenta coi- 
to até a de lincoenta , em que EIRey fi- 
cou pacifico , e quieto. 

E na entrada da primavera fe foi recrear , 



142 ÁSIA de Diogo de Couto 

e defcançar dos trabalhos paíTados a huma 
Cidade muito freíca, chamada Saião , que 
eílá fobre aquelle formofo rio, de que era 
Senhor hum Pegú , que fe chamava Ximi de 
Satao , que he tanto como dizer Duque de 
Sátão ; que por aggravos que tinha de EI- 
Rey , e com a ambição que lhe entrou de 
fe fazer Rey, determinou de o matar, Eef- 
tando EIRey mui defeançado no campo , 
onde andava á caça , entrou de noite por 
huma janella , (com confentimento de fua 
guarda , que pêra iíío tinha peitado , ) e ás 
adagadas o matou , tendo reinado dezefete 
annos. E como elle tinha negociado aquil- 
lo de boa feição , com alguns Capitães da 
fua banda , logo fe apoderou das cafas de 
EIRey ; e de tal manha ufou , que lhe acu- 
diram os Pegús todos, por fuás liberdades, 
e o appellidáram porRey, e fahio dos Pa- 
ços a dar nos Bramas , que eftavam no ex- 
ercito pêra os matar a todos, Nefte tempo 
eftava também no arraial Diogo Soares de 
Mello com alguns Portuguezes , que EIRey 
nunca largava de íi ; e ouvindo nas fuás ten- 
das a revolta , acudio com os companheiros 
ás cafas de EIRey. Os da conjuração , que 
andavam já foltos , deram nelle, e lhe ma- 
taram três companheiros , e a elle feriram 
muito mal em hum braço ; e vendo a cou- 
fatão mal parada, puzeranvfe emcavaUos, 

e 



Dec. VII. Liv. II. Cap. V. 143 

e fe foram pêra a Cidade de Ová , onde 
eftava hum cunhado de EIRey , chamado 
Mandaragri. 

Era efte Mandaragri filho dehuma Ama 
de EIRey Brama , que lhecreára hum filho, 
que já era morto ; e como andava das por- 
tas a dentro , fem fe lhe fechar coufa algu- 
ma , e elle era mancebo muito nobre , e gen- 
til-homem , tratou amores com huma irmã 
de EIRey , também moça , e muito formo- 
f a ; e concertando- fe ambos, vieram a eíFe- 
íluar feus defejos. Mas receando o mance- 
bo que o vieííe ElPvey a faber , defappa- 
receo hum dia, efoi-fe pêra outros Reynos 
apartados ; e como neftas coufas o fegredo 
delias nunca dura muito , chegando aos ou- 
vidos de EIRey o máo recado da irmã , 
mandou-a prender , e que fe bufcafle o Man- 
daragri pelo Mundo todo , promettendo mui- 
to a quem lhe defcubriíTe aonde eílava : e 
affim mandou muitos Capitães , que fe ef- 
palhaflem por todos aquelles Reynos apôs 
elle. E como a paixão fempre tem termo, 
alguns grandes privados de EIRey , em o 
fentindo hum pouco brando, lhe pediram, 
e aconfelháram , que já que o máo recado 
era feito , devia de perdoar a fua irmã , e 
remediar aquillo com a cafar com o Man- 
daragri , e fazello grande Senhor em feus 
Reynos. Tantas coufas lhe diíleram neíle ca^ 

fo, 



144 ÁSIA de Diogo de Couto 

fo , que o abrandaram de todo, c mandoíi 
vir oMandaragri, (que logo fe defcubrio , ) 
e os cafou , e lhe deo titulo de Xemim , que 
he de Duque, e o trazia comíigo no exer- 
cito, muito mimoíb, e em lugar de filho > 
porque os não tinha. 

O Xemim de Sátão , que matou EIRey > 
depois que fe apoderou do exercito, abalou 
contra a Cidade de Pegú , e Diogo Soares 
de Mello com os Portuguezes o 1 ah iram a 
receber, e a reconhecer porRey; e ellelhe 
fez honras , e gazalhados , e o defpedio que 
fe fofíe pêra Pegú , onde elle todos os dias 
que alli efteve , depois que fugio do exer- 
cito , fempre governou ablblutamente tudo 
comoRey, e os Pegús lhe obedeceram co- 
mo eífe. O tyranno do Xemim de Sátão 
não quiz entrar na Cidade , porque lhe de- 
ram novas, que o outro Xemindo ( de que 
atrás falíamos ) depois de faber da morte de 
EIRey , ajuntara grandes exércitos , e que 
vinha muito poderoío em bufea delle , ap- 
pellidando-fe Rey de Pegú; pelo que com 
muita prefla ajuntou eftoutro Xemim de Sá- 
tão todo o poder que tinha , e o foi efpe* 
rar; e antes que fepartiíTe, mandou chamar 
Diogo Soares de Mello, que com todos os 
Portuguezes o folie acompanhar , o que el- 
le logo fez, E antes de chegar aonde efta- 
va o Xemim de Sátão , o levaram alguns 

Ca- 



Dec. VIL Liv. II. Cap. V. 145: 

Capitães no meio , e entraram com elle em 
huma varella , e alli o retiveram , dizendo- 
lhe , que mandafle bufcar feu filho , que fi- 
cava cm Pegú , pêra também ir naquella jor- 
nada. Diogo Soares de Mello , como era 
prudente, logo fe receou, e houve aquillo 
por ruim negocio , e defpedio hum Fernão 
Rodrigues , que hoje vive na Cidade de Goa , 
e ferve o officio de Modacadão dos Fara- 
zes , pêra que foífe chamar o filho , e di£ 
fefie aos Portuguezes , que eftavam em Pe- 
gú, que fepuzeíTem em cobro , porque ha- 
via ruins íinaes ; e áquelle Fidalgo Capitão 
da viagem lhe diflefíe , que já vira o que 
tanto defejava ; porque imaginou Diogo Soa- 
res de Mello , que elle o mexericara com o 
Xemim de Sátão. Fernão Rodrigues trouxe 
o filho de Diogo Soares de Mello ; e che- 
gando com elle á efcada da varella , onde 
o pai eftava , lhe tomaram os Pegús o ca- 
vallo , e o prenderam , e defpíram : o pai 
tanto que vio fazer aquella offenfa ao filho, 
dando-1 he a paixão , lançou mão de huma 
cana mocifla (a que na índia chamam bam- 
buz ) que alli eftava cheia de boninas , que 
ofFerecêram ao Pagode , e arremettendo com 
os Pegús , os levou ás pancadas diante de li ; 
e lançando a todos fora da varella , arre- 
metteo pêra fe fahir por outra porta; e fen- 
do em baixo, foi cercado, e atado com as 
Couto. Tom. ir. P. L K mãos 



146 ÀSIÀ de Diogo de Couto 

mãos detrás ; e hum daquelles algozes le- 
vantou hum luzente traçado pêra lhe cortar 
a cabeça; e vendo-o elle, difle a hum Ca- 
pitão , chamado Xemim da guedelha , gran- 
de feu amigo » que pois o queriam matar, 
» que fizeííe efperar hum pouco , e lhe fol- 
» taííe a mão direita , porque queria pedir a 
» Deos perdão de feus peccados \ » e Xemim 
da guedelha ofezaflim, mandando-lhe def- 
atar a mão direita ; e abaixando-fe elle em 
giolhos , tomou hum tijolo, (que havia al- 
li muitos , ) e com os olhos no Ceo deo com 
elle muitas pancadas nos peitos , com tanta 
força , que logo lhe arrebentou o Tangue , 
dizendo : Senhor , tibi foli peccavi ; e alli 
naquelle breve tempo fez muito alto huma 
confifsão de feus peccados em particular , di- 
zendo : Offendi-vos , Senhor , em tal , e em 
tal i e allim foi diícorrendo por todos a- 
quelles que lhe lembraram , com tantas la- 
grimas , e pancadas nos peitos , que moveo 
a todos a compaixão ; e naquelle aílo lhe 
deo hum verdugo por detrás hum tamanho 
golpe , que lhe deitou a cabeça fora dos hom- 
bros. E fegundo aquelles exteriores , pode- 
mos crer da mifericordia de Deos noíTo Se-» 
nhor que a haveria com elle. 

O filho, que atrás difíemos, foi tão di- 
tofo , que naquella revolta (quando o pai 
lançou ás pancadas a todos da varella) tor- 
nou 



Dec. VIL Liv. lí. Cap. V. 14? 

liou a cavalgar no cavallo ; e fem terem ten- 
to nelle, deocomfigoemPegú, ondefefou- 
be logo a morre de Diogo Soares de Mel- 
lo. PaíTados poucos dias depois diílo, foi o 
Xemim de Sátão bufcar o Xemindo ; e che- 
gando á vifta hum do outro , vieram a ba- 
talha , onde o Xemim de Saião foi desba- 
ratado , e prezo , e o Xemindo paíTou adi- 
ante , e entrou pela Cidade de Pegú triun- 
fando; e mandou levar por toda ella o Xe- 
mim de Sátão , aíiim atado , com pregoes 
que diziam, que aquelle era o traidor, que 
matara EIRey Brama* E indo elle naquelle 
tranfe , paíTando pelas caias que foram de 
Diogo Soares de Mello , pondo os olhos 
nellas, diííe alto: » Eu mereço efta morte, 
»e deshonra , porque mandei matar Diogo 
» Soares de Mello fem razão , e por más 
» informações. » E depois de todas eftas af- 
frontas , lhe cortaram também a cabeça. 



K u CA- 



148 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VI. 

De como Mandaragri , cunhado de EIRey 
Brama , veio com grandes exércitos Jò- 
bre Pegtí , e tornou a conquijlar aquela 
le Reyno : e das façanhas que os Por tu- 
guezes fizeram em defensão da fortale- 
za , onde a Rainha eftava : e do que fez 
o Mandaragri Rey de Pegtí, quando os 
'veio foc correr. 

DEíta vez ficou Xemindo Rey de Pegu 
até cite anno de fincoenta e finco em 
que andamos, que o Mandaragri, cunhado 
de EIRey Brama , (que, comodiíTemos, foi 
fugindo pêra a Cidade de Ová , ) tornou fo- 
bre eJIe ; porque os Regedores daquelle Rey- 
no o alevantáram por Rey , por fer caiado 
com a irmã de EIRey Brama , a quem de 
direito pertencia o Reyno. E vendo-íe elle 
potente , e fabendo das revoltas que em Pe- 
gú havia, ecomo o Xemindo matara aXe- 
mim de Satao , e fe intitulara Rey , ajun- 
tando grandes exércitos, entrou pelo Reyno 
de Pegú; e depois de ter muitos recontros 
com a gente do tyranno , vieram ambos a 
batalha , que foi muito cruel , e por fim del- 
ia ficou o Xemindo desbaratado de todo, e 
foi fugindo em trajos disfarçados pêra os 
mais apartados matos dos fins do Reyno. O 

"Man- 



Dec. VII. Liv. II. Cap. VI. 149 

Mandaragri , vencida a batalha, fe apoderou 
de todo o Reyno ; e como fe vio quieto , 
mandou lançar grandes pregões , que toda 
a peflba que lhe diíleííe onde eftava o Xe- 
mindo , e lhe défle ordem pêra o haver 
ás mãos , o faria grande Senhor em feus 
Reynos , e Eftados ; e tanta diligencia poz 
nifto , que o houve ás mãos por eíla ma- 
neira. 

Fugindo oXemindo, (comoaíTima dif- 
femos , ) fe foi pôr nos matos mais efeondi- 
dos , que havia nos fins do Reyno , e alli 
em trajos de lavrador fecafou com huma fi- 
lha de hum , que neftes matos vivia pobre- 
mente , onde começou agrangear ávida ro- 
çando , e femeando a terra , vivendo neíle 
eítado mais de dous annos. E parece que de- 
via de íer mui affeiçoado a fua mulher, por- 
que fe lhe defeubrio de todo. E ufando el- 
la da natureza das mulheres , ( que he não 
poderem acabar comfigo guardar fegredo em 
coufa alguma , ) deo conta a feu pai de quem 
elle era , que vencido logo do interefle que 
ElRey promettia a quem o deícubriffe , dif- 
íimulando fe foi a Pegú , e deo conta da- 
quelle negocio a ElRey , e fe lhe offereceo 
ao entregar , como fez. ElRey o mandou 
trazer diante de li pêra o conhecer ; e ven- 
do fer o próprio , o mandou alli logo ma- 
tar i e fobre fua vida , e morte fizeram os 

Pe- 



IjjTõ ÁSIA de Diogo de. Couto 

Pegus muitos Romances , que hoje em dia 
cantão em fuás feitas. 

E tornando a continuar com a ordem de 
nofía hiftoria : tanto que o Mandaragri fe vio 
fenhor do Reyno de Pegú , quiz obrigar aos 
naturaes ao amarem, com benefícios , amor, 
e mercçs ; e logo repartio os titulos todos ? 
e eftados com os fiihos dos que os poífuí* 
ram , fe eram já mortos ; e fe vivos, confir- 
mava-os nelles : e deo outros muitos de no- 
vo , e proveo nelles todos os officios , fem 
dar hum íô , nem terras , rendas , nem ou- 
tra coufa alguma a nenhum dos Bramas , que 
comíígo trouxe. Mas como a malícia dos Pe- 
gus he mui grande , e fua natureza altera- 
da , não fe quietaram com tudo ifto , antes 
começou logo a haver antre elles muitos tu- 
multos, a que o Brama acudio com o caf- 
tigo , abrazando Cidades , deftruindo povos , 
e mandando matar infinitos Pegus , e a to- 
dos os mais fez tirar as armas , e os inha- 
bilitou de todo; e pêra mais os domar, or- 
denou de fazer huma formofa Cidade pêra 
fua Corte , pegada á velha , a que poz lo- 
go as mãos , e começou a levantar os mu- 
ros de adobes em forma quadrada , e tão 
grande , que he efta Cidade huma das notá- 
veis coufas do Mundo ; de quina a quina 
tinha finco portas, e fobre cada huma hum 
formofo baluarte , e de hum a outro finco 

gua- 



Dec. VII. Liv. II. Cap. VI. 151 

guaritas , e a mandou cercar de huma mui 
fbrtnofa cava , de largura de hutn bom ti- 
ro de pedra , e de finco braças de fundo ; 
e no meio da Cidade fez apofento pêra íi 
de tanta mageftade , de cafas , lalas , varan- 
das , guaritas , pateos , e jardins , que era 
coula efpantofa , e todos cercados á roda de 
hum grofTo muro , e de outra funda , e for- 
mofa cava, cheias ambas da agua dos rios, 
que fez entrar , e fahir por ellas ; tudo iflo 
por ordem de Arquitectos Chins , que lhe 
fizeram os Paços pela forma dos do Rey da 
China , que elle mandou trazer daquelie Rey- 
no com grandes dadivas. Nefta obra traba- 
lharam osPegiís, e em outra de muita ma- 
geítade , que mandou logo fazer pêra os ter 
fopeados , como Faraó ao povo de Ifrael ; 
mas nem ifto bailava pêra os quietar, por- 
que cada dia havia entoe elles muitas altera- 
ções , a que elle acudia com rigor. 

Em fim, depois de ter quieto tudo , o 
melhor que pode , ajuntou grandes exérci- 
tos de hum milhão e feiscentos mil ho- 
mens de armas , pêra ir conquiílar alguns 
Reynos comarcãos , e deixou a mulher , e 
filhos na Cidade, e fortaleza velha , porque 
a nova ainda eftava imperfeita , e íè hia fa- 
zendo. Mettendo-fe por eííe certão , foi con- 
quiftando , e fenhoreando todos os Reynos 
<jue havia 7 até chegar aos eílremos do de 

Cau- 



rçz ÁSIA de Diogo de Couto 

Cauchi China , em que não quiz bullir , 
nem tocar ; e o Aitão da Cidade , que era 
o Governador, o mandou vifitar , e prover 
de mantimentos , e refrefco mui abundan- 
temente. Dalli voltou , levando comfigo mui- 
tos Chins, que fe quizeram vir com elle ; e 
defta vez ficou aquelle caminho aberto até 
hoje, E aílim daquellas Províncias todas vem 
todos os annos á Cidade de Pegú muitos 
mercadores groflbs com fazendas , almifcar , 
peças de fedas de differentes cores , e lavo- 
res , louça , e outras muitas coufas. E affim 
fe lhe affeiçoou o Brama , que tomou os 
Chins , que com elle quizeram ficar , por feus 
criados , e os fez muito honrados nos feus 
Reynos , que deixou naquelles queconquif- 
tou os mefmos Reys , fem querer delles mais , 
que o reconhecimento de vaíTallagem : fó o 
Reyno de Camboja, que fica antre Sião, e 
Cauchi China , não pode fenhorear por fer 
coufa grande , e o Rey muito poderofo. 

Em quanto elle andou neílas conquiftas , 
fealevantou outro tyranno, e foi com hum 
poderofo exercito fobre a Cidade de Pegú , 
e a Rainha com os Regedores fe recolhe- 
ram á fortaleza , e mettêram dentro os Por- 
tuguezes que alli havia , e alguns Mouros 
das náos de Meca pêra fua defensão ; e aos 
Portuguezes , que feriam trinta , de que era 
Capitão hum Francifco Trigo , que elles an- 
tre 



Dec. VII. Liv. II. Cap. VI. 15-3 

tre li elegeram , entregaram as portas por 
homens de mais confiança , aífim na lealda- 
de, como no esforço. 

O tyranno tanto que chegou a Pcgá , lo- 
go le íenhoreou da Cidade , e começou a 
bater a fortaleza em que a Rainha eftava , 
que lempre fora entrada, fenão houvera an- 
tre elles huma muito antiga abusão , que 
nunca fe poderia entrar aquella fortaleza, fe~ 
nao fofle por huma certa porta daquellas , em 
que a Rainha tinha póítos os Portuguezes, 
e lhes tinha entregue as chaves de todas as 
mais , pêra que elles as vigiaífem , e roldaf- 
fem , como faziam todas as noites. O inimi- 
go foi combatendo a fortaleza , e poz todo 
fcu poder fobre aquella porta das abusões , 
e a combateo , e commetteo por muitas ve- 
zes com grande determinação ; mas os valo- 
rofos Portuguezes lha defenderam com mui- 
to grande eftrago feu ; e affim a Rainha os 
favorecia , e provia de tudo , como quem ti- 
nha nelles fó todo feu remédio. 

Diílo foiElReylá por onde andava avi- 
fado por correios apreflados ; pelo que lo- 
go com muita preíTa defpedio alguns Capi- 
tães diante , e elle fe defembaraçou de tu- 
do, epartioapôs elles. Epara o fazer mais 
defembaraçadamente , mandou pôr o fogo a 
toda a fazenda , e fato , que havia no exer- 
cito, pêra osfeus não terem que levar, que 

os 



1^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

os impedifle ; e foi caminhando tão apref- 
fado , que andando mais de dous mezes de 
caminho afFaftado de Pegú , em menos de 
hum chegou áquella Cidade , que já achou 
defcercada ; porque os Capitães , que chega- 
ram diante, deram nos inimigos , e os des- 
barataram, e houveram o tyranno ás mãos, 
que logo foi efpedaçado. 

Chegado o Brama a Pegú , afTentou fo- 
ra o feu exercito ; e como já tinha novas 
de tudo o que era paflado , mandou Ade* 
chanchas , que era hum capado , Veador da 
fazenda , que fofíe á Cidade , e lhe trouxelTe 
os homens , e o capado lhe levou os Mou- 
ros , que também eíliveram na fortaleza ; e 
yendo-osElRey , fe agaílou muito, e difle 
ao capado : » Eu mando-te chamar homens , 
» e tu trazes-me galiinhas ? Ora vai , e tra- 
»ze-me fó os que tem nome de homens.» 
Tornou o capado á Cidade , e levou todos 
os Portuguezes , que fe veftíram muito ga- 
lantes : EIRey lhes fez muitas honras , e lhes 
diífe ; » Vós- outros me fizeftes a vontade , 
» agora vos quero eu fazer a vofla , pedi o 
» que quizerdes. » Elles ficaram embaraça- 
dos , olhando huns pêra os outros , fem fe 
faberem determinar no que pediflem , e af- 
fim ficaram fem lhe refponder. Vendo EI- 
Rey que lhe não refpondiam , lhes mandou 
dar muitas pecas de ouro , e lhes diífe pa- 
la- 



Dec. VII. Liv. II. Cap. VI. 157 

lavras muito honradas , e de muito louvor 
da nação Portugueza. Feito iílo , entrou na 
Cidade , e foi ver a Rainha , que lhe diííe , 
que íõ os Portuguezes a livraram de a achar 
cativa , contando-! he muitas façanhas que 
lhes vira fazer , e elia fez também mercês a 
todos. 

Reinou efte Rey fíncoenta annos com 
tanta juitiça , e inteireza, que fe pode met- 
ter no conto dos famofos do Mundo. Por 
ília morte lhe íuccedeo naquella Monarquia 
feu filho Para Mandará , que também foi 
muito valorofo , e governou feusReynos em 
muita paz, ejuftiça, como em leu lugar di- 
remos. 

CAPITULO VIL 

Da Armada que efte anno âefmcoenta e fin- 
co partio do Reyno , de que era Capitão 
mór D. Leonardo de Soufa : e da perdi- 
ção da não Algaravia nova : e de como 
o Governador Francifco Barreto mandou 
D. Álvaro da Silveira por Capitão mór 
ao Ma lavar : e do que acontece o a Me a- 
lecan até Bilgão : e dos tratos que o Jdal- 
can teve com Anel Maluco fobre lho en- 
tregar. 

P Refles a Armada , que BIRey determi- 
nava demandar efte anno á índia, que 
era de finco náos muito formofas , deram 

to- 



156 ÁSIA de Diogo de Couto 

todas á vela até vinte de Março. Era o Ca- 
pitão mor delias D. Leonardo de Soufa , que 
vinha na náo nofla Senhora da Barca ; e os 
mais Capitães eram , Francifco Figueira de 
Azevedo em S. Filippe , Vafco Lourenço de 
Barbuda Carracão em S. Pedro , Jacome de 
Mello na Algaravia velha , e Francifco No- 
bre na Algaravia nova. Neíla Armada hia 
embarcado o Bifpo Carneiro , e o Padre An- 
tónio de Quadros , ( que havia de fer Rei- 
tor do Collegio de Goa , ) muito bom Theo- 
logo ; e o Padre Francifco Rodrigues o Man- 
quinho , mui douto em Cânones , e muito 
acceito Pregador, de quem em Lisboa ou- 
vimos a Rhetoríca , e a Esfera no Collegio 
de Santo Antão, e outros Padres, que ha- 
viam de paliar a Aballia ; e por Provincial 
da índia ( que então fe fez Província ) hia 
o Padre D. Gonçalo da Silveira, irmão do 
Conde da Sortelha , Varão douto , de vida 
approvada , e que depois morreo martyr na 
Cafraria , como ern feu lugar diremos. Le- 
vavam eftes Padres muitos , e mui ricos or- 
namentos pêra aAbaífia, porque viífe aquel- 
Ia Chriftandade a grande riqueza , e appa- 
rato com que a Igreja Romana celebrava o 
culto Divino , e folgafíem de feguir feus coC- 
tumes , e ceremonias. 

Deílas náos , as quatro chegaram a fal- 
vamento á índia i fó a náo Algaravia nova , 

de 



Dec. VIL Liv. II. Cap. VIL 157 

de que era Capitão Francifco Nobre , to- 
mou a derrota por fora da Ilha de S. Lou- 
renço ; e indo demandar Cochim , foi va- 
rar nos baixos de Pêro dos Banhos , que ef- 
tam em altura de fete gráos do Sul. Vendo- 
fe Francifco Nobre varado em terra , fe met- 
teo no batel com alguns Officiaes ; e reco- 
lhendo algum mantimento , e agua , com 
grande deshumanidade fe foi pêra Cochim , 
deixando toda a gente na Ilha , (que eram 
perto de quatrocentos homens , ) e elle no 
batel foi ter a Cochim , e dahi fe paíTou a 
Goa. Os da perdição , que eftavam na Ilha , 
vendo que o Capitão os defamparára , e dei- 
xara fem remédio , eque lhes convinha tra-r 
tarem delle , e de fua falvação , puzeram em 
confelho ordenarem algumas jangadas da ma- 
deira da náo, a que começaram pôr as mãos. 
Mas D, Álvaro de TTaíde , filho legiti- 
mo de D. Álvaro de Taíde, irmão baílar- 
do do Conde da Caílanheira , vendo que 
aquella determinação feria total perdição de 
todos , ajuntando-fe com três Padres da Com- 
panhia , que alli hiam , começaram a per- 
fiiadir aos Officiaes , e a todos os mais , que 
da madeira da náo fizeíTem huma naveta , 
em que todos fe falvaíTcm ; porque a náo 
ficou de feição que fe podia desfazer , e af- 
íim a mor parte da fazenda , e mantimentos 
que levava , tinham poflo em terra , e & 

bom 



158 ÁSIA de Diogo de Couto 

bom recado pêra feu provimento ; pofto que 
na Ilha havia muita agua , cocos , e muito 
peixe, e marifco, de que fe podiam íufteiiv 
tar muito tempo. Tanto trabalharam niílo , 
e tantas coufas difleram, que fizeram delií- 
tir das jangadas, e começaram apor em ter-* 
ra toda a cordoalha , maçame , poleame , 
entenas, vergas, leme , e toda a mais ma- 
deira , e pregadura ; e aííim foram desfa- 
zendo a náo com muita facilidade, e reco- 
lheram tudo em terecenas, e ordenaram ar- 
mazéns , em que recolheram as fazendas , e 
mantimentos da náo pêra a viagem , e aííim 
armaram logo a quilha , e começaram a la- 
vrar a madeira , e a forjar a pregadura , fa- 
zendo-fe todos carpinteiros , ferreiros , fer- 
radores , cordoeiros , calafates , e todos os 
mais officiaes que lhe foram neceíTarios. E 
porque faltavam ferras grandes , as fizeram 
de montantes ; e aííim com muito grande 
confiança em nofia Senhora-, a quem offere- 
cêram a náo , foram continuando na obra 
com tanta alegria , e confiança , que já não 
fentiam a perdição, nem os trabalhos, an- 
dando os Padres de comino confolando , con- 
fortando , e animando a todos, e a obra foi 
crefcendo a olho , e tão bem feita , e pri- 
ma , como fe fora feita na ribeira de Lis- 
boa , onde tudo eftá á mão * 7 e aííim os dei- 
xaremos até feu tempo» 

Che- 



Dec. VIL Liv. IL Cap. VIL 15-9 

Chegado Francifco Nobre a Goa , e dan- 
do conta de íiia perdição ao Governador , e 
de como aquella gente ficava nos baixos , 
fez logo negociar dous fuftarroes grandes , 
e mandou Francifco Nobre em hum , e o 
Patrão mór em outro , pêra que foííem aos 
baixos , e recolheíTem a gente que lá ficou ; 
o que elles não fizeram , nem acharam os 
baixos , e fe tornaram. O Governador tan- 
to que as náos chegaram , logo tratou da 
Armada , que havia de mandar ao Mala- 
var, de que nomeou por Capitão mór Dom 
Álvaro da Silveira , com huma galé pêra fua 
peíToa , e vinte navios de remo , cujos Ca- 
pitães eram , Diogo Lopes de Lima Perei- 
ra , Gomes da Silva , Lopo de Brito , Chri- 
flovao de Mello , Vicente Carneiro , Luiz 
Mendes de Vafconcellos , João Rodrigues 
de Soufa , João Ferreira , Jorge Gomes , Pe- 
dralvares de Cananor , Gonçalo Sanches , 
Belchior Godinho , Pêro de Figueiredo , Bal- 
thazar Pimentel , Baílião Figueira , Luiz Caf- 
tanho, Francifco Sanches , Ruy Fernandes^ 
e outros, efizeram-fe í vela por fim de Se- 
tembro ; e do que lhe fuccedeo eíle verao^ 
daremos razão adiante, porque agora hene*- 
ceííario continuarmos com Mealecan , Rey 
novo do Balagate , que deixámos efperan- 
do por recado de Anel Maluco. 

Eftecomo teve todos os Capitães do fea 

ban- 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

bando juntos , o mandou bufcar , e o Ao 
cedecan o levou até Bilgão , e dalli paílbu 
até á Cidade deCheri , três léguas adiante, 
já em Urna do Gate , onde Anel Maluco o 
eftava efperando com todos os conjurados j 
e tendo recado de fua chegada , o iahíram a 
receber , e lhe fizeram fua veneração como 
a Rey , e o tornaram a levantar por tal , 
conforme a feus coílumes , com grandes fei- 
tas , e públicos alvoroços. Alli fe deixaram fi- 
xar , ordenando as coufas neceíTarias pêra 
irem pôr cerco a EIRey Abrahemo , que ef- 
tava na Cidade deVifapôr, que já tinha avi- 
fo da chegada do Mealecan a Cheri, e ti- 
nha recolhido comfigo feus Capitães , mui- 
tos mantimentos, e munições, e eftava mui- 
to bem fortificado ; e com tudo ifto fe quiz 
valer de dous ardis. O primeiro , defpedir 
correios a Rama Rayo , Rey do Canará , 
por quem lhe mandou pedir o foíTe foccor- 
rer , e que lhe faria todas as defpezas do 
exercito , e outros partidos favoráveis. O 
outro ardil foi , defpedir peíToas de muita 
confiança , e fegredo a Anel Maluco , por 
quem o mandou perfuadir a que defiftiíTe 
<3a empreza , e lhe entregafle Mealecan , e 
que lhe daria logo na mão fetecentos mil pa- 
godes de ouro , e o titulo de Accedecan 
com muitas rendas , e que a todos os Capi- 
tães da conjuração perdoava livremente , e 

Io- 



Dec. VIL Liv. II. Cap, VII. 161 

logo lhepaflTou hum fegfuro Real pêra elle* 
e todos os mais. Eítas peífoas trataram efte 
negocio com Anel Maluco por modos que 
o renderam, e quiz acceitar os partidos, e 
entregar Mealecan , depois de lhe ter feito 
as ceremonias de Rey. 

Eftando já de todo pêra fe concluir efta 
entrega , em muito fegredo , chegou o cafo 
á noticia de Calabatecan , que o levou , que 
como Mouro de mór fé, e verdade que to- 
dos , fe foi logo a Anel Maluco , e lhe fez 
huma falia muito grave fobre aquelle nego- 
cio , em que lhe dizia : 

» Que fe tal fízefle , ficava o mais infa- 
» mado homem de todos os da vida , por- 
» que acabava de confirmar que era o trai- 
» dor , e que ordíra aqueilas coufas todas 
» contra juftiça , além da deshumanidade que 
» tratava em entregar á morte hum homem , 
> que debaixo de fua palavra fefora metter 
>em leu poder, e mais tendo-o alevantado 
» por Rey , e dada menagem de vafíallo ; e 
» que ainda aquelle ajuntamento que fizera 
*> contra EIRey Abrahemo , poderia ter al- 
» guina pequena decôr pêra fe poder livrar 
» da infâmia de traidor ; mas que aquella ) 
)) fe entregafle Mealecan , nenhuma podia 
)> ter com Mafamede , nem com os homens. 
» Que q\\q recebera Mealecan das mãos do 
» Vifo-Rey da índia , e que aílignára hum 
Couto.Tom.IF.PJ. L » af- 



162 ÁSIA de Diogo de Couto 

» aífento que diíTo fe fizera , e que em ne- 
» nhuma maneira havia de quebrar fua pa- 
» lavra , nem confentir que ie entregafle ao 
» íacrificio hum homem innocente , que ef- 
» tava na Cidade de Goa muito feguro , e 
)> quieto com fua mulher , e filhos ; e que 
» foubeífe decerto, que fobre iflb havia el- 
» le Calabatecan de perder a vida , e a al- 
»ma. E que fe eftava arrependido do que 
a tinha feito , que lhe tornafle a entregar 
» Mealecan pêra o pôr em Goa , donde o 
7) trouxera ; e que depois delle poito em fal- 
» vo , fizeííe todos os partidos que quizeífe 
» com o Idalcan. Que ponderaífe muito de- 
» vagar aquellas coufas , e que fe não deixaf- 
» fe vencer de peitas , porque por derradei- 
^ ro fempre haviam todos de ficar odiados 
» com o Idalcan, que nunca já mais fe ha- 
» via de fiar delles , antes eílava muito cer- 
» to folicitar-lhes a morte , por não virem 
» a tentar outra maldade femelhante. » 

Tantas coufas lhe diífe fobre eíie cafo, 
que o envergonhou , e tornou a deíiftir dos 
partidos , e de novo fez juramento de feguir 
Mealecan até o metter de poífe do Reyno. 
Com efta refolugão fe prepararam peraiíTo* 



CA- 



Década VIL Liv. II. 163 

CAPITULO VIIL 

De como Rama Rayo Rey de Bifnagd man- 
dou Jeu irmão Vingata Rayo em favor 
do Idalcan : e de como os Capitães da 
conjura cão foram desbaratadas , e o Mea- 
Jecan com Anel Maluco fugiram pêra o 
Izamaluco , e do que lá lhes fuccedeo. 

CHegados os Embaixadores do Idalcan 
a Bifnagá , dando fua Embaixada áquel- 
le Rey , e reprefentando-Ihe a neceffidade 
cm que o Idalcan eftava , moveo-fe a lhe 
acudir , e foccorrer, mandando com muita 
preíía fazer preítes feu irmão Vingata R3yo 
pêra aquella jornada , que em breves dias 
poz em campo cento e ííncoenta mil ho- 
mens , e começou a marchar pêra Vifapôr. 
O Idalcan teve logo avifo do íbccorro que 
íe ordenava , pelo que foi detendo o Anel 
Maluco com huns partidos , e outros , e ca- 
da vez mais favoráveis , não fe moílrando 
avaro , no que depois (fe lhos acceitaííe) não 
havia de cumprir. E aífim foi dilatando o 
tempo até chegar Vingata Rayo , a quem 
logo o Idalcan avifou do eílado em que os 
conjurados eftavam , e onde ficaram, pedin- 
do-Ihe que logo os foíle bufcar. Com efte 
recado fe aprellbu o Canará quanto pode , 
até chegar perto donde os inimigos eftavain. 
L ii Mea- 



164 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mealecan , e Anel Maluco , que já eítavam 
avifados do poder do Vingata Rayo , e que 
eftava duas jornadas delles , tomando antre 
íi confelho , aífentáram de o não efperar , 
porque não tinham mais de trinta mil ho- 
mens; e alevantando o campo, fe foram re- 
colhendo , derramando-íe todos por onde 
inelhor puderam. Mealecan, Anel Maluco, 
Calabatecan , Camalcan , e outros Capitães 
com a gente de fuás cevadeiras , com mu- 
lheres , e filhos , fe foram recolhendo pêra 
o Zamaluco , e da arraia delle mandaram 
pedir feguro áquelle Rey pêra fe recolhe- 
rem nelle , que logo lhe mandou , e elles 
foram entrando peloReyno até chegarem a 
hum lugar affaftado da Cidade deAmadana- 
ger , onde EIRey eílava , e alli fe detive- 
ram aqueile dia. Ao outro feguinte man- 
dou EIRey que lhe levaífem Anel Maluco , 
e Calabatecan , e que Mealecan ficaííe alli 
até feu recado. 

Iílo fez EIRey aconfelhado de hum Ca- 
pitão feu , chamado Cacem Beque , que o 
perfuadio mandaffe matar Anel Maluco , fa- 
zendo-lhe crer que por fua ordem , e con- 
felho lhe fizera o Idalcan muitas vezes guer- 
ra. Anel Maluco tanto quevio, que o man- 
dava EIRey levar, logo fe temeo , e diíle 
ja. Camalcan, que hia muito pejado naquel- 
Je negocio 7 que Iht pedia , recolheíTe fua 

mu- 



Dec. VIL Liv. II. Cap. VIII. 165- 

mulher , e filhos , e fe puzefle em fima de 
hum outeiro; eque feelle fizefle hum final 
com a rouca , fugifTe com elles , e fe fbfle 
pêra o Reyno de Madre Maluco, que era 
feu amigo. Os que vieram chamar Anel Ma- 
luco , e Calabatecan , puzeram-nos em fima 
de hum Elefante , e o que o governava de 
íima levou de hum terçado , e foi pêra ma- 
tar Anel Maluco ; mas elle fe defviou , e 
lançou do Elefante abaixo , e o mefmo fez 
Calabatecan ; e tirando a touca da cabeça , a 
lançou pêra o ar ; e em fendo no chão , fo- 
ram ambos logo defpedaçados. O Camalcan 
que teve tento no Anel Maluco, em lhe ven- 
do lançar a touca pêra o ar, tomando a mu- 
lher , e filhos em camelos mui andadores , 
e elle com fua gente em cavallos ligeiros, foi 
fugindo ; e defviando-fe do Reyno do Idal- 
can , e por fima delle , foi na derrota do 
Reyno de Madre Maluco , aonde chegou , e 
aquelle Rey o agazalhou ; e honrou a mu- 
lher , e filhos de Anel Maluco , moftrando 
grande mágoa , e fentimemo de feus traba- 
lhos. Mortos Anel Maluco , e Calabatecan , 
mandou Cacem Beque levar o Mealecan pê- 
ra outra aldeia mais defviada , e deo reca- 
do aos Capitães, que a iílo mandou, que o 
matafTem a elle, e a hum filho baftardo que 
comfigo levava ; o que não pode fer v em tan- 
to fegredo, que o não vieífe a faber Bibia- 

ma- 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

maná, mãi doZamaluco , que era huma fe- 
nhora muito bem inclinada; eindo-íe ao fi- 
lho , Ihedeo coma daouillo , elhepediouão 
confentiífe tal , porque Mealecan era filho 
de Cufocan , com quem elles tinham muito 
parentefco. EIRey que não fabia coufa al- 
guma difto , (porque o Cacem Beque man- 
dava fazer aquella execução íem lhe dar con- 
ta difib , ) mandou com muita preífa hum 
Capitão capado , pêra que tomafie o Mea- 
lecan , e olevafíe á ferra deBaulá , que era 
muito forte , e que alli ficaííe em fua guar- 
da , e íe lhe défie todo o neceííario. O ca- 
pado fez tudo a/fim como lhe EIRey man- 
dou, e fefoi metter com elie naquella fer- 
ra y onde o deixaremos até tornar a ejle« 

OVingataRayo vendo os inimigos des- 
baratados, mandou avifar ao Idalcan , e a 
faber delle o que mais queria que fizefle : el- 
ie lhe mandou as graças, e hum milhão de 
ouro pêra as defpezas daquelle exercito , e al- 
guns cavallos formofiífimos , ricamente guar- 
necidos ; e não fe quiz ver com elie , por- 
que tiles Reys nunca fe fiao huns dos ou- 
tros. Recebida amoeda, eoprefente, fefoi 
recolhendo o Vingata Rayo pêra Bifnagá , 
e o Idalcan ficou defalivado , efahio da Ci- 
dade a ver as couías do Reyno , e pêra que 
feus vaffallofi o viffem ; e defpedio alguns 
Capitães em bufea dos que eícapáram , e ou- 
tros 



De o VIL Lrv. II. Cap. IX. 167 

tros pêra irem tomar poíle da Cidade de 
Bilgão , e das mais terras que foram de Anel 
Maluco. 

CAPITULO IX. 

Do que aconteceo a D. Antão de Noronha 
no Concan : e dos recontros que teve com 
alguns Capitães do Idalcan : e da gran- 
de vitoria que alcançou do Xacoli. 

PArtido D. Antão de Noronha de Goa, 
como atrás temos dito no II. Cap. do 
Liv. II. , logo o Governador defpedio hum 
foão de Lima , Fidalgo Gallego , por Ca- 
pitão mor de oito navios , com regimento , 
que fe foíTe de longo da cofia , favorecen- 
do D. Antão de Noronha , e pêra o prover 
de munições , de que mandou metter nos na- 
vios huma boa quantidade. Partida efta Ar- 
mada , chegou ao rio de Banda , onde fou- 
be eftar D. Antão de Noronha , e foi por 
elle aílima aré á Cidade , onde o achou , 
provendo nas coufas daquella Tanadaria, e 
na arrecadação de fuás terras. E depois que 
fez tudo o que era neceíTario 3 íe partio pê- 
ra Curale, que era daíli a três léguas, on- 
de também a Armada entrou; e commetten- 
do a fortaleza , a acharam defpejada , porque 
o Capitão que alli efiava pelo Idalcan (que 
não quiz obedecer a Mealecan ) fugio , e 

não 



j68 ÁSIA de Diogo de Couto 

não quiz efperar os noííos. D. Antão de No- 
ronha íe metteo nella , e a proveo de Ta- 
nadar; e mandou apregoar leguros Reaes , 
pêra que todos os moradores , e lavradores 
a fofiem povoar, e lavrar luas terras, eque 
lhes fariam todos os favores pofiiveis , e que 
correlTem pelos Foraes antigos , affím nos 
foros , como nas liberdades. Com ifto co- 
meçaram acudir todos , e D. Antão de No- 
ronha os animava , honrava , e favorecia 
em tudo. 

E havendo quatro dias que a*qui eílava , 
teve avifo que hum Capitão do Idalcan , 
chamado Xacoíi Agá , andava recebendo as 
terras do Idalcan dabanda do Concan, que 
pertenciam aEíRey de Portugal , pela Doa- 
ção que delias lhe tinha feito Mcaiecan , e 
que determinava de o vir bufcar , e dar-lhe 
batalha , e que trazia fete mil homens. In- 
formado D, Antão de Noronha do fçu po- 
der , e de tudo o mais que lhe foi neceífa- 
rio , determinou de o efperar em campo , 
como fez , ordenando fua gente muito bem 
pêra iíío , lançando efpias pêra o avifarem 
do caminho , e ordem que o inimigo trazia j 
e foube que ficava em huma aldeia chama- 
da Anua , pelo rio de Carlim dentro, que 
he junto dos Ilhcos queimados, doze léguas 
de Goa. E tomando parecer com léus Ca- 
pitães fobre o que faria , affentáram > que 

fof- 



Dec. VIL Liv. II. Cap. IX. 169 

foliem bufcar os inimigos , e lhes déíTcm ba- 
ralha , pelo que logo começaram a marchar 
em muito boa ordem, e com muitas efpias 
diante, que a cada hora os aviíavarn de tu- 
do j e a Armada fe foi até o rio de Acha- 
rá , légua e meia deCurale, donde tinham 
partido, onde eftava aflentado de irem dor- 
mir aquella noite. E antes da Armada che- 
gar áquelle rio , deo com duas cotias , que 
tinham fahido de dentro , que foram logo 
tomadas, e nellas acharam a mulher , e fi- 
lhos , e recamara do Xacoli , que elle man- 
dava pêra Cambaya ; porque fe receava que 
o Anel Maluco metteíTe o Mealecan no Rey- 
no , por não ter ainda novas do que lá paf- 
fava , e queria fegurar aquellas coufas , e fi- 
car efperando recado pêra ver em que o ne- 
gocio parava , porque fua peífoa a todo tem- 
po fe podia recolher pêra onde quizefíe. 

O Capitão mor da Armada , vendo a 
boa preza que tinha feita , metteo em hu- 
ma fufta a mulher , e filhos do Xacoli , e 
os mandou ao Governador , que a eftimou 
muito, D. Antão de Noronha chegou a A- 
chará , e fora da povoação alTentou feu ar- 
raial , e o fortificou mui bem , porque ha- 
viam alli de pa(Tar aquella noite. Difto foi 
logo o Xacoli avifado ; e entendendo que 
haviam os noííbs de chegar cançados, def- 
pedio hum Capitão com mil homens , pê- 
ra 



ijo ÁSIA de Diogo de Couto 

ra que de noire lhe fofíe ctar hum afTalto ,- 
que efperava fer de muito effeito, eaíTim o 
fez ; porque eftando os noíTos na mor quie- 
tação da noite , deram os inimigos de íb- 
brefalto nelles , e os commettêram por on- 
de eftava D. João o Mourifco , Capitão do 
campo , que ficava a huma parte do exer- 
cito , hum pouco affaítado ; e como era mui- 
to vigilante , e tinha lançadas íuas efpias , 
por quem teve recado de fua vinda , quan- 
do já deram fobre elle , o acharam com as 
armas nas mãos. Os inimigos cuidando que 
os tomaííem defeuidados , arremettêram com 
aquelle ímpeto , dando-lhes huma íurriada 
de bombas de fogo, é de arcabuzaria, com 
que fizeram algum damno; mas o D. João 
como eftava fobre avifo , fahio a elles , e 
da primeira pancada que lhes deo , derribou 
fetenta , e ferio muitos ; e mettendo-fe no 
meio delíes , fez taes coufas , que os poz 
em desbarato; e mandando recado a D. An- 
tão de Noronha , os foi feguindo até qual! 
pela manhã. E como os levava em desba- 
rato , e derramados, foi fazendo nelles gran- 
des crueldades , tomando-lhes muitos cavai- 
los , e armas , que elles hiam largando pê- 
ra íe fal varem , cativando muitos , que de 
cançados cahiam. 

D. Antão de Noronha em lhe dando re- 
cado , fe poz logo a cavallo , e foi feguin- 
do 



Dec. VIL Liv. II. Cap. IX. 171 

do a D. João , defpedindo a gente de ca- 
vallo toda , pêra que ofoífe favorecendo, e 
elle fe foi apreífando com todo o mais po- 
der até chegar a elle , que já fe vinha re- 
colhendo carregado de defpojos, e de cati- 
vos. D. Antáo de Noronha abraçou a Dom 
João , e lhe difTe palavras muito honradas ; 
e a todo o pião de lua companhia, que lhe 
apreientou cabeça de Mouro , lhe deo dous 
pagodes. E tanto que arnanhecco , que buf- 
cáram o campo , acharam antre os feus mor- 
tos hum já íem cabeça , cujo tronco tinha 
oito palmos, e os braços, e pernas tão ía- 
çanhofas, que parecia Gigante. Era homem 
alvo, e nos trajos parecia eflrangeiro , e no* 
bre. D. Antão de Noronha vendo a vitoria, 
que lhe Deos tinha dado 5 porque o inimi- 
go fe não refoi maíTe , o foi feguindo , e ás 
oito horas do dia chegou ao rio deCarlin, 
e vio da outra banda o Xacoli com todo 
o ícu exercito pofto em armas em hum campo 
muito grande , e largo , e tinha todos os paí- 
fos , e váos do rio tomados com efpingardei- 
ros,e bombeiros pêra defenderem a paíTagem. 
D. Antão de Noronha parou de eílou- 
tra banda , e efteve notando a ordem em que 
os inimigos eftavam , eospaííos que lhe ti- 
nham tomado ; e depois de tudo bem nota- 
do , mandou a Jorge de Moura, que coma 
gente de fua bandeira fe paííalle a hum liheo , 

que 



172 ÁSIA de Diogo de Couto 

que ficava no meio do rio , e que dalli va- 
rejafle com a eípingardaria á outra banda , 
porque clle queria commettef apallagem. E 
mandou eítender os mais Capitães das ban- 
deiras de pé ao longo do rio, mettidos na 
agua pêra também o favorecerem na paíía- 
gem , porque determinava de com a gente 
de cavaílo fer o primeiro que paííafle i e 
aííím commetteo o rio, mandando diante Dora 
Diogo Pereira o moço leu tio , que com a 
agua pelas filhas foi paliando á outra ban- 
da, favorecido da noífa arcabuzaria. 

O Xacoli vendo paíTar os noíTos , acu- 
dio com a gente de cavallo áqueila parte 
pêra lhes defender a paílagera , e a fua ar- 
cabuzaria, e bombaria começou a defcarre- 
gar fobre os noíTos de feição , que primei- 
ro que chegaflem á outra banda derribaram 
oito , em que entrou D. Diogo Pereira ; mas 
de todos eftes hum fó perigou , e os mais 
paliando por aquellas nuvens de pelouros , 
e frechas , e pelas chammas das bombas , ) que 
eram tantas , que parecia que todo o Ceo 
relampadejava ,) chegaram á outra banda, e 
dos primeiros foi D. Antão de Noronha , 
que (ou fofle acafo , ou que o Xacoli o co- 
nheceíTe por alguns finaes que nelle vifle ) 
em pondo os pés em terra , arremetteo a 
elle com a lança no refte , e rompeo nelle 
hum façanhofo encontro } e D. Antão de No- 

ro- 



Dec. VIL Liv. II. Caí. IX. 173 

ronha , que era muito esforçado , e mui bom 
cavalleiro , também lhe poz a lança , mas 
nenhum delles recebeo damno ; e os noíTos 
de cavallo ficaram Wo baralhados com os 
Mouros em huma muito afpera batalha. 

D. Antão de Noronha fe metteo no meio 
pelejando mui valorofamente , e esforçando 
os feus a fazerem o mefmo ; trabalhando mui- 
to por fe tornar a encontrar com oXacoii, 
que andava capitaneando os léus. Os Capi- 
tães das bandeiras tanto que viram os de 
cavallo da outra banda , commettêram a paí- 
fagem , e fe puzeram da outra parte , ainda 
que com trabalho, e começaram outra mui- 
to afpera batalha com agente de pé dos ini- 
migos , andando D. João o Mourifco fem- 
pre diante com a fua gente pelejando com 
muito esforço. A batalha andava toda mui- 
to arrifcada , porque todos andavam mui 
baralhados, trabalhando huns por vencer os 
outros , fazendo os noíTos tantas coufas , que 
não fe podem particularizar. Muitos dos mo- 
radores de cavallo fizeram grandes fortes , 
e antre todos fe aífinalou André de Villa-lo- 
bos, tio de D. Antão de Noronha ,, irmão 
de fua mãi , que era hum Cavalleiro muito 
determinado , robufto , e barbaçudo , que ti- 
nha já derribado quatro de cavallo ^ e re- 
mettendo a outro, que era hum Mouro , que 
elle via aílinalar-fe antre os outros , o en- 

con- 



174 ÁSIA de Diogo de Couto 

conrrou cie meio a meio, e o Mouro o fez 
adie também; mas o feu encontro foi hum 
pouco a huma ilharga , e paíTou a lança por 
debaixo do braço efquerdo a André de Vil* 
la-lobos , que como era muito acordado 7 e 
homem de grandes forças , apertou a lança 
do Mouro comfigo de feição , que a não 
pode o Mouro arrancar; e remettendo com 
André de Villa-Iobos , liou-íe com elle , e 
lápçáÃdò-Jhe huma mão ás barbas ( que eram 
muito compridas) lhe deo huma volta , com 
que o teve fopeado. André de Villa-lobos 
vendo-íe aííim , liou-fe com o Mouro , e 
aos tombos foram ambos ao chão ; mas le- 
vantando-fe logo com muita preífa , levou 
do terçado, e matou o Mouro. E ao mef- 
mo tempo lançou mão das rédeas do cavai- 
lo do Mouro , e fez fubir nelle hum cria- 
do feu , que alli então chegou , e fubindo- 
fe elle no leu , tornou á batalha , que anda- 
va muito afpera , e cruel; e como a nofla 
arcabuzaria era muita , fez nos inimigos tal 
èftrago, que começaram a perder o campo, 
e a íe desbaratarem. 

Vendo ifto D.Antão de Noronha, deo 
Sant-Iago , bradando Vitoria , vitoria \ e 
de tal maneira apertou com os inimigos , 
que os arrancou do campo , ficando-lhes nel- 
le eílirados perto de quinhentos Mouros. 
D. João o Mourifco , Capitão do campo, 

(que 



Dec. VIL Liv. II. Cap. IX. v/f 

( que efte dia fez coufas notáveis , ) vendo 
os inimigos desbaratados, foi-lhes íeguindo 
o alcance duas léguas , favorecido das bandei- 
ras de pé y e foram todos matando nelles á 
fua vontade, derribando-lhes ainda nefte al- 
cance mais de feiscentos Mouros , toman- 
do-lhes muitos cavallos , armas , e outras 
coufas. D. Antão de Noronha ficou fenhor 
do campo, e do exercito do inimigo , em 
que achou muitos defpojos , e cavallos for- 
mofos , que repartio por alguns moradores 
a que tinham mortos osfeus^ e com efta vi- 
toria fe recolheo a Curale , onde fe cura- 
ram os feridos. Dos mortos noíTos não achá- 
mos o número certo , mas fabemos que não 
chegaram a trinta. 

CAPITULO X. 

De como o Governador Francifco Barreto 
teve novas do desbarato de Mealecan : 
e da vinda de alguns Capitães do Idal- 
can : e de como mandou recolher D. Fer- 
nando de Monroy , e D. Antão de No- 
ronha. 

O Governador Francifco Barreto teve lo- 
go avifo do desbarato do Mealecan , 
e de fua fugida , e de corno o Idalcan def- 
pedíra alguns Capitães com muita gente pê- 
ra tornarem a tomar as fortalezas de Banda , 

Cu- 



iy6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Curale , Pondá , e outras , que eílavam já 
por de EIRey de Portugal ; e receando- fe de 
algum defaftre , praticou em confelho dos 
Capitães velhos aquelle negocio ; e foram de 
parecer, que fc larga íTem aquellas Tanada- 
rias , e fe recolheílem os Capitães que nu- 
las eílavam , primeiro que foííem cercados 
dos inimigos , porque depois dariam muito 
trabalho , e arrifcar-fe-hia todo o Eílado pê- 
ra os defcercar, è recolher. 

Com eíta refolução fe foi o Governador 
logo pôr no Paço de Benaftarim , com to- 
da a gente que em Goa havia ; e mandou 
paliar á outra banda o Capitão da Cidade 
com algumas companhias de foídados , e mo- 
radores de cavallo , pêra irem recolher Dom 
Fernando de Monroy , e efperallo ao cami- 
nho , porque havia já recado que os ini- 
migos eram entrados nas terras; porque lhe 
tinha efcrito , que tanto que viíTe aquella car- 
ta , logo largafle a fortaleza , e fe recolhef- 
fe com muito tento , porque os inimigos ef- 
tavam já perto delle ; e o mefmo efcreveo 
a D. Antão de Noronha. 

Dada efta carta a D.Fernando de Mon- 
roy , efteve duvidofo fe a cumpriria , e foi- 
fe detendo até o iegundo recado , que lhe 
chegou logo , e apreíTado. Cem elle come- 
çaram a defpejar a fortaleza muito devagahy 
z mandou diante toda a bagagem > fem lhe 

fi- 



Dec. VIL Liv. II. Cap. X; 177 

ficar couía alguma 5 eapós iflb fefahio com 
toda a gente polia em armas , por lhe vir 
recado, que já os inimigos chegavam ávif- 
ta da fortaleza ; e repartindo a gente em duas 
partes , tomou elle pêra fi a retaguarda com 
os Fidalgos $ e Cavalleiros pnncipaes que 
havia , que fe foram pêra elle ; e affim foi 
marchando muito devagar i porque viílem 
os inimigos que lhes não fugia , o que foi 
quaíl a íua vifta , fem elles oufarem de o com- 
metter ; e aífim chegou aonde Jorge de Men- 
doça , Capitão de Goa , o efperava$ e jun- 
tos íe recolheram a Goa* 

O Governador apreíTou os correios a 
D. Antão de Noronha i que eílava em Cu- 
rale, que já tinha avifo dos inimigos, que 
eram defeidos abaixo pêra o bufearem ; pe- 
lo que fe tinha fortificado em Curale , e pro- 
vido de tudo abaftadamente, porque deter- 
minava de os efperar alli , ele defender de'l* 
les , tendo a Armada no rio pêra tudo o que 
lhe foíTe neceífario. E nefta determinação ef- 
tava , quando lhe deram a primeira carta do 
Governador , em que lhe mandava largalTe 
tudo , e fe recolheíTe * porque eftava affim 
aííentado em confelho , por não fer poífivel 
defender-fe a tanta gente, quanta tinha por 
novas , que vinha defeendo o Gate. 

E vendo elle a preífa que o Governa- 
dor lhe dava , refpondeo-lhe » que eftava Cu- 
Couto. Tom, IF. P. L M » ra- 



178 ÁSIA de Diogo de Couto 

>> rale muito feguro , e que efperava em 
» Deos de não perder coufa alguma do ga- 
» nhado. » O Governador tomou ifto mal , 
e defpedio logo outra carta por duas vias , 
em que lhe mandava » que fobpena do ca- 
ji-fo maior, tanto que viíTe aquella , largaf- 
^> fe logo tudo , e íe recolheííe , porque os 
» inimigos eram muitos , e que não queria 
» lhe aconteceiTe hum defaftre , e que íe re- 
» colhelTe á vifta do mar pêra ter favor na 
5> Armada. E fendo calo que os inimigos lhe 
» tiveíTem atalhados os caminhos , e foífe o 
» poder tanto , que viíTe o perigo cerro , em 
» tal cafo cortaíTe as pernas aos cavallos , 
» e fe recolheííe aos navios , porque pcra 
2 iíTo lhe mandava mais outros ,. porque 
» do mal fempre fe havia de efcolher o me- 
» nor. » 

Dadas eílas cartas a D. Antão de Noro- 
nha, chamou os Capitães aconfelho, elhas 
leo , e pedio feus pareceres , e todos vota- 
ram , que pois o Governador o mandava re- 
colher , o devia fazer , porque aquelle ne- 
gocio carregava fobreelle; e com ifto fe de- 
terminou D. Antão de Noronha a partir, e 
lhes diíTe : » Affirmo-vos , Senhores , que 
» mais honra fora do Eftado morrermos aqui 
» todos , que recolhermo-nos defta maneira f 
■31 e largarmos a fortaleza de EIRey ; mas 
» já que não poílò mais ^ recolher-me-hei. » 

E 



Dec. VIL Liv. II. Cap. X 179 

E lahindo-fe da fortaleza , poz-fe no cam- 
po tão triíte , e melancólizado > que Jho en* 
xergáram todos. 

E concertando fua gente , deo a diantei* 
ra a D.João oMourifco, e as bandeiras de 
pé com toda a bagagem no meio , e elle 
com toda a gente de cavallo ficou na reta- 
guarda , e mandou ao Capitão mór da Ar- 
mada , que o fofle cfperar em Bardes ; e el* 
le foi marchando com muitas efpias fobre 
os inimigos; e chegando a Banda, recolheo 
António Ferrão, e mais Officiaes , e aquel- 
la noite dormiò no campo muito bem for* 
tificado ; ao outro dia chegou a Bardes , on- 
de o Governador o elperava com toda a 
gente que havia em Goa , pêra o ir foccor- 
rer , fe foíTe neceííario. E chegando D. An- 
tão de Noronha ao Governador , muito tri£ 
te, IhediíTe: >> Muito melhor fora, Senhor , 
» não me mandardes ao Concan i que fa- 
» zerdes-me vir fugindo fem ver de que, n 
O Governador teve com elle palavras mui-* 
to honradas , dÍ2endo-lhe » que elle tinha 
» cumprido de fua parte com a obrigação 
» de muito grande Capitão ; que aquellas 
» affrontas elle as tomava fobre íí > porque 
)> elle não era mais obrigado , que a cum- 
» prir os mandados de feu Governador ; » 
e com iílo fe recolheram pêra Goa. Em fç 
D. Antão de Noronha fahindo de Curale , 
M ii che- 



j8o ÁSIA de Diogo de Couto 

chegaram os inimigos \ que pela ventura ef- 
peráram que fe fahiíTe elle > porque o não 
oufáram a commetter. 

CAPITULO XI. 

De como o Governador Francijco Barreto* 
defpachou as nãos do Reyno : e do que 
açèntèceo a D. Álvaro da Silveira no 
Ma lavar : e das pazes que o Camorim 
pedio , e fe lhe concederam. 

NO mefmo tempo que o Governador 
Franciíco Barreto tratou de mandar re- 
colher os Capitães , que andavam no Con- 
can , deo também defpacho ás náos do Rey- 
no pêra irem tomar a carga a Cochim ; e 
efcreveo a EiRey oEíhdo em que a índia 
ficava , e da morte do Vifo-Rey D. Pedro 
Mafcarenhas , e de fua íuccefsão. Nefia Ar- 
mada foi também a náo Efpadarte, de que 
veio por Capitão Fernão Gomes de Souía , 
da companhia do Vifo-Rey D, Pedro Maf- 
carenhas , que tinha invernado em Ormuz , 
( como atrás diffeiuos no Cap. III. do I. Liv.) 
Elias náos tiveram boa viagem até o Rey- 
no , e EIRey fendo muito a morte de Dom 
Pedro Mafcarenhas. 

Agora continuaremos com D. Álvaro da 
Í5ilveira , Capitão mor do MaJavar , que che- 
gando áquella coita > começou a fazer gran- 
de 



Dec. VII. Lrv. II/Cap. XL 181 

de guerra aoÇamorim; e amor que fe lhe 
podia fazer, foi tomar-lhes todos os portos-, 
porque Jhe não entraíTe arroz, nem anfião , 
( nprque todos os ILeynos do Malavar fe 
provêm delias coufas dos rios do Canará , 
e do Revno deCambaya, porque elles em 
í\ não tem mais que palmares , ) delle ficou 
com a Armada folta , correndo toda a cof- 
ia ; ç dando nos lugares delia , que quei- 
mou , abrazou , e deftruio , e lhe cortou 
muitos palmares , e desfez , e tomou mui* 
tas embarcações; e os palmares fentíram el- 
les mais que tudo , porque elles lhe dam 
todos os mantimentos de que tem neceffida- 
de , e de que fc fuftentam a mor parte do 
anno , que são cocos , affucar , azeite ., vi* 
nho , vinagre , e todas as coufas pêra os 
apparelhos de íeus navios , e fabrica de fuás 
cafas. E aílim coítumava a dizer o Vifo- 
Rey D. João de Caftro , quando via algum 
foldado cortar alguma palmeira : » Ah fol- 
» dado , agora matafte hum Mouro.» 

E porque dos rios da pedra , e Canha- 
roto fahíram alguns parós a roubar , deter- 
minou de os cailigar ; e hum dia no quar- 
to d'alva defembarcou nelles, e os deftruio, 
e alTolou de todo , fendo e!le fempre dos 
dianteiros que fahiam em terra , com cal- 
ções de cotonia a meia perna , faia de ma- 
lha, e montante nas mãos , e pelejava co? 

mo 



i§2 ÁSIA de Diogo de Couto 

mo qualquer foldado. Em ambos eítes rios 
achou grande refiftencia , e fe vio em af- 
fronta ao recolher ; porque carregaram os 
Mouros fobre elle pêra o embaraçarem,, e 
fe fatisfazerem , o que não puderam fazer 
pela boa ordem que tinha ao recolher; por- 
que coftumava naquelles alTaltos ao embarcar , 
deixar duas companhias de arcabuzeiros , de 
cento cada huma , que ficavam franqueando 
a embarcação de huma , e outra parte , e 
deita maneira lhe não aconteceo delaftre al- 
gum nunca ; porque os defarranjos , que são 
acontecidos antre nós , não fuccederam fe«> 
não pela pouca ordem que alguns Capitães 
tiveram no recolher; porque mor governo, 
e prudência ha de moílrar o Capitão neíle 
negocio , que no commetter , pelas defor- 
dens , e pouca difciplina dos foldados da 
índia , que aífim como no commetter pre- 
cedem a outras muitas nações, aíílm nodeí- 
arranjo do recolher são inferiores a todas. 
Em fim , foram tantos os damnos , que D, AU 
varo da Silveira fez por toda aquella cofía , e 
poz a todos em tanto aperto de fome , que 
chegou a valer o fardo de arroz a três pago-* 
des , de que os mefquinhos, que são os que 
mais fentem a guerra , foram chorar ao Ca- 
morim ; e os Naires , que fempre são contrá- 
rios dos Mouros, os favoreceram nifib , efí* 
zeram aos Regedores muitos requerimentos* 



p E c. VIL Liv. II. Cap. XI. 183 

O Çamorim vendo o pranto dos feus 3 
enfadado da guerra , que íempre fe alevan- 
ta contra fua vontade , (porque os Mouros 
a poder de peitas fazem tudo o que que- 
rem , ) mandou Embaixadores a D. Álvaro 
da 'Silveira a pedir-lhe pazes; dando porfa- 
tisfação , que nunca foubera da guerra , nem 
por fua ordem fe quebraram os contratos 
que eftavam feitos. D. Álvaro da Silveira our 
vio eftes Embaixadores na fua galé , e Jhes 
refpondeo » que não tinha licença do Go- 
» vernador fe não pêra fazer guerra ; que 
» mandaíle elle a Goa , e que o Governa- 
» dor liie refponderia como lhe parecefie. » 
Com efta refpofta mandou o Çamorim ne- 
gociar dous Naires de fua cafa pêra irem a 
Goa, e D. Álvaro da Silveira lhes deo ak- 
guns navios pêra os acompanharem , con- 
cedendo ao Çamorim tregoas até yir reca- 
do do Governador. 

E vendo D. Álvaro da Silveira que fi- 
cava de vago, determinou de ir caftigar a 
Rainha de Olaia , Senhora da Cidade de 
Mangalor na cpfta Canará , que eítava re- 
belde , e havia annos que não pagava pa- 
rcas ; e voltando pêra já , chegou áquelle 
porto huma madrugada , e defembarcando 
cm terra, commetteo a Cidade com grande 
determinação ; e poílo que achou grande re- 
iiftencia , a entrou com morte de muitos 

Mou- 



184 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mouros ; e fendo dentro , lhe mandou pôr 
o fogo por algumas partes , porque os foi* 
dados fe não defmandaífem nas prezas delia \ 
e ateando-fe , ardeo a mor parte delia ; e 
hum formofo pagode de muita devoção fua. 

Feito ifto , recolheo-fe aos navios pele* 
jando com os inimigos , de que fe ajuntou 
Jium grande efquadrão pêra á embarcação 
darem fobre os noífos; mas D. Álvaro da 
Silveira com as duas mangas de arcabuzei- 
ros os deteve , e fe embarcou muito a feu 
falvo , deixando no campo muitos dos ini- 
migos eílirados. E depois de embarcado fe 
paflou da outra banda , onde hoje temos a 
noífa fortaleza ; e mandou queimar outro 
pagode muito formofo , e algumas povoa* 
coes pelo rio aíTima í em que lhe fez mui* 
tos damnos , e deo muitas perdas ; e com if* 
to fe recolheo pêra o Malavar a efperar o 
recado do Governador. 

Os Embaixadores do Çamorim chega- 
ram a Goa , e foram ouvidos j e pondo-fe 
aquelle negocio em confelho , fe aífentou , 
que ainda que fe entendia que o Çamorim 
jiunca guardava fé, nem palavra , eque ca* 
da vez que os Mouros o peitavam, quebra* 
va as pazes , que todavia fe lhe concedeí- 
fem , porque fempre nefta parte era bem fa- 
zer do ladrão fiel, porefeufar os gados lias 
Armadas grandes daquella cofta, E que o 

Vea- 



Dec. VIL Liv. II. Cap. XI. i85T 

Veador da Fazenda António Pefíoa ( que 
eftava pêra ir a Cochim fazer a carga das 
náos ) levafle comíigo os Embaixadores , c 
lá com o Capitão mór D. Álvaro da Silvei- 
ra , aííentaífe as pazes com as mefmas con- 
dições, com que já o Vifo-Rey D. Affon- 
fo de Noronha lhas fizera» E affim fe em- 
barcou o Veador da Fazenda , e levou com- 
fígo os Embaixadores. E chegando ao Ma- 
lavar , fe vio com o Capitão mór , e lhe 
deo conta daquelle negocio; e lançando os 
Embaixadores em terra , logo fe trataram as 
pazes , que fe concluíram , e juraram na 
praia de Calecut, eftando o Ça morim pre- 
lente , o Capitão mór , e o Veador da Fa- 
zenda , o que fe fez com grande folemní* 
dade ; e logo fe apregoaram pela Cidade > 
e pe!a Armada. Concluído ifto , (que era na 
entrada de Janeiro defte anno de íincoenta 
e féis , em que com o favor Divino entra- 
mos , ) fe foi o Veador da Fazenda pêra Co- 
chim , e defpachou as náos do Reyno , e a 
Armada fe foi pêra Goa , por não haver 
mais que fazer , deixando alguns navios na- 
quella coíla pêra acompanharem as náos da 
China, c Malaç^ 



DE- 






K j% ^^ ££ *anfi% mi K 

Ç ^^^^^^^^F ^^"^^^P^P^P^P^ 



i 



DÉCADA SÉTIMA. 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO IIL 

CAPITULO I. 

Da embaixada que o Governador Francis- 
co Barreto mandou a Qambaya por Trif- 
tao de Paiva , e [obre que : e dos navios 
que mandou a recolher o Padre Mejire 
Gonçalo , que eflava na AbaJJia : e da Ar- 
mada que defpedio pêra o EJlreito , de 
que foi por Capitão mor D. Álvaro da Sil- 
veira : e das coufas que Miguel Rodri- 
gues , Fiosfecos > fez pela cojla do Idalcan. 

HUma das coufas que o Governador 
Francifco Barreto defejava muito , 
era haver ás mãos a Cidade de Da- 
mão , por entender que convinha ao Efta- 
do da índia , aífim pêra fegurança das ter- 
ras 



Dec. VII. Liv. III. Gap. I. 187 

ras de Baçaim , como pêra apofentar naquel* 
Ia Cidade, e fuás terras muitos Cavalleiros 
honrados , e cafados pobres , porque fe ef- 
perava que fuás aldeias foíTem de mais im- 
portância. Sobre efte negocio teve alguns 
tratos fecretos com certos Capitães de Can> 
baya feus amigos , pêra que o avifaíTem do 
modo que teria naquelle negocio , e do eP 
tado em que as coufas daquelle Reyno ef- 
tavam ; e todos fe refumíram em que ha- 
via de mandar tratar aquillo com o Ithimi- 
tican, que governava tudo; porque o Rey 
era menino , e não fazia por íi coufa algu* 
ma^ eque peitafle ao tutor, e Governador, 
porque bem podia fer que lhe concedefFe o 
que tanto defejava. Sobre ifto tornou a man- 
dar algumas peíToas , que foram , e vieram , 
por quem mandou faber o eftado de Da- 
mão , e o poder que dentro eítava ; e foi 
certificado , que Cide Bofatá , e Cide Rana , 
Capitães Abexins , que comiam aquellas ter- 
ras , tinham íete , ou oito mil homens de ca- 
vallo , em que entravam muitos Magores , 
e que tinham aquella Cidade muito bem pro- 
vida de mantimentos , artilheria , e muni- 
ções , e que cuftaria muito , fe a quizeíTem to- 
mar por armas. 

Informado o Governador de tudo mui 
bem , aíTentou de mandar hum Embaixador 
com hum arrezoado prefentç , pêra ver fe o 

po- 



i88 ÁSIA de Diogo de Couto 

podia render ao que pertendia ; e pêra eíle 
negocio elegeo a Triftão de Paiva , homem 
de muito bom entendimento , e que fe lhe 
podiam encarregar todas as coufas de mui- 
ta importância; e lhe mandou armar alguns 
navios pêra o porem em Cambayete , e lhe 
deo largo regimento fobre as coufas que ha- 
via detratar com o Ithimitican ; e que quan- 
do pelas coufas que levava , e por outras 
muitas promeíTas o não pudelíe levar a lhe 
entregar a Cidade de Damão, com fuás ter- 
ras , e Tanadarias , que então lhe ofFerecef* 
fe ametade do rendimento da Alfandega de 
Dio pêra EIRey de Cambaya , aílim como 
d'antes os Reys feus anteceffbres a poíTuíram. 
Preftes , e negociado , Triftão de Paiva 
fe embarcou em os navios que eftavam já 
providos de tudo , com grandes apparatos de 
fua peflba , e féis homens decavallo, e ou* 
tros muitos fervidores ; e o prefente que le- 
vava , era de dez formofos ginetes Arábios , 
com feus telizes de damafcos de cores , e r 
jduas dúzias de coelhos machos > e fêmeas 
pêra EIRey lançar em fuás tapadas , pelos 
não haver em Cambaya. Embarcado Trif- 
tão de Paiva, foi feguindo lua jornada , a 
que logo tornaremos. 

Os Padres da Companhia, vendo que 
era neceífario mandar- fe faber do que o Pa- 
dre Meftre Gonçalo pairara com o Impera*» 

dor 



Deg. VIL Liv. III. Ca p* I. 189 

dor da Ethiopia , porque pelo regimento 
que levara do Vifo-Rey D. Pedro Malca- 
renhas , havia de eílar eíperando , ou eJIc, 
* ou feu recado por navios, fizeram diíTo lem- 
brança ao Governador Francifco Barreto , 
que vendo que tinha obrigação de acudir 
áquelle negocio, mandou negociar dous na- 
vios de remo , e elegco pêra efta jornada a 
João Peixoto , hum Cavalleiro muito hon- 
rado , e bem entendido nas coufas da guer- 
ra , e daquelle Eftreiro ; e lhe deo por re- 
gimento , que entralíe as portas do Efíreito 
de Meca , e loubeííe novas de galés , (por- 
que corria huma fama , que fe armavam em 
Meca quinze , ) e que fe paflafle a Maçuá 
a recolher o Padre Mefire Gonçalo , oíi car- 
tas fuás , que forçado havia de achar. Ef- 
tes navios partiram de Goa entrada de Fe- 
vereiro deite anno de 1556 , e de fua jor- 
nada adiante daremos razão, 

Nefte mefmo tempo chegaram novas de 
Ormuz ao Governador , que as galés que 
eílavam em Baçorá ( que eram fete ) fe ne- 
gociavam pêra fe tornarem pêra o Eftreito 
de Meca ; e juntamente com iiTo lhe deram 
cartas do Rey que fora de Baçorá , e dos 
Senhores das Ilhas Gizares , em que lhe pe- 
diam os foccorreííe com huma Armada ^ 
porque tinham os Turcos de cerco em Ba^ 
corá , e poftos em eítrema neceífidade , e 

lhes 



190 ÁSIA de Diogo de Couto 

lhes tinham queimado duas galés , e que ef* 
tava a coufa em eftado, que com qualqueí 
Armada que pelo mar os favoreceíTe 5 os 
acabariam de deftruir ; e que tornando a to* 
mar aquella Cidade , oíFereciam pêra EIRey 
de Portugal a fortaleza fbbre o mar , e a- 
metade do rendimento da Alfandega , como 
já offerecêram , quando D. Antão de Noro- 
nha lá fora , como na fexta Década no Cap 
IV, do IX. LW. fica dito. 

Efte negocio poz o Governador Fran- 
cifco Barreto em confelho ; e aflentou-fe 3 
que fe lhe mandaíTe huma boa Armada , por- 
que convinha aoEftado lançar dalli os Tur- 
cos , que eram muito ruins vizinhos pêra a 
fortaleza de Ormuz. Com efte acordo man- 
dou o Governador negociar hum galeão , 
quatro caravelas , e dez fuftas ; e elegeo pê- 
ra efta jornada a D. Álvaro da Silveira , que 
começou a correr com a Armada ; e o Go- 
vernador lhe paflbu todas as Provisões que 
lhe pedio, com poderes foberanos na Jufti- 
ça , e Fazenda. 

D. Álvaro da Silveira deo tanta preíTa 
á fua Armada , que em Março fe fez á ve- 
la , elle no galeão , e nas caravelas D. Pe« 
dro de Menezes , Triftão Vaz da. Vejga , 
Ayres Gomes da Silva, filho de Braz Tel- 
les, e irmão de Fernão Telles , que foi Go- 
yernador da índia , e Jeronymo de Mefqui- 

. : ■ . " ta* 



Dec. VIL Lív. III. Cap. I. 191 

ta. Os Capitães das fuftas eram , António 
de Sampaio , Pêro da Cruz , Vafco Corrêa , 
João Gallego , Cifal Pinheiro , Gafpar Vaz 
de Mefquita , Manoel de Magalhães , João 
Falcão , Jorge Barreto , e Francifco Gon- 
çalves, que hia por Feitor- da Armada. 

Defpedida eíta frota , com que depois 
continuaremos , ficou o Governador deípa- 
chando ascoufas de Malaca, pêra ondedef- 
pedio D.João Pereira, filho de D.Manoel 
Pereira , fegundo Conde da Feira, pêra ir 
entrar na Capitania de Malaca , por Ter fa- 
lecido D. António de Noronha , filho do 
Vifo-Rey D. Garcia de Noronha , que Já 
citava. E porque os Capitães do Idalcan, 
depois de fe recolherem D. Antão de Noro- 
nha , e D. Fernando de Monroy, andaram 
fazendo alguns damnos nas terras de Salfe- 
te, e Bardes, quiz o Governador fatisfazer- 
fe , e mandou Miguel Rodrigues Coutinho 9 
Fios íecos , por Capitão mór de dez navios, 
pêra andar de Goa até Dabúl , fazendo por 
aquella cofta do Idalcan toda a guerra que 
pudefle. 



CA- 



if)2 ÁSIA de Diogo dè Coutfô 

CAPITULO II. 

Do que aconteceo a Trijlao de Paiva em 

Cambaya : e de como os que ficaram nos 

baixos de Pêro dos Banhos acabaram a 

nave ta , enella vieram a Cochim. 

DEixámos no Capitulo atrás partido Trif- 
tão de Paiva pêra Cambaya , que che-* 
gou em poucos dias a Cambayete , e dalli 
foi por terra á Corte de Amadabá , onde 
chegou com grande apparato , e muito fer* 
viço de cavallos , carretas , camelos , e ou- 
tras coufas de ferviço. E antes de entrar na 
Cidade , o fahíram a receber muitos Capitães ^ 
e o levaram aquelle dia a huma quinta, on* 
de ficou , e a outro dia fez fua entrada, a*- 
companhado de todos os Capitães que e& 
tavam na Corte , e foi levado a EIRey , que 
o eífova efperando com grande mageítade > 
acompanhado de Madre Maluco 5 (em cujo 
poder eíteva outra vez o Rey,) e outros 
Regedores. Triftâo de Paiva lhe deo -acar- 
ta do Governador , e oíFereceo o preíènte^ 
que EIRey eílimou muito i e fobre tudo os 
coelhos , que logo mandou lançar em fuás 
defezas , onde fizeram grande creação , e o 
mandou agazalhar bem , e dar todo o ne- 
cefíario. Paliados alguns dias , entrou em ne- 
gócios com os Regedores > a quem eílava re- 
: j. met- 



Dec. VII. Liv. III. Cap. II. 193 

mettido , em que gaftou mais de hum mez , 
e por fim lhe refpondéram » que EIRey era 
:» muito contente de dar a EIRey de Portu- 
» gal a Cidade de Úamao com a lua forta- 
» leza fomente , com tanto que elle lhe lar- 
»gaííe ametade do rendimento da Alfande- 
); ga de Dio , alfim como já o tiveram os 
» Reys feus antepaflados ; e que as terras , 
»e Tanadarias dajuriídicçao de Damão não 
31 era licito largar-lhas , por ferem da Co- 
» roa de Cambaya. » TriíKío de Paiva refpon- 
deo aos Regedores » que elienão levava com- 
» mifsão do Governador pêra acceitar Da- 
» mão fomente ; que mandaíTe EIRey cm fua 
» companhia hum Embaixador ao Governa- 
» dor Francifco Barreto , pêra tratar aquel- 
» le negocio com elle; eque fendo conten- 
» te , fariam lá feus papeis. » Ifto pareceo bem 
aos Regedores, e mandaram logo negociar 
hum Turco , chamado Xeque Eftabolim , da 
obrigação de Madre Maluco ( que era o que 
governava tudo ) por quem EIRey , e elle 
efcrevêram ao Governador , e lhe manda- 
ram também feus prefentes de pejas y e brin- 
cos curiofos. 

Efte Turco fe embarcou em companhia 
de Triftao de Paiva em outro navio , com 
grande cafa, e acompanhamento, e chega- 
ram em breves dias a Goa, onde foi mui- 
to bem recebido , e agazalhado ; e entran- 
Couto.Tom.W.P.L N do 



194 ÁSIA de Diogo de Couto 

do em negócios com o Governador , decla- 
rando a tenção de EIRey , que era largar- 
lhe íb a Cidade de Damão , lha não quiz 
acceitar , porque não fervia de mais , que de 
fazer defpezas ao Eftado , fem proveito al- 
gum , e que ficava fendo de mais impor- 
tância a EIRey ametade do rendimento da 
Alfandega de Dio ; e mais efcufava penden- 
ças , e enfadamentos dos Officiaes delia com 
outros Mouros, que EIRey de Cambaya lo- 
go havia de metter nella ; e que também não 
convinha ao Eíkdo ter naquella Ilha nunca 
já mais o Rey de Cambaya coufa alguma , 
por acabar de lhe perder as faudades. 

Confideradas eftas coufas , defpedio o 
Governador o Xeque Eííabolim, e em fua 
companhia mandou Chriítovão de Couto , 
lingua do Eílado , pêra tornar a tratar de 
novo aquelle negocio com o Madre Malu- 
co, eefcreveo-lhe porelle » que muito roc- 
»lhor vinha a EIRey de Cambaya ter fegu- 
» ro ametade do rendimento da Alfandega 
» de Dio , que a Cidade , e terras da jurií- 
» dicção de Damão , porque fempre lhas ha- 
» viam de comer Capitães alevantados, » Ef- 
tes homens chegaram a Cambayete por fim 
de Março , e acharam alli por novas , que 
EIRey tornara a fugir do Madre Maluco 
pêra Ithimitican , e que o Madre Maluco 
era recolhido pêra a Cidade de Baroche , que 

era 



Dec. VIL Liv. III. Cap. II. 195- 

era fua , ( porque andavam eftes tyrannos 
com o pobre Rey moço , dando-lhe xaque 
de hum pêra outro , porque o que o tinha em 
feu poder, eíTe governava tudo,) pelo que 
o Xeque Eftaholim fe foi Jogo pêra elle , 
deixando alli Chriftovão do Couto 3 que fa- 
bendo do negocio, fe foi á Cidade de Ama* 
dabá , e deo ascarras do Governador a Ithi- 
mitican , que lhe refpondeo » que EIRey era 
» menino 3 que como tiveíTe idade pêra go* 
» vernar , lhe mandalTe o Governador feuá 
» Embaixadores fobre aquelle negocio, que 
» elle lhe refponderia. » Com iílo fe tornou 
Chriftovão do Couto pêra Goa , e deo re- 
lação ao Governador Francifco Barreto de 
tudo o que paflara. 

Deftascoufas foi logo D. Diogo de No* 
ronha , Capitão de Dio , avifado , e tomou* 
fe muito de o Governador mandar tratar hu* 
ma coufa de tanta importância fem lho fa- 
2er a faber , eftando elle tão perto de Cam- 
baya ; pelo que defpedio hum catur com 
cartas pêra o Governador , em que lhe di- 
zia » que fe efpantava muito delle , e dos 
» Fidalgos do Confelho , commetter huma 
» troca tão deíigual, eoííèrecer ametade do 
» rendimento daquella Alfandega , que elle 
» cavara pêra EIRey de Portugal , á cufta 
» de tanto fangue , e trabalho feu ; que lhe 
» não quizeífem roubar fua honra , e fazer 
N ii »pou- 



196 ÁSIA de Diogo de Couto 

» pouco caio de coufa que lhe cuftára tan- 
» to , e que elle tinha peia de maior fervi- 
» ço de EIRey , que todos os da índia. Que 
» fe defejava a Cidade de Damão , pouco ha- 
» via que fazer em a tomar ; porque fegun- 
»do o Reyno de Cambava eílava divifò , el- 
» le fe oíFerecia a lha entregar , porque com 
>) dous mil homens que lhe déííe , iria até 
D á Corte de Amadabá íem refiítencia. » E 
com ifto efcreveo a todos os Fidalgos do 
Confelho , pedindo-lhes não confentiiíem ao 
Governador huma tamanha femrazão , e tan* 
to contra o ferviço de EIRey , dando-lhcs 
pêra iífo muitas razões. 

Eftas cartas foram dadas ao Governador , 
e a elles ; e como os mais eram parentes de 
D. Diogo de Noronha , e lhe tinham mui- 
to grande refpeito , parecêram-lhes bem fuás 
razões , e fizeram lembranças ao Governa* 
dor , que deíiítio do negocio , ç refpondeo 
a D. Diogo de Noronha » que eftimava mui* 
» to aquelle zelo do ferviço de EIRey, cos 
y> oíFerecimentos que lhe fazia , e que no ve- 
» rão feguinte fe veria com elle em Baçaim.» 
Com eftas cartas fe quietou D. Diogo de No* 
ronha, e as coufas pararam. E nós o fare- 
mos também neftas , por contarmos -o que 
aconteceo aos que ficaram nos baixos de Pê- 
ro dos Banhos. 

Deixámos toda aquella gente trabalhan* 

do 



Deg. VIL Lív, III, Caí». II. 197 

do na naveta com tanta diligencia , vonta- 
de , egoftò, que no fim de Março a puze- 
ram no mar muito bem apparelhada ; e em- 
barcaram nella os mantimentos que tinham 
guardados , e fizeram aguada da muita que 
na Ilha havia > e ultimamente fe embarca- 
ram com grandes promeffas , e romarias a 
noíTa Senhora de Guadalupe de Cochim b a 
quem offerecêram a náo 5 e foram fazendo 
lua viagem muito bem > e com tempo proC- 
pero ; e a Virgem Senhora noíTa , que he a 
verdadeira guia, os encaminhou de feição, 
que os poz em Cochim no fim de Abril , 
íem pairarem trabalhos , nem tormentas. Che- 
gados ao porto , acudiram embarcações , em 
que todos fe deíembarcáram ; e póftos na 
praia , fe ordenaram em procifsao , indo os 
Padres da Companhia diante cantando as La- 
dainhas; e por eíla ordem foram até áCa- 
fa de noíTa Senhora com grande devoção , 
e muitas lagrimas , levando apôs fi toda a 
Cidade , que fahio a ver aquelle devoto ef- 
pectaculo ; e a naveta foi mettida dentro no 
rio , e defcarregada do cabedal de EIRey , 
e de muita fazenda que nella mettêram ; e 
a náo foi offerecida a noíTa Senhora. E fe- 
gundo nos parece , ella fe vendeo , e o di- 
nheiro fe deo á Confraria : bafta que ella foi 
feita em feu nome , e acabou bem. 

CA- 



198 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO III. 

Do que Miguel Rodrigues Coutinho fez pe- 
la cofta do Idalcan : e do que aconteceo a 
João Peixoto na jornada do Eftreito : e 
de como de o em Su aquém , e matou aquel- 
le Rey , e cativou alguma gente , e rou*> 
hou os Paços. 

PArrido Miguel Rodrigues Coutinho de 
Goa , como atrás diflemos no Cap. L 
deite III. Liv. , foi correndo toda a cofta do 
Idalcan até á Cidade de Dabul ; e defen> 
barcou em todos os lugares marítimos del- 
les 5 e os metteo a ferro , e a fogo , cati- 
vando , e matando muita gente , cortando 
os palmares , e aflblando as fazendas , quei- 
mando navios grandes , e pequenos , e fa- 
zendo outros muitos damnos , com que a 
terra ficou deftruida , e defpovoada; e dei- 
xando tudo feito pó 3 e cinza , fe paííòu a Da-* 
bui pêra eiperar as náos que haviam de vir 
de Meca, É eftando furto no mar, lhe foi 
cahir nas mãos huma do Idalcan , que vi- 
nha de Meça carregada de muitas fazendas , 
e dinheiro; e pondo-fe os navios em armas, 
a foram commetter com muita determina- 
ção , e a rodearam , e bateram por todas as 
partes muitas horas, defendendo-feella mui- 
to valorofamente , íem querer amainar, in- 
do 



Dec. VIL Ljv. III. Cap. III. 199 

do íèmpre com todas as velas demandar a 
terra , onde íè ouviam as bombardadas mui- 
to claramente, E como o vento era frefeo , 
e os mares pequenos , determinou-fe Miguel 
Rodrigues Coutinho a inveítilla , como fez , 
com todos os navios , repartidos em duas 
partes. E poíto que acharam em os Mou- 
ros (que eram mais de duzentos) mui gran- 
de reíiftencia , todavia a poder de golpes fe 
puzeram em íima , e dentro nella tiveram hu- 
ma muito afpera , e arrifeada batalha , e de 
muito langue de ambas as partes , em que 
os noííos moftráram tanto íeu esforço , que 
com morte da mor parte dos Mouros rende- 
ram a náo , cuítando também aos nofíbs a 
vida de oito , ou dez homens , a fora mui- 
tos feridos; e voltando com ella pêra Goa, 
furgíram na fua barra , onde as fazendas fo- 
ram defembarcadas , e a náo mettida dentro , 
e repartidas as prezas pelos Capitães, e Tol- 
dados. Couberam fó á parte de EIRey mais 
de trinta mil cruzados. 

O Idaícan com os damnos que lhe fize- 
ram por fua coita , e com a perda deita náo , 
ficou tão quebrantado , e affrontado , que de- 
terminou de profeguir na guerra de Goa; e 
mandou defcer abaixo mais alguns Capitães , 
do que o Governador Francilco Barreto foi 
logo avifado, e mandou prover os rios to- 
dos de guarda P de navios , e manchuas , e 

os 



2oo ÁSIA de Diogo de Couto 

os paíTos de Capitães , e foldados , e de£ 
pachou os provimentos pêra todas as forta- 
lezas ; e pêra a de Maluco foi hum formo- 
fo galeão carregado de fazendas , munições, 
e outras coufas pêra aquella fortaleza , de 
quem foi por Capitão Francifco de Barros , 
que era provido daquellas viagens. 

Agora he neceííario que continuemos com 
João Peixoto 5 que deixámos no I. Cap. dei- 
te III. Liv. partido pêra o Eftreito de Me- 
ca ; que ieguindo fua derrota com os levan- 
tes que curfavam , foi haver vifta da cofta 
da Arábia , e de longo delia foi embocar 
as portas do Eftreito , que entrou de dia , 
por fulpeitar que nellas eftavam as galés do 
Cafár , o que não era ; e entrando dentro , 
tomaram algumas gelvas , em que cativaram 
alguns Mouros , de quem fouberam não ha* 
ver em Meca mais que as galés do Cafár, 
que eftavam varadas. Com eftas novas atra- 
veísáram a cofta daAbaífia, e foram haver 
vifta da Ilha Çuaquem , já de noite. E en- 
tendendo João Peixoto que haviam de ef- 
tar defcuidados de poder haver embarcações 
de Portuguezes , determinou de ver fe po- 
dia fazer huma boa preza; e parecendo bem 
aos companheiros , foram no quarto dante 
alva demandar a Ilha > onde delembarcáram 
fem ferem fentidos. E como os Paços de El- 
Rey ficavam fobre o mar, os demandaram 

em 



Dec. VIL Liv. III. Cap. III. 201 

cm muito íilencio; efentindo tudo quieto, 
os entraram , e foram mettendo á efpada al- 
guns , que acharam dormindo nas primeiras 
caías. E chegando á porta da camará, em 
que EIRey dormia , a abalroaram com gran- 
de determinação , e prefteza ; e tomando o 
Rey de fobrefalto , iem cuidar que lhe ef- 
tava aquelle damno apparelhado , o mataram , 
e com elle algumas peííbas , que acudiram aos 
gritos , e algumas mulheres , e outras peí- 
iòas foram cativas , e faqueáram o que na 
camará havia ; e com efte profpero feito fe 
recolheram aos navios , fem lhes acontecer 
defaftre algum; e affaítando-fe da Ilha, fo- 
ram furgir delongo da coita , onde deícan- 
çáram a mor parte da noite ; e tanto que en- 
trou o dia , foram correndo de longo del- 
ia , abrazando , queimando , e deftruindo al- 
guns lugares , faqucando , e roubando mui- 
tas couías , com que os íòldados houveram 
o trabalho por bem empregado; e a íiim fo- 
ram ter ao porto de Arquicó , pêra recolhe- 
rem o Padre Meílre Gonçalo , onde ficaram 
efperando por elle ; que como foi tempo, 
em que lhe pareceo que era bem que fofle 
pêra o mar , (porque conforme ao regimen- 
to que levava , bem fabia que haviam de ir 
navios da índia em bufca delle, ou de feu 
recado , ) fe foi defpedir do Imperador , e 
Jhe pedio licença pêra fe vir , e elle lha deo , 

e 



202 ÁSIA de Diogo de Couto 

e mandou efcrever a EIRcy > e ao Governa- 
dor cartas de grandes agradecimentos , do 
amor , e vontade que moftravam pêra fuás 
coufas , e do trabalho que tinham levado 
em haver do Summo Pontífice, Patriarca, e 
Bifpos pêra aquelle Império ; que elle lhe 
ficava por iííò em grande obrigação de o 
iervir , e de o ter a elle Rey de Portugal 
em conta de pai ; e que elle ficava preltes 
pêra receber o Patriarca como elle merecia : 
mas não fe penhorou em palavras na mudan- 
ça dos coftumes. 

Recebidas as cartas , fe defpedio o Pa- 
dre do Imperador , que o mandou acom- 
panhar , e prover de todo o neceíTario em 
abaílança ; e no fim de Março chegou ao 
porto de Arquicó, onde João Peixoto o ef- 
tava efperando ; e recolhidos nas galeotas , de- 
ram á vela, e chegaram a Goa na entrada 
de Maio. E o Padre Meílre Gonçalo deo ao 
Governador relação de tudo o que paflou 
com aquelle Imperador , e lhe affirmou , que 
fe não mudaria de fua tenção ; o que elle, e 
os Padres fentíram muito , pelo pouco frui- 
to que feefperava tirar do grande trabalho, 
e defpezas que EIRey tinha feito naquelle 
negocio : e do que niíío mais paíTou , adi- 
ante em feu lugar daremos larga conta. Com 
a chegada deftes navios fe cerrou o inverno , 
e o Governador ordenou finco Capitães pê- 
ra 



Dec. VII. Liv. III. Cap. IV. 203 

ra darem mezas a todos os foldados , e ef- 
tes foram Pêro Barreto Rolim , Martim Af- 
fonfo de Miranda , Jorge da Silva , Panta- 
leao de Sá , e Ruy Barreto Maícarenhas. E 
todo o inverno gaitou o Governador na re- 
formação da Armada , que de novo fazia , 
cujo trabalho , e meneio repartio pelos Fi- 
dalgos , e todos os dias vifítava a ribeira , 
e lá jantava ; e aííim íe corria com a obra 
çom muita preíteza , e alegria , porque to- 
dos andavam fatisfeitos , e contentes. 

CAPITULO IV. 

Do que fuccedeo a D. Álvaro da Silveira 
na viagem : e das defavenças que teve 
com Bernaldim de Soufa , Capitão da for- 
taleza de Ormuz : e do que lhe aconte- 
ceo no EJlreito de Ba cor d. 

DE todas as coufas deíle verão nos fica 
fó por continuarmos com D. Álvaro da 
Silveira, que deixámos partido pêra Ormuz 
no Cap. I. deíle III. Liv. , e agora o fare- 
mos , porque cabe aqui melhor, Eíle Capi- 
tão foi feguindo fua derrota até haver vifta 
da corta da Arábia ; e dobrando o cabo Ro- 
lalgate , tomou aguada em Teive , onde fe 
apercebeo de agua , e dalli fe pafibu a Or- 
muz , e furgio defronte daquella fortaleza , 
onde foi logo viíuado da parte de Bernal- 
dim 



âo4 ÁSIA de Diogo de Couto 

dim de Soufa , Capitão delia , que era mui 
grande feu amigo , e lhe mandou pedir que 
quizeíTe fer feu hoípede. D. Álvaro, que já 
vinha em outro bordo , por mexericos que 
tocavam em ciúmes de huns amores , (com 
fer hum dos mores amigos que Bernaldim 
de Soufa tinha , e que já em Goa tomara 
bandos porelle, até contra o Governador, 
com quem teve paixões fobrecoufas fuás,) 
em lhe dando o recado de Bernaldim de 
Soufa, refpondeo » que não vinha peradef- 
)) embarcar aquelle dia , e que ao outro o 
» faria , » e affim o fez ; porque tanto que 
amanheceo , fe merteo no batel do feu ga- 
leão , acompanhado de alguns Fidalgos , 
que com elle hiam embarcados , e foi de- 
mandar a terra. Bernaldim de Soufa fendo 
avifado que defembarcava , o foi efperar á 
praia muito alvoroçado pêra o ver ; mas 
D, Álvaro , que levava diíFcrente penfamen- 
to , fendo já perto da terra , que vio Ber- 
naldim de Soufa , voltou com o batel , e foi 
correndo a ribeira pêra a banda da Alfan- 
dega , e foi defembarcar á porta do Mof- 
teiro de S. Domingos , que eftava huma ca* 
íinha pobre , ( que hoje lie Hofpital pelos Pa- 
dres já não eftarem neíla terra,) deixando Ber- 
naldim de Souía na praia , porque de pro- 
pofito lhequiz fazer efte tiro, pêra que en- 
tendeífe que não vinha feu fervidor. Ber- 
na 1- 



Dec. VIL Liv. HL Cap. IV. iof 

naldim de Soufa tamo que o vio voltar de 
tão perto , logo o entendeo , e diífimulou 
com o negocio , e abalou com toda a gen- 
te pêra S. Domingos , onde achou D, Ál- 
varo da Silveira á Mifla , e foi-le pêra el- 
le, e faliáram-fe, achando a D. Álvaro fec- 
co, e differente do que dantes moftrava. 

Acabada a IVLiíTa , fe íahíram pêra fora , 
e Bernaldim de Soufa o convidou pêra o 
jantar, que lhe elle acceitou ; e indo pêra 
a fortaleza , chegando á Feitoria de EIRey , 
lhe diííe D. Álvaro da Silveira , que tinha 
hum negocio com o Feitor , que lhe déíTe 
licença pêra fe deter , que logo feria com 
elle. Bernaldim de Soufa fe foi, e diííe pê- 
ra os que hiam com elle : » Não ha de vir , 
» porque fe nós tivéramos a vacca preza , 
» o novilhinho entrara no curral. » D. Álvaro 
ficou negociando com o Feitor algumas cou- 
ías pêra o provimento de fua Armada , e 
deo ordem pêra fe armarem mais alguns na- 
vios , por Provisões que para iífo levava , 
porque determinava de paíTar logo a Báco- 
ra; e acabando de fazer aquelle negocio , fe 
foi embarcar , mandando da praia dizer a 
Bernaldim de Soufa , que não efperaííe por 
elle, porque felheofferecêra hum negocio, 
que lhe era forçado ir-fe pêra o galeão. Ber- 
naldim de Soufa nem então lhe quiz dar a 
entender que o entendia , (porque na verda- 
de 



2o6 ÁSIA de Diogo de Couro 

de eítava fem culpa na matéria , por que el!e 
vinha efcandalizado , ) e lhe mandou dejan- 
tar ao galeão muito bem, D. Álvaro da Sil- 
veira foi dando preíía ao aviamento de fua 
Armada 5 defembarcando todos os dias em 
terra , e fempre Bernaldim de Soufa o e£- 
perou , mas nunca quiz entrar na fortaleza ; 
e armou mais féis navios de remo, e os pro- 
veo de Capitães , que foram , Henrique Soa- 
res , Francifco Jorge , Gafpar do Amaral, 
António Nunes , e António Gonçalves ; e ou- 
tro , a que não achámos o nome. 

Preftestudo, fe partio D. Álvaro da Sil- 
veira pêra Baçorá em Junho ; e antes de che- 
gar á fortaleza de Reixel do Eftado da Per- 
lia , que fica fobre a boca do rio Eufrates , 
encontraram huma terrada , que levava car- 
taz de Bernardim de Soufa; e fendo levada 
ao Capitão Mor , mandou recoilier no feu 
galeão todos os mercadores , e fazendas com 
huma boa cópia de dinheiro , fem lhe que- 
rer guardar o cartaz , com os mercadores 
lhe fazerem fobre iflò muitos proteftos , e 
requerimentos. E eílando furto hum pouco 
fora do rio Eufrates , efperanuo por recado 
dos Gizares , e do Rev 3 que foi de Baçorá , 
lhe deo huma tormenta tamanha , que a não 
puderam aguardar fobre a amarra , e foi-lhes 
forçado darem á vé!a , e correrem com os 
traquetes á vontade dos ventos pêra Ormuz ; 

e 



Dec- VII. Liv. III. Cap. IV. 207 

e de feição , que fe dividiram todos os na- 
vios 3 e os mais delles chegaram derroca- 
dos , e alagados a Ormuz > como também 
fez D. Álvaro da Silveira no feu galeão , 
que furgio no porto fem querer defembar- 
car, porque logo foi avifado , que Bernal- 
dim de Soufa eftava muito tomado de lhe 
não guardar o feu feguro á terrada que to- 
mara , do que fe havia por tão affrontado , 
e offendido , que esbravejava de ira de fei- 
ção , que a paixão lhe não dava lugar al- 
gum ao foíFrimento. E affirmáram algumas 
peííoas , que dcíèjára de fe encontrar com 
D. Álvaro da Silveira , e que o fora efpe- 
rar de noite , cuidando que defembarcafle , 
e foífe a parte onde o encontraííe , mas 
D. Álvaro da Silveira não defembarcou. E 
depois de tomar alguns provimentos , e re- 
formar a Armada , fe partio pêra Mafcate , 
onde eíleve até ler tempo de fe partir pêra 
Goa, e recolher as náos de Ormuz pêra lhe 
ir dando guarda. Bernaldim de Soufa ficou 
tão apaixonado , e defgoftofo , que cahio em 
cama , e de feição , que defta feita veio a fa- 
lecer, como adiante diremos. 



CA- 



2o8 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

Das coufas que efte anno aconteceram em 
Ceilão : e da guerra que fe profeguio con- 
tra o Tribuli I* andar : e de como elle fu- 
gi o pêra Jafanapatao , onde foi morto : e 
da guerra que o Madune tornou afazer 
a E/Rey da Cota. 

DEixámos o inverno paíTado recolhido o 
Tribuli Pandar nas fere Corlas , depois 
de desbaratado ; evendo-fe alli tão perfegui- 
do , fe foi metter com o Príncipe de Urun- 
guré, que hehuma das Corlas, por fer mui- 
to feu parente , e elle o agazalhou bem , e 
o favoreceo contra o Madune , e lhe deo 
todas as coufas neceíTarias pêra a guerra ; 
mas como o Tribuli Pandar era máo , eper- 
verfo , em pago deite grande beneficio , ma- 
tou numa noite o Principe , apoderando-fe 
da Cidade , em que fe fortificou com os feus , 
fazendo-fe Senhor dos Paços , cafa , e the- 
iburo do Principe. Vendo-íè efte tyranno com 
poíTe , e fenhor de Urunguré , determinou 
ienhorear todas as fete Corlas , que era hum 
Eílado grande 3 e em que os Portuguezes , 
nem o Madune lhe podiam fazer damno , 
por fer todo de ferras altas , e de pados ef- 
treitos y e difficultofos. Determinado nifto, 
ajuntgu gente, e começou a entrar pelas ou- 
tras 



Dec. VIL Liv* III.Cap. V. 209 

trasCorlas cora mão armada a tomar-lhes, 
e deftruir-lhes feus lugares. 

Vendo osnaturaes tamanha maldade em 
hum homem , como foi matar hum Prínci- 
pe, que o agazalhou em feus trabalhos, e 
perfeguiçóes , e tanto feu parente , fe cartea- 
ram todos , e fizeram huma liga geral con- 
tra elle , jurando com fuás ceremonias de 
morrerem todos aílim na defensão de fuás 
Cidades , como na vingança da morte da- 
quelle Príncipe ; e ajuntando todo o poder, 
occupáram , e fortificaram ospaflbs por on- 
de^ efte tyranno os podia entrar; e pêra mor 
fegurança , mandaram Embaixadores a Af- 
foníò Pereira de Lacerda , Capitão de Cei- 
lão , a pedir-lhe foccorro de foldados , pro- 
mettendo que a todos os que lá foííem , pa- 
gariam a quinze pardáos de ouro por mez 
a cada hum. 

Vendo AfFonfo Pereira de Lacerda feu 
requerimento , e razão , havendo que era fer- 
viço deElRey favorecerem aquelles povos , 
porque fe não vielTe aquelle tyranno a fazer 
feohor daquellas Cidades , (porque daria mui- 
to grande opprefsão , e trabalho a toda aquel- 
]a Ilha,) defpedio logo hum João Fernan- 
des Columbrina , foldado velho , e bom Ca- 
valleiro , com feífenta Portuguezes , que fol- 
garam de ir áqueile negocio, pelas groífas 
pagas que lhes promettêram ; e foram-fe ajun- 
Conto. Tom. IV. P.L O tar 



iio ÁSIA de Diogo de Couto 

tar com òsnãturaes daquellas Corlas , e co- 
meçaram a fazer guerra ao Tribuli Pandar 
pela parte defima, e o Rajú , filho doMa- 
dune ( de quem fe também valeram ) pela 
parte debaixo ; e affim perfeguíram aquelle 
tyranno , que de fe ver perdido , tratou de 
íalvar fua pefíoa , como fez huma noite , le- 
vando fua fogra , e a mulher, filha doMa- 
dune , com os thefouros que pode ; e por 
caminhos efcufos fe foi pêra Jafanapatão a 
pedir foccorro aquelle Rey , pêra tornar a 
voltar com mor poder; eeile orecebeo hu- 
manamente. E praticando depois em feu ne- 
gocio , e dando-lhe conta de fuás coufas , 
a voltas delias lhe difle a obrigação que ti- 
nham todos os Reys daquella Ilha , de lan- 
çarem fora delia os Portuguezes , fazendo- 
ího tão fácil , que o moveo a lhe dár íoc- 
corro contra elles , e a folicitar todos os 
Reys amigos , e parentes. E para mor fe- 
gurança diílo , ajuntáram-fe em hum Pago- 
de, pêra nelle jurarem aquella liga com as 
ceremonias antre elles coftumadas. Mas co- 
mo a couía, que mais aborrece aDeos, são 
homens falfos , e tyrannos , quiz logo cafti- 
gar efte Tribuli Pandar, quando elle eílava 
mais embebido na vingança do feu ódio; è 
foi deita maneira. 

Eítando eftes Principes diante de feus ído- 
los pêra fazerem feus juramentos com gran* 

des 



t Dec. VIL Liv, IIL Cap, V. 2tr 

des feftas , e regozijos , acertou de cahir a 
hum foldadohuma pouca de pólvora dofraf- 
co da efpingarda , e outro traveflb ^ que ef- 
tava junto delle , a lhe pôr o fogo , o que 
fuccedeo pegado com ambos aquelles Prín- 
cipes. E como o Tribuli Pandar andava receo- 
íb , e de todas as coufas fe temia * (que he 
o pezo que os máos trazem íèmpre íbbre o 
coração , cm pena de lua maldade,) tanto 
que vio a labareda da pólvora , cuidando 
que era traição $ arrancou da efpada contra 
EIRcy ; e antre todos fe ateou huma gran- 
de briga , em que o Tribuli Pandar foi mor- 
to, ficando deita feita a Rainha velha, o ne- 
to , fua nora , e thefouros em poder daquel- 
le Rey ; e por aqui fe acabaram todas fuás 
guerras , e trabalhos , ( que os Capitães de 
Columbo perfeguíram , tendo péla ventura 
no principio pequenas culpas ; porque fe che- 
gou a morder , foi porque o acoitarão* ) E 
depois que elle acabou, começaram os gran- 
des trabalhos daquella Ilha , e fe perdeo o 
Reyno da Cota ; e houve tantos cercos fò- 
bre aquella fortaleza, e fobre a de Colum- 
bo , como pelo decurfo das Décadas oita- 
va, nona, é decima feveram; porque nun- 
ca o Madune fe defa vergonha ra tanto , fe 
o Tribuli Pandar vivera j por fer o que lhe 
quebrava, e abatia fua foberba , etyrannia. 
Vendo o Madune morto o Tribuli Pan* 
O ii dar> 



in ÁSIA de Diogo de Couto 

dar, è o Camereiro mór de EIRey da Co- 
ta , e feu cunhado Alança Modeliar , c o 
filho do Capitão preto prezos , e homizia- 
dos com os Portuguezes , ( tudo ordenado 
por ília induftria a eíie fim , ) ordenou logo 
de profeguir na guerra da Cota , e não le- 
var mão delia , até fe fazer Senhor daquel- 
]e Reyno , pêra fe coroar porlmperador li- 
vremente. E ajuntando feus exércitos , man- 
dou feu filho oRajú, queelle foicreando, 
e dando azas , e brio pêra depois o matar 
a elle, e a feus irmãos legítimos, e a fe fa- 
zer Rey, (como na undécima Década dire- 
mos , pagando o Madune fua tyrannia por 
mãos de feu próprio filho , ) que foíle pro- 
feguir na guerra ? e puzeífe cerco a Cota ; 
o que elle fez , fahindo de Ceitavaca com 
hum groflb exercito; e entrando pelas ter- 
ras daquelle Rey , foi fazendo grandes da- 
ninos , e eftragos. 

Eftava nefte tempo na Cidade da Cota 
com aquelle Rey Affonfo Pereira de Lacer- 
da com pouca gente , e com elía que tinha 
provêo os paíTos da Cidade , e os fortificou 
o melhor que pode , e pelos rios efpalhou 
dez , ou doze navios , de que eram Capi- 
tães Fernão de Caflxo, Domingos Rapofo, 
João Rodrigues Corrêa , António de Efpin- 
dola , Diogo Juzarte , Chriítovao das Ne- 
ves, Gafpar Lopes > Vicente Bello, Antó- 
nio 



Dec. VIL Li v. III. Cap. V. 213 

nio Fernandes , Gonçalo de Chaves , Antó- 
nio de Araújo , António Jorge , Domingos 
Dias ; e por Capitão mor de todos Fernão 
Peres de Andrade. Eftes navios andaram de- 
fendendo a paíTagem ás gentes do Rajii , dan- 
do-Ihe também em alguns lugares do pai , 
que deftruíram , eabrazáram. EIRey da Co- 
ta, polio que eílava desbaratado , ajuntou tam- 
bém fuás gentes, e lançou no campo alguns 
Modeliares , que tiveram muitos recontros 
com os inimigos, em que houve damno de 
parte a parte. E porque eíies aííaltos foram 
muitos, e miúdos, enao achámos lembran- 
ça de coufa notável , paliaremos por elles ; 
baila que ficaram parte do veram , etodoef- 
te inverno, fazendo- fe toda a guerra que pu- 
deram , e aílim os deixaremos até tornar a 
elles. 

CAPITULO VI. 

Da Armada que efte anno defmcoenta efeis 
par tio do Reyno , de que era Capitão mor 
D. João de Menezes de Siqueira : e do 
que lhe juccedeo na viagem : e do em que 
o Governador Francifco Barreto proveo 
fobre as coufas do Patriarca : e da via- 
gem que fizeram as nãos até o Reyno. 

P Ela Armada do anno de fincoenta e qua- 
tro , que chegou em Agoílo de fincoen- 
ta e finco y lòube EIRey ficar na índia o 

Vi- 



2i4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Vilo-Rey D. Pedro Mafcarenhas, que nel-» 
la foi, o que eftimou muito; e na entrada 
de Janeiro de fincoenta e féis mandou dar 
preflà á Armada que havia de ir pêra a ín- 
dia , de que era Capitão mór D. João de 
Menezes de Siqueira. E porque defejava de 
defpedir eftas nãos cedo , ( porque as da Ai> 
mada do Vifo-Rey D. Pedro Mafcarenhas 
por partirem tarde arribaram humas , e ou- 
tras tiveram muito ruim viagem 5) entrou lo- 
go no defpacho das coufas da índia , e na 
embarcação do Patriarca da Abaffia, e Bif- 
pos , que haviam de ir aquelle anno. E pê- 
ra mais authoridade , e obrigar com iíTo 
muito aquelle Imperador , ordenou de lhe 
mandar hum Embaixador , e dizem que com- 
mettêra pêra iíTo D. António de Noronha o 
Catarraz, que havia de ir pêra a índia nef- 
ta Armada , e que por pedir muitas coufas 
fedefaviera, e eiegeo EIRey pêra jlTo a Fer- 
não de Souía de Caftello-bianco , e o def- 
pachou com a Capitania de Chaul , e com 
mil pardaos de tença , em quanto não en-* 
trafTe nella ; e mandou efcrever aquelle Im- 
perador cartas de muita obrigação , em que 
lhe pedia quizelTe dar a obediência á Santa 
Sé Apoftolica , e receber o Patriarca , co- 
mo huma tamanha dignidade merecia. E paf- 
fou Provisões ao Governador pêra dar a Fer- 
não de Soufa de Caílçlio-branco quinhen- 
tos 



Dec. VIL Liv. III. Cap. VL &|f 

tos homens , e Armada baftante pêra elles*, 
pêra por o Patriarca , e Bifpos na Abaffia. 

Eítas náos deram á vela a quinze de Mar- 
ço , o Capitão mor D.João de Menezes de 
Siqueira na Garça , Jorge de Brito çm Flor 
de la mar, Pêro de Góes no galeão S.Vi- 
cente , Marrim Affoníb de Soufa , filho do 
Veador do Cardeal D. Henrique , e que de- 
pois foi Governador de Angola , em São 
Gião , e António Fernandes em S. Paulo , 
cujo fenhorio elle era. Nefta náo fe embar- 
cou D. António de Noronha o Catarraz „ 
que tinha arribado na náo Flamenga , dçque 
era Capitão D. Manoel Tello > como atrás 
diflemos. 

Tanto que D. António de Noronha che- 
gou ao Reyno , fe foi recolher em S. Fra ra- 
dico ; e lendo EIRey diíTo avifado , man- 
dou laberdelle, feaquillo era fazer mudan- 
ça na vida , ou fe por outro algum refpei- 
to ; ao que lhe refpondeo » que fe reeolhê- 
» ra com os Frades por pobre ; porque ant^s 
» queria acceitar delles huma ração , que pe- 
»jar, nem enfadar parente algum feu. » Vea- 
do EIRey aquillo, o mandou chamar , £&P 
fez mercê da Capitania de Dio , por lhe ca- 
ber logo apôs D. Diogo de Noronha, que 
nella eftava , e lhe mandou dar dinheiro pê- 
ra fuás dcfpezas , em quauto fe não embarca- 
va , e agora pêra fua embarcação lhe man- 
dou 



116 ÁSIA de Diogo de Couto 

dou empreitar dous mil cruzados do cofre 
do cabedal , que hia pêra a pimenta , pêra na 
índia os tornar ; porque os Reys de Portu- 
gal fempre andaram efpreitando as neceíli- 
dades de feus vaíTallos , pêra as remediarem 
como pais ; porque fabiam muito bem , que 
elles como filhos no amor , e como vaífal~ 
Jos leaes na obrigação , arrifcavam as vidas, 
todas as vezes que era neceflario por feu íer- 
viço , a todos os perigos que fe offereciam. 

Neítas na os provêo EIRey em muitas cou- 
fas , que lhe pareceram neceííarias ao bom 
governo do Eítado da índia , e encommen- 
dou muito ao Vifo-Rey , que mandaííe hu- 
ma peíToa de confiança acorrer os portos da 
Ilha de S, Lourenço, pêra ver fe achavam 
por elles algum raito da gente das náos Buf- 
galeza, e Santa Cruz, que defapparecêram , 
vindo pêra o Reyno , o anno de fincoenta 
e três , porque fe prefumia que deram por 
aque.lla coita ; e que notaííem em todos a- 
quelles portos o que fofle mais accommoda- 
do pêra ne!le íe fazer huma fortaleza ; e 
que afíentaífem pazes , e commercio com os 
Senhores dos portos de mar , e viííem fe 
aquella gente era capaz de receber aLeyde 
Chriíto. 

Eítas náos foram feguindo fua derrota , 
ora com bonanças , ora com contraftes , 
até paíTareni o cabo dç Santo Agoítinho , 

que 



Dec. VII. Liv. III. Cap. VI. 217 

-que foram em demanda do de Boa Efperan- 
ca; fomente a náo S.Paulo, depois de paf- 
íar o Cabo de Santo Agoftinho , (que foi 
já muito tarde , ) começou a haver antre os 
homens domar alterações, e requerimentos 
ao Capitão, que arribaííem , porque a náo 
não levava agua ; e chegou a coufa a eíla- 
do , que não quizeram acudir, nem obede- 
cer ao Meítre. A iílo acudio D. António de 
Noronha , e ajuntando-fe com o Capitão , 
elegeram alguns homens honrados , e de ver- 
dade pêra darem bufca á náo, e faberem a 
agua que havia; edefcendo ao porão, e ás 
cubertas , em que fe metteo a agua de EIRey , 
acharam tão pouca , que nos affirmáram não 
chegar a vinte pipas; pelo que lhes foi ne- 
ceflTario arribarem ao Brazil , e foram tomar 
a Bahia de Todos os Santos , onde eftava 
por Governador D. Duarte da Coita , que 
mandou recolher os doentes no Hofpital , e 
aos sãos ordenou darem-lhes mezas ; e Dom 
António de Noronha recolheo comfigo per- 
to de trinta foldados , criados de EIRey , 
elhes deo de comer á fua eufta todo o tem- 
po que alli eíleve , e depois até os pôr na 
índia. As mais náos paííáram á índia , e to- 
maram Goa , e nellas vieram as novas da 
morte do Infante D. Luiz , que todos geral- 
mente fentíram , porque perderam nelle os 
Fidalgos tamanho terceiro pêra feus defpa- 

chos , 



2i8 ASIÀ de Diogo de Couto 

chos , que depois de declarados lhe hiam bei- 
jar a mão por elles , porque fempre foi re- 
querente de todos. E as coufas da índia , 
por ella fer defcuberta-por EIRey D. Ma- 
noel íeu pai , favcreceo fempre , e amou fo- 
bre todas; e affim dizem que defejou fum- 
mamente ir a ella , mas que tivera a iflb 
grandes inconvenientes. 

Foi efte Príncipe por fua boa , c real na- 
tureza muito amado de todos , não fó dos 
naturaes , que o tinham em conta de pai , 
mas ainda dos eftrangeiros ; e affim todos o 
fentíram , e choraram. E eu também o fiz 
ao efcrever difto , porque toda a honra , fer , 
e creação que tenho , me veio delle ; pon- 
que de idade de dez annos o comecei a fer- 
vir , e me achei na cafa em que faleceo com 
huma tocha nas mãos - r e por íicar defampa- 
rado por fua morte, mepaílei á índia , on- 
de atégora fempre fervi, e militei. Também 
vieram neílas náos novas de como o Im- 
perador Carlos V. de gloriofa memoria , íe 
recolhera á Religião no Convento de S.Je- 
ronymo dejuíle, por fer lugar fadio, eao- 
commodado a quem larga governo , e in- 
quietações do Mundo , e deixara o gover- 
no de feus Reynos ao muito Catholico Prín- 
cipe D. Filippe feu filho. 

Chegadas as náos a Goa , logo o Gover- 
nador fe começou a fazer preftes pêra ir «10 

Nor- 



Dec. VIL Liv. III. Cap. VI. 219 

Norte , pêra o queeícreveo a EIRey de Co- 
chim , e áquella Cidade , que lhe mandatTe 
alguns Naires , navios , e gente pêra o a- 
companharem ; e o rnefmo efcreveo a Ca- 
nanor, e que efperava de partir na entrada 
de Novembro ; e começou logo a entender 
no defpacho das náos , que haviam de ir pê- 
ra o Reyno. E porque faltava a náo S.Pau- 
lo , que ficou invernando no Brazil , não 
querendo que foíTem menos náos , e carga , 
o feu primeiro anno, em quepertendia ficar 
acreditado com EIRey , comprou huma mui- 
to formofa , e nova doeftaleiro, que eftava 
ko porto de Goa , a Eftevão Pereílrello , Ca- 
pitão de Carania , e deo a Capitania delia 
aFranciícoNobre, que ficou em Goa, por 
fe perder nos baixos de Pêro dos Banhos , 
(como atrás diflemos no Cap, VII. do II. 
Liv.) por fer da obrigação do Conde da 
Caflanheira ; e defpedio com muita preíía 
as náos pêra irem tomar a carga a Cochim , 
pêra ficar defembaraçado , e entender íb na 
íua Armada , em que pertendia ir ao Nor-> 
te. Eftas náos tiveram muito ruim viagem , 
e fó a Capitânia chegou ao Reyno ; Flor de 
la mar, S.Gião, e o galeão S.Vicente in- 
vernáram em Moçambique , e depois em No- 
vembro partiram pêra o Reyno, aonde che- 
garam ; e a náo S. Gião , em que hia por 
Capitão Martim AíFonfo de Souía , pelejou 

na 



^20 ÁSIA de Diogo de Couto 

na coita do Algarve coou quatro galés de 
Turcos muitas horas, e fe apartaram quaíi 
desbaratados , ficando também a náo bem 
deftroçada , e aílim entrou pela barra de Lis- 
boa dentro. 

CAPITULO VIL 

De como o Patriarca , e o Embaixador da 
Prejle trataram com o Governador Fran- 
cifco Barreto Jobre fua ida : e dos entre- 
ti mentos , e efcufas de que ufou , e do ccn- 
felho que (obre ijjò tomou , em que fe af- 
Jentou fojje o Bijpo D. André de Ovie- 
do : e de como mandou d Ilha de S. Lou- 
renço Bahhazar Lobo de Soufa. 

VEndo o Patriarca , e Fernão de Sou- 
fa de CaftelJo-branco , Embaixador da 
Çthiopia , que o Governador Francifco Bar- 
reto fe fazia preíles pêra ir ao Norte, fem 
tratar das coufas da Ethiopia , que EIRey 
tanto lhe encommendava , foram- fe a elle % 
e lhe aprefentáram as inílrucçóes , e Provi- 
sões de EIRey , e lhe requereram que as 
cumprifle , c lhe défle a Armada , gente , e 
todas as mais coufas que EIRey mandava , 
pêra paliarem á Ethiopia , coufa , em que el- 
le levava tamanho goíto , e tinha mettido 
tão grande cabedal. O Governador vendo- 
fe apertado delles , refpondeo » que aqueJle 

» ne- 



Dec. VII. Liv. III. Cap. VIL 22i 

3> negocio era de muito grande confideração , 
)>e que o Eftado não eftava pêra poder ti- 
» rar de ii feiscentos homens , e Armada baf- 
» tante pêra elles , tantos marinheiros , ar- 
» tilheria , munições, e outros petrechos , de 
» que os Armazéns citavam faltos; que pri- 
» meiro havia de dar relação aElRey do que 
» o Padre Meftre Gonçalo paflara comaquel- 
» le Imperador , e de como o achara duro 
3> na mudança de feus coftumes ; e que não 
:» era licito , nem honra da Sé Apoftolica , 
^ que huma tamanha dignidade , como era 
» a do Patriarca , fe abalaííe a coufas duvi- 
» dofas , e fe arrifcaífe a fer defprezado , e 
» maltratado de homens , que profeflavam 
» ferem Chriftaos ; e que eferever el!e que 
> lhe mandafíem o Patriarca, e Bifpos, fo- 
» ra mais por cumprimento , que por vonta- 
» de ; )> e com ifto fe concluio. 

Os Prelados , e Padres da Companhia , 
que fe acharam prefentes , ficaram muito def- 
contentes da pouca vontade que viram no 
Governador , e fizeram queixas aos princi- 
pães Fidalgos da índia , como D. Álvaro da 
Silveira , D. Antão de Noronha , Fernão 
Martins Freire , Martim AfFonfo de Miran- 
da 3 e outros , que fizeram íuas lembranças ao 
Governador fobre aquellas coufas, que fem- 
pre infíftio em não fer bem ir o Patriarca , 
nem o Eftado lhe poder dar a gente , e Ar- 
ma- 



222 ÁSIA de Diogo de Couto 

mada que EIRey mandava , refumindo-íe* 
que todavia fe o Patriarca quizeífe paflar á 
Ethiopia, que faria huma Armada confor- 
me ao tempo ; mas que havia de ir nella 
Fernão Martins Freire por Capitão mor í 
( não tratando coufa alguma de Fernão de 
Soufa j ) que o poria em Arquicó , e lhe da- 
ria feíTenta foldados pêra o acompanharem 
até á Corte do Imperador, que iíTo lhebaf- 
tava. Difto ficaram o Patriarca , e Fernão de 
Soufa aggravados do Governador , e refpon- 
deo o Patriarca » que fe não havia de abalai 
» de Goa, fenão na forma que EIRey man- 
»dava, e em companhia do Embaixador que 
» com elle viera ; » e o Padre D. Gonçalo 
da Silveira , Provincial da Companhia , def- 
goftofo diíío , fe embarcou logo pêra Co- 
chim, fem querer mais ver o Governador, 
que cuidando devagar naquellas coufas , ç 
vendo as inílrucções , e Alvarás de EIRey , 
e o muito que lhe encommendava aquelle ne- 
gocio , e as diligencias que o Embaixador, 
e Patriarca fobre iífo tinham feito , não quiz 
que efcreveífem a EIRey, o pouco que na- 
quelle cafo fizera. 

Pelo que mandou chamar a confelho ge- 
ral todos os Prelados Theologos , e Fidal- 
gos velhos , e lhes diífe » que elle eftava pref* 
5> tes pêra fazer nas coufas do Patriarca, o 
» que lhe EIRey mandava j mas que bera 

)) viam 



Dec. VIL Li v. III. Cap. VIL 223 

)>viam, que o Eftado não eftava pêra tirar 
% cie íi tanta gente , e Armada , porque nem 
»foldados, nem dinheiro havia ; que fetor- 
» nafle a ouvir aili o Padre Meftre Gonça- 
» lo , e que com a informação que tornaífe 
y> a dar das coufas do Prefte , aílim votaíTem , 
» porque elie eftava preftes pêra pôr em or- 
» dcm tudo o que fe afTentafle* » Sobre iíto 
tornou o Padre Meftre Gonçalo a dar rela- 
ção dascouías daquelle Imperador , e de co- 
mo o achara frio nas coufas da Fé , e das 
inquietações que aquelle Império padecia com 
os inimigos ; mas que também era lá mui- 
to necaílaria a prefença do Patriarca , por- 
que podia fer que com aquelle Imperador 
o ver, fe moveííe ao queElRey pertendiae 
Sobre iíto tornaram a votar todos } e os mais 
foram de parecer 5 que fe não arrifcaíTe a 
peífoa do Patriarca por então, porque o Ef- 
tado não eftava pêra o mandar com o ca- 
bedal que EIRey mandava. E que fe fizef» 
íe primeiro afaber; mas que também fenão 
deíamparaíFe aquella Chriítandade , porque 
de huma hora pêra a outra podia Deos mo- 
ver o coração daquelle Imperador , e que 
pêra iífo fe mándafle o Bifpo D. André de 
Oviedo , com alguns companheiros , e Pa- 
dres da Companhia , pêra verem, e confo- 
laretn aquella Chriftandade , porque de to- 
do fe não apagaíTe. E que achando lítio , e 

dif- 



224 ÁSIA de Diogo de Couto 

difpofíção pêra fe fazer algum fruito no Inv 
perador , e nos naturaes , então poderia ir 
o Patriarca , como EIRey mandava. 

Com eíta refoluçao mandou o Governa- 
dor Francifco Barreto negociar quatro na- 
vios , de que deo a Capitania a Manoel 
Travaílòs , e deo ao Bifpo todas as coufas 
neceíTarias pêra a jornada ; c ordenou que 
fofle em fua companhia a modo de Embai- 
xador Gafpar Nunes , que de lá tinha vin- 
do com o Padre Meftre Gonçalo , que foi 
dos que ficaram da companhia de D. Chri- 
fíovão da Gama ; e como o Governador ef- 
tava apreflado pêra ir ao Norte , deixou or- 
dem pêra partirem em Janeiro. 

E porque EIRey lhe encommendava mui- 
to , que mandaíTe á Ilha de S. Lourenço a 
íaber fe havia por feus portos novas algu- 
mas da gente daqueilas náos perdidas 5 de 
que atrás fizemos menção no Cap. VI. def- 
te III. Liv, , e pêra outras coufas , que man- 
dava por fuás inftrucçóes , elegeo pêra eíta 
jornada Balthazar Lobo de Souía com hu- 
ma caravela, eduas furtas de remo, de que 
eram Capitães João Gallego , e Pêro Rodri- 
gues Barriga , e lhes deo o traslado do re- 
gimento de EIRey , e outro feu fobre as 
inefmas coufas , e com ordem que partiífe 
no mefmo tempo que Manoel TravaíTos. 

CA- 



Década VIL Liv. HL 22J 

CAPITULO VI1L 

Da Armada que o Governador Francifco 
Barreto mandou ao Malavar: e de co- 
mo elle partio pêra o Norte , e Dom 
Diogo de Noronha (e foi ver 
com elle a Baçaim é 

DEfpedidas as náos pêra Cochim i pro* 
veo o Governador Francifco Barreto a 
corta do Malavar com ío íece navios , por 
nao haver por então neceífidade demais Ar- 
mada , de que fez Capitão mor Miguel Car- 
neiro , irmão de Pêro de Alcáçova Carnei- 
ro , Secretario de Elíley ; e os mais Capi- 
tães eram, Belchior Carvalho, João Rodri- 
gues de Souía , António Pimenta ? Luiz Men- 
des de Vafconcellos , Jorge Gonçalves , e 
Pêro de Figueiredo. E porque a Armada não 
fez coufa notável , mais que enxotar alguns 
ladrões formigueiros , acabaremos aqui com 
ella , por não tomarmos o tempo a outras 
coufas. E logo apôs efta Armada defpedio 
Pêro de Ataíde Inferno com huma galeo- 
ta Latina , e finco navios pêra ir ás Ilhas de 
Maldiva efperar as náos de Meca , onde lhe 
nao aconteceo coufa notável. 

Partidas eftas Armadas , fe embarcou o 
Governador em Novembro , e deo á vela 
com huma frota de cento eíincoenta navios i 
Couto. To m> IK P. L P em 



22Ó ÁSIA de Diogo de Couto 

em que entravara treze galés , e oito ga- 
leões , e tudo o mais galeotas , fufías , e ca- 
tures. Os Capitães das galés eram , Fernão 
Martins Freire , D. Fernando de Monroy , 
Martim AfFonfo de Miranda , Pêro Barre- 
to Rolim , Baftiao de Sá , Pantaleão de Sá 
feu irmão , D. Pedro de Soufa , Ruy Bar- 
reto Maícarenhas , e o Governador na ga- 
lé Reliquias , que era a mais formofa peça 
que havia, D. Francifco Mafcarenhas , Ál- 
varo Paes de Soto-maior, e D. Filippe de 
Caílro. Em galeotas Latinas D. Martinho da 
Cunha , D. Álvaro da Silveira , que tinha 
chegado de Ormuz , D. Pedro de Menezes , 
Ayres Gomes da Silva , e Triílão Vaz da 
Veiga em galeões. Os Capitães das fuftas 
eram , D. João de Ataíde , que eíle anno 
veio defpachado com a Capitania de Ormuz 
pêra logo , D. João Coutinho , D. Pedro de 
Noronha, D. João Tello , D. Pedro Deça , 
Ayres Telles de Menezes , D, Diniz , Gon- 
çalo Falcão , Garcia de Sá, António de Sou- 
fa Coutinho , D. Francifco de Moura , An- 
dré Pereira , Álvaro Pires de Távora , Jor- 
ge Pereira Coutinho , Chriílovão de Soufa , 
Manoel de Mello , Martim Affonfo de Mel- 
lo Hombrinhos , Álvaro de Caílro , Jerony- 
mo de Soufa , Luiz Cabral , André de Sou- 
fa , João de Mello de Brito , António de 
Noronha , D. Luiz de Almeida 7 António 

Fer- 



Dec. VIL Liv. III. Cap. VIII. 227 

Ferrão, Fernão Peres de Andrade, que ti- 
nha vindo de Ceilão , Pêro Mafcarenhas , 
Luiz Freire de Andrade , Lopo de Brito , 
Álvaro Reinei, Trilião de Paiva, António 
de Sampaio, Cifal Pinheiro, Nuno Vaz de 
Villa-lobos , Ruy de Mello da Camará , Pê- 
ro Fernandes de Carvalho , Ayres Falcão , 
Cofmo de Caftro , António Gomes da Sil- 
va , Jorge Toícano , Fernão de Sá , Jero- 
nymo deMefquita , Ruy Dias Pereira , João 
Alvares Pereira , Vafco da Silva , Gonçalo 
Guedes de Souía , Diogo de Miranda de 
Azevedo , Martim Lopes da Fonfeca , Bel- 
chior Corrêa , o Ouvidor Geral , o Secre- 
tario António Coelho , António Martins , 
João Rodrigues , António Borges , João Pei- 
xoto , João Freire , Manoel Boto , Fernão 
Paes , Aleixos Malho , Simão da Cunha , 
André Coelho , Anadel mór dos efpingar- 
deiros , António de Siqueira , Capitão da 
guarda do Governador, Balthazar Montei- 
ro , Manoel Mouro , António de Arzila , 
Manoel Pinto, André de Villa-lobos, Ma- 
noel Affbnfo , Francifco Dias , Belchior Go- 
dinho, Miguel Rodrigues Coutinho Fios fec- 
cos , Pedro Alvares de Cananor , António 
de Almeida , Gonçalo Sanches , Jorge Go- 
mes , Ruy Godinho de Cananor, Vafco Mar- 
tins, Capitão de três navios, que EIRey de 
Cochim mandou com Naires, Braz Frago- 
P ii fo 



2i8 ÁSIA de Diogo de Couto 

fo de Coulao , João Freire, Franciíco Ro- 
drigues cm huma galeota fuà, Franciíco de 
Albcquerque ; Eftribeiro do Governador com 
os feus cavallosj Diogo Banha, Chriftovão 

Fernandes , Capitão de duasfuíhs , que a Ci- 
dade de Ccchim mandou ; e outros muitos 
Capitães, a que não achámos os nomes. O 
Governador foi tomar Chaul com toda eíla 
Armada, e depaílagem deo ordem a algu- 
mas coufas j e defpachou Baftiao de Sa pê- 
ra ir entrar na Capitania de ÇofaJa , e Mo- 
çambique i que lhe cabia entrar naquelie Fe- 
vereiro, por acabar feu tempo D. Diogo de 
Soufa , neto do Conde do Prado, que de- 
pois foi General da Armada deEIReyDom 
Sebaftião na defafirada paflada de Africa. 

Defpachadas eílas coufas, paflbu o Go- 
vernador a Baçaim , onde defembarcou , e 
íe lhe fez o mor recebimento que podia ler, 
porque fora alli Capitão , e eftava muito bem 
quiíío delia. Poucos dias depois chegou á- 
quella Cidade D. Diogo de Noronha , Ca- 
pitão de Dio , em quatro, ou finco navios, 
(porque do caminho lhe mandou o Gover- 
nador recado pêra que íe foffe ver com el- 
le a Baçaim,) que foi bem recebido celle; 
e depois pedio ao Governador , que o ou- 
vifle, prefentes os Fidalgos do confciho. E 
fendo todos juntos, fallou muito largamen- 
te iobre a troca , cue o Governador queria 

fa- 



Deg. VIL Liv. TU. Cap. VIII. 229 

fazer da ametade do rendimento da Alfan- 
dega de Dio com a Cidade de Damão , a- 
pontando grandes inconvenientes , e defer- 
viços , que niíTò fe faziam a EIRey ; por- 
cjue naquellallha não era razão tornafle EI- 
Rey de Cambaya a ter quinhão , porque 
perdeíTe de todo as faudades delia. E que 
fe pareceífe que cumpria ao Eftado accref- 
centar-fe a elle a Cidade de Damão com to- 
da fua jurdição, e terras, que alli a tinha á 
mão; porque pelas differenças que havia an- 
tre os Governadores de Cambaya , fer-lhe- 
hia muito fácil tomalla , porque a poíluia 
hum alevantado , que tinha muito pouca pof- 
fe; e que ainda dizia mais: Que pelo eíta- 
do em que as coufas de Cambaya eftavam , 
elle fe obrigava chegar até á Corte de Ama- 
dabá com fó dous mil homens de pé, e tre- 
zentos de cavallo ; e fobre iffo difle muitas 
coufas , com que venceo a todos , e votaram , 
que fe defiftifíe daquelle negocio ; e que pois 
as coufas cftavam tãdTiifpoftas , que pêra o 
anno tornaífe o Governador fobre Damão, 
e que entre tanto trabalhaffe por haver as for- 
talezas de Aífari , e Manorá , que eram da 
jurdição de Damão, pêra fegurarem as ter- 
ras de Baçaim ; porque os alevantados que 
as poíluiam , faziam delias muitas entradas 
nas terras , caldeias de Baçaim. E que além 
diííb lançariam mão de muitas aldeias dajur- 

di- 



i^o ASIÀ de Diogo de Couto 

dição daquellas fortalezas , que eram muito 
groífas , e muito importantes a EIRey , e 
dariam de comer a muitos homens. Aífen- 
tado ifto , defpedio o Governador a D. Dio- 
go de Noronha pêra Dio , e elle ficou en- 
tendendo em outras muitas coufas. 

CAPITULO IX. 

De hum Embaixador de EIRey do Cinde r 
que veio ao Governador Francifco Barre- 
to : e do tempo , em que os Magores con- 
quijiáram aquelle Reyno da mão 
dos antigos Gentios. 

PArtido o Governador Francifco Barre- 
to de Goa, ficou- fe negociando Manoel 
TravaíTos pêra levar o Bifpo á Abaffia , que 
fe embarcou com elle no leu navio , e le- 
vou comfigo féis Padres da Companhia de 
Jefus , e todas as coufas neceífarias pêra na- 
quelle Reyno celebrar o culto Divino com 
a mageftade neceííaria á fua dignidade, pê- 
ra que viífem aquelles Chriftaos a diíferen- 
ça que havia dos coftumes , e ceremonias Ro- 
manas das fuás. Eítes navios fe fizeram á ve- 
la em Dezembro , e de fua jornada adiante 
daremos razão. 

No meímo tempo chegou a Baçaim hum 
navio, em que vinha hum Embaixador do 
Rey do Cinde a tratar certas coufas com o 

Go- 



Dec. VIL Liv. III. Cap. IX. 231 

Governador , que elle mandou deter na a- 
guada , em quanto fe lhe negociava feu re- 
cebimento , que foi com grande mageftade ; 
porque o Governador era hum Fidalgo mui- 
to apparatofo. Depois o ouvio , e elle lhe 
deo huma carta de EIRey do Cinde , em 
que lhe mandava pedir lòccorro de huma 
Armada pêra contra hum tyranno alevanta- 
do , e que pagaria todas as defpezas de gen- 
te , e navios que lá foíTem ; e que fempre 
em feu porto achariam os Portuguezes fa- 
vor , e recolhimento , e ficaria antre elles 
commercio , e amizade perpétua. O Gover- 
nador Francifco Barreto poz aquelle nego- 
cio em confelho ; e aflentou-fe , que pois os 
gaftos da Armada eftavam feitos , e elle íè 
havia de deter alli todo o verão , que de- 
via fatisfazer aquelle Rey, porque era ami- 
go do Eílado ; e de feu commercio refulta- 
vam a todos grandes proveitos , além dos 
que fe efperavam da jornada , que feriam 
bons, pêra forrar parte das defpezas, quena- 
quella jornada eítavam feitas. 

Aílentado ifto , começou o Governador 
a dar ordem á Armada , que havia de man- 
dar , e elegeo pêra Capitão mor delia a Pê- 
ro Barreto Roiim , e lhe nomeou vinte e oi- 
to navios , e fetecentos homens ; pêra o que 
não foi neceífario rogar algum , porque os 
foldados fe oíferecêram pelos proveitos que 

ef- 



23^ ÁSIA de Diogo de Couto 

efperavam ; c antes do Natal fe fez Pêro 
Barreto Rolirn á vela , levando comfigo o 
Embaixador. 

Os Capitães que nefta jornada o aco'n> 
panháram , são os feguintes : D. Francif* 
co de Noronha , Diogo de Miranda de Aze- 
vedo , Jorge Pereira Coutinho , Ayres Tel- 
les de Menezes, Jeronymo de Soufa, Ma- 
noel de Mello, André de Soufa, Diogo Ju* 
zarte Tição, Chriftovão de Soufa , D.João 
Tcllo , João de Mello de Brito , D. Luiz 
de Almeida , António de Noronha , D. Pe- 
dro de Noronha, Gil de Góes de Lacerda, 
Martim Lopes de Faria , Pêro Mafcarenhas , 
Luiz Freire de Andrade , Gonçalo Sanches , 
Álvaro Affonfo , Sebaftião da Cofta , João 
Rodrigues de Soufa , Chriftovão Cordeiro , 
Jorge Gomes, Belchior Godinho, Cifal Pi- 
nheiro , António Godinho , António de Sam- 
paio , Gafpar Luiz , Pêro Fernandes de Car- 
valho , e o Feitor da Armada. 

Partidos eftes navios , foram feguindo fua 
viagem , a que logo tornaremos , porque he 
necefiario dar razão deita embaixada , e pê- 
ra que mandava aquelle Rey pedir efte foc> 
corro. Pelo que fe ha de faber, que eílan^ 
do por Governador da Cidade Cahandar , 
e fuás terras , que partem com o Rey no Co- 
raçone , hum Magor , chamado Xabec , fi- 
lho de Janubec , muito parente dos Reys 



Dec. VII. Liv. III. Cap. IX. 233 

Magores , que EIRey Babur Paxá , pai de 
Hamaú Paxá , e avô de Hecbar , que hoje 
reina antre os Magores , tinha pofto naquel- 
Je Eftado, que era feu. Eíie Xabec era ho- 
mem prudente , grande Capitão , e defejo- 
fo de fubir a mais , e de fe fazer Rey de 
algum grande Reyno. E querendo-o a for- 
tuna favorecer nifto , offereceo-Ihe huma 00 
cafiao , de que logo Jançou mão , que foi 
faber que havia divisões no Reyno do Cin- 
de antre EIRey, e os Capitães. E ajuntan- 
do hum grande exercito , foi defcendo de 
longo do rio, indo abaixo, quaíl nos annos 
de 1525 , fendo Governador da índia D. 
Duarte de Menezes, fenhor da cafa de Ta- 
rouca , e foi ter ao Reyno do Cinde , que 
então era coufa muito grande , e o come- 
çou a conquiílar. Reinava então nelle Jara- 
paros , Cada Carnal, dos antigos Reys Gen- 
tios , em cujo poder havia muitas centenas 
de annos aquelle Reyno andava , e tinha feu 
affento, e Corte na Cidade Tanta , princi- 
pal do Reyno , e das maiores , e mais ricas 
do Oriente , aííim pela groílidão de léus mer- 
cadores , como peias louçainhas , e íubtile- 
za de fuás mecânicas , em que precediam , 
e faziam vantagem a todos , tirando os Chins. 
E fabendo elle que Xabec lhe entrava 
por feusReynos, ajuntando fuás gentes, o 
foi bufcar ; e depois de ter muitos recon- 
tros • 



234 ÁSIA de Diogo-de Couto 

tros , e batalhas , em que os Magores rece- 
beram bem de damno , ficou elle roto , e 
desbaratado de todo , e com alguns poucos 
ferecolheopera ocertão do Reyno de Cam- 
baya , onde foi recolhido de alguns Reys 
Resbutos íeus parentes , que reinavam em 
ferras afperas , e fragofas. O Xabec vendo- 
fe vitoriofo , foi entrando pelo Reyno , c 
fujeitou tudo até a Cidade de Tanta , onde 
fe fez alevantar porRey; x e como era pru- 
dente j focegou , e quietou os naturaes de 
feição 5 que já o amavam não como eílran- 
geiro , fenao como natural. Viveo efte Rey 
dous annos , e deixou o Reyno pacifico , e 
quieto a feu filho Mirzachan o Hocen , em 
cujo tempo morreo Babur Paxá Rey dos Ma- 
gores , e lhe fuecedeo Hamau Paxá feu fi- 
lho , de quem na quarta , e quinta Década 
dêmos larga relação , quando conquiítou os 
Reynos de Cambaya. 

Efte Hamaú Paxá como era cubiçofo de 
grande Monarquia , e defejava de ler outro 
Tamorlão , (cujo quarto neto era , ) determi- 
nou conquiftar os Reynos vizinhos todos , 
c depois os do Decan. E fabendo no prin- 
cipio de feu reinado , como o Xabec , fendo 
vaíTallo de feu pai , e Governador do Ca- 
handar, conquiftára o Reyno do Cinde ; e 
que pelas obrigações ditas ficava feu vaíTal- 
lo , enviou-lfee a dizer por íèus Embaixado- 
res. 



Dec. VII. Liv. III. Cap. IX. 23^ 

res « que aquelle Reyno fora conquiftado por 
» feu pai Xabec , que era vaííallo de Babur 
» Paxá leu pai , com gente , e cabedal íèu ; 
» que ficava também obrigado a ler feu vaf- 
» lallo , e a lhe reconhecer fuperioridade ; e 
)) que fó com iflb o deixaria ficar no Rey- 
V no. » O Mirzachan ouvindo a embaixada , 
lhe refpondeo comefcufas, eentretimentos, 
que entendidos pelo Hamaii Paxá , ajuntou 
groífos exércitos , e entrou pelas comarcas 
do Cinde ( no principio das difFerenças de 
PeroMafcarenhas com Lopo Vaz de Sam- 
paio) nos annos do Senhor de 1527. O Rey 
do Cinde fabendo como lhe entrava por fuás 
lerras, como eílava muito profpero , e bem 
quifío de todos , o foi efperar , e lhe deo 
batalha , onde o desbaratou , e o fez fugir 
a unhas de cavallo , ficando com ifto paci- 
fico , e temido até á entrada deite anno de 
íincoenta e féis , em que andamos , que fa- 
leceo , depois de reinar trinta e três annos ; 
e dizem alguns que de peçonha. 

Morto efte Mirzachan Hocen , por lhe 
não ficarem filhos 5 alevantáram os naturaes 
por Rey hum parente feu , chamado Mir- 
zamhifá Magor , Argú de nação > que era 
Capitão gerai de todo o Reyno , a quem 
obedeceram todos os Governadores das Pro- 
vindas ; fomente Soltao Mahamude , que ef- 
tava por Governador na Província Bachar , 

que 



236 ÁSIA de Diogo de Couto 

que tanto que teve novas da morte do Re/ , 
e da íiiccefsao de Mirzamhifá , grangeou os 
grandes , e alevantou-fe por Rey daquella 
parte. O Mirzamhifá tanto que teve avifo 
difto , mandou-lhe Embaixadores , que de- 
fiftiíTe do titulo de Rey , e ficafle naquella 
parte por Governador , como eftava , reco* 
nhecendo-lhe obediência. Ao que Sohão Ma- 
hamede refpondeo , que aílim como elle fe 
alevantára como Eftado do Cinde , que go- 
vernava , aílim elle o fizera com aquelle do 
Bachar por vontade de todos ; e que o mef- 
mo direito que elle tinha no Cinde, o tinha 
elle também naquelle em que era Rey. Ven- 
do Mirzamhifá aquella refpoíta , tratou de 
ir fobre elle, e de o dellruir de todo; e pê- 
ra iíTo fe quiz valer do braço Portuguez , e 
mandou ao Governador aquelle Embaixador 3 
que atrás temos dito. 

CAPITULO X. 

Da famofa Ilha de Salfete de Baçaim : e 

do [eu ejpantofo Pagode , chamado do 

Canari : e do grande labyrin- 

tho que a Ilha tem. 

ESta Cidade de Baçaim tem o mor ter- 
mo , e jurdiçao de todas as da índia; 
porque pêra o Levante fe eílende até ás for- 
talezas de Affarim , e Manora , que feram 

oi- 



Dec. VII. Liv. III. Cap. X. 237 

oito léguas , em que ha fertiliílimas aldeias , 
e de grandes rendimentos. Pêra o Norte fe 
eítende até o rio de Agaçaim , e para o Sul 
até o rio Bombaim , ou ainda mais abaixo 
até outro braço feu , que fe chama de Ca- 
raniá , por fe fazer antre hum , e outro hu- 
ma Ilheta, em que temos hum caftello def- 
te nome. O rio que faz efta Ilha de Salfe- 
te , faz duas bocas ; a do Norte he o rio 
que entra ao longo da Cidade de Baçaim , 
e vai correndo ao Sul em muitas voltas i e 
a meio caminho , que fera perto de três lé- 
guas , fe faz huma colónia , que os Portu- 
guezes alli fundaram , que fe chama Taná , 
em que haverá quaíi feíTenta Portuguezes , 
que naquella Ilha tem fuás aldeias , que são 
muito rendofas. Aqui faz o rio dous paífos 
muito eítreitos, eque fe podem paífar a váo 
á outra banda de maié vafia da terra dos 
Mouros até efta Ilha deSalfete. Neftes paí- 
fos ha dous caftellos roqueiros fundados fo- 
bre a agua , pêra defenderem aquella paf- 
fagem. Continuando o rio ao Ponente ou- 
tras três léguas , vai fazer a formofa barra 
de Bombaim, que fahe ao mar mais de meia 
légua de largura , onde fe recolhem nãos 
do Reyno , e de outras partes , por fer de 
bom fundo, fem banco, e impedimento al- 
gum, E antes de chegar ao mar, lança hum 
braço ao Sul , que faz a Ilha de Caranjá , 

e 



238 ÁSIA de Diogo de Couto 

e outra ao Norte , que fe chama Bandorá* 
Delta boca de Bombaim vai correndo a cof- 
ta pêra o Norte perto de quatro léguas até 
tornar a entrar pela barra de Baçaim , fican- 
do-lhe eíta Ilha deSalfete pela banda de fo- 
ra , que fera de quinze léguas em roda, e 
duas de largura. 

No meio deita Ilha eftá aquelle admirá- 
vel Pagode do Canari , que fe prefume fer 
obra dos Canarás , e por iíío fe chama af- 
fim , que eftá feito ao pé de hum arrezoa- 
do monte , todo de pedra de cor pardo cla- 
ro , e á entrada delle fe faz huma formo- 
fa fala , e no pateo de fora da porta de hu- 
ma, e da outra banda delia , eítam duas fi- 
guras de vulto entalhadas na mefma pedra , 
tamanhas como duas vezes os gigantes que 
vam nas procifsoes da feita do Corpo de 
Deos de Lisboa , tão formofas , tão primas , 
e tão bem lavradas , tjue nem em prata fe 
podiam entalhar melhor , nem mais perfei- 
tas* A porta da banda de fora tem algumas 
ciíternas feitas na mefma rocha , que rece- 
bem a agua do inverno , que no verão ef- 
tá tão fria , que não ha mão que a foífra. 
Pela ferra aílima até o cume delia , a modo 
de caracol , fe fazem mais de três mil ca- 
marinhas pequenas , a modo de cubículos, 
cortadas na mefma rocha , e cada huma dei- 
las tem á porta huma ciíterna da mefma agua. 

E 



Dec. VIL Liv. III. Cap. X. 239 

Eoque he mais pêra admirar, he, que ha 
hum cano feito por tal artificio , que corre 
por todas eftas três mil camarinhas ; efte ca- 
no recolhe todas as aguas vertentes daquel- 
h ferra , e a reparte por todas as cifternas , 
que eftam ás portas das camarinhas. 

Aqui nefte Pagode habitavam muitos Jo- 
gues , que fe fuftentavam de muitas elmolas , 
que lhes davam em todas aquellas aldeias , 
cuja cabeça era hum de cento e lincoenta 
annos de idade , que os Padres de S. Fran- 
cifco , que primeiro foram habitar ria Cida- 
de de Baçaim , fizeram Chriftão , e fe cha- 
mou Paulo Rapofo; e aílim bautizáram ou- 
tro, chamado Calete, de mais fama que o 
Paulo Rapofo , a quem puzeram por nome 
Francifco de Santa Maria , e viveo depois 
muito chriftamente , e com muita fatisfação 
dos Padres , e ainda ficou fendo Pregador 
Evangélico , e converteo muitos daquelles 
Jogues , e outros Gentios. Viveo efte homem 
depois de bautizado finco annos , ou pode 
dizer como Similo , que não viveo mais que 
aquelles finco. O Padre que andou por efta 
Ilha naquelle principio convertendo aquel- 
les Jogues , chamava-fe Fr. António do Por- 
to, da Ordem dos Menores, Varão Apof- 
tolico , e de vida exemplar , que penetrou 
todos os fegredos daquella Ilha , que eram 
muitos. E nefte Pagode que digo 7 chama- 
do 



240 ÁSIA de Diogo de Couto 

do do Canari , fe a (Tentou , e o confagrotí 
em Templo da invocação do Anjo S.Miguel ; 
e no tempo que alli elleve , foi informado 
do mais novo, admirável, e intrincado la- 
byrintho de todo o Mundo , que por efpan- 
to fe pode relatar, como o farei aqui bre* 
vemente. 

Eítando o Padre Fr. António do Porto 
nefta Igreja de S. Miguei , foi informado dos 
Chriftãos , que alli converteo, que naquella 
ferra havia hum Iabyrintho , a que nunca pu- 
deram achar fim , e que fe affirmava , que 
hia correndo até o Reyno de Cambaya. E 
deiejofo o Padre de o enfacar , e penetrar 
por ver as maravilhas, e grandezas que dei* 
le fe diziam , tomou comíigo hum compa* 
nheiro , e negociou vinte homens com ar- 
mas , e efpingardas pêra defensão das bef- 
tas feras, e outros fervidores , que levavam 
as coufas neceffarias pêra a jornada , como 
agua , arroz , bifcouto , legumes , manteiga , 
e outros mantimentos, e alguns almudes de 
azeite pêra tochas que levavam pêra feaiu* 
miar , e verem por onde biarn , e três peí* 
foas carregadas de novelos de cordéis grof- 
fos , que pêra iflb fe fizeram pêra irem lar* 
gando pelo caminho , como fizeram os que 
entraram no Iabyrintho de Creta. 

Preftes tudo, foram entrando poraquel- 
las grutas > cuja boca íería de quatro bra- 
ças 



Deò. VIL Liv. III. Cap. X. *4i 

ças de largura , onde deixaram a ponta do 
fio arado a hu ma grande pedra ; e poraquel- 
lelabyrintho caminharam fetedias contínuos 
por caminhos huns largos , e outros mais ef- 
treitos, tudo cortado em viva rocha; hiani 
vendo dêhuma, e de outra parte camarinhas 
pequenas, como as do Pagode que já difíe* 
e á porta fuás cifternas , íem me faberem di- 
zer fe tinham agua i e como a podiam re- 
colher, pois por todo aquelle caminho não 
havia buraco , agulheiro * nem outra algu- 
ma coufa , que pudefle dar alguma clarida- 
de. Tudo por lima era hutna abobada de pe- 
dra viva da mefma rocha , e as paredes de 
huma, e da outra parte de todo eftc cami* 
nhoera da mefma forte. Vendo o Padre que 
tinham gaitados fete dias fem acharem fa- 
hida alguma, e os mantimentos, e agua que 
levavam quafi acabados , foi~lhé neceíTario 
tornarem a voltar pêra fora , guiando- fe pe- 
lo fio , fem faberem por todo eítc caminho 
fe fubiam , ou defciam $ ou a que rumos na- 
vegaram , por não levarem agulha por on- 
de fe governaíTeiru 

E praticando eu com Gentios muito an- 
tigos íbbre ifto, me affirmáram , que pora- 
quelle caminho podiam ir até Cambaya , e 
ainda até ás terras do Magor , e Cidade dé 
Agará , e que fora efte caminho antigamen- 
te muito ufado, e continuado; e que aífiiii 
Cout0.Tm.ir.P.L CL <* 



§4* ÁSIA de Diogo de Couto 

o affirmavam as efcrituras dos antigos Gen- 
tios i e que outros muitos caminhos como 
eftes por baixo da terra havia em muitas 
partes deCambaya, enoDecan, e que íem 
duvida fora iílo mandado fazer por hum pc- 
tentiífimo Rey Gentio , chamado Bimelamen- 
ta , que havia mais de mil e trezentos an- 
nos reinara em todos os Reynos deíle Orien- 
te , defde Bifnaga , ou Bengala até o Ma- 
gor , e ainda até Ormuz ; e efte tem fuás ef- 
crituras , que viveo trezentos annos , e que 
deíles reinou cento e tantos. 

E como em todas fuás coufas mettem 
muitas fabulas , e patranhas , pêra darem prin- 
cípios honrofos a feus Reys , como muitas 
vezes temos dito , affirmam que efle Bime* 
lamenta era hum Gentio, homem prudente , 
e de muita boa razão , natural das terras do 
Magor , Cidepur , e Patan , por onde an- 
dava fazendo vida religioía , a quem appa- 
recêra hum idolo da antiga Gentilidade , cha- 
mado Ambani , e lhe revelara muitos the- 
fouros , e lhe dera muitas leis pêra fazer 
guardar áquelles Gentios que viviam fem el- 
las , e pêra que os govemaífe em policia, 
e trouxefle, e ajuntafle em lugares commu- 
nicaveis , porque andavam efpalhados pelos 
matos 5 vivendo como brutos ; o que elle 
fizera , e os ordenara 5 e tnettêra em razão , 
fundando Cidades 7 Villas , e povoações , e 

que 



Dec. VIL Liv. III. Cap. X. 243 

que fora por todos alevnntado por feu Rey. 
Deite homem contam fuás hiítorias tantas 
grandezas , que caufam efpanto. Affirmam , 
que fez eítes Jabyrinthos i e que mandara fa- 
bricar infinitos Pagodes de admirável artifi- 
cio > e que eíle do Canari , e do Elefante 
era obra lua* 

E eftando eu efcrevendo aólualmente if- 
to , vieram ter comigo huns Baneanes de 
Cambaya , mercadores ricos , que continuam 
eíta Cidade de Goa; e praticando com el- 
les fobre ifto , me affirmáram fer tudo ver- 
dade , e que elles viram as efcrituras que 
diífo tratam 3 e que com feus olhos viram 
também alguns Pagodes famofiffimos porei* 
fes Reynos do Decan , Cambaya , e Magor 
feitos por eíle Rey ? e que fobre fuás portas 
tinham hum letreiro, que dizia allim: » Ef- 
» te Pagode mandou fazer EIRey Bimela- 
» menta » e que elles o leram muitas vezes« 
E fe affim he , a pedra que eftava fobre á 
porta do Pagode do Elefante , que tinha 
aquellas letras , que fe mandou a EIRey Dom 
João o III. , que nunca fe achou quem as 
pudefle ler , devia de ter eíte mefmo letrei- 
ro de Bimeiamenta. Eícreve-íe também del- 
le , que mandara fazer muitos , e formofos 
tanques , e alguns tamanhos , que mais fe 
podiam chamar grandes alagôas , de que to- 
dos eítes Reynos eílam cheios. É em alguns 

Q, ii põem 



244 ÁSIA de Diogo r>t Couro 

põem algumas virtudes , como cm hum que 
ellá a meio caminho de Baçaim pêra Aga- 
çaim , onde hoje efíá a cafa de noffa Senho- 
ra dos Remédios , em que refidem Padres 
Dominicos , huma Senhora , que tem obra* 
do tantas maravilhas , e milagres , que ci- 
tam todas as paredes do Templo cubertas 
de painéis delles. Defronte fica efte tanque , 
em que elles põem tanta virtude , que affir- 
xnam > que toda apeflba que femetteo nei- 
le , farará de toda a enfermidade que tiver , 
fobre quem tem os Padres tanta vigia, que 
não deixam chegar a elle nenhum Gentio * 
por não fazerem fuás fuperftições. 

Ora deixando iílo , e tornando ao la* 
byrintho ^ vendo que andaram eftes Padres 
por elle dentro fetedias contínuos , íem re- 
poufarem mais que a hora de comer , e dor- 
mir ; e quero que não andaíTem mais cada 
dia que féis léguas , que vem a fer nos fe- 
te dias quarenta e duas léguas , me faz pa- 
recer que pudera fer verdade o que os Gen- 
tios dizem delle , que vai até Cambaya ; por- 
que a Ilha de Salíète j quando muito , tem 
quatro léguas de comprido , e o labyriniho 
eftá nomeio delia. E pêra dizermos que po- 
deriam aquelles caminhos ir em tantas vol- 
tas , e fer tão intrincados , que lhes fizefíe 
gaitar aquelles dias , nem iflb pode fer i por 
(como diífe ) a Ilha fer muito pequena , e 

cf- 



Dec. VIL Liv. III. Cap/X. 24? 

cítreita. Em fim , como quer que feja , a cul- 
pa de fe ifto não cnfacar he da muita mi- 
feria , e pouca curiofidade deita noífa nação 
Portugueza, que até hoje não houve Vifo- 
Rey, nem Capitão de Baçaim , nem outra 
alguma peflba , que mandaflè faber, eenfa- 
car eftes fegredos , que são muito pêra fe 
faberem. O que não houvera de acontecer 
aos eftrangeiros , que são tanto mais políti- 
cos , c curiofos que nos , que não digo eu 
co ufas defta qualidade , mas ainda outras 
muito mais pequenas não deixam de ver, e 
levallas ao cabo até asenfacar, e faber. Cer- 
to, que efta obra fe pode ter por huma das 
maravilhas do Mundo, e ainda pela maior 
deile. 

Havia também nefta Ilha de Salfete ou- 
tro Pagode , chamado Manazaper , que tam*- 
bem era talhado na rocha viva , em que vi- 
via hum Jogue muito affamado antre elles, 
chamado Raremnar , que tinha comíigo ou- 
tros fincoenta Jogues, que os moradores da?- 
quellas aldeias os fuftentavam. E fabendo o 
Padre Fr. António do Porto deite Pagode , 
foi-fe a elle ; e como era muito temido de 
todos os Jogues daquella Ilha , tanto que 
aquçlles o viram , largaram o Pagode , e fo- 
ram-fe pêra a terra firme ; o que devia de 
fer pela força Divina, que viram que Deos 
tinha poíto em feu fervo , que outra huma- 
na 



246 ÁSIA de Diogo de Couto 

lia nao a havia pêra a poderem temer fin- 
coenta homens , vendo íós dous Frades vef- 
tidos nuns faccos , fem arma alguma com 
que os pudefíem offender. O Padre íè met- 
teo no Pagode , e logo o confagrou em Tem- 
plo da invocação de noíTa Senhora da Pie- 
dade; e depois fe fez nelle o Collegio Real 
de toda a Ilha deSalfete, onde fe recolhem , 
eenfinão os filhos de todos os Chriítãos con- 
vertidos a Fé, a quem EIRey D.João cen- 
cedeo as rendas, ecoufas que o Pagode dan- 
tes tinha, de que os Jogues fe íuftentavara, 
que he hoje adminiftrado pe!os Religiofos 
do gloriofo , e Seráfico Padre S. Francifco. 
Tendo eu algumas práticas com alguns 
Chriílaos muito velhos, edaquelles primei* 
ros , que alli converteo o Padre Fr. António 
do Porto, indo ver eftacafa deManapazer, 
humdelles, que affirmava ler demais decen* 
to e vinte annos , que failava muito bem Por- 
tuguez , e o lia , e eferevia , e continuava a 
lição do Fios Sandorum , e as Vidas dos 
Santos , me affirmou , que fem dúvida a obra 
do Pagode Canari fora mandado fazer pe- 
lo pai do Príncipe , e Santo Jofafat , que 
Barlao converteo á Fé de Chriílo pêra nel- 
le o recolher, e encerrar, por lhe dizerem 
feus Aítrologos , que aquelle Príncipe havia 
de receber a Fé dos Chriílaos. E aífím fua 
nafeença , e vida ? fegundo fuás eferituras , 

e 



Dec. VII. Liv. III. Cap. X. 247 

c ainda hoje cantão em fuás cantigas eites 
Gentios , he tão femelhante á do Santo Jo- 
fafat , fegundo temos em fua lenda , que fi- 
quei admirado quando ma contaram; e por- 
que não fera deíaprazivel , a trarei aqui o 
mais brevemente que puder. 

Dizem fuás Efcrituras, que hum Rey , que 
reinava fobre todo efte Oriente, (que cuido 
deve de fer oBimelamenta, de que atrás fallei, 
que affirmam mandar fazer o Pagode doCa- 
nari , ) nalcendo-lhe hum filho muito formo- 
fo , lhe tiraram feus Aílrologos feu nafci- 
mento , e acharam que aquelle menino fe- 
ria fanto , e defprezaria os Reynos dopai, 
e que fe faria Jogue ; de que o pai pofto 
em cuidados , querendo atalhar aquillo , tan- 
to que fahio do leite das amas , o mandou 
recolher em huns Paços , que mandou fazer 
pêra iíTo , de obra maravilhofa , mui fecha- 
dos , e guardados, pêra que não fallafle fe- 
não com as peífoas que lhe ordenaífe , nem 
viíle coufa que lhe déífe pena , e lhe cau- 
faíTe trifteza , e paixão. Alli eíleve até ida- 
da de dezoito annos, em que mandou pedir 
ao pai o deixaííe ir ver as Cidades , e po- 
voações, que lheelleconcedeo. E indo cer- 
cado dos que o creáram , vio hum homem 
manco fobre huma muleta ; e perguntando 
o que aquillo era , lhe difieram , que eram 
coufas mui ordinárias 110 Mundo haver man- 
cos, 



248 ÁSIA de Diogo de Couto 

cos , coxos , e cegos , e outros defeitos de£ 
ta qualidade. Outra vez que fahio fora en- 
controu hum liomem muito velho decrépi- 
to encoftado a hum bordão todo tremendo ; 
e efpantado o Príncipe daquella visão, per- 
guntando o que era, Ihediííeram, queaquiW 
lo procedia dos muitos annos que aquelle ho- 
mem tinha vivido. Outro dia encontrou com 
hum morto , que levavam a enterrar com 
grandes prantos dos filhos ; e dizendo-lhe 
os feus o que aquillo era , lhe perguntou el- 
le : Como ? eu , e todos havemos de morrer 
aílim ? c dizendo-lhe que aquillo era muito 
prdinario nos homens , porque todos nafcê- 
ram pêra morrer , ficou muito melancoliza- 
do. E andando com efta imaginação , dizem 
que lhe appareceo hum Jogue; e tendo prár 
ticas com elle , p periuadio ao defprezo do 
Mundo, e ávida íolitaria, Ecomo elle an- 
dava abalado , e tinha já mais largueza na 
vida , teve modo com que defappareceo , e 
íe fora pelo Mundo. Sobre eíle defáppare- 
cimento contam muitas coufas nomododel- 
le , e mettem muitas fabulas , como fazem 
em todas fuás efcritqras. 

Efte Príncipe dizem elles que fora ter 
a Ilha de Ceilão , levando já comligo gran- 
de número, e concurfo de Jogues feus dis- 
cípulos, eque feapofentára naquella ferra, 
ondeeftá o pico de Adão, onde vivera mui- 
tos 



Pec. VIL Liv. III. Cap. X, 249 

tos annos , fazendo vida fanta. E quei endo- 
íe partir dalli , pedíram-lhe os difcipulos , que 
alli ficaram, que JhesdeixaíTe alguma memo- 
ria íua : ao que fixando o pé em huma la- 
gea , imprimio nella aquella pegada, corno 
lè a fizera em huma pouca de cera molle , 
que veneram , e reverencearn por de noflb 
pai Adão; e he tida de todos em tanta ve- 
neração , como tenho dito no Cap. XX. do 
VI. Liv. da minha V. Década , onde con- 
to eíle negocio deíla pegada muito particu- 
larmente , e moftro como eíta Ilha de Cei- 
lão he a Tapobrana de Ptholomeu , em que 
trato muitas curiofidades , que nenhum ef- 
critor efereveo. A eíle Príncipe nomeam fuás 
eícrituras por muitos nomes ; mas o princi- 
pal he Drama Rayo ; e depois que o tive- 
ram por fanto , lhe chamavam Budon , que 
quer dizer Sábio , a quem toda eíta genti- 
lidade tem alevantado por toda a índia mui- 
tos , e mui euftofos , e fumptuofos Pagodes ; 
c contam cm fua lenda grandes maravilhas, 
que por não enfaíliar, ecanjar aos leitores, 
deixo de trazer. 



CA- 



2£0 ÁSIA DE I>IOGO DE CouTO 

CAPITULO XI. 

Do muito notável , e efpantofo Pagode 
do Elefante. 

ESte notável , e fobre todos efpantofo 
Pagode do Elefante eítá em huma Ilhe- 
ta pequena , que terá menos de meia légua 
em roda , que faz o rio de Bombaim já quan- 
do quer fahir ao mar da parte do Sul. Cha- 
ma-lb afiim , por hum Elefante de pedra gran- 
de , que fe vê entrando pelo rio dentro. Di- 
zem que foi mandado fazer por hum Rey 
Gentio , chamado Banafur , que fenhoreára 
tudo o que havia do Gange pêra dentro* 
Neíte Pagode fe affirma , ( e affim o moítra , ) 
que fe defpendêram mui grandes thefouros , 
e que andaram na fabrica delle muitos mi- 
lhares de obreiros , e que gaitaram muitos 
annos. O lítio deite Pagode fe eftende de 
Norte a Sul , he quaíi aberto por todas as 
partes , principalmente da parte do Norte , 
Nafcente , e Ponente , porque as coitas def- 
te grande templo ficam pêra o Sul. Será o 
corpo delle de oitenta paíTos de comprido, 
e de feíTenta de largura. He todo talhado 
em viva rocha ; e todo o teóto de íima , que 
he o cume da rocha , fe fuítenta fobre íin- 
coenta columnas lavradas do mefmo mon- 
te, que eítam por tal ordem, e compaíío, 

que 



Dec. VII. Liv. III. Cap. XI. 25-1 

que fazem o corpo deite templo de fcte na- 
ves. E cada huma deitas columnas até o meio 
he quadrada de vinte edous palmos de qua- 
dro , e do meio pêra íima são roliças, e de 
dezoito palmos em roda. A pedra deite mon- 
te , em que fe entalhou eíte Pagode , tem a cor 
parda ; mas todo o corpo de dentro , co- 
íumnas , vultos de Pagodes , e tudo o mais 
era antigamente cuberto de huma fina tea de 
cal com certo betume, e confeições, que fa- 
zia o Pagode de todo tão claro , que era 
coufa for mola , e muito pêra ver ; e não fó 
fazia as figuras muito formofas , mas fazia 
divifar mui diftintamente as perfeições dos 
vultos , e íubtilezas da obra : de maneira , que 
nem em prata , nem em cera fe podia fazer , 
nem efculpir com mais primor , nem com 
mais lindeza , e perfeição. 

Entrando por elte Pagode , á mão direi- 
ta delle eítá huma Capella , cuja porta he 
de dezefeis palmos e meio de largura , e 
quinze e meio de alto ; dentro no corpo del- 
ia eítam muitos idolos , e no meio da Ca- 
pella fe vê hum de altura de dezefete pal- 
mos , com huma grande , e formofa tiara na 
cabeça , lavrada de tantas laçarias , lavores , 
e fubtilezas , que mais parecem debuxadas, 
que entalhadas empedra comefeopro. Tem 
efta figura oito braços , e fó duas pernas. Em 
huma das mãos direitas tem hum fceptro alc- 

van- 



i$i ÁSIA de Diogo de Couto 

vantado y e nelle enrofcada huma cobra de 
capello , aílim como pintam o de Mercúrio ; 
fobre a ponta do fceptro eftam três idolos 
pequenos de covado cada hum *, e em hu- 
ma das mãos efquerdas , que tem alevanta- 
das , fuftenta com os dedos três idolos do 
tamanho dos outros. Ao lado efquerdo def- 
te idolo grande eftá outro com hum cutelo 
na mão , e aífima deíle outro muito grande 
com o corpo de homem , e a cabeça de Ele- 
fante, de quem eu cuido que a Ilha tomou 
o nome. Nefte veneram a. memoria de hum 
Elefante, a que os Gentios chamam Gaves , 
de quem contam muitas fabulas. Apar def- 
te idolo fahe da rocha hum aflento de pe- 
dra , em que eftá aflentado hum idolo de 
kum fó corpo com três cabeças , e em cada 
huma delias tem hum fó braço, laivo a do 
meio, que temdous, e na efquerda tem hum 
Jivro. E ao lado efquerdo deíle idolo eftá 
huma figura de mulher de três palmos arri- 
mada com o braço efquerdo fobre o hom- 
bro de outro idolo mais pequeno também 
de figura de mulher , e com a mão direita 
travado de outro mais pequeno. Logo afli- 
ma defte idolo eftá outro cavalgado fobre a 
cabeça de hum Elefante, e apar defte outro 
cavalgado fobre o pefcoço de outro idolo. 
Defta Capella a finco pálios pêra a par- 
te do meio dia vai efte Pagode alargando pê- 
ra 



Dec* VIL Liv. III. Cap. XI. 25-3 

ra o Ponente onze pados , e no fim delles 
torna a proleguir pêra o Sul outros onze paf- 
fos ; e daqui voltando outra vez pêra o Po- 
nente onze pálios á mão direita , eftá huma 
Capella aberta na rocha , cuja porta tem vin- 
te eleis palmos de alto, e de vão ao com- 
primento fete pés e meio , e de largura dez- 
efeis. No meio deita Capella eftá alTentado 
hum idolo , que da cinta pêra fima tem do- 
ze palmos , e íbbre a cabeça tem outra tia- 
ra lavrada com muitas perfeições , e linde- 
zas. Tem oito braços , e duas pernas , com 
huma das mãos direitas , e com outra das 
efquerdas eftende por fima da cabeça hum 
manto , ou fobreceo da mefma pedra mui- 
to fubtil , e fica eftendido por fima delle no 
ar hum efparavel , e fobre efte efparavel ef- 
tam muitos idolos de covado , machos , e 
fêmeas. Na fegunda mão direita tem huma 
grande efpada de dous gumes , e na tercei- 
ra hum idolo pequeno pendurado pelos pés. 
A quarta mão direita com a parte do bra- 
ço eftá quebrada pela traveíTura dos Tolda- 
dos que alli vam das Armadas , como o ef- 
tá quafi tudo. Na fegunda mãoefquerda tem 
hum chocalho , e a tiracolo hum colar mui- 
to grande de muitas cabecinhas humanas en- 
fiadas humas com outras , e todas cortadas 
na mefma pedra , e lavradas ao buril no 
mefmo pelcoço. E na terceira mão tem hu- 
ma 



i^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

ma caldeira , e fobre ella hum idolozinho. A 
quarta mão efquerda com o braço eítá to* 
da quebrada. Dum lado , e do outro deite 
idolo, e por toda a Capella em roda eítam 
trinta Ídolos pequenos em pé. Deita Capel- 
la a nove pados á mão efquerda , que he 
pêra a parte do Sul , eítá huma cafa qua- 
drada de dez pálios em comprido, e outros 
tantos de largo, toda aberta na rocha , ede 
tal feição , que toda fe anda á roda , e tem 
quatro portas, huma em cada lanço do qua- 
dro , e entra-fe neíta cafa por cada huma 
deitas portas, fubindo por finco degráos , e 
no meio da Capella eítá hum poial quadra- 
do de vinte e quatro palmos de quadro: fo- 
bre elle eítá alevantada huma figura de hum 
idolo , que por deshoneíla fe deixa de no- 
mear , a que os Gentios chamam Linga , e 
adoram aquillo com grandes fuperftições ; e 
aífim a eftimam tanto , que os Gentios Ca- 
riarás as trazem bem afiguradas ao pefcoço. 
Eíte torpe coítume tirou hum Rey Canará , 
homem de razão, e juítiça. 

E tornando ás quatro portas deita cafa > 
cujas couceiras ainda hoje apparecem , não 
fe abriam pêra mór veneração , fenão huma 
vez noanno no dia da fua mór feita. Aden- 
trada década huma delias eítam dons gran- 
des Gigantes de vinte e quatro palmos de 
altos 5 feitos com muito primor , e perfei- 
ção. 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XI. 257 

çao. Deíla cafa a dez palTbs , profeguindo pê- 
ra o meio dia , eílá outra Capella com hum 
forrno!o portal de obra Moiaica de vinte e 
quatro pés de largo, e vinte e féis de alto; 
no meio delia eílá hum idolo de dezefeis 
palmos de alto , com quatro braços , e duas 
pernas , travado pela mão com outro idolo 
de figura de mulher. A' mão efquerda deite, 
idolo eílá aíTentado outro de igual grandeza , 
e feitio , e abaixo outro pequeno com três 
cabeças , quatro braços , e duas pernas; e 
por toda eíla Capella em roda outros mui- 
tos idolos. Deíla Capella aoPonente eílá hu- 
ma ciílerna de agua excellentiííima , a que nun- 
ca fe acha fundo , de que vulgarmente cor- 
re eíla fama , e affim fica fendo femelhante 
ao que fe conta das fontes de Alfeo , e Are- 
tufa. 

Aqui acabou o lanço Occidental , que he 
o da mão direita do corpo deíle Pagode : 
voltando daqui pêra oPonente, vam dar em 
huma Capella muito curioíamente Javrada 
de quatorze pés de largo, e dezoito de com- 
prido ; no meio delia eílá hum idolo agi- 
gantado com pernas cruzadas com huma tia- 
ra na cabeça lavrada fubtiliffimamente , e de 
ambas as partes tem muitos Pagodes de ho- 
mens, e mulheres, e alguns a cavallo. Da- 
qui vai o Pagode alargando pêra oNafcen- 
te, onde eílá outra Capella como as mais, 

e 



iç6 ÁSIA de Diogo de Couto 

e debaixo delia fabe hum idolo da cinta pê- 
ra íima agigantado com finco roítos propor- 
cionados ao corpo , com fuás tiaras nas ca- 
beças , e com doze braços > e com as mãos 
íuftenta hum aíTento de pedra fobre quem 
eitá outro idolo Gigante de hum fó roíto com 
féis braços , e duas pernas , e huma das mãos 
direitas tem fobre o pefcoço de huma mu- 
lher também agigantada , que eitá aífentada 
junto a elle ; e a cada lado deite idolo tem 
outros quaíi do feu tamanho aífentados no 
mefmo aíTento ; e pelo mais corpo deita Ca- 
pella ha outros cem idolos de homens , e 
mulheres. Caminhando daqui ao meio dia , 
dam em outra Capella , em cujo meio eftá 
aflentado outro Gigante com fua tiara na ca- 
beça com quatro braços , e duas pernas , e 
a cada ilharga tem hum idolo também agi- 
gantado , hum de figura de mulher , e ou- 
tro de homem ; e ao lado da mulher eftá 
outro idolo Gigante , a fora outros muitos 
idolos que ha por toda a Capella* 

Aqui fe acaba o lanço Oriental da mão 
efquerda deite Pagode. No fim deites dous 
lanços Orientai , e Occidental eítam três 
grandes Capellas ; e ado meio , que he mais 
interior , tem trinta pés de largo, edezefeis 
de comprido. Do pavimento deita Capella 
fe alevanta hum corpo da cinta pêra íima 
de tão disforme grandeza , que fó elle en- 
che 



De a VIL Liv. III. Cap. XI. 257 

che o vão , e largura da Capella: tem três 
muito grandes rcílos , o do meio olha pê- 
ra o Norte , o íegundo pêra o Ponente , e 
outro pêra o Nafcente ; cada hum deites ros- 
tos tem dous braços , e ao peícoço dous gran- 
des collares lavrados corri admirável fubtile- 
za. Sobre eílas três cabeças tem três formo- 
íiíiunas tiaras; e cíteroílo do meio, que he 
o maior, tem na mão hum grande Globo, 
e o que quer que tinha na direita não fe en- 
xerga poreítar desfeito. Orofto da parte di- 
reita tem na mão direita huma grande co- 
bra de capello , e na efquerda huma rofa b a 
que chamam Golfo , que naíce nas alagôas 
grandes. A 5 enrrada da porta deita Capella 
eílam dous Gigantes a pé de cada lado , e 
encoílados cada hum em feu idolo de dez 
palmos de alto. A fegunda Capella , que et 
tá ao lado direito , tem dezenove pés de lar- 
go , e onze de comprido , e trinta de alto ; 
no meio delia eflá hum ideio agigantado dè 
quatro braços * e duas pernas , como todas 
as mais , com huma formoía tiara na cabeça, 
e lobre ella eílá outro idolo mulher de vin- 
te paimos de altura ; e por toda a Capella 
de huma, e de outra parte eílam outros mui- 
tos Pagodes pequenos. Ao lado direito dei- 
ta Capella eílá huma porta de fete palmos 
de alto , e finco e meio de largo , por onde 
fe entra em huma camará quadrada efeura 
Cmno.Tom.lF.PJ. R de 



2$% ÁSIA de Diogo de Couto 

de dez palmos de largo, e outros tantos de 
comprido, em que não ha couía alguma. Vol- 
tando ao lado dcfta Capella do meio , eílá 
a terceira , que tem vinte e três pés de com- 
prido , e trinta de largo ; e no meio delia 
eftá outro idolo de vinre e deus palmos de 
alto de quatro braços , e eftá fobre hum ío 
pé , e a cabeça com huma formoía tiara , re- 
clinado fobre a de hum touro. Efte idolo ti* 
nham os antigos por meio homem , e meia 
mulher, porque tem huma fó teta á manei- 
ra das antigas Amazonas , e tem em huma 
das mãos huma cobra de capeilo, e na ou- 
tra hurnefpelho, e ao redor mais de íinco- 
enta idolos. Ao lado efquerdo defta Capei- 
la eftá huma porta de leis palmos de alto, 
e finco de largo , por onde fe entra em hu- 
ma camará quafi quadrada, e muito eícura, 
onde não ha que ver : com efta fe acaba a 
fabrica defte grande Pagode , que eftá des- 
feita em muitas partes; e iíTo que deixaram 
os foldados , tão mal tratado , que he má- 
goa ver affim deftruida huma dascouías ad- 
miráveis do Mundo. Agora faz finco^nta ân- 
uos que fui ver efte eftranho Pagode ; e co- 
mo não entrei nelle com a curiofidade com 
que hoje o podia fazer , não notei muitas 
coufas , que fe acabaram ja ; masiembfa-me 
todavia, que achei huma Capella, que hoje 
fe não vê, aberta pela fronteria toda, que 

te- 



Dec. VIL Liv. IIL Cap. XI. 259 

teria mais de quarenta pés de comprido , e 
áo lonço da rocha fe fazia hum taboleiro 
do comprimento da cafa á maneira dos nof» 
fos Altares, aflim de largura , como de al- 
tura ; e nefte taboleiro havia muitas coufas 
notáveis pêra ver. E entre ellas me lembra , 
que notei a hiftoria da Rainha Pacifae com 
o touro , e o Anjo com huma efpada nua 
lançar fora de debaixo de huma arvore duas 
figuras mui formofas de homem , e de mu- 
lher, que eftavam nuas , como no-lo pinta 
a Sagrada Efcritura em noíTos primeiros pais 
Adão , e Eva. 

Quando logo os Portuguezes tomaram 
eftas terras de Baçaim , e de fua jurdicção * 
que foram ver eíle Pagode, lhe tiraram hu- 
ma formofa pedra , que eftava fobre a por* 
ta , que tinha hum letreiro de letras mui bem 
abertas , e talhadas , e foi mandada a EI- 
Rey, depois do Governador da índia, quê 
então era , a mandar ver por todos os Gen- 
tios , e Mouros deite Oriente , que já não 
conheceram aquelles caraéleres ; e EIRey 
D. João o III. trabalhou muito porfaber o 
que eftas letras diziam , mas não fe achou 
quem as lefTe , e aílim ficou a pedra por ahi, 
e hoje não ha já memoria delia. 

Na lombada da ferra , em que eftá eíle 
Pagode do Elefante pêra o Nafcente a dous 
tiros de pedra, eftá outro Pagode aberto por 
R ii di- 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

diante , e o teéto de fima fe fuftenta fobre 
muitas columnas formofiffimamente lavradas , 
de que já não ha mais de duas , que são de 
dezenove palmos de alto , e doze de grof- 
fura. Tem o Templo quarenta e três paíícs 
de comprido , e treze de largo , e a huma 
parte tem huma camarinha muito bem la- 
vrada. Nella adoram a fua Deofa Paramiib- 
ri. Foi- efle Pagode, que eílá hoje todo des- 
feito, de obra efpantofa naquelle feu tama- 
nho. 

Noutro monte defta Ilheta pêra o Naf- 
cente, a refpcito do Pagode grande na lom- 
bada delle quaíí no meio , eítá outro Pago- 
de, em que antigamente fe entrava por hu- 
ma formofa porta , que tinha hum portal de 
mármore curiofiíllmamente lavrado. Temef- 
te Pagode huma cafa grande , e três cama- 
rás : na primeira da mão direita não ha já 
coufa alguma; na fegunda havia dous Ído- 
los fobre hum grande poial quadrado. Hum 
deftes idolos fe chamava Vithalá Chendai , 
lem féis braços, e huma fó cabeça , e ctlá 
arrimado a dous idolos pequenos, que tem 
a cada parte. 

Efte Pagode grande, e os outros peque- 
nos , fe fabe por luas eícrituras dos Gentios , 
que os mandou fazer hum Rey Canará , cha- 
mado Banaíur, e que os mandara fabricar , 
ejunto a ellc huns formoíbs Paços , em que 

fe 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XI, 161 

fe apofentava quando ai li hia , de que ain- 
da em meu tempo fe achavam alguns veíli- 
gios , e muitas minas de pedra decantaria, 
e adobes mui grandes. Chamavam-íe efles 
Paços , ou Cidade , que dizem que foi mui 
formola , Sirbali; e a ferra, em que eftá o 
Pagode do Elefante , fe chamou Simpdco. 
Aqui viveo alguns annos huma filha deíle 
Rey , que fe dedicou a efte Pagode a perpe- 
tua virgindade , que fe chamava Uquá. Dizem 
os antigos , que nefta Ilha do Elefante em 
tempo de EIRey Banafur , choveo ouro por 
cfpaço de três horas, eporiíTo lhepuzeram 
nome Santupori , que na fua língua quer di- 
zer ílha do ouro. Não relato todas as coufas 
deíle grande Pagode particularmente, porque 
são tantas , que fe não podem particularizar 9 
e porque não enfaíiiem aos que as lerem. 

CAPITULO XII. 

De como o Governador Francifco Barreto 
houve as mãos as fortalezas de Affari , 
e Manorá : e de como António Moniz Bar- 
reto foi tomar poffe delias por mandado, 
do Governador : e de outras coufas , em 
que proveo até fe partir pêra Goa. 

ASfentado em confelho que fe tomafle 
a fortaleza de AíTari , que era tão inexr 
pugnarei por natureza , que fe havia por cou- 

fa 



t6i ÁSIA de Diogo de Couto 

fa impoílivel tomar-fe por força, quiz o Go- 
vernador Franciíco Barreto ver fe por da- 
divas , e peitas a podia haver. Communicou 
eíle negocio com hum Coge Mahamede , 
Mouro antigo do tempo de Soltao Badur, 
<jue já no do Governador Nuno da Cunha 
andara na entrega da Cidade de Baçaim , e 
ficou nella vivendo rico , e honrado. Eftc 
Mouro, que era prudente, afluto , e muito 
conhecido do Capitão , que eítava em AiTa- 
ri, foi-fe ter com elle; e primeiro que tra^ 
temos do em que iíto parou , nos pareceo 
bem darmos razão do lírio defta ferra , e de 
quem eflava nelia por Capitão. 

ElH efta ferra de AiTari quaíl tanta dif- 
tancia de Baçaim , como de Damão , e ef- 
tará do mar pêra o certão perto de quatro 
léguas : tem a mefma forma , e feição da 
ferra de Dama na Abaília , de quem no Cap, 
X. do VII. Liv. da V. Década demos ra- 
zão, na jornada de D. Chriíiovao da Gama , 
que he a em que aquelles Imperadores en- 
cerram todos os filhos , tirando o herdeiro , 
por não haver antre elles alguma alteração ; 
eaíllm os tem alli rao fechados , que em ília 
vida não podem fahir fora. Da mefma ma- 
neira eílá a ferra de AiTari. 

Sóhe Íngreme pêra fima quaíi huma lé- 
gua , e tão direita de todas as partes , que 
parece que a foram talhando ao picão até 

hum 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XII. 263 

hum pouco antes do cume , onde faz hum 
releixo á roda , e delle pêra íubir ao plano 
não tem mais que dous paíTbs ; hum tão ín- 
greme , que não pode Jubir por elle mais 
que humapeííba, com tanto trabalho, e rif- 
co , que parece defatino querer hum homem 
trepar por alli, ao menos por curioíidade, 
porque de ambas as p rtes fica tão íngreme, 
que fe vai o lime dos olhos a huma peílba , 
ie olha pêra baixo. O outro paiTo fe chama 
das Vacas , porque por elle as levam aílí- 
ma, pêra mantimento da gente que alli re- 
íide. Efte paíío , tanto que chegam áquelie 
releixo, ficam como debaixo da aba de hum 
fombreiro , com huma abertura em fima , por 
onde laraçam cordas pêra levarem aífima o 
que querem , como fazem de huma efcoti- 
Iha de huma náo ás pipas , que eftam em bai- 
xo das cubertas. Nefte releixo debaixo , que 
corre á roda , e que fica como huma lapa , 
tem os foldados das vigias fuás eítencias , 
que são doze ; porque em tantas partes tem 
as aguas do inverno feito algumas quebra- 
das , por que fe pode fubir , ainda que com 
muito rifco ; porque em todas efías eftancias 
tem os foldados grandes galgas de pedras , 
com huns efpeques amarrados por humas cor- 
das, e prezas nas fuás camas; e fe de noi- 
te fentem rumor , affim deitados , não fa- 
zem mais que foltar as cordas com os pés , 

e 



164 ÁSIA de Diogo de Couto 

c dando nas galgas , vam pelo caminho abai- 
xo com tamanho eíírondo, e terremoto , que 
mettem medo, e tudo o que acham diante 
de íi levam , e não tem neceffidade de ou- 
tras armas pêra fua defensão. 

Emftma no cume faz eíla ferra hum pia-? 
no redondo , onde eílam os gazalhados , e 
apofento do Capitão , armazéns , ciíterna de 
agua , e a Igreja • e no tempo da guerra fe 
recolhem aqui mantimentos pêra hum anno, 
e na paz fe provêm das aldeias á roda , que 
são feniliffimas , e de continuo reíidem em 
fima feífenta foldados , a que pagam feus 
quartéis, e mantimentos , que lhe o Feitor 
de Baçaim leva , como fe lhe acaba o tem- 

Vigia-fe eíla ferra de noite com grande 
cuidado , e os dos quartos são obrigados cor- 
relia por íima toda em roda , com tochas 
^ccezas de hum páo , como preto , que fe 
dá naquelles matos , que arde como tochas 
de cora , e não fe apagam nem com vento , 
nem com agua. Ao pé da ferra tem huma 
tranqueira de madeira em forma quadrada 
com feus cubellos , onde reíide hum Naique 
com cem peães, e hum Capitão do campo 
Portuguez com alguns foldados. 

Eítava nefíe tempo por Capitão da fer- 
ra hum Gentio , chamado Condixá , e em 
Manorá hum Turco por nome Agader , e 

por 



■ Dec. VIL Liv. III. Cap. XIL 26? 

por Vcador da Fazenda de todas aquellas 
terras hum Gentio, chamado Calegi , e to- 
dos póftos da mão de Cide Bofatá , que fe 
tinha alevantado com a Cidade , e terras de 
Damão no alevantamento geral, (como na 
VI. Década no Cap. XVI. do X. Livro fi- 
ca dito. ) O Coge Mahamede , de quem h Ía- 
mos tratando , chegou aferra deAíTari, co- 
mo que hia vifitar oCondixá, de quem era 
grande amigo; e detendo-íè com elle alguns 
dias , o veio a apalpar com diffimulação ; e 
achando-o difpoíto , lhe commetteo , que en- 
trega ITe aferra ao Governador , que lhe da- 
ria o que foíTe razão logo em dinheiro , e 
que lhe faria outras honras , e mercês. O 
Gentio vencido das muitas razões do Coge 
Mahamede, e mais do intereííe, (que he o 
que faz render tudo , ) abrio-fe-lhe todo , a in- 
firmando que o faria ; mas que não pode- 
ria fer fem o Calegi , Veador da Fazenda , 
que fe viífe com elle , e trataflem fobre a- 
quelle negocio , e que querendo , elle efta- 
va preftes pêra fervir o Governador ; e com 
iíto fe viram ambos com elle , e praticaram 
aquelle negocio, fobre que o Coge Maha- 
mede não foi avaro nas promefias ; e por 
tal modo os levou , que os rendeo , e a {Ten- 
taram quedando-lhes o Governador féis mil 
e quinhentos pardáos logo em dinheiro, lhe 
entregariam aquella fortaleza , e fe pairariam 

a 



i66 ASIÀ de Diogo de Couto 

a viver a Baçaim. E como tiveram rendido 
oCalegi , lhe pedio o Coge Mahamede , que 
trataíTe com Agader , Capitão de Manorá , 
fe queria entrar naquella liga , eque lhe da- 
riam o que elle pedifle, porque pêra fegu- 
rança das terras de Baçaim era neceíTario fi- 
carem aquellas forças ambas pêra o Eftado 
da índia. 

Sobre ido fe foi o Calegi ver com Aga- 
der; e apalpando-o fem fe lhe declarar, o 
achou duro , e de tão roim digeftão , que 
não apertou com elle , e o deixou , e deo 
conta de tudo aos outros , que diíleram ao 
Coge Mahamede , que depois de elles en- 
tregarem a ferra , poderia o Governador man- 
dar tomar por força Manorá , porque Aga- 
der tinha pouca poíTe pêra fe defender. Com 
eíla refolução voltou o Coge Mahamede pê- 
ra Baçaim , e deo conta ao Governador de 
tudo o que tinha paliado com o Condixá , 
e Calegi, dizendo-lhe quão fácil elles lhe fi- 
zeram a tomada de Manorá ; porque tanto 
que Aííari eíliveííe em fcu poder, (que era 
o mais duvidofo , e importante , ) logo Ma- 
norá ficava fendo mais fraco , e o Agader 
não teria remédio pêra fe defender. 

Vendo o Governador quão barato lhe 
offereciam o que elle tanto defejava , poz lo- 
go em obra aquelle negocio ; e porque El- 
Rey não tinha dinheiro , mandou vender a 

fua 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XII. 267 

íba prata , e ajuntou a quantia dos féis mil 
e quinhentos pardáos , que fe carregaram por 
empreílimo fobre o Feitor de Baçaim Duar- 
te do Soveral , em cuja arrecadação achámos 
efta receita , com a declaração do pêra que 
aquelle dinheiro foi empreitado ; edefpedio 
o Coge Mahamede com recado a Calegi , 
eCondixá , pêra faber o modo que queriam 
ter na entrega da ferra , e no recebimento do 
dinheiro, O Coge Mahamede negociou ifto 
de feição , que veio o Calegi tomar o di- 
nheiro a Baçaim , e ficou em reféns até Con- 
dixá entregar a fortaleza de Aflari. 

Como o Governador tevecomíigo o Ca- 
legi , e lhe deo o dinheiro , defpedio Jogo 
António Moniz Barreto pêra ir tomar entre- 
ga da ferra , levando cartas do Calegi de co- 
mo já tinha o dinheiro cm íi ; e chegando 
ao pé da ferra, fe foi o Condixá ver com 
elle , e lhe fez entrega delia , mandando ti- 
rar de dentro todas as couías que nella ti- 
nha. Entregue António Moniz Barreto da 
ferra, deixou nella hum Capitão com feíTen- 
ta foldados , e a provéo de mantimentos , le- 
nha , e vaccas em abaftança , e ordenou guar- 
da pêra as terras, que foi humNaique com 
duzentos peães , e mandou lançar pregoes pe- 
las aldeias » que todos os lavradores culti- 
» vaííem , e lavraíTem fuás aldeias , e que re- 
» fpondeflem com os foros a EIRev de Por- 

» tu- 



268 ÁSIA de Diogo de Couto 

» tugal , como faziam ao de Cambaya pe- 
alos mefmos foraes , e coílumes , íem lhes 
» innovar coufa alguma , fenao em feu fa- 
»vor: » com o que começaram acudir ás 
aldeias, e lhes ordenaram recebedores, pê- 
ra correrem com a arrecadação de feus fo- 
ros. 

Negociadas eítas coufa s muito bem , vol- 
tou peraBaçaim, e o Governador o tornou 
a defpedir com feiscentos homens pêra ir to- 
mar a fortaleza de Manorá , e mandou D. 
An:ão de Noronha com dez navios pêra ir 
pelo rio aííitna favorecendo-o , e António 
Moniz Barreto foi entrando pelas terras de 
Manorá fem achar refiftencia ; e indo de- 
mandar a fortaleza , a achou defpejada , por- 
que o Agader o não oufou a efperar ; mas 
não foi ifto tão fecco , que os noflos da di- 
anteira não tiveíTem algumas efcaramuças 
com os inimigos , em que lhes derribaram 
alguns. Defpejado o forte , tomou António 
Moniz Barreto poííe delle , e poz nelle por 
Capitão hum Jorge Manhãas, Cavalleiro hon- 
rado , da obrigação do Governador , com 
cento e vinte foldados , e alguns Naiques , 
e peães da terra , e deo ordem á arrecada- 
ção das terras , como fez a Aflari. 

Acabado efte negocio , fe tornaram pê- 
ra Baçaim , onde o Governador já eílava 
preftes pêra fe partir pêra Goa > por lhe te- 
rem 



Dec. VIL Liv. III. Ca?. XIL 269 

rem chegado cartas , em que o chamavam 
com muita preíía , por ferem entrados nas 
terras vizinhas a Goa alguns Capitães do Idal- 
can com muita gente , e que eftavam arris- 
cados Salfete , e Bardes a fe perderem. E 
dando defpacho a algumas couías , (princi- 
palmente ás de Ormuz , por lhe terem vin- 
do novas íer falecido Bernaldim de Soufa , 
que lá eftava por Capitão, pêra onde deípa- 
chou D.João de Ataíde,) fe embarcou, dei- 
xando íetecentos homens em Baçaim com or- 
dem pêra lhes darem mezas , de que deixou 
Capitães nomeados pêra iííb. António Mo- 
niz Barreto , Capitão da fortaleza , a trezen- 
tos e fincoenta. D. Martinho da Cunha , ir- 
mão de D. Pedro da Cunha, Capitão geral 
das galés do Reino , a duzentos. E Duarte 
do Soveral , Feitor , e Alcaide mor de Ba- 
çaim , a cento e íincoenta ; e cm breves dias 
chegou o Governador a Goa ; e paífando 
pelo rio aíiima com todos os navios de re- 
mo , fem querer defembarcar na Cidade , 
foi vifítar o^ pados da Ilha , que provêo de 
Capitães, e loldados pêra fua guarda, ede 
navios ligeiros pêra correrem os rios; enas 
Ilhas de João Chorão , Divar , e nas mais 
metieo gente de guarnição, ena fortaleza de 
Kacol poz D. Jorge de Menezes Baroche , 
e D. Pedro de Menezes o Ruivo , com qua- 
trocentos homens pêra guarda daquellas ter- 



iyo ÁSIA de Diggo de Couto 

ras ; e depois de prover tudo iflo mui bem, 
fe foi pêra Goa , e defpedio António Pe- 
reira Brandão com leis navios ligeiros pêra 
andar por aquella coíla até Dabul , fazendo 
toda a guerra que pudeíTe ao Idalcan ; e el- 
le fe foi apofentar em humas caías , que ef- 
tão adiante de Santa Luzia pêra dalli correr 
os pálios , c entender nas coufas da guerra , 
que de propoíito determinava fazer ao Idal- 
can. 

CAPITULO XIII. 

Do que aconteceo na jornada a Fero Bar- 
reto : e do engano que com elle ufou o Prín- 
cipe do Cinde : e de huma façanhofa Jer~ 
pente , que bum joldado chamado Gafpar 
de Mont arroio matou. 

PArtido Pêro Barreto Rolim de Baçaim , 
(como atrás diffemos no Capitulo IX* 
deíle III. Livro,) foi atraveffando a enceada 
de Cambaya até Dio, onde chegou vefpe- 
ra de Natal. E depois de paliada a feita , tor- 
nou á fua viagem , e foi de longo da coíla 
até a ponta dejaquete, onde fe acabam os 
limites do antigo Reino Guzarate, e dalli 
foi atraveffando aquella enceada , e foi to- 
mar a barra do Cinde , que commummente 
fe chama a de Cambaya, por entrarem por 
ella todos os navios, quevam áquellas par- 
tes j porque a outra boca > que tem mais ao 

Nor- 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XIII. 271 

Norte , fe chama de Ormuz , por falarem 
porella todos os navios que navegam por 
aquelle Eílreito ; e chegada a Armada , foi 
entrando pelo rio ás toas , pelas grandes 
correntes de fuás aguas , e puzeram oito dias 
até a Cidade de Tatá , não fendo mais de 
trinta leguasé Eílava na Cidade o Príncipe 
Mirahan Baba , moço de doze annos , que 
o pai alli tinha deixado com alguns tutores 
pêra governar o Reino , porque havia pou- 
co tinha partido com feus exércitos em bu£- 
ca do inimigo. E fabendo o Príncipe fer 
aquella Armada , que feu pai mandara pe* 
dir , mandou vifítar o Capitão mor, e afa- 
zer-lhe a faber , como feu pai lhe deixara 
ordem , pêra que como chegalTe aquella Ar- 
mada a fizeííe efperar até feu recado. Pêro 
Barreto recebeo efte Enviado, e mandou a 
terra o Embaixador , que o fora bufcar , e 
com elle hum homem honrado , por quem 
mandou dizer ao Príncipe que elle vinha com 
aquella Armada em ferviço de EIRey feu 
pai , e que eílava preftes pêra tudo o que 
lhe mandafle , e que déííe ordem pêra ir 
hum homem a EIRey , que elle queria man- 
dar; o que o Príncipe fez , e lhe mandou 
dar aviamento de tudo pêra o caminho. Ef* 
te homem , que Pêro Barreto mandou , to- 
mou a EiRei fobre a Cidade de Tiguir, 
que he no eílremo daquelles Reinos 5 e fi- 
ca- 



272 ÁSIA de Diogo de Couto 

cava da parte do Soltão Mahamede Bacha* 
ri , que a tinha muito fortificada , e alli o 
ouvio, e o tornou a defpedir logo com re- 
cado a Pêro Barreto <( em que lhe pedia que 
» fe entretiveíTe alguns dias , e que nelies 
» lhe mandaria reíolução do que havia de 
» fazer , com o que fe deixou Pêro Barre- 
» to ficar no rio da outra banda defronte da 
» Cidade. » 

EIRei Mirzanhifá foi continuando o cer- 
co deTiguir, em que teve muitos recontros 
com os inimigos , de que houve damno em 
ambas as partes ; e Bachari , que era valen- 
te cavalleiro , fempre lhe teve o encontro , e 
provco os de dentro da Cidade, fem o ini- 
migo lho poder defender. Vendo o Rei do 
Cinde que por força não podia tomar aquel- 
la Cidade, e que o inimigo eíhva podero- 
f o , veio a entrar com elle em partidos , por 
meio de Capitães , que fe rnettêram antre 
elles , e por fim fe vieram a concertar , que 
o Bachari Ihelargaííe a fortaleza deTiguir, 
por ficar , como diílemos , nos eítrcmos de 
ambos os fenhorios , e que ficaííe com o que 
mais poííuia ; e com iíto fe lhe entregou a 
fortaleza , que eíle proveo de Capitão , e 
foldados y e voltou pêra o Cinde. 

Todo efte tempo eíleve Pêro Barreto no 
rio eíperando o recado deFIRei ; e porque 
não he razão que paliemos por hum cafo 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XIII. 17$ 

efpantofo , que aqui acontcceo , daremos con- 
ta delle. Coftumavam os noííos foldados ir 
a terra á caça ; e deíViando-fe hum delles i 
chamado Gafpar de Montarroio, natural da 
Cidade de Farão, com fó fua eípada i e ro- 
della, foi-fe afFaftando por hum mato; e en- 
contrando com huns Gentios , lhe diílerant 
que não paflafle avante , porque eftava alli 
huma ferpente , que acabara de comer hum 
bezerro. O Gafpar de Montarroio defejofa 
de a ver , lhes pedio lhe foííem moftrar o lu- 
gar onde eftava , o que elles fizeram ; e che- 
gando perto , a vio eftar deitada no matd 
com a cabeça fobre o caminho, e eftava far- 
ta , e pejada , e pela cabeça cntendeo que 
devia fcr coufa façanhofa , porque o corpo 
ficava efcondido no mato ; e defejofo de a 
ver bem , le foi chegando tanto a ella $ que 
Jhe pode chegar com a efpada com fer cur- 
ta: ella em o fentindo alevantòu a cabeça * 
a tempo que elle hia com hum golpe , e 
quiz ília boa ventura que a tomaíTe pelo de-* 
golladouro , onde não tinha fortaleza; e co- 
mo a efpada era larga , e cortadora , a de* 
gollou toda, eefla com a dor da morte deo 
com o corpo tamanhas pancadas , que pu- 
nha efpanto , e medo , até que acabou de 
morrer* Os Gentios , que eftavam de longe 
vendo aquilio, ficaram pafmados, e forão 
fugindo ; c o Gafpar de Montarroio voltou 
C9utQ.Tern.IJ r .P.L S pe- 



274 ÁSIA de Diogo de Couto 

pêra a praia ; e tomando alguns marinhei- 
ros da fufta , em que hia embarcado com 
remos , e cordas 5 fe foi com elles aonde 
eftava aferpente, e afez amarrar, e ás coi- 
tas de todos a levou á praia , onde Pêro 
Barreto fahio pela ver, que foi coufa, que 
admirou a todos , por fua grofíura , e gran- 
deza ; porque era tão groíía como hum ho- 
mem ordinário , e de comprido teria trinta pés , 
e dizião os naturaes que era aiada criança. 
Pêro Barreto mandou fazer huma forca na 
praia, e a mandou dependurar porefpanto: 
e por efte feito ficou o Gafpar de Montar- 
roio tão nomeado dos Gentios do Reino do 
Cinde, eCambaya, que o bufcavam , elhe 
levavam prefentes , e peças. Viveo efte ho- 
mem até osannos de noventa e quatro, que 
fe foi pêra o Reino, e no caminho nos pa- 
rece que defappareceo a náo em que hia. 

Vendo Pêro Barreto Rolim que o reca- 
do de EIRey tardava muito , e que todo o 
mez dè Fevereiro era paíTado , mandou re- 
querer ao Principe , que pois EIRey feu pai 
não lhe mandava o que havia de fazer , e 
que fe hia o tempo gaitando, que lhe man- 
ei a fíe cumprir os contratos fobre que viera 
aquella Armada 5 pois debaixo da fé , e pa- 
lavra de EIRey feu pai fizera o Governa- 
dor com ella tamanhas defpezas., O Princi- 
pe depois de alguns recados, e requerimen- 
tos 



Dec. VIL Liv. III. Ca?. XIIL 27? 

tos defies , a que fempre refpondeo com eí- 
cufas , lhe mandou dizer (( que fe fe quizef- 
)> fe ir o podia fazer , porque elle não ti- 
» nha ordem de EIRey leu pai pêra mais, 
» que pêra prover a Armada de mantimen- 
» tos , que fe os quizeíle , lhos mandaria 
» dar. )> Deite defengano ficou Pêro Barre- 
to enfadado , e começou logo a haver união 
por toda a Armada , porque quizcram os 
íbldados que logo fe lhe dera o caftigo ; mas 
Pêro Barreto diíTimulou com aquillo , por- 
que defejava de não chegar a rotura , até 
ver o que EIRey mandava. E como os foi- 
dados da índia são muito foltos, e livres, 
davam de noite grandes matracas ao Capitão 
mor ; e a voltas de muitas palavras defordena- 
das lhe chamavam fraco, pulillanime , eque 
de medo não vingava tamanha offenfa ; e tan- 
tas vezes lhedilTeram cftas coufas , e outras, 
que lhe deo a defconfiança de maneira , que 
fem tomar confelho com alguém , mandou 
dizer pelas fuftas que fizeiíem pelouros. Com 
efte recado fe alvoroçaram os foldados , e 
começaram a guarnecer feus arcabuzes , e 
alimpar fuás armas ; e entre tanto mandou 
o Capitão mor com muita diflimulação com- 
prar mantimentos á Cidade, de que proveo 
a Armada baftantemente. 



S ii CA- 



7,y6 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XIV. 

De como Vero Barreto Rolim deflruio a Ci- 
dade de Tatá , e todas as Villas , e Lu- 
gares de huma , e outra banda do Rio : 
e donde nafceo o erro aos Geógrafos mo- 
dernos chamarem á Provinda do Cinde 
Dukinda. 

EM quanto feosnoíTòs preparavam com 
diftimulaçâo , fuccedeo daquella banda 
donde eftava a armada \ efte cafo. Coftuma- 
vam os da Cidade ir á outra banda a ven- 
der fuás mecânicas aos foldados ; e como 
eiles já fabiam que fe havia de dar na Ci- 
dade , hum delies mal íbffrido tomou huns 
couros do Cinde a hum mercador fem lhos 
querer pagar , e ainda fobre iííb o esbofe- 
teou ; e a noite íèguinte , eftando os noflbs 
navios furtos , bem cozidos com a terra, 
ajuntaram- fe huns poucos de Diulis , (que 
são huns Gentios, que vivem daquella ban- 
da ,) e de fim a das barranceiras , que fica- 
vam altas , defcarregáram fobre os noíTos 
navios grande fomma de arcabuzadas, e fre- 
chadas , com que encravaram muitos folda- 
dos; e foi a coufa tal , que fe levantaram 
os navios , e foram furgir no meio do rio , 
e dalli esbombardeáram bem os que lhes fi- 
zeram aquelle damno. Ao outro dia pela 

ma- 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XIV. 277 

manhã mandou Pêro Barreto chamar os Ca- 
pitães aconielho, e Jhesdifle « que era ne- 
» ceííario cafiigarem aquella affronta , e def- 
» tniirem por ella a Cidade , e que pêra if- 
» fo fe foliem Jogo a tomar as armas , o 
» que todos fizeram com grande alvoroço. » 
Tomando o remo em punho , foram def- 
embarcar na face da Cidade , e puzeram 
fuás bandeiras em terra , onde íè ordenaram; 
e com grande determinação commettêram a 
Cidade, por onde foram entrando, e met- 
tendo á elpada a toda a peffoa viva que 
achavam , levando diante de fi alguns ma- 
gotes de inimigos , que acudiram a lhe de- 
fender a entrada , com quem apertaram tan- 
to, que de todo os puzeram em desbarato. 
E hum efquadrão decavallo de mais de du- 
zentos fe foram com a preífa recolher a h li- 
ma formofa Mefquita , que hum foldado 
noíío vio ; e vendo que o Capitão mor hia 
paflando avante , lhe diííe « que volrafle, 
» porque lhe ficava aquella gente nas coitas, 
» e que o feguiííe , porque elle o levaria 
y> aonde fe recolheram. » Pêro Barreto vol- 
tou logo, e uifle ao foldado que oguiaííe; 
e chegando á Mefquita , acommettêrão com 
grande fúria , fendo Pêro Barreto o primei- 
ro que quiz entrar ; mas atraveflbu-fe-Ihe 
diante Cifal Pinheiro , dizendo-lhe , « que fe 
» detiveííe , que aquelle não era o feu lugar , 

» nem 



278 ASIÀ de Diogo de Couto 

» nem officio , que foldados levava , que 
y> fariam aquillo muito bem feito. » E af- 
fim o deteve , e foi ccnimettendo a entra- 
da com alguns companheiros. A Mefquita 
era muito grande , e da feição de noíTos Tem- 
plos , e tinha três portas , huma principal , 
e duas traveflas , e na fronteria havia três 
Capellas grandes todas de abobada , como 
também o era o corpo da Mefquita , que fe 
fuftentava íobre mais de trinta formofas co- 
lumnas de pedra. Os noíTos trabalharam tan- 
to , que entraram da porta pêra dentro , e 
começaram a laborar com a arcabuzaria , 
que fez nos Mouros grande eílrago > e fe 
foram recolhendo pêra as Capellas, E como 
o corpo daquelle Templo era todo de abo- 
bada, e arcabuzaria , fazia hum eftrondo eí- 
pantofo , andavam os cavallos de huma pêra 
outra parte , fem darem pelos freios , e co- 
mo defatinados faziam tamanho eílrepito , e 
terremoto , que parecia huma confusão , e 
aífím a noífa arcabuzaria não fazia fenão 
derribar nelles á vontade ; e o que foi mais 
cruel que tudo, foi chegarem alguns folda- 
dos com panellas de pólvora , lançando an- 
tre os Mouros huma fomma delias ; e des- 
fazendo-fe em labaredas , foram dar em huns 
cailões de pólvora , (que são tamanhos co- 
mo grandes cântaros ,) que elles tinham den- 
tro j e tomando fogo , rebentaram com tan- 
ta 



Dec. VII. Liv. III. Cap. XIV. 279 

ta braveza , que parecia arder algum grande 
forno de cal. Os cavallos com aquelle ef- 
trondo , eefpanto davam com os donos pe- 
los efteios , e pelas paredes ; outros fe im- 
pinavam , e cahião fobre eiles i e alguns , 
quequizeram commetter as portas , fe foram 
efpetar nas agudas atabardas, e lanças, de 
que os nolíos tinham feito grandes baftidas ; 
de maneira , que todos os que dentro efta- 
vam acabaram no mais cruel , e miferavei 
género de morte , que fe podia imaginar. 

Concluído efte negocio , foram os nof- 
fos entrando a Cidade , e mettendo á efpa- 
da toda a coufa viva que achavam , até os 
brutos animaes ; e como não tiveram em 
que executar fua fúria , mandou o Capitão 
mor que faqueaííem a Cidade , como logo 
fizeram , tomando todos tantas fazendas , que 
fe carregaram os navios , não roubando nem 
a quarta parte do que havia nella , e a tu- 
do o mais fe deo fogo , que fe apoífou de 
toda a Cidade em tanta maneira, e com tão 
grande braveza , que parecia abrazar-fe o 
mundo ; porque além de ella fer das maio- 
res da índia , eílava recheada de fazendas 
groífas , e ricas , de drogas, manteigas, azei- 
te, cifas, e outros materiaes , que faziam 
fubir as chammas aos Ceos , tão efcuras , 
negras , efpeíTas , e fedorentas y que fe na 
terra havia coufa, que reprefentafle a feme- 

lhan- 



a8o ÁSIA de Djogo de Couto 

lhança do inferno, era efta montaria. O que 
íe roubou , e queimou emfazenda , era paíTan- 
te de dous milhões de ouro , e morreram 
perto de oito mil peííbas , a mor parte dei-* 
Ia gente inútil , fem euftar da noíTa parte 
mais que alguns feridos. 

Feito eíle negocio , fe tornaram a em-» 
faarcar % e foram pelo rio abaixo queiman- 
do , edeílruindo todos os lugares que havia 
de huma , e outra parte daquelle famofo rio 
Indo , achando em alguns paíTos eftreitos 
muita gente, que ao paliar lhes deram gran- 
de trabalho com a multidão de tiros , que 
defearregavam fobre elles , e em hum mais 
eftreito de todos os mettêram em grande con- 
fusão , por lhes ficarem os navios debaixo 
das barranceiras , donde elles de íima em- 
pregavam feus tiros bem á fua vontade , com 
que derribaram alguns dos noftbs , largando 
os marinheiros os remos , e efeondendo-fe 
debaixo , porque as frechas cabiam fobre el- 
les tão efpeíías , que parecia que choviam , 
ficando os navios rodos anhotos , e embara- 
çados huns com os outros. Vendo Pêro Bar- 
reto que ficava deita maneira arrifeado a lhe 
matarem muita gente, bradou aos Capitães 
que puzeííem as proas em terra , e que com 
a artilheria franqueaflem a defembarcaçao , 
e caminhaíTem de longo da ribeira ; porque 
ainda que foíTem fempre pelejando com 05 

ini- 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XIV. 281 

inimigos , não poderiam receber tanto da- 
mno como por mar } e virando todos as 
proas á terra , fizeram affaítar os inimigos 
com os falcões ; e faltando todos fora , pu- 
deram fuás bandeiras em íima das barrancei- 
ras á vifta dos inimigos; ealli ordenou Pê- 
ro Barreto dous efquadroes , hum de trezen- 
tos homens , de que fez Capitão hum da- 
quelles Fidalgos , a que não pudemos faber 
o nome , e lhe mandou fe paífaíTe da outra 
banda , e foífe caminhando por terra, e de 
longo delia ametade dos navios pêra os fa- 
vorecerem , e elle com o outro efquadrão 
de quatrocentos homens foi marchando de 
longo da agua muito á fua vontade, tendo 
fempre muitas efcaramuças com os inimigos , 
que os hiam feguindo de longe, por fe fa- 
tisfazerem em parte de tantos damnos , co- 
mo eram os que fe lhes tinham feito. E os 
iioíTbs a todas as povoações a que chega- 
vam lhes punham logo o fogo , e as abra- 
zavam ; e tanto que anoitecia , aflentavam 
feus exércitos nos lugares mais accommo- 
dados , e com as cofias no mar, e os na- 
vios com as proas na terra , e com as poppas 
de huns nos outros , e em terra década ban- 
da dous berços , que a cada quarto fe def- 
paravam , e apôs elles toda a efpingardaria 
dos foldados da vigia , e deita maneira ca- 
minharam muito feguramente. Os Mouros 

ven- 



282 ÁSIA de Diogo de Couto 

vendo a boa ordem que os noflbs levavam , 
adiantaram-fe , e foram ate o Bandel , que era 
perto da barra, e deram em dous navios de 
alto bordo, que os Portuguezes alli tinham 
abicados, matando alguns, e cativando to- 
dos os mais , e aos navios tiraram as efco- 
ras , e deram com elles em baixo, onde fe 
quebraram , roubando toda a fazenda que 
nelles acharam. Os nofíos foram caminhan- 
do por terra na ordem que diíTemos , finco 
dias , até chegarem ao Bandel , onde os 
Mouros tinham huma arrezoada fortaleza. 
Pêro Barreto fe ajuntou com a outra com- 
panhia , e acommetteo á efcala vifta , ar- 
rombando-! hes as portas com vaivéns , por 
onde entraram os noífos com grande deter- 
minação , fazendo recolher pêra dentro os 
Mouros que nella eftavam; centrando todo 
o poder , metteram á efpada toda a coufa 
viva que fe achou, fem efcapar hum la 

Rendida , e defpejada a fortaleza , foi 
efcalada , e faqueada dos foldados , em que 
acharam muitas fazendas , e alguns dos Por- 
tuguezes das náos prezos , que logo foram 
foltos; e não tendo mais que fazer , deram 
fogo á fortaleza , em que toda fe confumio , 
e fe embarcaram. Neíte caminho gaitaram 
os noífos oito dias , em que fizeram pelo 
rio abaixo os mores damnos ? e perdas , que 
nunca aquclle Reyno recebeo, porque lhes 

não 



Dec. VIL Liv. III. Cap. XIV. 283 

não ficou Villa , nem lugar em pé. Pêro Bar- 
reto vendo que já não havia que fazer , fa- 
hio-fe do rio , mandando primeiro pôr fo- 
go aos navios dos Portuguezes , que eftavam 
quebrados , porque fe não ferviflem os da 
terra da fua madeira , e pregadura ; e deo á 
vela pêra Goa. E aílim o deixaremos nefta 
viagem , até tornarmos a elles , pêra darmos 
razão donde nafceo a confusão dos Geógra- 
fos modernos chamarem a eíla Provinda 
Dulcinda , como nos penhorámos no prin- 
cipio do Capitulo. 

Pelo que fe ha de faber , que os mer- 
cadores Italianos , e outros da nofla Euro- 
pa , que paísáram á índia por terra , muito 
antes que ella fe defcubriíTe por mar , na- 
vegando de Ormuz , e de outros portos pê- 
ra o Cinde, que fempre foi huma das mais 
celebradas feiras do Oriente , como chega- 
vam á boca do rio Indo , achavam da ou- 
tra banda do Ponente aquelles povos Diulis , 
chamados aííim da fua principal Cidade cha- 
mada Diul , pnde elles faziam fua habi- 
tação , e dalli pa fiavam ao Cinde , e hiam 
fazer fuás mercadorias á Cidade de Tatá ; 
e como eram homens idiotas naquellas par- 
tes, enao fabiam fazer diíferença dos nomes 
daquelía Província , dando lá na Europa ra- 
zão das terras por onde andaram , diziam 
que foram ter a Dulcinda ; confundindo hu- 
ma 



284 ÁSIA de Diogo de Couto 

ma coufa com a outra , fendo Diul nome 
da Cidade , e Cinde de todo o Reyno ; e 
daqui ficaram os Geógrafos modernos cha- 
mando a todo eíte Reyno Dulcinda. Deita 
mefma maneira confundio Marco Polo Ve- 
neto , ou ieus trasiadadores , o nome da Pro- 
víncia da China , fazendo de hurna íb duas , 
por efía maneira. 

Aquelle Império da China fe chama an- 
tre os naturaes Cin , Macin ; e dividindo 
eile eíie nome (que he todo hum) emdous, 
chamou a huraa parte China , cá outra Man- 
gi. E ainda Abrahao Ortelio paíTou adian- 
te, que deo limites a eítas duas Províncias, 
lançando no feu Theatrum Orbis a Provín- 
cia Mangi mais ao Norte da da China, E 
tornando aos povos Diulis , nelles fe come- 
ça a Província Gedrofa , que Aiton Armé- 
nio , e Sabellico chamam Tarfe. E Jofefo 
Moletio , eCadamoftoGuzarate , (cujo erro 
na V. Década fica declarado , ) e Jeronymo 
Rufceli, falhando nefta Província, diz que 
todos os delia são Chriftãos , e não fabemos 
com que fundamento, nem porque informa- 
ções , porque hoje na índia não temos no- 
ticia alguma diífo, nem por efcrituras , nem 
por memoria de avós, e netos , em que nef- 
tas partes fe confervam por muitas centenas 
de annos fuás antiguidades. 

DE- 



£<<; %t **,«#* 1# ^.^ $# » j 

DÉCADA SÉTIMA. 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO IV. 

CAPITULO I. 

Do que aconteceo á rido $. Paulo até Co- 

chim : e de como Pêro Barreto Rolim 

dejiruio a Cidade de DabuL 

AN A o S. Paulo , que tinha partido do 
Reino na companhia de D. Leonar- 
do de Soufa, (de que era Capitão > 
e fenhorio António Fernandes,) que deixá- 
mos invernando no Brazil , onde efteve fin- 
co mezes ; etomando-íe parecer com osOf- 
fíciaes delia , e com os que havia na terra > 
aflentáram todos « que fe partiiíem dalli em 
9> Outubro, poderia muito largamente paí- 
» far á índia , e tomar ainda as náos pri- 
a meiro que partiiTem pêra o Reino. » Con- 
clui- 



^86 ÁSIA de Diogo de Couto 

cluidos nifto, deo-lhes D. Duarte da Cof- 
ta todo o aviamento poífivel , e fefez ave- 
la na entrada de Outubro paflado de fin- 
coenta e finco. E feguindo fua derrota ? de- 
pois de paliarem o Cabo de Santo AgoíH- 
nho , afientada de ir por fora da Ilha de 
S. Lourenço , foram-fe pondo em quarenta , 
quarenta e hum gráos do Sul , paragem , 
que por andar o Sol affaílado pêra a par- 
te do Norte , ficava o dia tão pequeno , que 
não havia tempo pêra mais , que pêra faze- 
rem de comer huma vez ao dia , o que deo 
grande trabalho a todos. E depois de vin- 
garem a altura do Cabo de Boa Efperança , 
tomaram a derrota por fora da Ilha de S. 
Lourenço , e ainda de todos os baixos 3 pê- 
ra irem demandar a ponta de Camatra , e 
dalli voltarem com as náos de Malaca , o 
que fizeram fem trabalho , porque os tem- 
pos os favoreceram bem. Ecomo eftiveram 
na altura de Camatra fem quererem ver a 
terra , voltaram com os levantes em outro 
bordo , e foram na derrota de Ceilão , e 
houveram vifta da ponta de Gale , fem pode- 
rem ferrar terra ; e atraveífando a outra cof- 
ta , foram tomar as arêas gordas junto aò ca- 
bo Çamorim. E de longo daqueíla cofia com 
os ventos, que eram bonançofos , chegaram 
a Cóchirn aos trinta do mez de Janeiro de 
mil quinhentos fincoenta efete, onde ainda 

acha- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. I. 287 

acharam a náo Capitânia , de que era Capi- 
tão D. João de Menezes , que deo á vela 
ao dia feguinte , muito contente por Jevar 
novas daquella náo , porque fe tinha delia 
muito ruins fufpeitas. A náo S. Paulo tan- 
to que furgio , defembarcou D. António de 
Noronha , e tomou logo alguns navios de 
remo , em que fe embarcou com feíTenta 
foldados , e fe foi pêra Goa , onde foi bem 
recebido do Governador Francifco Barreto , 
e lhe fez mercê de dous mil cruzados > que 
EIRey lhe tinha mandado empreitar do co- 
fre do cabedal , pelas muitas deipezas que 
naquella jornada tinha feito; eanáo S. Pau- 
lo fe partio logo pêra Goa , onde invernou , 
e fe concertou pêra eílar preftes pêra o an- 
uo feguinte. 

Agora deixaremos eftas coufas , e torna- 
remos a continuar com Pêro Barreto Ro- 
lim , que ficou partido do Cinde , por le- 
var aílim a hiíloria enfiada. Eíla Armada , 
depois que deo á vela , foi feguindo fua der- 
rota ; e antes de chegar a Dio 3 lhes deo 
hum tempo tão groíío , que lhes foi necef- 
fario alijar ao mar tudo o que traziam do 
Cinde, porque os comiam os mares; e af- 
fim tornaram a perder com muito rifeo da 
vida o que com tantas morres dos inimigos 
tinham ganhado naqueJla Cidade , vendo-fe 
muitas vezes alagados , e perdidos. Mas quiz 

Deos 



288 ÁSIA de Diogo dê Couto 

Deos que ceflaffe o tempo , com que def- 
troçados , e alagados foram tomar Chaul i 
onde fe ajuntou toda a Armada , que tomou 
diíFerentes portos. AUi achou Pêro Barreto 
Rolim cartas do Governador , em que lhe 
mandava « que de pallagem defembarcaíTe 
)) em Dabul , onde acharia António Pereira 
» Brandão , e que deftruiiTe aquella Cidade 
» de todo , porque era do Idalxá 5 com quem 
» ficava de guerra. » 

Com eítas cartas fe refez , e ajuntou 
mais alguns navios, e gente, queeftava pê- 
ra ir pêra Goa , e deo á vela com vento 
profpero ; e chegando aquella barra de Da- 
bul , achou António Pereira Brandão com 
os feus navios, que lhe deo hum regimen- 
to do Governador fobre o mefmo negocio* 
Com ifto fe negociou , e deo recado a to- 
dos os navios , pêra que eíliveífem preítes- 
pêra o outro dia de madrugada : e tanto 
que foi meio quarto de alva rendido , foi 
entrando peia barra dentro ; e pondo as proas 
na praia da face da Cidade , faltaram em 
terra com fuás bandeiras , e guiões , e Pêro 
Barreto por derradeiro com a de Chrifto, 
e em muito boa ordem foram commetter a 
Cidade com grande eftrondo de artilheria 
dos navios , e dos inftrumentos militares. E 
António Pereira Brandão, que levava a dian- 
teira 7 achando hum grande efquadrão de 

Mou- 



Dec. VIL Liv, IV. Caí>. I. i2 9 

Mouros , que íahíram a lhes defender a def- 
embarcação , tão determinadamente os com- 
nietteo , e efcandalizou , que os foi levan- 
do de arrancada , e mcttcndo pela Cida- 
de, entrando todos elles devolta. Feio Bar- 
reto chegou á entrada; e fabendo que An- 
tónio Pereira Brandão 'hia vitòriofo , recean- 
do algum defarranjo , mandou pôr fogo á 
Cidade por algumas partes, pêra que os Tol- 
dados Tenãoembaraçaííem com o roubo , de 
que hiam já tão cubiçoTos. Os moradores 
tanto que Tentíram o fogo, e viram oeítra- 
go que òs nóííos hiam fazendo * tomando 
as mulheres os filhos ás eoílas , foram fog in- 
do pêra fora da Cidade , deixando os noflbs 
fenhorés delia ; e como já hia amanhecen- 
do , e elles viam tudo , mettêram á eTpada 
toda a coufa viva que acharam j e os que 
mais pafsáram efte tranfe, foram mulheres, 
meninos , e gente mefquinha , porque a da 
guerra fotíbe-Te pôr eríí Talvo ; e neíla foi 
tamanha a crueza 9 que corriam pelas ruas 
arroios de fangue. 

Tanto fe mettêram os noííos pela Cida- 
de , apôs os que hiam fògindo , que foram 
Tubindo até o monte, ondeeííava huma for- 
mo Ta MeTquita de abobada , que derribaram , 
e puzeram por terra , Tem deixarem couía 
em pé. Pêro Barreto Rolim mandou por al- 
guns Capitães , que déíFem fogo a toda a 
Cmo.TomJF.PJ. T Ci- 



290 ÁSIA de Diogo de Couto 

Cidade, como íe fez, porque os foldados 
fe não metteflem pelas cafas a roubar , o que 
Jho não eftorvou , porque a mor parte del- 
Jes fe recolheram carregados de fazendas , 
por cftar eíla Cidade muito rica , como aquel- 
ja, que era a principal efcala de toda a cof- 
ia do Idaixá. Feito efte negocio , íe embar- 
cou Pêro Barreto Rolim, e mandou Antó- 
nio Pereira Brandão com os feus navios , 
pêra que fofle pelos rios aílima queimar , e 
deftruir todas as povoações que por elles 
houvefle : o que elle fez muito bem , dei- 
xando tudo tão aflblado , e deílruido , que 
não havia em que pôr olhos. Acabado ifto, 
fe recolheo Pêro Barreto Rolim pêra Goa, 
onde o Governador o recebeo com honras , 
e aííim o merecia , porque deixava aííola- 
das , e deftruidas as mores , e mais ricas duas 
Cidades da índia. 

CAPITULO II. 

De como o Governador Francifco Barreto 
pajjou á terra firme em bufea dos Capi- 
tães do Idaixá : e da batalha que lhes 
deo , em que os desbaratou : e de outras 
coufas. 

VEndo o Idaixá o damno que os nof- 
fos lhe fizeram por toda fua coita , e 
que lhe deftruíram , e abrazáram a Cidade 

de 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. IL 12,91 

de Dabul , em que feus vaíTallos receberam 
tamanhas perdas , e elle tanta affronta , de- 
terminou de fe vingar , e de fazer guerra 
aoEftado, por ver íè podia lançar mão das 
terras firmes de Salfete , e Barciés. Pêra if- 
to fez chamamento de léus Capitães, e lhes 
fez fobre ifto huma grande falia , em que 
Jhes reprefentou a obrigação em que elles , 
como va (Ta lios taoleaes, eftavam de fatisfa- 
zerem as aíFrontas , que tinham recebido dos 
Portuguezes ; e como havia tantos annos que 
lhe comiam as fuás terras firmes de Salfete, 
e Bardes, que Jhes deram por mandar Mea- 
lecan pêra Portugal , o que nunca os Gover- 
nadores da índia lhe quizeram cumprir : e 
que elle agora , pois lhe tinham dado tama- 
nha occafião , queria lançar mão do que era 
leu , e que determinava de mandar defcer 
feus exércitos abaixo ; e commetteo logo alli 
aquella empreza a Nacer Maluco, feu Ca- 
pitão geral, e com elle outros quatro Capi- 
tães , Calabatecan o fegundo , e hum filho 
feu efquerdo chamado Cahircan , Miaberu , 
e outro; e deo por regimento a Nacer Malu- 
co > que fe foíle ajuntar com Moratecan Go- 
vernador do Concan , que tinha defcido o Ga- 
te contra D. Antão de Noronha , como já 
atrás contámos no Cap. X. do II. Liv. , pêra 
que ambos com igual mando fizefiem guerra 
aGoa> e ás terras, e Ilhas de liia jurdicão, 
T ii Éf- 



2$2 ÁSIA de Diogo de Couto 

Eftes Capitães chegaram a Pondá na en- 
trada de Abril , e alli fez Nacer Maluco 
alardo de fua gente 3 e achou vinte mil ho- 
mens , em que entravam dous mil de cavai- 
lo, e eícreveo a Moratecan , queeítava em 
Carule , que fízeííe elle por aquella banda 
guerra contra as terras de Bardes , e fuás 
Tanadarias , e que elle ficaria delloutra ban- 
da de Salíetc , pêra aífim darem mais que 
fazer aos Portuguezes. O Governador foi 
logo avifado da Cidade deíles Capitães , e 
acudiologo a prover todos os paíTos da Ilha 
de Goa , e pelos rios efpalhou muitos na- 
vios, e manchuas pêra defenderem a paíTa- 
gem aos inimigos ; e o meímo fez pelos paf- 
íbs das mais Ilhas , e lançou efpias fobre 
aquelles Capitães, pêra que o avifaílem de 
como efiavam , e do poder que tinham. A 
primeira coufa que fez o Nacer Maluco , 
foi deípedir Calabatecan , e feu filho com 
ílnco mil homens , pêra irem tomar poíTe 
das terras deSaifete, e arrecadarem o rendi- 
mento daqueilas aldeãs ; o que elles fizeram, 
mandando diante grandes íèguros pêra os la- 
vradores , e naturaes fe não alterarem , nem 
afugentarem , mas que grangeafTem luas.ter- 
ras pacificamente , e pagaílem feus foros ao 
Idalxá, cujas eram, porque elles vinham pê- 
ra os favorecer , e defender de quem lhes 
quizeffe fazer injúria , damno , ou aíFronta. 

Fei- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. II. 293 

Feito ifto , e quietos os moradores , fo- 
ram aquelles Capitães dar vifta á fortaleza 
de Rachol , onde eftava D. Pedro de Me- 
nezes , o P.uivo , por Capitão, que lhes fa- 
hio com duzentos foldados , e quinhentos 
peães da terra , e travou com os da dian- 
teira algumas efcaramuças , em que lhe ma- 
tou alguns Mouros , deixando-ie ficar no 
campo com as coitas na fortaieza , e dalli 
lhes fahio muitas vezes a dar toques , em 
que fempre os efcalavrou \ e todavia de al- 
gumas o fizeram recolher á fortaleza com 
trabalho, por carregar íobreelle todo o po- 
der, ficando os Mouros comendo as aldeias , 
que fe lhes não puderam defender por fer 
o poder groflb. O Governador tere logo re- 
cado de fua entrada nas terras de Salíete , 
e que as gentes deMoratecan appareciam já 
pelas de Bardes , pelo que determinou de paf- 
far a Salfete em peflba , edar-lhes batalha, 
porque o cançariam muito , ie lhe ficafiera 
invernando nas terras ; e aífim fez logo alar- 
do de toda a gente que havia em Goa , e 
achou três mil foldados muito luftrofos , e 
duzentos de cavallo ginetes , que eram os 
moradores , debaixo da bandeira de Jorge 
de Mendoça , Capitão de Goa , e. o Tana- 
dar mor fez pelas Ilhas mil peães , que o 
haviam de acompanhar naquella jornada. 

Prcíles tudo, paílou-fe o Governador a 

Ga- 



^94 ÁSIA de Diogo de Couto 

Gaçaim , porque eílava adernado que paííaf- 
fem por Dorubate , por chegarem as efpias , 
e affirmarem que o Nacer Maluco eftava em 
Pondá , e que tinha tomado todos os cami- 
nhos , que vam de Benaftarim pêra lá , e 
impedidos com muitas tranqueiras , por fe 
recear que o foliem lá bufcar. Alli em Ga- 
çaim repartio o Governador toda a folda- 
defca por íeis bandeiras , cujos Capitães eram 
D. Antão de Noronha , Jeronymo Barreto 
Ro!im , Martim Affonío de Miranda, Pan- 
taleão de Sá , D. Fernando de Monroy , 
D, Álvaro da Silveira , e Álvaro Paes deSo- 
tomaior. Com o Governador hiam mais de 
fincoenta aventureiros de cavallo , a fora a 
gente defua obrigação, em que entrava D. 
António de Noronha o Catarraz, que leva- 
va féis homens de cavallo. Toda efta gen- 
te paflbu a Salfete em muitas barcas, e jan- 
gadas, que pêra iílb citavam feitas; e der- 
radeiro de todos paliou o Governador , ç 
foi marchando até o palio de Dorubate , 
por onde palsáram á outra banda da terra 
firme, 

Poflo lá o Governador , começou a mar- 
char neíla ordem. D. João Bellez , que foi 
Mouro , .que era Capitão do campo diante 
de todos ? com mil e quinhentos lafearins, 
pêra ir defeubrindo tudo , e logo os Capi- 
tães da Infanteria^ e pelas pontas do efqua- 

drao 



De 6- VIL Liv. TV. Cap. II. 295 

drao a gente de cavallo , cento de cada 
banda : no meio toda a bagagem com al- 
gumas peças de campo, e na retaguarda o 
Governador com todos 0$ aventureiros , e 
a fua guarda , que era de cem efpingardas. 
E porque os noflbs peaes Gentios coítuma- 
vam metter nas toucas ramos verdes no tem- 
po da batalha pêra ferem conhecidos dos 
Portuguezes , e fe defenferençarem dos ini- 
migos , (que cofhimavam , quando fe viam 
perdidos , porem nas toucas os mefmos ra- 
mos pêra paíFarem por noílòs , ) mandou o 
Governador fazer a todos carapuções de ber- 
tangil vermelho pêra ferem diíTerentes dos 
outros. 

Partidos de Dorubate , chegaram antes 
do meio dia á fortaleza de Pondá , e acha- 
ram em campo a Nacer Maluco com qua- 
torze mil homens , que já o citava efperando 
pêra lhe dar batalha , c citava pofto a huma 
ilharga da fortaleza , com as coitas em hu- 
ma ferra, e tinha feito huma cava de finco 
paííos de largo , que tomava huma paíTagem 
por onde os noífos haviam de paffar pêra 
onde elle eítava. O Capitão da Infateria da 
terra , que era D. João o Mourifco, tanto 
que deo na cava , foi-fe defviando , e to- 
mando o caminho pela banda de fima , pê- 
ra travar com os inimigos , e o mefmo fi- 
zeram os Capitães das bandeiras , que fem- 

pre 



i<)6 ÁSIA de Diogo de Couto 

pre o foram feguindo. Os inimigos, que fi- 
cavam daquella parte , tanto que viram que 
os noílbs os hião demandar , lançaram fo-? 
bre elles muitas bombas de fogo, que fize- 
ram algum damno ; e paíTando por tudo, 
começaram a travar huns com os outros , 
difparando a nofia Infanteria aquella primei- 
ra carga , com que lhe derribaram muitos. 
O Governador , que hia detrás com toda a 
gente de cavallo , foi-fe apreflando pêra ir 
pegar pela parte, em que via abandeira>de 
Nacer -Maluco, levando hum galope apref- 
lado ; e como a cava era raíteira , e não íe 
enxergava de fora , achou- fe fobre ella , e 
não vio outro remédio melhor que apertar 
as pernas a hum formofo cavallo mellado , 
em que hia ; e achou-o tão prcftes , que fal? 
tou da outra banda, e o meímo fizeram al«? 
guns que hiam junto delle , como foram D. 
António de Noronha o Catarraz , e ao fal- 
to alcançou o cavallo com os pés na borda 
da cava , e esbarrou de feição que cahio; 
mas quiz Deos que fofle pêra huma ilharga 
já da outra banda, eque não perigaffe o D. 
António de Noronha , antes levando as re* 
deas na mão , e levantando-fe o cavallo, 
tornou a faltar nelle. António Soares , irmão 
de André Soares , que era Procurador de 
JplRey , ao faltar não vingou o cavallo á 
o^tra banda > e cahio dentro na cava debai* 

xo 



Dec. VII. Liv. IV. Cap. II. 297 

xo do cavallo , onde logo morreo ; e o mef- 
rno aconteceo a outros dous , a que não fou- 
bemos os nomes. Todavia muita parte delles 
vingaram a outra banda , e os outros foram 
rodeando a cava. O Governador tanto que 
fe vio da outra banda com os que o feguí- 
rarn , enredando a lança , e appellidando Sant- 
iago , foi romper aquelle encontro em os 
Mouros com tanta força que cada hum acer- 
tou o feu , e derribou aquelle com que pe- 
gou , ficando já todos baralhados por todas 
as partes , fazendo a noíTa arcabuzaria nel- 
les arrezoado damno. Vendo o Nacer Ma^ 
luco a determinação do Governador , e fen- 
tindo medo em os feus , tocou a recolher, 
e foi-fe retirando pêra huma ilharga da for- 
taleza , fem fe querer metter nella , por fe 
não haver por feguro , deixando-a ao Go- 
vernador, que alli logo a mandou derribar 
por todas as partes por muitos roçadores 
que levava , o que fe fez com muita pref- 
teza. O Governador lançou efpias aos ini- 
migos , e foube que hiam em desbarato , re- 
colhendo-fe por effe Concan dentro \ pelo 
que fe deixou alli ficar defcançando , e to- 
mando refeição, e das três horas por diante 
fe foi recolhendo pelo caminho de Benafta- 
rim , e de paflagem foi defmanchando todas 
as tranqueiras que achou , e aquella noite 
foi dormir da outra banda da Ilha , e ao dia 

fe- 



298 ASÍA de Diogo de Couto 

feguinte entrou em Goa com grandes feílas^ 
e regozijos. 

CAPITULO III. 

De algumas coufas , em que o Governador 
Francifco Barreio proveo : e de alguns 
Capitães que de jp a eh ou pêra fora : e de 
huma grande vitoria que João Peixoto 
houve em Bardes de hum Portuguez ar- 
renegado. 

REcolhido o Governador a Goa , por- 
que era já tarde , entrou no defpacho 
dos provimentos das fortalezas , e de alguns 
Capitães, que haviam de ir entrar nellas , que 
foram D. António de Noronha o Catarraz pê- 
ra a de Dio , por acabar feu tempo D. Diogo 
de Noronha, que lá eftava ; e mandou com 
elle féis Capitães pêra darem mezas a mil e 
duzentos homens, que lá haviam de inver- 
nar; eeíles foram Aires Telles de Menezes, 
que hia nomeado por Capitão mor da Arma- 
da da enleada de Cambaya , Álvaro Pires de 
Távora , Aires de Miranda , João Lopes Lei^ 
tão , Jeronymo deSoufa, D.Diogo Rolim , 
Aires da Silva , e Diogo Pereira. E aílim 
defpachou António Pereira Brandão pêra Ma- 
luco , por ler provido daquellas viagens, 
que levou muitos provimentos , e foi na náo 
Santa Maria dos Anjos ; e da mefma ma- 
nei- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. III. 299 

neira proveo Malaca , e as fortalezas das 
eólias do Malavar, e Norte; e com ifto fe 
cerrou o inverno, em que o Governador or- 
denou linco Capitães pêra darem mezas aos 
íoldados , e cites foram D. Álvaro da Sil- 
veira , Pant^Ieao de Sá , Pêro Barreto Ro- 
lim , Martim AfFonfo de Miranda , e Álva- 
ro Paes de Sotomaior, e nas Ilhas poz gen- 
te de guarnição pêra os inimigos lhe não en- 
trarem nellas. Na de João Lopes , que he 
defronte do PaíTo Secco , poz Aires Gomes 
da Silva, filho de Braz Telles, com huma 
companhia de Toldados. Na de Chorão , 
Gafpar Pacheco, cavalleiro honrado , dos 
primeiros filhos de Portuguezes que houve 
na índia , com feflenta homens , e em íua 
companhia hum Gentio valente homem cha- 
mado Humbraná Decais , das aldeias de 
Pondá , vaflalio do Idalxá , que fe veio pê- 
ra o Governador. São eftes Decais como 
Juizes , e cabeças das aldeãs , e como Al- 
motacés na repartição delias , e efte tinha 
cento e vinte peaes. E pêra ficar mais á mão 
pêra tudo , apofentou-fe o Governador em 
humas calas a Santa Luzia , e dalli viíitava 
todos os dias a ribeira das Armadas , onde 
fe faziam os galeões novos, a que dava mui- 
to grande preífa, e expediente , e cada fe- 
xnana corria duas , e três vezes os paíTos , 
€ via as guardas delles 3 e das manchuas, 

que 



300 ÁSIA de Diogo de Couto 

que andavam pelos rios , e ido fazia muitas 
vezes de noite pêra os tomar deícuidados , 
e ver a vigia que tinham. O Nacer Maluco 
tanto que teve rebate que o Governador era 
recolhido , rornou-fe pêra Pondá , e mandou 
reformar a fortaleza j e porque com as aguas 
do inverno os não podiam os nofíos ir buf- 
car, (por eilarem as terras alagadas,) repar- 
tio os feus pelos paflos fronteiros aos nof- 
fos , donde começaram a fazer toda a guer- 
ra que puderam , defendendo as coufas que 
coílumavam a paílar da outra banda pêra a 
Cidade , com o que começou de haver caref- 
tia de algumas. Mas onde elles mettêram mor 
cabedal foi nas terras deSalfete, que o Go- 
vernador Francifco Barreto proveo mui bem , 
mandando D. Jorge de Menezes Baroche 
com duzentos homens pêra fe ir ajuntar com 
D. Pedro de Menezes feu primo, e ambos 
juntos tiveram alguns recontros com os ini- 
migos, que por lerem miúdos deixamos; e 
poíto que os inimigos nelles levaram o peior , 
todavia elles andavam como fenhores da ter-* 
ra , e as arrecadavam fem lho poderem de- 
fender, por ferem tamanhas que chegavam 
a vizinhar com as terras do Idalxá. Affim 
que todo eíle inverno foi aos noíTòs muito 
trabalhofo , porque nunca deípíram as ar-> 
mas , partando muitas ribeiras de noite , e 
terras alagadas pêra irem dar nos inimigos x 

que 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. III. 301 

que não dormiam em parte alguma fegurosj 
e porque eíla guerra foi mais de trabalhos , 
que de proveitos , não trataremos delia mais 
neíta parte. 

OMoratecan, que fazia guerra ás terras 
de Bardes, também as inquietou muito com 
outros aíTaltos , a que fempre refiftio João 
Peixoto , que lá eílava por Capitão com íin- 
coenta Toldados , e muitos peaes da terra , 
com que andou fempre nos paífos defenden- 
do as entradas: e o que mais o inquietou, 
emais damnos fez por todas aquellas aldeãs , 
foi hum Portuguez arrenegado, que andava 
com os Mouros , que por cobrar credito 
com elles , fe moftrava muito atrevido. Eíle 
fez Jiuma tranqueira forte nos eítremos das 
terras, em que fe apofentou com quinhentos 
peaes, e dalli fahia a faltear os lavradores, 
c a roubar os naturaes , que já com o medo 
delle não lavravam as terras , e a mor par- 
te delles eftavam recolhidos nas Ilhas vizi- 
nhas a Goa , com o melhor da fubílancia 
que tinham. João Peixoto , que era muito 
bom cavalleiro, armou-Ihc muitas vezes al- 
gumas cilladas pêra o haver ás mãos ; mas 
nunca pode , porque o arrenegado era mui 
precatado , e todos os feus faltos fazia de 
noite j fem dar conta nem aos feus , da par- 
te por onde havia de entrar, nem o que de- 
terminava fazer, com o que trazia ao Toão 

Pei- 



302 ÁSIA de Diogo de Couto 

Peixoto muito cançado , e quebrantado. E 
informando-fe do modo da fua tranqueira, 
determinou de o ir commetter nella , e Jan- 
çallo dalli : pêra o que mandou pedir ao 
Governador alguma gente , que lhe mandou 
cem Portuguezes de efpingardas. Com eftes , 
e com os que mais tinha , e duzentos peães 
da terra , partio huma madrugada pêra a 
tranqueira , que commetteo com grande de- 
terminação : e poílo que achou no arrenega- 
do grande reíiííencia , todavia elle a entrou 
com grande damno dos inimigos , porque a 
arcabuzaria fez lugar a tudo, e o arrenega- 
do fe foi recolhendo pêra os matos, deixan- 
do a tranqueira , que foi poíía toda a fogo , 
fem lhe ficar nada em pé. Com eíle feito 
fe recolheram os noflbs com alguns cativos v , 
e fato, que na tranqueira fe achou. O arre- 
negado , tanto que lahio da tranqueira , foi- 
fe peíos paflbs das terras , onde os Mouros 
tinham gente de guarnição , e ajuntou dous 
mi! peães, e duzentos decavallo, e foi ata- 
lhar o caminho a João Peixoto, que ao re- 
colher em hum paíTo bem perigofo , deo com 
elle ; mas como era cavalleiro , e determi- 
nado , não fe embaraçou com coufa alguma , 
antes com muito acordo , e animo repartio 
os íeus em dous efquadroes , e commetteo 
a paííagem , onde teve huma muita afpera 
batalha com os inimigos , em que fe vio per- 
di- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. III. 303 

dido ; mas a efpingardaria fez caminho de 
feição , que foram os noflbs paliando , ain- 
da que com muito rifco , perdendo alguns 
companheiros, porque chegou a couía a fe 
baralharem huns com os outros , e chegarem 
ás mãos , e aos cabellos j mas como os nof- 
fos viram que o remédio de todos eilava em 
feus braços , fizeram muito por fe ajudarem 
delies ; e aííim quaíi todos mifturados foram 
caminhando grande eípaço , até que quiz 
Deos noíío Senhor déflem huma efpingarda- 
da no Capitão da gente de cavallo , que lo- 
go o derribou morto , e hum foldado Jhe 
cortou a cabeça , com o que os feus afracá- 
ram , e os nofíos cobraram tanto animo , que 
voltaram fobre os inimigos, e os fizeram fu- 
gir, com morte demais de cento e íincoen- 
ta , e muitos cavallos. João Peixoto ven- 
do desbaratados os inimigos , fe foi reco- 
lhendo até Bardes , e mandou a cabeça do 
Capitão de prefente ao Governador , que 
a eftimou muito , e lhe mandou os parabéns 
do honrado fucceíTo que teve. O arrene- 
gado fe recolheo ferido , e não fez por en- 
tão mais aflaltos , nem houve mais inquie- 
tações naquellas aldeãs. Nefte eílado deixa- 
remos eftas coufas , porque nos cabe aqui 
continuarmos com Manoel Travados , e Bal- 
thazar Lobo de Soufa , que deixámos fa- 
zendo*fe preftes , hum pêra levar o Bifpo 

a 



3O4 ÁSIA Í)E DlQGO DE CoutfO 

ú Ethiopia , e o outro pêra a Ilha de São 
Lourenço. 

CAPITULO IV. 

Do que aconteceo na viagem a Manoel Tra- 
vajjos , até lançar o Bifpo no Porto de 
Ar quico : e do que fuccedeo ao Bif- 
po até Baroá. 

POr muita preíTa que em Goa ficaram 
dando aos navios, que haviam de levar 
o Bifpo , e os que haviam de ir á Ilha de 
S. Lourenço, não puderam dar á vela, fe* 
não Balthazar Lobo em Janeiro , e Manoel 
Travafíbs em Fevereiro. Eíte levava quatro 
navios , de que a fora elle eram Capitães 
Pêro de Siqueira , Vafco Corrêa , natural de 
Alcácer do Sal, e António Vaz, com quem 
hia embarcado o Bifpo D. André de Ouvie- 
do, e hiam com elle dous Padres da Com- 
panhia , o Padre Manoel Fernandes pêra Rei* 
tor, e o Padre Gonçalo Galtamas Cordovez 
com alguns irmãos. Dadas eftas duas Arma- 
das á vela , foi-fe Balthazar Lobo feu cami- 
nho , a que depois em feu lugar tornaremos > 
e Manoel Travados por outra derrota de- 
mandar a cofta de Arábia, eaos vinte e féis 
de Fevereiro (que foi Quarta feira de Cinza) 
chegaram á Ilha de Sacotorá , onde o Bifpo 
defembarcou com os companheiros > e em 

hu- 



Dec. VIL Liv. IV. Caí. IV. 30? 

huma Ermida que alli citava , deo Cinza , 
e fe fez o Officio conforme ao tempo , e 
depois foi vifirar a Igreja , que fez o Berna* 
venturado Apoílolo S. Thomé , que eílava 
dentro na povoação > onde o Biipo diíTe Mií- 
f a : e acharam alli hum Ermitão dos da ter- 
ra com hum companheiro , que tinha hum 
capello de S* Francifco , que parece lhe deo 
algum Frade , que por alli pafibu. Alli fe 
detiveram até o Domingo feguinte , em que 
depois de ouvirem Miíía fe embarcaram , c 
aofabbado dahi a féis dias foram haver vif- 
ta da Cidade de Àdém , do que ficaram en- 
fadados 9 e aquella noite embocáram as por- 
tas do Eflreito pela Banda do Abexim ; e 
fendo já dentro , lhes deo hum temporal tão 
rijo , que apartou os navios , e dalli de Ilha 
em Ilha foram tomar a de Maçuá 5 onde 
Manoel Trava fios levava por regimento , 
que não bulliflc , nem alvoroçaííe a terra , 
por fer do Turco , e que pacificamente dei- 
taífe oBifpo emArquicó, fobre o que hou* 
ve antre os foldados grandes motins , por- 
que defejavam de dar naquella Ilha, em que 
efperavam tomar boas prezas , e o Bilpo 
com muito trabalho os apafigou. Manoel 
TravaíTos por não fahir do regimento que 
levava , furgio hum pouco afFaftado da Ilha ^ 
porque quiz primeiro tomar falia do que lá 
hia, elogo foram viílos da terra firme , que 
Couto. Tom. IV. P. L V era 



3c6 ÁSIA de Diogo de Couto 

era muito perto , onde acertou de eílar hum 
moço de hum Gençalo Ferreira , que era 
Capitão , e Senhor do Porto de Arquicó, 
por outro nome Decano , que lhe deo o 
Emperador ; e vendo os navios , mandou 
logo a elles hum moço Abexim de hum 
Francifcojacome Monteiro , por quem man- 
dou huma carta de feu amo ao Capitão mor , 
em que lhe dizia , que eilivera alli muitos 
dias efperando por navios da índia 5 por lhe 
parecer que viria o Patriarca, eque por ter 
novas de Turcos fe recolhera. O Bifpo a 
eftimou muito , por faber que a teria eílava 
quieta, porque do moço foube que em Ma- 
çuá eílava Sohão Ifmael , que era Senhor 
daquella Iíha, e da de Dalaca , que citava 
oito léguas ao mar , e nao tinha comiigo 
mais que vinte e finco Turcos. Eílando nef» 
tas perguntas , appareceo huma gelva , que 
deus dos noíTos navios foram demandar, 
e a fizeram varar na Ilha dcMaçuá, elogo 
acudiram os Turcos com efpingardas a de- 
fendella ; o que vifio pelos noíTos , fe reco- 
lheram por não amotinar a terra. O Soltao 
Ifmael , que também defejava de não rom- 
per com os noíTos , ou pêra melhor dizer 
eílava médrofo, porque tinha pouca gente, 
(porque eftes nada fazem por virtude , lenão 
por neceílidade , ) arvorou logo fobre huma 
guarita duas bandeiras, huma branca em fi- 
nal 



Dec. VIL Liv. IV, Cap. IV. 307 

íial de paz , e outra vermelha em íinal de 
guerra, como que convidava aos noflos qual 
daquellas queriam acceitar. O Capitão móf 
com o parecer do Bifpo, e dos mais refpon- 
deo-lhe com outra bandeira branca* Neíta 
mcfma conjunção foi o moço de Gonçalo 
Ferreira, queeílava em Arquicó por Feitor i 
e foi recebido dos Portuguezes com caval- 
gaduras , que vivião perto , porque logo ti- 
veram as novas dos navios, ecom fua vin- 
da defembarcou o Bifpo no porto de Ar- 
quicó , e foi recebido dos Portuguezes com 
grande alvoroço. Ifto foi aos dezoito dias 
de Março. Manoel Travados tanto que dei- 
tou o Bifpo em terra , e a todos os mais , 
que com elle haviam de ficar, arrecadando 
fuás cartas pêra o Governador > tornou a 
fazer vela pêra a índia , e no caminho lhe 
defappareceo a fuíla de Vafco Corrêa , que 
foi dar á cofta por Xael , onde os mais dos 
Portuguezes foram mortos , e elle com os 
mais navios chegou a Goa , e deo as cartas 
ao Governador Francifco Barreto , que efti- 
mou muito ficar o Bifpo poíto em terra 
tanto a feu falvo. 

E tornando a continuar com elle aquel- 
le dia , que foram aos dezoito de Março , 
em que defembarcou já Sol pofto , começou 
a caminhar com muito regozijo , e alvoro- 
ço j levando-o os Portuguezes em meio , e 
V ii por 



3<o8 ÁSIA de Diogo de Couto 

por todo o caminho o foram fervindo de 
tudo em muita abaftança \ e porque não fi- 
que em efquecimento , diremos os nomes de 
todos. António Góes de Santarém , Francif- 
co Dias Machado , Pêro Martins , Diogo 
Gonçalves , Jorge Vaz , Francifco Moreira , 
Diogo Moniz , João Fernandes , que foi de 
D. Francifco da Gama , fegundo Conde da 
Vidigueira. Gafpar Nunes , Gonçalo Soares 
Cardim , natural de Cinera, que foi em com- 
panhia do Bifpo , que ainda ao preíente vi- 
ve, eque de lá nos mandou a relação defta 
jornada , e de tudo o que fuccedeo ao Bif- 
po , do dia que entrou na Ethiopia até que 
morreo. Ao outro dia, que foi feita feira, 
chegaram a huma aguada , onde dormiram ; 
e ao fabbado vinte do mez encontraram mais 
alguns Portuguezes , que vinham em bufca 
do Bifpo , que eram Francifco Jacome Ca- 
pitão da guarda de EIRcy , Luiz Cuftodio, 
António Lopes de Oliveira , e António de 
Sampaio, que traziam formofas cavalgadu- 
ras , capas de grã , chapeos de veludo pre- 
to, muitos lacaios, e alguns criados doBar- 
nagais com cavallos, emulas pêra o Bifpo, 
e feus companheiros , que recebeo a todos 
muito humanamente , e foram caminhando 
muito bem providos de tudo. Ao outro dia, 
que foi Domingo , houve Miífa , e prega- 
ção com muita devoção , e alegria de todos. 

Da- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. IV. 309 

Daqui foram fempre caminhando por al- 
deãs , e povoações profperas , e abaítadas de 
mantimentos de todas as forres , e aos vin- 
te e leis dias do mez de Março encontra- 
ram o Barnagais , que já vinha bufcar o Bif- 
po, e fe lhe lançou aos pés com muita hu- 
mildade, e elle orecebeo mui honradamen- 
te , e lhe deitou fua benção , e voltou com 
elie , dando-lhe pelo caminho todo o neceí- 
fario a todos até chegarem a Baroá , e o 
Bifpo foi levado a huma Igreja dos Abexins 
da invocação do Anjo 8. Miguel, onde fez 
oração , e deitou a benção a todos , e depois 
foi apofentado em humas cafas mui boas, 
e os Portuguezes todos ao redor. Aqui fe 
detiveram até a Pafcoa , que cahio a onze 
de Abril , com muito goflo , e alvoroço, 
que lhes não durou muito , porque logo a 
primeira Oitava chegaram novas apreííadas , 
que tinha defembarcado em Arquicó hum 
Baxá do Turco com muita gente, que vinha 
em foccorro do Rey de Adel , que trazia 
guerra com o Emperador ; o que o Bifpo 
fentio muito, e logo fe poz a caminho com 
rodos os Portuguezes pêra a Corte, cami- 
nhando com muita prefla , e tento. A (fim o 
deixaremos por hum pouco , porque he ne- 
ceílario continuar com Balthazar Lobo de 
Soufa , que deixámos partido pêra a Ilha 
de S. Lourenço. 

CA- 



310 ASIÀ be Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

Do que fuccedeo a Balthazar Lobo de Sou- 
Ja na viagem até d Ilha deS. Louren- 
ço: e da defcripçao de fia Ilha , e 
das de l omoró : e qual feja a 
Mnuthias de Ptolomeu. 

PArtido Balrhazar Lobo de Soufa de 
Goa , como atrás diíTemos no Cap. IV. 
deite IV. Liv. , foi íeguindo fua derrota até 
haver viíta da Ilha de S, Lourenço , que foi 
cofteando pela banda de dentro ; e mandou 
pelos navios de remo correr todos aquelles 
portos pêra os notarem , e fondarem , e ve- 
rem fe havia raíto algum da gente Porta- 
gueza , que fe por alli perdefle , ficando 
Bakhazar Lobo de Soufa no rio de Man- 
zalage commutando algumas coufas com os 
da terra até fer tempo de fe recolher. Al- 
guns dizem que fizera alli hum Rey Chrif* 
tão com alguma gente fua , de que não te- 
mos mais certeza , que ouvillo a feu filho 
Diogo de Soufa, que lho contara feu pai: 
e pois delia jornada não temos mais que di- 
zer , concluiremos eíte Capitulo com a def- 
cripçao deita Ilha , e das do Comoró , que 
eítão pegadas a ella. 

Efta Ilha de S, Lourenço , a que os ef- 
critores chamam Madagafçar , fera de du- 

zen- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. V. 311 

zentas e noventa léguas de comprido, e cen- 
to de largo , no mais eítreito de íincoenta : 
começa em onze gráos c meio da banda do 
Sul , e fenece em vinte e finco e meio. He 
toda efta Ilha povoada de humas gentes , 
nem tão pretos corno Cafres , nem tão alvos 
como os Mouros de toda aquella coita. Tra- 
zem os homens cabelios compridos , sao mui 
bem proporcionados, eaílim mefmo as mu- 
lheres. Prefume-fe que foi já efta Ilha con- 
quiftada dos Jáos , e que são eftas gentes 
meltiços dantre elles , e os antigos naturaes , 
que deviam de fer Cafres da outra banda 
da terra firme, fie toda efta Ilha fenhoreada 
de muitos Reys , que de continuo tem guer- 
ra antre fi , de que não temos conhecimen- 
to , porque o Sertão nunca foi tratado , nem 
vifto dos noffos , por ferem os naturaes to- 
dos grandes noflbs inimigos , e o mefmo dos 
Mouros : e daqui vem que por nenhum ca- 
io os que alli vam ter defembarcao em ter- 
ra , porque fe os acham , logo são mortos. 
Os Mouros da coita de Melinde, que anti- 
gamente alli foram ter, fundaram duas po- 
voações , em que ainda hoje vivem feus def- 
cendentes, governados por Xeques : huma 
em huma Ilha , que eítá no meio de hum 
rio chamado Manzalage , de que logo tra- 
taremos ; e a outra da outra banda de fora 
em outro rio chamado Bimaro. O nome pró- 
prio 



312 ÁSIA de Diogo de Couto 

prio defta Ilha , por que os naturacs a no- 
meão , he Ubuque , e por effa a conhecem 
os Mouros que pêra ella navegao ; Ptholo- 
meu lhe chama Minuthias , ou prefumem os 
Geógrafos que he efta a que temos as duvi- 
das que logo diremos. Os modernos lhe 
chamão Madagafcar , e os Portuguezes a 
Ilha de S. Lourenço , porque em tal dia foi 
delcuberta por elles. 

O rio de Manzalage , que affima difle- 
mos , eftá em altura de dezefeis gráos e 
meio , he grande , e formolo , e tem no meio 
humallha tamanha como a de Moçambique , 
chamada Sada , onde os Mouros habitam , 
porque em toda aquella cofta defde Melinde 
até Çofala , e S. Lourenço não fe apofen- 
taram fenão em Ilhas, por fe recearem dos 
Cafres, He efta parte de redor do rio Man- 
zalage fenhoreada de hum Rey , a que cha- 
mam Lingi , e eílende-fe feu Reyno até ou- 
tro rio , que começa da banda do Levante , 
a que chamam Duria , que eftá em quinze 
gráos, eatraveíTa pelas terras do outro Rey 
chamado Tumgumaro , que he o mais po*- 
derofo de todos os daquella Ilha, efaz con- 
tinuamente guerra aosReys comarcãos; e a 
gente que lhe cativa a manda vender aos 
Mouros, que vivem na Ilha Sada, e todos 
vem ás mãos de Portuguezes por refgate* 
Deíle rio Duria pêra o Norte eltá huma en-> 

cea- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. V. 313 

ceada, a que chamam Sinamario, ao redor 
deila vive outro Senhor , que fe cftende pê- 
ra o Sertão ; e adiante pêra a cabeça da Ilha 
da banda do Levante corre outra enceada 
chamadaTararango , queeílá em treze gráos 
e meio , fobre quem fenhorea outro Rey: 
e daqui até á ponta da Ilha, onde cila co- 
meça da banda do Levante , ha outros dons 
Reys , e outras enceadas , e rios. Veftem-fe 
os naturaes de huns pannos feitos de palha 
muita fina ; fuás armas são rcdellas , aza- 
gaias, e arcos; tem muitas mulheres, esao 
os mores ladrões , e mais cruéis que ha por 
toda a Cafraria. Trazem alguns daquelles 
rios grandes Crocodilos , epela cofta ha for- 
mofas Tartarugas , de que os Mouros fazem 
grande cópia de íuas cafcas , que mandam 
vender aos Portuguezes ; e acham-fe também 
grandes pedaços de âmbar. Dá a terra mui- 
to gengivre , infinitas canas de açúcar, mui- 
to mel , muito gado vacum , e o mais for- 
mofo que no mundo fe fabe ; porque ha 
boi tamanho como dous do Alentejo, ecom 
hum mamilho fobre a canga , que he couía 
façanhofa. Dá em feus campos muito arroz , 
milho, mungo , que he hum legume , que 
não ha no noífo Portugal , e cria muitas 
minas de ferro , e os matos dão muito Sân- 
dalo branco , mas bravo , e algum vermelho , 
a que os Mouros chamam Mitifaque , e le- 
vam 



314 ÁSIA de Diogo de Couto 

vam a vender hum , e outro a Cambaya 
pêra os Gentios fe queimarem quando mor- 
rem. Prézão muito o ertanho , ou Calaim , 
e vai antro elles tanro como prata , pêra 
jóias das mulheres. Fazem hum vinho de 
mel , e agua , curado ao Sol três , ou quatro 
dias , com o que fica tão forte , que logo 
embebeda ; echama-íe na fua língua Alopata. 
Não íe criam nelia feras, nem bichos peço- 
nhentos, he toda muito viçofa , e bem af- 
fombnída, de bons ares, e aguas excellen- 
tes , aífim de fontes , como de rio*. Tem 
alguns (como já dilTemos) que efta Ilha feja 
a Minuthias de Ptolomeu , ao que íe nos 
ofFerecêram duvidas ; porque íe elle tivera 
conhecimento defta Ilha , também não dei- 
xara de o dar das Ilhas do Comoró tão no- 
meadas; porque fe os mercadores daquelle 
tempo , que lhes podiam dar informações 
por navegarem por toda aquelia coita de 
Melinde, fe viram humas, e outras, força- 
do lhe houveram de dar relação delias , e 
não da de S. Lourenço fó. 

E lançando fobre ilTo noflb juizo , nos 
parece que a Ilha Angazijá , que he a mor 
das do Comoró, (de que logo trataremos,) 
he a Minuthias ; porque parece que algum 
navio dos da cofta de Melinde , que hia pê- 
ra Moçambique, foi com algum defgarrao 
haver vifta deita Ilha j e vendo-a de fora 

gran- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. V. 315- 

grande , e formofa , daria delia relação , e 
iria de boca em boca a ter a Ptolomeu 
com aquella fama de fer tão affaftada ao 
mar, e tão grande ; e que mettendo-a elle 
em fuás taboas por aquelía informação , lhe 
chamaria Minuthias , por Ilha famofa , e 
novamente deícuberta. E quem quizer ver 
ido mais claro, o fará na noífa novaEthio- 
pia , onde tratamos de todas eftas Ilhas ; e 
quem bem coníiderar aquella Ilha que Poífi- 
donio efcreve , que Eudoxo de Sirico , em 
tempo da Rainha Cleópatra de Egypto , diz 
que achou defpovoada nefta coita da Ethio- 
pia , verá que não pôde fer outra fenão efta 
de S. Lourenço: e peia melhor declaração, 
faremos hum breve diícurfo fobre efta via- 

£ en \ 

Efcreve Pcífidonio , que em tempo de 

EiRey Evergente do Egypto partira Eudo- 
xo a defcubrir a índia por mar; e que vol- 
tando de lá carregado de fazendas ricas, fo- 
ra defgarrado tomar a coita da Ethiopia , 
que havia de fer a de Melinde , porque iílo 
acontece muitas vezes a quem parte de Ca- 
lecut pêra o Eftreito do mar Roxo , como 
eíle partio , e que o tempo que alli eftivera , 
tomara conhecimento com os naturaes , e 
ainda aprendera parte da fua linguagem, E 
depois indo ter ao Egypto fobre contas com 
aquella Rainha , em que ella o alcançara , 

lhe 



316 ASIÀ de Diogo de Couto 

lhe fora fogindo pêra Africa , e de lá fe paf- 
fára a Cales , onde armara duas embarcações 
pêra ir rodeando a coita de Africa a bufcar 
aquellas gentes da coita da Ethiopia , aquém 
ficara affeiçoado , e com o olho nos grandes 
proveitos, que de (eu commercio efperava , 
a que chegara , e paflara o Cabo de Boa 
Elperança ; e que tornando de lá , achara 
huma formofa Ilha naquelle caminho defpo- 
voada , que lhe parecera muito fértil , eabaf- 
tada de aguas , e fruitas ; e que por lhe pa- 
recer muito frefca , depois de chegar a Heí- 
panha , partira em huma náo carregada de 
arados, e fementes , com alguns companhei- 
ros pêra a povoarem , e cultivarem , e que 
fe fora perder na coita da Ethiopia junto do 
Cabo de Boa Efperança , onde dos pedaços 
da náo ordenara huma embarcação, em que 
fe falváram. E coníiderando nós toda efta 
viagem , por fem dúvida temos fer aquella 
Ilha , que acharam tamanha, etao fértil , efta 
deS. Lourenço, porque defda coita deAíe- 
linde até o Cabo de Boa Efperança não ha 
outra tamanha , nem tão fértil. 

Ejá que falíamos nas Ilhas do Cômoro, 
daremos delias huma breve relação. São ef- 
tas Ilhas quatro , e eftão em altura de treze 
até quinze gráos e meio. A maior de todas 
he a Angarica, que fera de quarenta léguas 
de comprido , dez de largo j he tão alta qua- 

íi 



Dec. VII. Liv. IV. Cap. V. 317 

íi como a Ilha do Pico , faz por fíiria hum 
cômoro grande, e vai deícendo com huma 
ponta até o mar. He toda em roda muito 
limpa de baixos, e reftingas , e he fenhorea- 
da pela fralda de Mouros Arábios daquelles , 
que primeiro vieram ter á coita de Melinde , 
eeftá toda repartida em vinte (enhorios , que 
continuamente tem antre íi guerras : aqui he 
o principal commercio dos Mouros de Me- 
ca , porque vem todos os annos a ella mui- 
tas náos a carregar de gengivre , e de ou- 
tras mercadorias , e os Cafres naturaes daqui 
são muito pretos , e as mulheres bem aífonv 
bradas , e tem nas fontes fogos como Abe- 
xins , e são elcravos muito eftimados de to- 
dos. As outras três Ilhas fe chamam Anjoa- 
ne, e tem hum fó Senhor, Molalle outro, 
e Maoto, que he a maior, he também fe- 
nhoreada de hum Rey , e ha nella trinta Ci- 
dades a feu modo , de trezentos até quatro- 
centos vizinhos : he de grandes ferras , tem 
muitas ribeiras de aguas excellentiílimas , são 
todas de ares mui íádios. Não ha nellas bi- 
cho algum peçonhento , são mui fertiles de 
arroz , milho , vaccas , cabras , gallinhas , e 
de tantas canas de açúcar , que são como 
matos bravos , muito groíTas , e formofas ; 
e fe fe ordenarem nellas engenhos , ferão 
tão profperas , como a Ilha da Madeira: 
ha nellas infinito gengivre , e tem difpoíição 

pe- 



318 ÁSIA de Diogo de Couto 

pêra tudo o que nellas fe quizer femear* 
Hum Fidalgo honrado andou alguns annos 
em requerimento com EIRey D. Sebaftião , 
que lhe déíTe licença pêra os conquiftar , dan- 
do-lhe navios , e artiiheria , que elle bufcaria 
gente, e que daria a EIRey huma copia de 
efcravos todos os annos pêra as galés ; e 
não foubemos os inconvenientes que fe nií- 
fo acharam ; porque ainda que não fora 
mais que pêra arrancar delias os Mouros , 
e defterrar o commercio de Meca , fora cou- 
fa de muita importância ; quanto mais tantos 
proveitos, como fe delias podiam efperar, 
como era o de fe povoarem aquellas Ilhas 
de Portuguezes , que alli ficariam vivendo 
ricos , e da grande Chriftandade que fe po- 
deria fazer , e vir por tempo a fobmetter as 
Ilhas todas debaixo do jugo de Chrifto. Ha- 
via antigamente outras finco , ou féis Ilhas 
junto da de Maoto, que por ferem baixas 
as alagou o mar , e ficam como baixos , on- 
de o mar quebra: tem todas formofiilimos, 
e feguriffimos portos pêra todos os ventos » 
e capazes de náos grandes. 



CA- 






Década VIL Liv. IV. 319 

CAPITULO VI. 

Do que aconteceo ao Bijpo D. Jlndré de 

Oviedo até chegar a je ver com o Em- 

perador da Ethiopia : e do que 

com elle pajjou. 

DEiximos o Bifpo partido de Baroá com 
as novas que lhe chegaram do Turco; 
e antes de chegarem á Corte , fe adiantou 
Luiz Cuftodio pêra ir negociar feus recebi- 
mentos , e por todo aquelie caminho foram 
comendo muitas gallinhas do Peru , perdizes , 
vaccas bravas 5 merus , pombas, rolas, e ou- 
tras aves, de que por aquella terra ha infini- 
dade , e o vinho que bebiam era ferveja , e 
todos os dias até o Efpirito Santo comeram 
carne , feftas , e fabbados , por fer affim cof- 
tume dos Abexins; e paliada a feita , jejuam 
todo o mais do tempo três dias na femana. 
Ao cabo de dez dias chegaram a huma Igre- 
ja do Orago de À T . Senhora de Nazareth , 
onde refidia o Patriarca , que Jhe mandou 
o de Alexandria , que era Neftoriano , com 
quem fe não quiz ver o Bifpo , e palTou Jo- 
go adiante até huma feira real , que fe cha- 
ma Mantadelle , aonde acharam hum criado 
de hum Chriftovao Nunes de Serpa , natu- 
ral de Arouca , que agaíalhou a todos ef- 
plendidamente. 

He 



320 ÁSIA de Diogo de Couto 

He efta feira de hum Mouro grande pef- 
foa , e muito rico , que lhe rende muito , e 
delia vai o íal pêra todo o Reyno. Daqdi 
fe partiram huraa quinta feira , e atraveítá- 
ram huns campos muito formofos , em que 
acharam muitas vaccas , porco* , elefantes , 
renocerotes , e ao fabbado chegaram a huma 
terra , onde eftava o Luiz Cuílodio , que era 
fua , e elperava pelo Bifpo com três tendas 
armadas , e com infinitos refrefcos de todas 
as fortes de fruitas , e carnes que na terra 
havia, com que hofpedou a elle , e a todos 
os mais mui honradamente. Era efte homem 
cafado > e tinha alli fua mulher , que não 
quiz apparecer ao Bifpo, porque era Nefto- 
riana , e nunca quiz ler Catholica ; mas lo- 
go houve o caftigo diífo , porque paflarani 
poucos tempos que não morreffe de peite, 
e foi lançada no campo , onde a comeram 
os lobos. Daqui fe partio o Bifpo á fegun- 
da feira , e foram todos caminhando por 
huma formofa eílrada , até chegarem a huma 
aldeã de hum primo com irmão do Empe- 
rador , que fe chamava Abitichon Acabo ; 
e eftava alli com outro feu irmão chamado 
Abitichon Anes , (Abitichon hç titulo antre 
elles, como antre nós o Dom.) Eftes Senho- 
res agazalháram o Bifpo , e todos os mais 
mui honradamente. Daqui foram caminhan- 
do por campos fertiliílimos , e povoações 

mui 



Dec. VIL Liv. IV. Cap< VI. 321 

mui giandes, e abadadas de tudo. A feita 
feira chegou ao Bifpo o Feitor de Gonçalo 
Ferreira, que tinham achado em Arquicó* 
e lhe aprefentou da parte de feu amo huma 
formo fa tenda com fua cerca á roda , e hu- 
ma rica alcatifa , e hum efcravo , e três mu* 
las , o que elle eftimou muito. A fegunda 
feira feguinte chegou o mefmo Gonçalo Fer- 
reira , (que vinha pêra acompanhar o Bifpo 
até a Corte,) e trazia hutna copia de cria- 
dos , e offereceo ao Bifpo , e a todos os que 
com elle vieram da índia , ouro , e tudo o 
mais que houveífem miítèr. 

Logo adiante acharam outro Português 
chamado Jorge de Barros , que vinha da 
Corte , e trazia fua mulher em huma for- 
rnofa mula , veftida ao modo da terra , e pof 
íima dos trajos hum rico bedem , e rebuçada 
com huma fina beatilha , que não appareciam 
mais que os olhos , e na cabeça hum cha- 
peo de veludo alto, e o Bifpo lhes fez hon- 
ras, e gazalhados; e tornaram a voltar com 
o Bifpo até huma aldeã de Gonçalo Ferrei- 
ra , que hia com elles , onde foram agaza- 
lhados , e banqueteados efplendidamente* 
Aqui veio ter com o Bifpo hum Portuguez 7 
chamado João Gonçalves, que também tra- 
zia fua mulher, que era Abexim, de cada 
principal , e rica , e vinha em huma formofa 
mula , cuberta com hum panno de borcado , 
Couto.Tom.IF.P.L X que 



322 ÁSIA de Diogo de Couto 

que lhe ficava como gualdrapa, e ella com 
huma roupa larga de veludo negro , e por 
íima hum formofo bedem , e na cabeça hum 
chapeo de veludo alto , e calções até os pés , 
mourifcos de feda , com muitos botões de 
ouro , trajo que as fenhoras Abexins usão , 
e nos braços muitas manilhas de ouro ma- 
cifías ; e o marido vinha em huma boa mu- 
la , e trazia hum formofo ginete á defira , e 
elle veftido cuflofamente , e na cabeça bar- 
rete preto com golpes , e pontas de ouro á 
Ponugueza antiga. Com elle vinha outro 
Portuguez chamado Manoel Gonçalves em 
hum cavallo, com huma béfta no arção, e 
trinta lacaios de efpadas , rodelías , lanças , 
e efpingardas. Efta gente recebeo o Bifpo 
honradamente, e á mulher de João Gonçal- 
ves fez particulares gazalhados , e todos 
voltaram com elle , que hia louvando a Deos 
por ver naquella terra tão diftante , e apar- 
tada Portuguezes cafados , tão ricos , con- 
tentes , e tão zelofos de agazalharem , efer- 
virem feu Prelado. 

Indo affim , chegaram a huma Igreja da 
invocação da Santiííima Trindade , rica , e 
em bom íitio , rodeada toda de formofos 
aciprefles com muitos Cónegos , que tem 
arrezoada renda. E antes delia hum efpaço 
fahíram hum golpe de Portuguezes vizinhos , 
e moradores daquellas aldeãs > e povoações, 

e fo- 



Dec. VÍL Liv. IV. Cap. VI. 313 

e foram beijar a mão ao Bifpo > e fe lhe 
oíFerecêram pêra o acompanhar. E dia da Af- 
censão pela manhã chegaram a huma Pro* 
vincia muito freíca chamada Guimite Jorge, 
onde fizeram a feita , e todos aquelles Por- 
tuguezes fe confeífáram , e commungáram. 
Aqui palTáram aqueile dia % e outro , e tor- 
naram a caminhar , e ao fabbado feguinte 
encontraram Galpar de Soufa de Lima > Ca- 
pitão de todos os Portuguezes , e com elle 
hum Azaguereito do confelho do Empera- 
dor , que da fua parte hia vifitar o Bifpo i 
que eftavam em hum formofo campo em 
tendas armadas paliando a féfta* O Bifpo, 
que já fabia delies , mandou também armar 
fuás tendas hum pouco aiíaílado , onde Gas- 
par de Soufa de Lima com o Abexim logo 
o foram vifitar da parte do Emperador, e 
lhe aprefentáram vinte mulas ,. que elle man- 
dou repartir pelos que vieram com elle da 
índia , e fez muitas honras ao Abexim , e o 
aífentou apar de íi , eeíteve fabendo dafau- 
de do Empcrador, do lugar em que eftava* 
Eítando aqui , ao outro dia foram ter 
com o Bifpo Affonfo de França Moniz , 
Diogo de Alvelos da Azinhaga , Simão do 
Soveral , Álvaro da Coíla da Covilhã 3 Por- 
tuguezes da companhia de D. Chriftovão 
da Gama , e eram grandes privados doEm* 
perador ? e todos beijaram a mão ao Bifpo:, 
X ii e 



324 AS1A de Diogo de Couto 

e cllc os recebeo com muito amor, e cari* 
cias, e todos lhe deram a obediência como 
a feu Prelado. Daqui fe abalou o Bifpo acom- 
panhado de todos aquelles Portuguezcs , que 
era coufa formofa de ver, porque antre os 
Abexins luílravam tanto (pela diverfidade> 
e riqueza dos trajos > mulas , cavallos , cria- 
dos ? tendas , ferviço , e tudo o mais ) que 
pareciam elles os fenhores da terra. E indo 
affim caminhando, foram dar em huma for- 
mofa ribeira , e de longo delia tinham os 
mais daquelles Portuguezes quintas , e cafas 
de prazer muito frefcas , principalmente Gon- 
çalo Ferreira , que o mais do tempo refidia 
alli , e elle levou o Bifpo , e todos os que 
o acompanhavam pêra fua cafa , e os ban- 
queteou efplendidamente. 

O Emperador , que tinha correios portos 
por paragens, foi logo avifado , que o Bif- 
po era chegado á ribeira , e mandou por hum 
correio chamar Francifco Jacome pêra fe 
informar do caminho do Bifpo , e de fuás 
coufas , e o tornou logo a defpedir com re- 
cado de como já eíperava porelie muito al- 
voroçado , com o que elle fe apreífou mais , 
até chegar a hum formofo rio chamado 
Axé , que traz infinito peixe de difFerentes 
fortes , onde armaram tendas , e deícançá- 
ram. Alli chegaram todos os mais Portugue- 
zes , que andavam com o Emperador , que 

eram 



Dec. VIL Liv. IV- Cap.-VI. 32? 

eram da fua guarda, eeftavam de continuo 
á porta da fua tenda , e beijaram a mão ao 
Bifpo, que folgou de os ver. Naquelle rio 
eíliveram até o Domingo do Efpirito Santo , 
em que chegaram todos os Senhores , e Gran- 
des da Corte pêra acompanharem o Bifpo 
por mandado do Emperador , que eflava da 
outra banda do rio, a quem elle fez muitos 
gazalhados , e todos lhe beijaram a mão com 
grande humildade, e no meio dos mais hon- 
rados foi levado ao Emperador, que eftava 
em huma tenda branca redonda , toda alca- 
tifada de alcatifas grandes, e formofas , e 
elle deitado em huma camilha , veíUdo em 
hum bedem em Uma de huma camifa mou- 
riíca , e na cabeça hum chapeo de veludo 
preto , e huns calções de taficira da Perfia 
calçados. Era homem largo , preto , de olhos 
grandes , e de prefença veneranda. O Bifpo 
entrou com os Padres junto comfigo , e fe 
aprefentou ao Emperador , e lhe beijaram 
a mão , e elle os recebeo com gazalhado , 
mandando aflentar o Bifpo junto á camilha 
em hum coxim de cordovão , que eftava fo- 
bre huma muito rica alcatifa de feda; e lo- 
go abaixo os Padres, e Gaípar Nunes, que 
hia por Embaixador , que ao beijar da mão 
ao Emperador lhe aprefentou as cartas de 
EIRey, e do Governador da índia Francif- 
co Barreto, e hum rico roupão de efcarUta 

com 



526 ÁSIA de Diogo de Couto 

com muiíos botões de pedraria , e algumas 
coufas outras curiofas , que elle não feftejou 
muito. O Emperador depois de iaber do 
Bifpo da faude de EIRey, do Governador , 
e da fua viagem , o defpedio , e clle íe foi 
a fuás tendas, que eílavam a huma parte do 
campo ; e os foídados , que da índia tinham 
vindo com o Bifpo, os levaram os da terra 
por hofpedes , mandando o Emperador pro- 
ver a todos de tudo em muita abundância. 

CAPITULO VIL 

J)e como D. Duarte Deça Capitão de Ma- 
luco prendeo EIRey de Ternate em huma 
afperijjima prisão : e das grandes guer- 
ras que por ijfo fe levantaram em todas 
aquellas Ilhas contra os nojfos Portu* 
guezes. 

NÃo pareça que nos temos defcuidado 
nas couías de Maluco , com que imos 
continuando todos os invernos , porque mo 
foi fenao por eíles dous annos atrás não fuc- 
cederem coufas dignas de lembrar, e de fe 
pejar o tempo com ellas. E porque houve 
muitas outras em differentes partes 3 em que 
o houvemos mifter, o defpendemos , e gai- 
támos nelJas ; mas agora que fuecedêram mui- 
tas 3 e que foram caufa de fe vir a perder 

aquel- 



Dec. VIL Liv. IV. Ca?. VIL 327 

aquella fortaleza , continuaremos com ellas 
por fua ordem 

Deixámos D. Duarte Deça o Abril paf- 
fado de fincoenta e finco partido pêra Ma- 
Juco , onde chegou o Novembro feguinte, 
c tomou poiTe da fortaleza , começando lo- 
go acorrer com fua obrigação, e a tratar de 
iua fazenda , como os mais dos Capitães 
hoje fazem , pêra o que já partem de Goa 
com regimentos , e ordens pêra iflò , que 
não falrão curiofos que lhas dão , porque 
também niílb tratam de fetis proveitos, ain^ 
da que feja á curta das almas dos mefmos 
Capitães, de que lhe a elles dá bem pouco. 
Aítim efte Capitão começou a querer tomar 
todo o cravo da Ilha Maquiem , que aquela 
Ie Rey tinha feparado pêra as defpezas de 
fua cala , como já difíemos na V. Década ; 
e como elle vio que Jhe queria D. Duarte 
Deça tomar o feu , foi-lhe á mão , fobre o 
que lè começaram os deígoílos , que foram 
o principio da perdição daquella fortaleza 9 
como na XI. Década fe verá, D. Duarte 
que era teimofo , forte, etrabalhofo de con- 
dição , e eftava cego com fua cubica , (e 
com iíTo não faltaram máos homens , que 
accendêram mais efte fogo) tratou logo de 
fe vingar de EIRey , e de o prender; e não 
dando conta do que determinava a peifo& 
alguma , mandou hum dia chamar EIRey , 

e 



328 ÁSIA de Diogo de Couto 

c Cachil Guzarate feu irmão; e como os 
teve na fortaleza , os prendeo , e mandou 
metter em huma logea da rorre , que fervia 
de celleiro do cravo, que eflava fedorentif- 
fima 5 e chea de baratas , e largatixas , e outros 
bichos peçonhentos: e ainda aqui lhes man- 
dou lançar grofTííiimôs adobes , e fechados 
em correntes pelas azas de cameras de fal- 
cões , com o que ficaram tão inhabilitados , 
que fe não podiam mover de huma pêra 
outra parte, clamando, e gritando, e dizen- 
do laftimas^ que puderam fazer compadecer 
peitos de feras. E não contente ainda D. 
Duarte Deça com iílo , mandou também tra- 
zer a velha mãi , que era huma Senhora 
muro honrada , e a metteo com elles , lan- 
çando fama, que fe carteavam com a Rai- 
nha de Japorá na coíla da Jaoá , pêra lhe 
entregarem aquella fortaleza , (eftando todos 
bem innocentes daquelle crime , de que os 
accufiva. ) E como fua tenção era matallos 
alli áfome, defendeo que ninguém Ihesdéf- 
fe de comer , nem de beber ; o que elles 
fentíram fobre tudo , porque eítavam na ca- 
ía do cravo, de que comiam por neceííida- 
de, que lhes afiava os bofes, fem lhes que- 
relem dar huma pouca de agua pêra lhes 
matar aquelle fogo , nem fe apiedarem dos 
gritos, e laftimas que de dentro diziam. E 
além deitas deshumanidadcs > os efcravos to- 
das 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. VII. 329 

das as manhans hiam purgar os ventres á 
porta da banda de fora , o que faziam com 
íujidadcs, e palavras indignas de fe nomea- 
rem. 

Vendo os Padres , e o Provedor com a 
Irmandade da Miíericordia tão aborrecidas 
cruezas , ajuntaram o povo , e foram fazer 
proteítos , e requerimentos ao Capitão , pêra 
que foltaíTe EIRey , aíErmando-lhe « que eí~ 
» tava EIRey innocente do que lhe alevan- 
» tavam , e que não défle com iíTo occaíião 
» a huma grande defaventura , porque já 
)) havia atoardas que o Rey deTidori fazia 
» preíles fuás Armadas pêra fe ajuntar com 
» os Ternates em favor de feu Rey , e pêra 
» porem cerco áquella fortaleza ; » a que 
D. Duarte Deça não deferio coufa alguma , 
dizendo « que os não podia foltar, porque 
» tinha delles culpas graves. » Vendo elles 
aquella teima , e injuftiça , lhe pediram « que 
» ao menos lhes défle licença pêra os fuílen- 
)> tarem na prizão , porque nãoerajuíto que 
» os mataífe áfeme, e á fede , que era hum 
» género de morte , que nem bárbaros a da- 
» vam a feus inimigos.» O que elle lhes con- 
cedeo , e dalii por diante ordenaram antre 
fi « que a Mifericordia déffe huma femana 
)> de comer aos prezos , e outra os mora- 
» dores.» E aílim foram continuando , com 
o que os pacientes fe confolavam já alguma 

cou- 



330 ÁSIA de Diogo de Couto 

coufa. Mas como D. Duarte Dcça eftava 
encarniçado no ódio , não quietava , nem 
repoufava em buícar modos pêra matar os 
pobres prezes , até ordenar « que fe lhes 
» lançalíe peçonha na agua que lhes manda- 
» vam , como lhes fizeram duas vezes » que 
EIRey logo conheceo por virtude de hum 
annel que comfigo trazia , que era de tal 
confeição, que fe na cafa em que eftivefle, 
entraífe alguma peçonha , logo mudava a 
cor, como lhe fez de ambas as vezes. Os 
Governadores doReyno tanto que viram o 
feuRey prezo, mandaram requerer por mui- 
tas vezes ao Capitão <( que lho foltalTe ; e 
» que não o querendo fazer, elles protefta- 
» vam de lhe não prejudicar em todos os 
» modos que pêra iílb bufeaflem ; e que dos 
» damnos que difto refultaíTem , elle daria 
» conta ao Rey de Portugual » a que elle 
nada deferio. Vendo elles aquillo , concer- 
ráram-le com o Rey de Tidore feu genro , 
pêra os ajudar na guerra que ordenaram de 
fazer á fortaleza , pêra que começaram a 
fazer [eus preparatórios , e lançaram fuás co- 
rocoras ao mar, e EIRey de Tidore fez o 
niefmo , e em peííba fe embarcou pêra co- 
meçar a profeguir na guerra. 

E como era máo , e manhofo , jogou 
lanços de ladrão, que foram apoderar- fe de 
muitos lugares de EIRey de Ternate, com 

ten- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. VII. 331 

tenção de fe fazer fenhor de todo aquelle 
Reyno ; o que lhe fora muito fácil , íe to- 
mara a fortaleza , como pertendia , porque 
então ficava-lhe EIRey nas mãos, e elle ie- 
nhor de tudo. Os Ternates ajuntaram feu 
poder, e foram pôr cerco á fortaleza, dan- 
do-lhe tantos , e tão contínuos afTaltos , que 
fe vio D. Duarte Deça mui aprdlado , e 
arrifcado ; e o em que mais cuidado puze- 
ram , foi na prohibição dos mantimentos , 
pêra que nem por mar, nem por terra pu- 
deíTern paííar á fortaleza ; com o que come- 
çaram a faltar, e os noííòs a paííar neceííi- 
dades. Vendo-fe D. Duarte Deça tão apreí- 
fado, foi-lhe neceílario valcr~fe do mor ini- 
migo que aquella fortaleza tinha , que era 
Cachil Guzarate Sangage de Geilolo , a quem 
Bernaldim de Soufa deftruio de todo, tiran- 
do-lhe o nome de Rcy , como na VI. Dé- 
cada no Cap. XIII. do IX. Liv. fica dito. 
E pêra mais o obrigar, lhe mandou huma 
Provisão em nome de EIRey de Portugal 
» em que lhe tornava o titulo de Rey , e 
» o libertava das páreas que era obrigado a 
)> pagar.» 

Ifto moveo tanto aquelle Sangage, que 
lançou logo fuás corocoras ao mar , pêra 
ir foccorrer D. Duarte Deça , e fe começou 
outra vez appellidar Rey de Geilolo. No 
mefmo tempo defpedio D. Duarte Deça hum 

Pa- 



332 ÁSIA de Diogo de Couto 

Padre da Companhia , chamado António 
Vaz, homem letrado, e virtuofo , que ain- 
da hoje vive na cafa dos profefíos de Goa y 
> pêra que fofíe á Ilha de Bachão a pedir 
» ajuda áqueíleRey, aífim de gente, como 
)) de mantimentos , porque era amigo dos 
« Portuguezcs. » Efta jornada foi de tanto 
proveito , que não íó fez o Padre com El- 
Rey que provede a D. Duarte Deça de man- 
timentos honeíiamente , mas ainda o convi- 
dou pêra as Bodas do Senhor ; porque achan- 
do-o domeítico , e capaz , o rendeo , e ca- 
tequizou , e depois o fezChriftão com mui- 
ta folemnidade , e a outros muitos do feu 
Reyno. E por eítas lantas obras , e por ou- 
tras , que eítes Religiofos , e os de todas as 
mais Religiões andam obrando por todo ef- 
te Oriente , permitte Deos que as fortalezas 
da índia eftejam em pé, e que fe íuftentem , 
deixando o caíligo das tyrannias de alguns 
Capitães fó peraelle; porque huns não aca- 
bam de lograr o que delias injuftamente ti- 
ram , e outros não lhes chegaram a luzir 
nem em filhos , nem em netos. 

E tornando a noflb fio. A guerra fe foi 
continuando por terra, e por mar, por on- 
de o Rey de Tidore andava com fua Ar- 
mada , fazendo todos osdamnos que podia. 
Nas corocoras de Ternate andava por Ca-< 
pitão mór Cachii Labuzaza , primo de EU 



Dec. VIL Liv. IV- Ca?. VII. 333 

Rey , muito grande cavalleiro , que depois 
fe fez Chriftão , e fe chamou D. Henrique , 
e por feus muitos ferviços lhe mandou EI- 
Rey D.João o habito daCavalleria de noí- 
fo Senhor Jelus Chriíto , e o cargo de Pan- 
dará de Malaca, onde viveo cafado, ecom 
filhos , e fez tantos íerviços , quantos pelo 
decurfo de noflas Décadas fe verão. Efle 
homem fez muira guerra então áquella for- 
taleza , e pelejou com algumas fuílas , quç 
D. Duarte Deça armou \ e com ellas , e com 
os loccorros que lhe vieram de Geilolo , de 
Bachão , e de outras partes , a que também 
acudio Gonçalo Pereira Governador de Mo- 
mohia com algumas corocoras, e mantimen- 
tos , fe foi fuííentando. E como foi tempo , 
defpedio a náo S. João , de que era Capi- 
tão Francifco de Barros com a carga do 
cravo pêra a índia, por quem efcreveo ao 
Capitão de Malaca , que omandaíTe foccor- 
rer com muita preíleza: e o mefmo fez ao 
Governador, dando-lhe conta de tudo o pal- 
iado , pondo áquelle Rey crimes que e!Ie 
nunca commetteo; mas não faltou também 
quem lhe éfcreveíTe a verdade defte cafo. 
Nefte eftado deixaremos a guerra, que deo 
bem de trabalho aos noílbs. 



CA- 



334 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

Da diferença que ha antre Ver [as e Ára- 
bes jobre a opinião de puas feitas : e de 
como o Rey da Perjia mandou aos Reys 
do Decan o titulo de Xas , com con- 
dição que Jeguifem fua feita. 

NA noíTa IV. Década no Cap. I. do 
Liv. X, , onde falíamos na feita que 
feguem os Magores , dêmos brevemente con- 
ta de fua lei; agora lerá neceífario declarar- 
mos iílo melhor pêra a matéria que have- 
mos de tratar. Pelo que fe ha de laber que 
por morte de Mafamede (em que os mais 
dos efcritores variam na conta do anno em 
que foi) deixou nomeado em feu teftamento 
por feu fucceíTor , e cabeça da fua doutrina 
Ale filho de Sabutabel , irmão de leu pai ; 
aflim por fer feu primo com irmão , como 
por fer feu genro , cafado com Fátima filha 
de fua primeira mulher , de que tinha dous 
filhos nafcidos de hum ventre , chamados 
Hacem ,■ eHocem, e lhe deixou encommen- 
dado que tomaffe a dignidade de Califa , 
que he como a do Summo Pontifice antre 
nós. Iílo tomou mal Abubar fogro de Ma- 
famede , em cuja cafa elle morreo , porque 
houve que lhe pertencia a elle melhor aqueí- 
la dignidade y aífim por fogro delle Mafa- 

me- 



Dec. VIL Liv. IV. Cap. VIII. 33? 

mede, como por fua idade , authoridade, 
e poffe , porque era muito poderolo: eajun- 
tando-íè com dous parentes feus de muita 
pofle chamados Homar , e Othomão , per- 
feguíram o Alé de feição , que o deíterrá- 
ram , e por confentimento de todos foi lo- 
go levantado o Abubar por Califa. Neíla 
dignidade viveo pouco , e fua morte não 
careceo de fufpeitas de peçonha , que diziam 
mandar lha dar Homar ; porque tanto que 
elle faleceo , fe alevantou com o Califado 
quaíí por força. Eíie viveo com aquelle ti- 
tulo dez annos e meio , e foi morto , eftando 
na Mefquita , por hum eferavo feu , e affir- 
mou-fe que por ordem do Alé, que eftava 
recolhido na Cidade de Cufa , e por fua 
morte fe alevantou Othomão , allegando pê- 
ra iífo que fora duas vezes genro de Mafa- 
mede, como de feito foi caiado com duas 
filhas chamadas Cofulma , e Roqueia, que 
morreram em vida do pai. Eíle também vi- 
veo pouco , porque foi morto em humas 
alterações que houve no Cairo , e por feu 
falecimento fe ajuntaram os Grandes a con- 
felho , e por parecer de todos (tirando o de 
Mauhia Capitão de Othomão) foi chamado 
Alé, cujo era de direito o Califado , e o 
aíTentáram na cadeira daquella dignidade; 
e o Mauhia, que ficou de fora, e era po- 
derofo , o perieguio com guerras grande- 

men- 



33<$ ÁSIA de Diogo de Couto 

mente , e por fim o mandou matar aos feíá 
mezes de leu governo , e lá teve induílria 
com que fubio á dignidade do Califado , 
em que viveo doze annos , e três mezes : em 
fua vida renunciou a dignidade em feu filho 
Lazit que governou , temendo-fe de Hocem , 
que era outro filho de Alé, e teve induílria 
com que o mandou matar. Eíte Lazit foi 
muito máo homem , perverfo , e havido por 
herege , porque vivia como Gentio. 

Ora vamos a Hocem , queelle fez matar , 
a quem ficaram doze filhos chamados Zeinal , 
Mahamed , Bager Mahamed , jafart , Mufa 
Caíim, Muíi Ali, Mufera Ali , Mahamed 
Tangui, Mahamed Alivaugi, Ali Hocem, 
Afqueri Hacem , e Mahamed Mahedi mais 
moço: affirmam os Perfas que não morreo, 
e que eíle ainda ha de vir declarar a verda- 
de de todas as opiniões , que antre elles , e 
os Arábios ha , e que ha de converter o 
mundo todo á fua doutrina , e que efta con- 
versão ha de começar em Maxadali ; onde 
Alé feu avô eftá enterrado. E eíla he a ra- 
zão , por que naquella Mefquita tem conti- 
nuamente hum cavallo fellado efperando por 
elle, pêra como alli chegar, cavalgar logo. 
Efte cavallo tanto que fe efconde o Sol, 
logo o levam á Mefquita com muitas lu- 
minárias, e em huma iefta feira do anno o 
fazem com grandes ceremonias ; e orações 

a 



Dec. VIL Li Ví IV. Gap. VIII. 337 

a Mafamede , pedindo-lhe que acabe já de 
mandar feu neto a declarar as duvidas que 
antre elles , e os Perfas havia, fobre quem 
fora o verdadeiro Califa: fobre o que havia 
de continuo antre elles guerras , porque os 
Perfas luftentavam , e ainda hoje o fazem > 
que fó o Alé o foi legitimamente $ e que 
os mais foram feifmaticos , tyrannos , e ale* 
vantados , e por iífo tomaram aquelle appel- 
Jido de Xiai , que quer dizer união de hum 
corpo , porque eftavam fempre com as armas 
nas mãos pêra fuítentarem fua opinião. 

Os Arábios pelo contrario affirmam * 
que elle não fora Califa , e que os outros 
o foram legitimamente eleitos , e que os 
Perfas são os que vivem errados em fua 
opinião , e contra elles tomaram aquelle 
appellido de Sonijs , de que fe tanto prezam , 
que quer dizer feguidores , ou fuftentadores 
da verdade; e quando nomeam os Perfas, 
lhes chamam Rafa (is , que he o mefmo que 
chamar-lhes homens errados, e defencami- 
nhados. Eftas duas opiniões feguem todos 
os Mouros aos Arábios daquella parte de 
Africa , Mauritânia , Berbéria , e todos os 
que fe efpalháram por Hefpanha , e os que 
vivem por toda a Província do Egypto, 
Abaífía, Coíla de Mclinde, Moçambique, 
Çofala , e em todas aquellàs Ilhas , e todos 
os Turcos, Rumes , e todos os deitas par- 
CoiiLG.Tom.lKP.L Y tes 



338 ÁSIA de Diogo de Couto 

tes da índia até Maluco j porque como os 
Arábios foram homens , que fe deitaram á 
navegação, e paflaram até o Oriente, e por 
todos os Reynos delle , affim nas terras fir- 
mes , como nas Ilhas todas , achando os 
Gentios faciles , e domeíiicos , lhes pregaram 
a largueza de fua feita , a que logo todos 
fe converteram , e affim os feguem todos 
eíles Reys do Decan , de que já dêmos ra- 
zão , quando tratámos do tempo , em que 
os Mouros conquiftáram aquelles Reynos. 

Neíla lei viveram até eíte inverno de fín* 
coenta e lete , em que andamos , até que o 
Xathamás Pvey da Perfia , filho deXaifmael, 
zelofo da obíervaçao de fua feita , mandou 
no principio deRe anno alguns Perfas muito 
doutos em companhia de Embaixadores mui- 
to graves , e com grande apparato a todos 
os Reys do Decan pêra os perfuadirem a 
receber fua feita , e a feguirem Alé feu Ca- 
lifa; e pêra mais os obrigar, lhes mandou 
a todos o titulo de Xás , de que lhes pafibu 
fuás patentes , e formões. Eíles Embaixado- 
res foram nas náos de Ormuz ter a Dabul , 
e dalli correram ás Cortes do Mirao , Ve- 
rido , Zamaluco , Idalcan , eCota Maluco, 
e deram aquelles Reys fuás Embaixadas , e 
pregaram íua opinião , a que foi mui fácil 
de os render , e começaram logo em fuás 
Mefquitas a rezar de Aié ; e a clamarem 
. por 



Dec. VIL Liv. IV* Cap. VIII. 339 

por elle em feus Alcorões , appellidando-fè 
dalli em diante Sonijs , e com iíTo fe inti- 
tularam Xás , que elles houveram por mui- 
to grande honra , e nós aílim lhe chamare- 
mos nas noíTas Décadas daqui em diante, 
deixando o titulo de Cais, de que até agora 
ufáram , e que com mais razão fempre lhes 
cabe deííes do Zamaluco Rey de Chaul , 
(que fera de agora por diante Nizamoxá.) 
Faremos aqui huma breve relação , já que 
a temos feito de todos os Reys deVifapôr, 
que são eftes > que vizinham comnofco nefta 
parte de Goa , o que faremos neíloutfo Ca-» 
pitulo por ler mais folgado aos leitores. 

CAPITULO IX, 

De huma relação de Nizamoxá , e de fuá 
morte : e de como o que lhe fuccedeo no 
Reyno fe ajuntou com o Cutuhixá con- 
tra o Idalcan , e largou o Inizamo- 
xá ao Mealecan 5 que tinha prezo. 

NO Cap* IV, do X. Liv. da IV. Década 
demos larga conta daquelles finco Ca- 
pitães, que fe alevantáram com todo o De- 
can , que antre fi repartiram em Pveynos , e 
deftes coube aquella parte que jaz de Çifap- 
dão até o rio Nagotana ? que he pelo rio 
de Carania dentro, a Niza ma n Maluco, a 
quem erradamente chamamos Zamalyçp, cu^ 
Y ii jo 



34o ÁSIA de Diogo de Couto 

jo próprio nome eraBoran. Efte diziam que 
era filho de Daudar Soltão , legitimo , e ver- 
dadeiro Rey de todos eftes Reynos ; porque 
affirmam quehuma mulher, queclle deo ao 
pai deite Boran , que era feu Capitão , já 
hia prenhe delle. E affim depois que efte 
herdou o Reyno , tomou por appellido , e 
por armas hum falcão , dizendo , que aílim 
como efta ave era mais real que todas, af- 
lim elle o era antre osReys do Decan , que 
foram eferavos de feu pai. Efte Boran Sol- 
tão foi o mais valorofo , franco, liberal, e 
mais juftiçofoRey de todos os de feu tem- 
po , e dos vizinhos. E em principio do go- 
verno de Affonfo de Albuquerque foram ter 
ao porto de Chaul ( que era feu , e onde 
elle acertou de fe achar) dozePortuguezes, 
que vinham de Cambaya em hum navio feu ; 
e vendo-fe com EIRey , elle os agazalhou 
bem , folgando tanto de os ver, que lhes 
quitou os direitos de fuás fazendas , e lhes 
rogou (( que fe apofentaífem naquella par- 
» te , em que hoje eftá a noífa Cidade de 
» Chaul, e que elle os libertaria dos direi- 
y> tos , e não fó a elles , mas ainda a todos 
» os mais que alli foliem viver, e que lhes 
» faria outras honras , e favores » de que 
lhes mandou paífar hum largo formão. 

Por eftas liberdades fe deixaram alli fi- 
car aquelles homens, e fe apofentáram na- 

quel- 



Dec. VIL Liv. IV. Cav. IX. 341 

quella parte , em que hoje eftá a Cidade , e 
depois poucos e poucos íe lhes foram ajun- 
tando outros , e fizeram alii huma colónia 
de Portuguezes , e daqui teve principio efta 
povoação de Chaul , e as liberdades que feus 
moradores, e todos os mais tem em os di- 
reitos de fuás fazendas , fegundo huma lem- 
brança que nos mandou , tirada dos tombos 
da Corte daquelle Rey , hum António de 
Aguiar , que ha muito vive nella Mouro, 
chamado Islancan , homem efperto , e pra- 
tico em muitas línguas , com quem commu- 
nico por cartas , e delle me informo das 
coufas daquella Corte , de que fempre deo 
muito boa razão. 

Efte Rey Boran Soltão ficou fempre tão 
affeiçoado aos Portuguezes , que paflando 
por Chaul o Governador Diogo Lopes de 
Siqueira, lhe concedeo lugar pêra fazer for- 
taleza , onde ainda hoje eftá , porque folgou 
de ter os Portuguezes emjeu Reyno pela 
fama que corria de feu valor , e esforço ; 
porque era tão affeiçoado aos bons c^vaílei- 
ros , e aos homens doutos , que em lhe vin- 
do fama de algum nos Reynos vizinlros, lo- 
go o mandava bufcar , e lhe fazia muitas 
honras , e mercês ; com o que concorreram 
em feu tempo todos os bons Capitães , e 
doutos em fuás fciencias , que paílaram de 
tcios os Reynos eftranhos a eíle. E de den- 
tro 



34^ ÁSIA de Diogo de Couto 

tro de Conftantinopla mandou trazer hum 
afamado fundidor, que lhe fez duas mil bom- 
bardas de bronze , e ferro , com que ie fez 
temido a todos os vizinhos. Foi muito doen- 
te do mal de S. Lazaro , pêra o que buf- 
cou todos os remédios poíliveis , até fe ba- 
nhar em fangue de meninos , mandando ma- 
tar muitos pêra efte effeito , e encher grandes 
banhos delle, (por lhe fazer crer hum feitio 
ceiro que com iíTo fararia ;) mas não lhe va- 
Jeo , porque veio a morrer aborrecido do 
mefmo mal tão nogento os annos paliados 
de 1555 , tendo reinado íincoenta e oito. 

Tinha efte Rey muitos filhos , e já em 
fua vida fentia alteração nos Capitães, e ai> 
darem bandeados Jiuns a huns , e outros a 
outros ; e receando-fe que por fua morte hou- 
VeíTe mui grandes divisões , mandou chamar 
hurn Portuguez , que defdo tempo de Nuno 
da Cunha andava em feu Reyno , que di^ 
zem alguns que fora bombardeiro, e fecha» 
tnava Sancho Pires , e lá fe fez Mouro , e 
lhe puzeram nome Tringuican; elhepedio, 
que tanto queelle rnorrelíe , fizefle alevantar 
por Rey a feu filho mais velho chamado 
Uzen , e ai I i lho entregou logo, porque fò 
delle fiava aquelle negocio ; e o Sancho Pi- 
res lhe diflfe que aílim o faria, c que niflb 
lhe havia de pagar as honras , e mercês que 
delle tinha recebido. Era efte homem ião 

va- 



Dec. VII. Li v. IV. Gap. IX. 343 

valorofo por feu braço , que fe pode metter 
no conto dos famofos que houve no mun- 
do; porque chegando íó , e homifiado áquel- 
]e Reyno , affim deo logo tamanhas moftras 
de feu valor, que lançou EIRey mão delJe , 
e o fez Capitão da gente de cavallo , cm 
que também deo tal conta de fi , e deo tão 
verdadeiras moftras de feu esforço , que veio 
a fer General de todo o Reyno , e o prin- 
cipal dos do Confeiho de EIRey , que lhe 
deo tantas terras , e rendas , que fuftentava 
dez, e doze mil homens de cavallo; e af- 
fim era tão temido de todos os Capitães , e 
Mouros , que não havia quem lhe não fí- 
zeífe veneração , e fe lhe não baqueaííe. 

Affim que vindo aquelle Rey a falecer, 
tomou Sancho Pires o filho Uzen, e o poz 
na cadeira dopai, eo fez levantar por Rey 
a pezar de todos os outros Capitães , que 
eftavam divididos em bandos pelos outros 
filhos; mas eile teve tal maneira, que por 
força fez vir todos a dar-lhe obediência , e 
quietou os tumultos , ficando em companhia 
do Rey , governando o Reyno com tanta 
prudência , e valor , que não houve vizinho 
que oufaífe a bullir com eile , e affim fe fez 
poderofo , e temido , e tão refpeitado , que 
fe fe quizera fazer Rey, fem dúvida o fora.. 
E fe eile homem não eícurecêra feus feitos 
com a negação que fez da fé , morrendo 

Fran- 



344 ÁSIA de Diogo de Couto 

Frnnguican , puderam elies fer havidos no 
mundo por efpantofos , e nós deixáramos 
delle huma memoria , que nunca fe acaba- 
ra ; porque foram léus feitos tantos, etaes, 
que bem puderam occupar a mór parte def- 
ta noffa VIL Década j mas fique aílim com 
ifto, pois não foi merecedor demais. Huma 
coufa não he bem que felhe negue, e foi , 
que todos os Portuguezes , que em íeu tem- 
po foram fogidos pêra Vifapôr, e fe que- 
riam fazer Mouros , eJJe lho eílorvava , pon- 
do-lhes diante as obrigações que tinham á 
Lei de Chrifto , perfuadindo-os a viverem 
nella ; e aos que fe não faziam Mouros , re- 
colhia , e tratava muito bem , e os outros 
lhe aborreciam tanto que os não queria ver. 
Quietados os tumultos , e feguro Soltão 
Uzen em feu eftado , determinou de fe fatis- 
fazer de algumas affrontas , que tinha rece- 
bido doldalcan com a vizinhança que tinha 
com a fua fortaleza de Calibraga , que ef- 
tava noseílremos dantre ambos osReynos: 
pelo que determinou de lha tomar, e con- 
vocou em fua ajuda o Cota Maluco , que 
reinava naquella parte de Galecunda contra 
Mafu^patão, que também foi hum dos Ca- 
pitães alevantados , que eílava inimigo do 
Idalcan , e foi ajudar o Uzen com vinte mil 
de cavallo , dando-lhe o Veridó paííagem 
por fuás terras , que jazem ao Norte das do 

Idal- 



Dec. VII. Liv. IV, Cap. IX. 34? 

Idalcan. E ajuntando-fe ambos em huma 
Mefquita , juraram a liga com grandes cere- 
monias , e alli naqueIJe auto pedio o Cota 
Maluco a Uzen « que lhe fizeífe mercê de 
» mandar foltar o Mealecan, queeftava pre- 
» zo na ferra de Baula , e o deixar ir pêra 
)) fua mulher , e filhos , porque bem lhe baf- 
» tavam fuás defaventuras. » Vendo Uzcn 
que aquelle Rey lhe pedia aquillo naquelle 
íempo , em que não era licito negar-lho , 
-lhe diíle , que pelo fervir o faria. E não 
querendo o Cota Maluco, que aquelle ne- 
gocio ficalíe pêra depois, Ihediííe «quelo- 
» go lhe mandaíTe paífar hum formão pêra 
» o entregar a hum Capitão , que a iíío man- 
» daria ; porque as mercês que fe logo fa- 
» ziam , eram de mor preço , e godo , aílim 
» pêra quem as fazia , como pêra quem as 
» recebia » o que lhe EiRey Uzen não ne- 
gou , e logo fe lhe paflbu o formão que pe- 
dia, em que «o mandava foltar, e que lhe 
» déífem dinheiro pêra as defpezrs , e alguns 
» cavallos pêra fua peífoa » com o que Co- 
ta Maluco defpedio hum Capitão leu ; a 
quem o Amircan (que o tinha em poder) 
o entregou com tudo o que lhe mandavam 
dar , e com elle fe partio logo pêra Chaul , 
e lá o entregou a Garcia Rodrigues de Tá- 
vora , que era Capitão , que como veio o 
verão , o mandou pêra Goa ao Governador, 

Fei- 



346 ÁSIA de Diogo de Couto 

Feitas , e juradas as conjurações , abalar- 
ram aquelíes Reys contra a fortaleza de Ca- 
libraga , e aíTentáram de redor delia feus 
exércitos, e a começaram abater, tudo por 
ordem de Sancho Pires , que era General. 
O Idalcan fendo avifido da conjuração , def- 
pedio muitos Capitães dos que rinha pêra 
mandar lbbre Goa , e os mandou foccorrer 
aquella fortaleza, e elle fe poz em campo 
pêra o fazer em peflba , fe foífe neceíTario. 
O Sancho Pires na bateria que deo á forta- 
leza , lhe derribou hum lanço de muro, por 
onde commetteo a entrada , fendo elle o 
primeiro ; mas os de dentro a defenderam 
tão bem , que os lançaram fora , ficando alli 
o Sancho Pires morto de huma eipingarda- 
da. Vendo os Reys aquelle eftrago , alevan- 
táram o cerco , em que perderam quatro 
mil homens , e alguns Capitães , em que en- 
travam Jamaldican , e Rumecan , com o que 
o Idalcan ficou defalivado pêra mandar pro- 
feguir na guerra de Goa , pêra onde defpe- 
dio mais alguns Capitães. 



DE- 



347 



%&##&#&####&##&&&&##&####%#}? 

DÉCADA SETIiMA. 
L I V R O V. 

Da Hiftoria da índia. 

CAPITULO I. 

Das coufas , £#* aconteceram fia guerra âe 
Goa : ^ ^ £#m ajjalto que os no/Jbs de- 
ram na outra banda , m que houve al- 
gum defarranjo : e de como os inimigos 
entraram a Ilha de João Lopes. 

AGuerba de Goa fehia continuando, 
aincla que com pouco perigo , e 
damno , todavia com trabalho , por- 
que começaram a faltar na Cidade muitas 
couías , de que ella fe provê das aldeãs da 
outra banda , e miferavelmente fe achavam 
frangãos , e gallinhas pêra os doentes , por- 
que chegou a valer hum duas tangas , e hu- 
ma gallinha hum cruzado , de que fe havia 
mifter grande quantidade pêra enfermos, e 

Hof- 



348 ÁSIA de Diogo de Couto 

Hofpitaes. Só com a lenha fe remediavam 
melhor , porque fe cortava dos matos da Ilha , 
que pêra eftas neceflidades fe guarda, e pou- 
pa com grandes penas , que no tempo da 
paz não poflfa peífoa alguma cortar lenha 
nelles, e nem ainda dos quintaes particula- 
res íè pode derribar huma arvore, fob pena 
de dez pardaos pêra o rendeiro do verde. 
Aílim que com eftes trabalhos fe foram re- 
mediando o melhor que puderam das Ilhas 
circumvizinhas , e das aldeãs da de Goa ; por- 
que os inimigos fó na defensão dos manti- 
mentos puzeram toda fua diligencia ; pofto 
que também não deixaram de inquietar os 
noíTos com alguns aílaltos miúdos , e de pou- 
ca importância , dando rebates nos paffos , fó 
a fim de divertir os noííos , e os quebrantar. 
Mas a iflb tinha o Governador dado ordem, 
e provido mui bem , com mandar por fa- 
chos nas Ilhas de Juan , e Chorão , e em 
fima do outeiro de N. Senhora do Monte, 
donde fe defcobre tudo , onde eftava hum 
Baíilifco pêra fazer final. E tanto que em 
qualquer parte daquellas fentiam Mouros, 
derrubavam os fachos , e os que vigiavam 
o Bafilifco , vendo o final , defparavam hu- 
ma bombardada , a que acudiam logo aon- 
de lhe davam o final. Mas onde os inimi- 
gos deram mor trabalho , foi nas terras de 
Salíete, onde eítavam D.Jorge, e D. Pedro 

de 



Dec. VIL Liv. V. Cap. I. 349 

de Menezes, que todo eíle inverno andaram 
com as armas ás cofias , guardando , e de- 
fendendo as terras , tendo alguns recontros 
com os inimigos muito arrifeados , em que 
houve damno de ambas as partes , ainda que 
todavia muitas das aldeãs fe deixaram de la- 
vrar , e femear , e os lavradores delias fe 
recolheram ás partes feguras ; e algumas co- 
meram os inimigos , que foram as de Co- 
coli , eAfolona, e outras , que eílam pega- 
das ás fuás terras , e algumas vezes foram 
dar vifta á fortaleza de Rachol i mas reco- 
Jhêram-fe efcalavrados das mãos dosnofTos. 
Nos paflbs da Ilha de Goa continuaram 
elles com mais rebates , a fim de cançarem 
os que os guardavam ; e não fe contentan- 
do comiíío, determinaram de entrar na Ilha 
de João por ordem do Calabatecan , que 
tinha fuás eítancias defronte , do que logo 
o Governador foi avifado : pelo que deter- 
minou de lhe mandar dar hum aflaíto, por- 
que não fó defconfiaíTem de entrar nas ter- 
ras do Eftado , mas pêra que fe receaífem 
de lhes irem lá quebrar as cabeças , porque 
não viveíTem com tanta fegurança ; e pêra 
iífo elegeo alguns Capitães , de que não achá- 
mos o nome , a mais que a Pantaleão de 
Sá, elhedeo quinhentos homens pêra irem 
dar no Calabatecan , que pairaram pela Ilha 
de João Lopes defronte do paíTo fecco , e 

no 



3?o ÁSIA de Diogo de Couto 

no quarto da Lua foram demandar aseftari* 
cias dos Mouros , levando diante os efpin* 
gardeiros. O Calabatecan eftava já avilado, 
porque dantre os noflbs havia quem lhe man- 
dava cada dia aviíb do que Fe pafiava , e 
eftava eFperando com as armas nas mãos , 
€ tinham lançados em cillada Feiscentos ho- 
mens, em parte que ficavam nas coites aos 
noííos ; que tanto que os viram paliar adian* 
te, lhes arrebentaram por huma ilharga, e 
deram na retaguarda , que era Pantaleao de 
Sá, e da primeira carga derribaram, e fe- 
riram alguns , e depois travaram com elles j 
e pofto que os achou , e tomou deFciúdados , 
voltando com grande animo , começaram 
huma muito aFpera , e perigoFa batalha á 
efpada , porque lhes Faltou a arcabuzaria que 
hia diante. Pantaleao de Sá Fe vio de todo 
perdido, mas nem por iffo Fe deícuidou de 
lua obrigação ; antes com muito valor, e 
esforço Fuftentou o pezo da batalha , pofto 
diante dos Feus , animando-os a cada paíTo , 
e trazendo o olho nelles , porque Fe não deí- 
mandaíTem. Nefte tranfe acudiram os que 
hiam na dianteira com a arcabuzaria , (por- 
que tiveram rebate do aperto em que efta- 
vam ,) e dando em os inimigos , ospuzeram 
em desbarato com morte de alguns. E por- 
que o poder todo vinha já contra elles , Fe 
foram recolhendo o melhor que puderam* 

fi- 



Dec. VIL Liv. V. Cap. L 35-1 

ficando no campo perto de vinte dos noflbs 
mortos , a fora muitos feridos , que não pe- 
rigaram. 

PaíTado efle fucceíTo , de que os inimi- 
gos ficaram mui ufanos , determinaram de 
fazer huma entrada pela Ilha de João Lopes. 
E huma noite muito efcura a commettêram , 
e paliaram a ella mais de quatrocentos, de 
maré vaíia , com a agua pelos peitos , e 
huns poucos delles foram delongo da praia , 
onde Ayres Gomes da Silva tinha a fua es- 
tancia , porque eflava alli com feííenta ho- 
mens. E como o eícuro era grande , e elles 
hiam em muito íilencio , entraram alguns na 
cozinha de Ayres Gomes da Silva, que ef- 
tava apartada, em que não havia mais que 
hum efcravo cozinheiro , que eflava dormin- 
do , em quem deram algumas cutilladas ; e 
fahindo delia, foram dar com dons foldados 
que vinham de fora , que fentindo ferem Ini- 
migos, voltaram com muita preíTa , efe fo- 
ram pêra hum tezo , que eflava a íima das 
eflancias, em que havia duas peças de arti- 
lhei ia , com que varejavam as dos inimigos , 
que eftavam da outra banda , e de íima co- 
meçaram a gritar, queacudiííem áartilheria. 
Ayres Gomes da Silva ouvindo a revolta, 
acudio com os feus foldados áquella parte , 
e fez linal com huma peça , pêra que fou- 
beflem nospalfos que havia Mouros na Ilha. 

E 



§fi ÁSIA DE DlGGO DE Couto 

E tanto que fe ouvio , fe lançaram logo 
muitos á agua , pêra paíTaretn a ella ; mas 
os inimigos fentindo já os noflbs , fe foram 
recolhendo* E Ayres Gomes da Silva , que 
teve rebate , fe foi apôs elles , e lhes deo tan* 
ta preíTa que os fez lançar ao rio , onde fe 
affogáram alguns, ficando a Ilha defpejada* 
a que eram paíTados já mais de feiscentos 
dos que eftavam em os pados , mas não ti- 
veram que fazer. E acudindo o Governador , 
mandou logo paífar Jorge de Mendoça Ca- 
pitão da Cidade pêra a Ilha de João ( que 
fica antre a de João Lopes, e a terra firme) 
com feiscentos homens , e alguns moradores 
de Goa , porque fe receou que os inimigos 
entraiTem nella. 

CAPITULO IL 

Da Armada que efte anno ãefincoenta e fe- 
te partio do Rejno , de que era Capitão 
mor D. Luiz Fernandes de Vajconcellos ; : 
e de huma breve relação da devoção , que 
os mareantes tem ao Eemaventurado S. 
Fr 9 Pêro Gonçalves , a que elles chamam 
o Corpo Santo. 

POucos dias depois do aíTalto pafTado> 
furgíram na barra de Goa três náos de 
finco , que tinham partido do Reyno : e por- 
que deita viagem he neceílario darmos mui- 
to 



Dec. VIL Liv. V. Cap. II. 35-3 

to particular razão , o faremos aqui. No 
principio deite armo defincoenta e fere, em 
que andamos, mandou EIRey D* João ne- 
gociar finco mios pêra mandar á índia, de- 
que deo a Capitania mor a D. Luiz Fernan- 
des de Vafconcellos , filho do Arcebiípo de 
Lisboa D. Fernando de Menezes , que ef- 
colheo a náo Santa Maria da Barca , em 
que D. Leonardo de Soufa tinha chegado 
da índia pêra ir nelía. As outras quatro 
náos eram , Santo António , cujo Capitão 
era Cide de Soufa; aAfíumpçao, que Jeva- 
va por Capitão Braz da Silva. Da Framen- 
ga era António Mendes de Caftro ; e dl 
A^uia João Rodrigues Calema deCarvalIo. 
Eftando eftas náos preftes , e carregadas pê- 
ra darem á vela, abrio a não Capitânia hu- 
ma agua tão grofla, que fe hia ao fundo, 
e chegou a ter em íí quatorze palmos delia : 
e acudindo os officiaes pêra a remediarem , 
não iómente lhe não puderam tomar a agua > 
mas nem faberem por onde a fazia , antes 
v r iam que cada vez lhe creícia mais , porque 
nem bombas , nem barris , nem outras va- 
filhas, que corriam por andaimes, lha pude- 
ram efgotar em muitos dias , trabalhando 
de dia , e de noite. Vendo EIRey que fe 
hia gaitando o tempo, mandou fazer as ou- 
tras náos á vela , e que aquella fe defearre- 
gaíTe, o que elles fizeram já em Abril. A 
Couto.Tm.ir.P.1. Z Ca- 



35*4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Capitânia fe defpejou toda com muita preíía , 
pcra verem fe lhe achavam por onde fazia 
efla agua. Vendo D. Luiz Fernandes que já 
naqueíle anno não podia fazer viagem , no 
que recebia muito grande perda, porque era 
hum Fidalgo pobre , e tinha gaftado muito 
em fe aviar, andava mui trifte , e defeon- 
tente. A náo foi revolvida , e bufeada de 
poppa a proa, íem lhe poderem dar coma 
agua, e andava huma grande borborinha an- 
tre os pefeadores de Alfama fobre aque!- 
le negocio , que affirmavam publicamente 
que Deos N. Senhor permittíra aquillo , 
porque aquelle anno lhe tirara o Arcebiípo 
aquellas fuás tão antigas ceremonias , com 
que veneravam , e íeltejavam o dia do Bem- 
aventurado S. Fr, Pêro Gonçalves , levan- 
do-o ás hortas de Enxubregas com muitas fo- 
lias , cargos de fogaças, e outras interiores 
de alegria , e de lá o traziam enramado de 
coentros frefeos , e elles todos com capei- 
las ao redor delle, dançando, e bailando* 

E porque nos não lembra vermos eferi- 
tas eítas ceremonias em alguma parte, o fa- 
remos aqui brevemente. Tem todos os ho- 
mens" do mar tamanha devoção , e veneração 
ao Bemaventurado S. Fr. Pêro Gonçalves , 
e o tem por tão feu advogado nas tormen- 
tas do mar , que crem de todo feu coração ^ 
que aquellas exhalações 7 que nos tempos for- 

tui- 



Dec. VII. Liv. V. Cap. II. 35-5* 

tuitos , e tormentofos apparecem fobre oê 
Riaftos , ou em outras partes das náos , que 
lie o Santo , que os vera vifitar, econfolarj 
e tanto que acertam de ver aquella exhala- 
ção , acodem rodos ao convés ao falvar com 
grandes gritas , e alaridos , dizendo : Salva , 
Jalva , d corpo Santo. E affirmam que quan- 
do apparece nas partes altas, e duas etres, 
ou mais daqueilas exhalaçoes, que he final 
que lhes dá de bonança ; mas fè apparece 
huma fó , e pelas partes baixas, que denun- 
cia naufrágio. E tão crentes , e firmes eílam 
niíio, que quando aquellas exhalaçoes appa- 
recem fobre os maftareos , fobem os mari- 
nheiros aífima , e aíKrmam que acham pin- 
gos de cera verde; maselles nem os trazem, 
nem os moftram. Ao menos nós os não vi- 
mos alguma hora , paííando por muitas ve- 
zes eíla carreira. E fe os Religiofos , que 
vem nas mefmas náos , lhes querem ir á 
mão , dando-Ihes razões pêra lhes moftrar 
que aquíllo são exhalaçoes, e dando as cau- 
fas naturaes , porque fe geram , e porque 
apparecem , não falta mais que tomarem as 
armas, e alevantarem~fe contra quem lhes 
contradiz aquella fua fé, que portal o tem. 
A fefta deite Santo fe faz , e celebra nas 
Oitavas da Pafcoa , e aqueíle dia fie o de 
maior triunfo de todos os pefeadores, que 
todos os outros , e em que elles fazem mó* 
Z ii res 



35*6 ÁSIA de Diogo de Couto 

res gaftos , e defpezas , que em todos os 
mais. Efta pequena luz , que eíles mareantes 
Portuguezes veneram em nome de S. Fr. 
Pêro Gonçalves , e os eítrangeiros no de 
Santo Anfelmo , he tão antiga lua venera- 
ção, que já em tempo dos Gregos fe cele- 
brava ; porque fegundo muitos Authores feus 
contam, quando aquelles famofos Argonau- 
tas hiam na demanda do Velloííno de ouro, 
em huma grande tormenta que tiveram no 
mar, appareceo aquella luz fobre a cabeça 
do Caftor, e Pollux , e que logo lhes cei- 
fara a tormenta ; o que moveo aos homens 
a terem eíles dous irmãos em tanta venera- 
ção , que os contaram no numero dos Deo- 
fes. E ailim Plinio no II. Liv. da natural 
hiftoria, faltando nefta luz, affirma que fe 
vira muitas vezes nas pontas das lanças dos 
foldados em os exércitos , e que o mefmo 
apparecia em as nãos , e lhe chamaram 
Stella Cajloris , porque appareceo fobre a 
cabeça de Caílor, como aflima diííemos. 

E tornando aos nofTos mareantes. Quan- 
do viram que fó a não do filho do Arcebif- 
po deixara de fazer viagem , creram que o 
Santo fe quizera fatisfazer niífo da ofFenfa 
que oArcebifpo lhes fizera em lhes defender 
fuás tão antigas fedas ; e aílim o affirmáram 
ao mefmo Arcebifpo , que vendo tamanha 
fé / e devoção, movido daquelle zelo, Ília 

tor- 



Dec. VIL Liv. V. Cíap. II. 35-7 

tornou a conceder , depois que fe achou a 
agua , porque nas voltas que lhe deram foi 
hum marinheiro dar com hum furo de hum 
prego na quilha , que eftava deílapado, que 
por defcuido deixaram os Calafates de lhe 
pôr prego, e quando a breáram fe tapou o 
buraco , e por alli fazia aquella agua. E 
permittio Deos N. Senhor que acontecefle 
ifto a eíla náo , eílando no porto , porque 
fe não perdefle á ida , que fe fora no mar , 
nenhum remédio tinha. Affim que a agua 
foi tomada, com grande alvoroço a tornou 
3 carregar , porque diíleram os officiaes que 
ainda tinha tempo ; e que quando não pu- 
deíTe paíTar á índia , ficaria invernando em 
Moçambique ; e aííirn deo á vela a dous 
dias de Maio , e foram feguindo fua derro- 
ta , e na cofta de Guiné acharam tantas cal- 
marias , que os deteve fetenta dias ; e to- 
mando parecer íbbre o que fariam , aífentá- 
ram , que fofíern invernar ao Brazil , por- 
que era muito tarde , e logo fe fizeram na 
volta da Bahia de todos os Santos , aonde che- 
garam a quatorze de Agofto vefpera de N. 
Senhora da Aíiumpção. D. Duarte da Cofta , 
que alli eftava por Governador , foi logo def- 
embarcar o Capitão mor, e os Fidalgos que 
hiam na náo , que eram Luiz de Mello da 
Silva, D. Pedro de Almeida , defpachado 
com a Capitania de Baçaim , D. Filippe de 

Me- 



^Z ÁSIA de Diogo de Couto 

Menezes , irmão de D. João Tcllo , hum 
dos Governadores do Reyno , filhos de D, 
Henrique de Menezes , quecítivera por Em- 
baixador em Roma 5 e trouxe a Santa ín- 
quiíição a Portugual , e de Dona Brites de 
Vilhena , filha do grande Ruy Barreto , Fron- 
teiro mor do Algarve, D. Paulo de Lima, 
Nuno de Mendoça , e Henrique de Men- 
doça feu irmão , Jeronymo Corrêa Barreto , 
Henrique Moniz Barreto , e outros Fidal- 
gos , que agazalhou 3 banqueteou , e deo pou- 
fadas á ília vontade; e o meímo fez a toda 
a mais gente da mio , a quem deo manti- 
mentos em quanto allieíteve. As mais náos, 
que tinham partido diante, a Flamenga de 
que era Capitão António Mendes de Caílro , 
foi tomar Melinde , onde invernou : a Águia 3 
em que hia João Rodrigues de Carvalho, 
invernou em Moçambique, por chegar tar- 
de : as duas Aííumpçao , e Santo António 
chegaram a Goa. Foi eíte anuo aflinalado, 
-aflim pela morte de EIRey D. João , que 
faleceo , depois das nãos partidas, em onze 
de Junho dia cie S. Barnabé Apoftolo, em 
idade de íincoenta e finco annos , tendo rei- 
nado trinta e finco ; como pela morte do 
Emperndor Carlos V, , de gloriofa memo- 
ria , que faleceo o Outubro íeguinre , em 
jdade de íincoenta e oito annos e íete me- 
zes, deixando por herdeiro de íeus Eítados 

o 



Dec. VIL Liv. V. Cap. ir. # 9 

o muito Carholico , e poderofo Príncipe D. 
Filippe feu filho , que foi o fecundo deíle 
nome em Caftella , e o primeiro depois nos 
Reynos de Portugal. 

CAPITULO III. 

Das coufas quefuccedêram em todo efle an- 
no em Maluco : e de como os morado- 
res prenderam D. Duarte De ca , 
e foltáram aquelle Rey. 

DEixámos as coufas de Maluco o anno 
paliado na guerra , que os Ternates 
faziam á noífa fortaleza , pela prizao de El- 
Rey , e de como defpedíra D, Duarte Dcça 
o galeão , de que era Capitão Francifco de 
Barros, a pedir foccorro a Malaca; agora 
continuaremos com as coufas que fuccedê- 
ram todo efte anno , pelas não contarmos 
por pedaços. Partido o galeão da carreira , 
ficou correndo a guerra com muito grande 
aperto , porque fe metíeo nella o Rey de 
Tidore, que era genro do de Ternate , e 
deitou fuás corocoras ao mar , e mandou 
íeus Capitães humas vezes, eelle em peífoa 
fe embarcou outras , e foram pela coPca da 
Ilha de Ternate ; e á conta de dizer que 
favorecia o fogro , lhe tomou alguns lugares , 
em que deixou fetis prefidios; porque como 
os Mouros não guardam fé em matéria de 

rei- 



360 ÁSIA de Diogo de Couto 

reinar, todas as vezes que o filho, o irmão 5 
e o parente pode tomar o Reyno 20 outro, 
não perde cccafiao , como efte féz , que ven- 
do o íbgro prezo , e o Reyno revolto , por- 
que defejou de fe fazer fenhor delle , in- 
tentou o que fez , peia ficar fó com o Im- 
pério de todas aqueilas Ilhas. Os noíTos pa- 
deceram com eíla guerra trabalhos exccíTi- 
vos de fomes , e perfeguiçoes , fem D. Duar- 
te Deça fe mover a compaixão , nem que- 
rer foltar o pobre Rey , antes lhe eftreitava 
mais a prizao , e lhe mandava fazer avexa- 
çoes , e affrontas , indignas de animo Chri- 
ílao ; e todavia trazia luas embai caçoes no 
mar , com o que fuítentava a guerra , e ou- 
tras mandava a Geilolo a bufcar mantimen- 
tos , e o rnefmo a Bachão , donde fempre 
lhe acudiam , e foccorriam com elles ; por- 
que aquelles Reys , por verem acabado o de 
Ternate , não íó o proveram com elles, mas 
ainda lhe mandaram navios, e gente em fa- 
vor de D. Duarte Deça. 

Eílando aífirn as coufas no peior eflado 
que fe podia imaginar , chegaram áquelle 
porto D. Jorge Deça , e D. Diniz de Me- 
nezes , que hiam de íoccorro ; porque tanto 
que o galeão deFrancifco de Barros chegou 
a Malaca , e que D. João Pereira Capuão 
daquella fortaleza vio pelas cartas de D. 
Duarte Deça o trabalhoíò citado } em que 

aquel- 



Dec. VIL Liv. V. Cap. III. 361 

aquella fortaleza eítava , logo negociou eftes 
dous Capitães pêra lhe irem de foccorro , 
D. Jorge Deça na náo Conceição com íin~ 
coenta foldados , e muitos mantimentos , mu- 
nições , e roupas , e D. Diniz em huma ga- 
leota com trinta homens ; * porque os Capi- 
tães das fortalezas naquelle tempo não ti- 
nham as mãos tão atadas , como neíle , em 
que ilto eícrevemos , nem havia tantos regi- 
mentos , e defezas fobre não tocarem na 
fazenda de EIRey ; porque hoje póde-fe 
perder huma fortaleza á mingua , fem os Ca- 
pitães das outras lhe poderem valer , por 
eflarem arados a tantos regimentos , que fe 
não podem menear: em tanto que aconteceo 
perder- fe hum galeão de EIRey na barra de 
huma Cidade por falta de huma amarra , por 
o Capitão delle ? nem os Officiaes da fazen- 
da poderem fazer defpezas , nem comprar- 
lha , porque lha fariam pagar. E a coufa 
que nefta matéria mais efcandaliza he, que 
ouvimos dizer a alguns Officiaes da fazenda , 
e juíliça , com quem praticámos fobre efta ma- 
téria , que deixaífem perder as fortalezas , e 
as náos. 5 e que não tocaííem na fazenda de 
EIRey , em que não vimos até hoje luzir 
eíles accreícentamentos , mas íim cada hora as 
perdas , e rifcos , que pela pouparem acon- 
tecem por toda a índia. E poílo que eíira- 
nhamos ifto com muita razão > também o 

não 



362 ÁSIA de Diogo de Couto 

não deixaremos de fazer as grandes defor- 
dens , e defpezas exceílivas , que os Capi- 
tães , e os Offieiaes faziam á conta de man- 
darem foccorros , que foram tantas , que 
quiz EIRey antes pôr fuás fortalezas a rif- 
cos, que diíTirnulalias *, e porque os exem- 
plos diflo são muitos , e nós em algumas 
partes os apontaremos , os deixamos agora. 
Com a chegada defte foccorro começaram 
os noflbs a resfolegar , e D. Duarte Deça 
fez a D. Jorge Deça Capitão mor daqueiie 
mar, elhedeo huma fufta pêra andar nelle , 
e com el!e D.Diniz de Menezes na fua ga- 
leota , e Chriítovao de Sá em outra fuíia , 
e Henrique de Lima , e Franciíco de Araújo, 
e Gonçalo Fernandes em outras embarcações ; 
é as corocoras de EIRey de Bachão . e Gon- 
calo Pereira Regedor de Momoia com três 
corocoras íuas , com que havia pouco tinha 
vindo de foccorro. 

Depois que eíta Armada fe ordenou , e 
andou no mar , ficou a fortaleza alguma cou- 
fa mais defaíTombrada dos inimigos, que ca- 
da dia lhe faziam fcbrançarias ,' porque lo- 
go elles fe retiraram, e reforçaram fuás Ar- 
madas , ordenando os Regedores de Terna- 
te por Capitão mor de todas as luas coro- 
coras a Cachil Labufaía , que fe foi logo 
rer com o Rey de Tidore, pêra com elle 
aífentar o modo de como fe procederia na 

guer- 



Deg. VII. Liv. V. Cap. III. 363 

guerra contra os noíTos : que affentou , que 
pelejaíTem corn a nofla Armada , pêra o que 
mandou negociar de novo toda a íua , e a 
proveo de muita , e luftrofa gente , e fez 
delia Capitão hum Regedor feu ; e lhe man- 
dou que foíTe com Cachil Labuíafá buícar 
a noíía Armada, e que pelejaíle com ella , 
pêra o que também lhes deo as Tuas coro- 
coras mui bem negociadas. Eftando as cou- 
fas neíte eílado , chegou áquella fortaleza o 
galeão da carreira , que tinha partido de 
Goa , de que era Capitão António Pereira 
Brandão , que trazia muitas roupas , provi- 
mentos , e munições, que chegaram a mui- 
to bom tempo; e depois de ellar na terra, 
e foube as couías da guerra-, e de como íè 
efperava pela Armada dos inimigos pêra 
pelejar com D. Jorge Deça , fez prefies o 
batel do feu galeão , cem os foldados que 
comfigo trazia , e fe foi metter na Armada. 
O Cachil Labuíafá , depois que ajuntou a 
fua Armada á deTidore, foi bufear a noí- 
ía, que eftava á vifta da fortaleza já preftes 
pêra oefperar; e chegados huns aos outros , 
defearregáram aquella primeira falva de ar- 
tilhem , que fez em huns , c outros bem 
de danwio , e logo ainda no meio daquellàs 
nuvens defumo enveítio o Labuíafá a navio 
de D. Jorge Deça , a que fe lançou logo 
dentio com mais de cem homens eícolhidos , 

e 



364 ÁSIA de Diogo de Couto 

e antre elles fe ateou huma muito arrifcada 
batalha , e o mefrno fe fez por toda a mais 
Armada , e a Capitania de Tidore inveftio 
D, Diniz de Menezes, e todas as mais co- 
rocoras as noíías embarcações , em que fe 
começaram alevantar mui efpeífas labaredas 
de fogo , efumo das muitas panellas de pól- 
vora , que de huma, e outra parte fe lança- 
vam , <p atroar o ar com os eílouros da ar- 
cabuzaria que não deícançava , ecaufavahum 
grande eílrondo , que ajuntado a ifto o re- 
tinir das armas , e os gritos de todos , pa- 
recia que fe acabava o mundo , e que fer- 
via o mar. D. Jorge Deça , que era muito 
bom cavalleiro, vendo-fe entrado do Labu- 
fafá , que era muito determinado, arremetteo 
a eile com grande valor pêra o lançar fo- 
ra , o que não pode fazer por fer ajudado 
dos mais efcolhidos Mouros de Ternate, e 
Tidore. Todavia aprcfentando-fe-lhe diante 
com alguns que também efcolheo, começou 
com elle huma muito perigofa , e arrifcada 
batalha , onde fe pelejou com muito valor , 
e esforço. D. Diniz de Menezes , e António 
Pereira Brandão também foram invertidos de 
muitas corocoras j mas elles como esforça- 
dos cavalleiros que eram , fizeram tantos ef- 
tragos nos inimigos , que lhes caufou gran- 
de efpanto, axorando algumas das coroco- 
ras» Todas as mais embarcações da noíTa 

Ar- 



Deg. VII. Liv. V. Ca?. III. 365- 

Armada eftavam travadas com outras dos 
inimigos , pelejando com grande fúria , e 
efpanto ; mas onde a batalha eftava mais 
arrifcada , era no navio de D. Jorge Deça , 
onde era tamanho o numero dos mortos , e 
feridos , que quaíi faziam eítorvo aos vivos. 
Eftando afíim acouía taoduvidofa, fem 
fe faber declarar a vitoria por nenhuma das 
partes, quiz a defaventura que tomaííe fo- 
go huma pouca de pólvora na furta de D. 
Jorge Deça , cuja força lançou ao mar to- 
dos os que nella pelejavam, tirando D.Jor- 
ge Deça , e hum Belchior Lopes , que fica- 
ram ambos fós nella, defendendo-a de algu- 
mas corocoras que acudiram pêra a levarem 
á toa , fobre que ambos pelejaram mui va- 
lorofamente com muito damno dos inimigos. 
EIRey de Bachao , que eftava da parte dos 
noíTos , e Gonçalo Pereira Regedor de Mo- 
moia , axoráram muitas corocoras. D. Diniz 
de Menezes , António Pereira, Henrique de 
Lima , e todos os mais Capirães Portugue- 
zes nefte dia fizeram coufas dignas de fe 
engrandecerem com mais eloquência da que 
em nós ha. D.Jorge Deça, fobre quem car- 
regava todo o pezo derta batalha, foi o que 
mais fez , e o que mores trabalhos paíTou 
que todos , porque elle fó com Belchior Lo- 
pes defenderam o feu navio de feição , que 
de medo delles não oufavam os inimigos ao 

en- 



366 ÁSIA de Diogo de Couto 

entrar; e fempre fe perdera , fe Deos não 
encaminhara hum pelouro de hum berço de 
hunia das noíTas embarcações , que deo no 
Labufaia , Capitão mor dos inimigos , e o 
derribou como morto. O que viílo pelos 
feus , cuidando que o eftava , fe afFaftáram ; 
e fazendo final amais Armada, fe foi toda 
recolhendo com grande damno , deixando 
porém os noivos tão deftroçados , que lhes 
foi neceííario recolherem-fe pêra a fortale- 
za , pêra fe curarem os feridos y que eram 
muitos, ficando aílim a guerra ainda viva, 
e os noíTòs em muito grande aperto ,. por- 
que os inimigos tornaram a reformar fuás 
Armadas, e a continuar em feus afTaltos. 

Vendo os rooradon?s que D. Duarte De- 
ça por teima não queria íbltarEIRey, eque 
eftavam arrifcados a grandes defaventuras , 
ajuntáram-fe todos, eaííentáram de o pren- 
der , e foltar a EIRey , pêra fe acabarem 
todos aquelles trabalhos , e fizeram pêra 
iíto cabeça a Henrique de Lima. E con- 
fultando em fegredo o negocio , eftando o 
Capitão hum Domingo á MilTa , entraram 
os da conjuração na Igreja , e remettendo a 
elle , o liaram, e aílim nos ares foi levado 
á torre da menagem , onde foi fechado , e 
as chaves entregues a Henrique de Lima. 
Dalli fe foram logo á prizão , onde EIRey 
eíiava, e o foliaram corn lhe pedirem gran- 
des 



Dec. VIL Liv. V. Cap. III. 367 

des perdoes , e darem muitas defeulpas , e 
o acompanharam até lua cafa , o que lhes 
elle agradeceo , affirmando a todos « que 
» não feriam parte csaggravos, eavexaçoes 
» que D. Duarte Deça lhe tinha feito , pe- 
» ra deixar de fer muito grande fervidor de 
» EIRey de Portugual ; que nas defordens 
» de feus Capitães não tinha culpa, e mui- 
)> to particular amigo de todos os moradores 
» daquella Ilha, e fortaleza» e aíiim omof- 
trou em todo o tempo que viveo. 

Feito ifto , quizeram os da conjuração 
eleger por Capitão a D. Jorge Deça; o que 
elle não quiz acceitar, ainda que todos lho 
pediram com muita inflancia. Nem o mef» 
ino quiz António Pereira Brandão por mui- 
to que fobre iflb trabalharam; e tanto, que 
eíiando hum dia á porta da Igreja , vieram 
todos os moradores com 05 Padres, e hum 
Crucifixo alevantado , e lhe pediram da par- 
te daquelle Senhor quizeífe acceitar o cargo 
diquella fortaleza até o Governador prover, 
fdzcndo-lhe lobre iffo proteílos , e requeri- 
mentos. O que vifto por elle , ditTe <( que 
» acceitava fer olheiro da fortaleza , e da ar- 
» tilheria de EIRey, já queaílirn era necef- 
» fario, e não Capitão; » eaffim dizem que 
mandou fazer logo feus papeis , e tirou feus 
inílrumentos. Entregue elle da fortaleza, e 
o D. Duarte Deça na mefma prizao , tanto 

que 



368 ÁSIA de Diogo de Coutd 

que chegou a rftonção pêra a índia , o em- 
barcaram no galeão da carreira prezo em 
ferros , com os autos de íuas culpas , e na 
índia foi fentenciado que fe folTe aprefenrar 
a EIRey (fegundo ouvimos a algumas peí- 
foas ) como fez, e lá no Reyno fe livrou; 
e deo taes querelas contra António Pereira 
Brandão , que o mandou EIRey ir prezo, 
cque lhe confiicaffem a fazenda , eaííim foi 
entregue a pelíoas de confiança , e elle met- 
tido no caííello , onde D. Duarte Deça o 
accufou de alevanrado , e lhe poz outros cri- 
mes , porque diziam tivera votos que mor- 
reíTe ; em que fe não fez execução , porque 
veio com embargos , em que provou que 
nunca fe nomeara por Capitão , fenão por 
olheiro da fortaleza , do que aprefentára cer- 
tidões de todos os Officiaes. Com tudo foi 
fentenciado em alguns annos de degredo pê- 
ra Africa , e que pagaííe os ordenados a D. 
Duarte Deça. O degredo lhe perdoaram de- 
pois , por ir com Francifco Barreto á con- 
quiíta de Manamotapa , onde morreo. E 
contava António Pereira Brandão que o rnef- 
mo D.Duarte Deça lhe mandara rogar que 
acceitaííe a Capitania, do que depois de ma- 
goado lhe contrafez aquelle Romance velho 
de Durandarte em D. Duarte , mal cavalhero 
provado. E tornando ás couías de Maluco. 
Com a foltura de EIRey ceifou a guerra , 

e 



Dec. VIL Liv. V. Cap. III. 369 

e tornaram as coufas a feu lugar, correndo 
EIRey cm tudo muito pontual com o fer- 
viço do de Portugal , tendo íó trabalho em 
tornar a tomar alguns lugares , que lhe o Rey 
de Tidore tinha tomado com côr de o fa- 
vorecer, e ajudar, como já diflemos. Neíle 
eftado deixaremos as coufas de Maluco até 
tornar a ellas. 

CAPITULO IV r . 

Da embaixada que o Governador Francifco 
Barreto viandou a EIRey de Chaul , e 
fobre que : e de como os Mouros entra- 
ram na Ilha de Chorão > donde foram lan- 
çados com grande damno feu : e de como 
o Governador mandou metter nella D. 
Francifco Mafcarenhas. 

POr hum navio ligeiro , que veio de Or- 
muz , teve o Governador Francifco Bar- 
reto recado , que em Suez fe faziam preíles 
galés pêra paííarem á índia , o que o poz 
em grande cuidado , pelo que logo defpedio 
recado ás fortalezas do Norte , e a Dio , 
pêra que eftiveífem fobre avifo. Com ifto 
mandou dar muita preíTa á Armada , e lan- 
çar ao mar os galeões novos , que tinha fei- 
tos em o lugar em que fe os outros quei- 
maram, porque determinava de Jr bufear os 
Turcos , onde quer que eítivefferti , e foffem 
Couto. Tom. IV. P. L Aa ter- 



370 ÁSIA de Diogo de Couto 

ter. E pondo eftascoufas emconfelho, aíTen- 
tou-fe « que mandaflèm hum Embaixador 
» ao Inizamoxá Rey de Chaul fobre algu- 
» mas coufas neceflarias , em que entravam 
» duas principaes. Huma perfuadillo a fa- 
» zer guerra ao Idalcan , e que tornaffe fo- 
)> bre a fortaleza de Calabraga , que lhe fe- 
» ria fácil de tomar ., pela gente que tinha 
» em baixo fobre a li ha de Goa ; e mó a fim , 
» que como o elle foubefle , devia mandar 
» recolher (cus Capitães, pêra mandar acu- 
» dir áquella fortaleza , e que aííim ficaria 
» Goa defapreflada. A outra era, pedir-Ihe 
)> licença pêra fazer hum caílello roqueiro 
)) no Morro de Chaul, que fica fobre aquel- 
)> la barra, pelas novas que havia de Galés, 
» pêra dalli lhe defender a entrada, fe qui- 
» zeíTe tentar commetter aquella Cidade \ o 
y> que a elle meímo Inizamoxá vinha bem ; 
y> porque fe os Turcos metteííem pé naquel- 
» le porto, nunca mais havia de ter delle, 
» nem dos mais de fua coita proveito al- 
» gum. » 

Concluido o confelho , levantou-fe em 
pé D. Diogo de Soufa , ( que tinha aquelle 
verão vindo de fervir a Capitania de Çofa- 
la , e eftava pêra fe embarcar naquellas náos 
pêra o Rey no,) e diíle ao Governador Fran- 
cifeo Barreto c< que fe tinha as novas das 
» galés por certas, lho diííeífe, porque não 

» era 



Dec. VIL Liv. V. Cap. IV. 37Í 

» era elle homem, que fe havia de ir doEf- 
» tado da índia , deixando-a em trabalhos , 
» que elle eílava muito rico de mercês, que 
» lheEIRey fizera, e que em tempo de ne- 
» ceflidadcs queria elle moíiraragradecimen- 
» to delias , e tornar a gaftar tudo em feu 
» ferviço , porque elle , que lhe deo o que 
» tinha , lhe faria outras mercês 5 e que *s 
y> deípezas , que tinha feito pêra fua embar- 
)> cação, importavam pouco, porque a ma- 
)> talotagem allieftava o Hofpital deEIRey, 
» onde fe defpenderia. » O Governador lhe 
agradeceo de parte- deEIRey aquelle ofFere- 
cimento , certificando-lhe « que elle o fabe- 
» ria por fuás cartas , pêra que elle lhe fi- 
» zeflc a mercê que merecia , que efperava 
» pelo fegundo recado , e que não fe desfi- 
» zelíe decoufa alguma até elle o avifar. » 

Paífado iíio , ordenou o Embaixador que 
havia de mandar , e elegeo pêra iífo Jorge 
Corrêa de Antas, hum cavalleiro nobre, e 
rico, de grande peflba , e avifo , e lhe deo 
as coufas neceflarias pêra aquelía jornada, 
que elle fez com grande apparato , e com- 
panhia ; e mandou por elle de prefente áquel- 
le Rey féis formoíbs ginetes com íèus telli- 
zes ricos. Efte Embaixador partio em navios 
ligeiros , e de fua jornada adiante daremos 
razão. A guerra de Goa hia por diante y 
ainda que não havia nelía mais trabalho, 
Aa ii que 



372 AS1A de Diogo de Couto 

que o da falta das coufas , e 'as inquietações 
dos rebates 5 que os inimigos davam em to- 
das as panes. Succedeo quafi no fim de Ou- 
tubro querer hum dos Capitães chamado 
Miaberii dar hum ailalto na Ilha de Chorão, 
por fer avifado que eftava nella recolhida 
muita fazenda dos naturaes das Ilhas do der- 
redor; e aílim commetteo a entrada hum dia 
no quarto da alva por hum paíío , que fe 
chama Sacorla , que eílá da outra banda da 
terra firme, que chamam Vangani , que he 
a parte mais eííreita do rio , que terá perto 
de vinte braças de largura, e de maré vafia 
de aguas vivas íe palia com agua pela cinta. 
Por aqui foram paíTando perto de quinhen- 
tos Mouros , huns a nado , e outros em ca- 
baças , e foram tomar o valado da Várzea 
de Chorão , (que he na ponta que fica pêra 
a banda da Ilha Divar , que fe divide da 
outra por hum pequeno efteiro ,) e ao pa£ 
far viram alguns eftar huma fuíla furta no 
rio , (de que era Capitão hum Portuguez cha- 
mado João Marrão ; que eílava quafi fó, 
porque afiim o Capitão , como os foldados 
eram idos a Goa,) e femindo-a os Mouros 
fem gente , a foram demandar , e entraram 
nella, c os que dentro efiavam (que eram 
três, ou quatro foldados) acordaram á gri- 
ta dos marinheiros; ccom aquelle fobrefal- 
to Xe lançaram ao mar , e le foram pêra a 

Ilha 



Dec. VIL Liv. V. Ca?. IV. 373 

Ilha Divar , ficando os Moutos fenhores do 
navio. Os que paliaram á Ilha feriam per- 
to de quinhentos , e foram demandar a po- 
voação , onde refidia hum Gonçalo Pacheco , 
e com elle dous Gentios chamados Zeita- 
rane , e o outro Humbraná , tio , e fobri- 
nho , que eftavam alli de vigia com muitos 
peles ; e em fentindo os inimigos , tomaram 
as armas, e foram- fe fahindo, e pelejando 
com elles , e ao eft rondo acudio Domingos 
Rodrigues , que eftava na mefma Ilha por 
AnadeJ dosefpingardeiros da terra; e ajun- 
tando- fe todos, foram pelejando com os Mou- 
ros valorofamentc , e recolhendo-fe pêra o 
alto da Ilha. Os que tinham cuidado do fa- 
cho que nelle eftava , em fentindo Mouros 
fizeram final , e atiraram huma bombarda- 
da , a que logo acudio o Governador ao 
cães , e mandou embarcar alguns Fidalgos 
com foldados pêra foccorrerem os da Ilha. 
O Capitão de Naroá Ruy Dias da Silveira 
também defpedio ao final algumas embarca- 
ções , que alli andavam em guarda daquelles 
rios, e a primeira foi huma almadia, em que 
hiam dous companheiros filhos da índia cha- 
mados Simão Rodrigues , e Gonçalo Vaz ; 
e prepaííando pela fuíh de João Marrão , 
logo que os Mouros aemráram, e fentindo- 
os fallar, conhecendo pela língua que eram 
inimigos, puzeram-fe de fora ás efpingarda- 



374 ÁSIA de Diogo de Couto 

das , com que derribaram alguns. Os Mou- 
ros em os fentindo, cuidando que era o foc- 
corro maior , faltaram no mar , e a nado fe 
foram pêra a terra firme. Ao mefmo tempo 
chegou Lançarote Picardo , Capitão de hum 
Catur ; e fentindo pêra a ponta do efteiro, 
que vai anrre a Ilha de Divar, e Chorão, 
rebolliço , foi pêra aquella parte , c chegou 
ia tempo que os Mouros apertados dos nof- 
fos , que pelejavam com elles , e por fenti- 
rem grande rebolliço da outra banda da Ci- 
dade do foccorro que vinha , fe hiam reco- 
lhendo; e lançando ao mar pêra fe paliarem 
á outra banda, e dando Lançarote Picardo, 
e os companheiros da almadia neíles , foram 
matando muitos , que já acharam a nado. Ao 
mefmo tempo chegou Henrique Jaques , Ou- 
vidor geral da índia , que andava em huma 
galeota , e vinha de rodear os rios de noite : 
fentindo pêra aquella parte o rebolliço, acu- 
diò depreíía lá , e chegou a tempo que já 
os outros andavam á pefcaria do mar , co- 
mo aflima diíTemos , e ajudou por fua parte 
a fazer nelles huma mui grande deííruiçao. 

O Governador Franciíco Barreto , que ef- 
tava no cães , defpedio Jorge de Mendoça 
Capitão da Cidade , e outros Fidalgos , e 
'cavalleiros , que fe embarcaram em muitas 
fcinbarcaçòes , que o Governador mandou 
pôr no cães pêra aquelle effeitoj e chegan- 
do 



Dec. VII. Liv. V. Cap. IV. 37? 

do á Ilha já de dia, defembarcáram nella , 
e acabaram de arrematar a vitoria ; porque 
os Mouros vendo o poder , fe lançaram ao 
mar por onde puderam, onde muitos acaba- 
ram ás mãos dos noíTos , e outros chegaram 
á outra banda bem efcaldados , e eicalavra- 
dos , e muito mais arrependidos do feito. 
Lançarote Picardo , e o Ouvidor geral , e 
os dous companheiros da almadia fe enche- 
ram de cabeças de Mouros , e fe foram lo- 
go ao Governador, que eftava no cães , e 
os foldados que as levavam lhas puzeram 
aos pés , e elle os abraçou a todos ; e met- 
tendo a mão na bolfa , a cada hum que lhe 
aprefentou cabeça , deo a finco , e a féis pa- 
godes , tirando a hum homem foldado , que 
fe chamava Belchior Cailaça , que foi dos 
primeiros , e lhe aprefentou duas ou três, 
deo o Habito de Chrifto , que tirou do feu 
pefcoço , botando-lho no do foldado , a 
quem depois mandou quarenta pardaos. Paf- 
fado ifto , mandou o Governador Francifco 
Barreto a D. Francifco Malcarenhas, (que 
depois foi Conde de Santa Cruz , e Viío- 
Rey da índia,) que fe foíTe metter naquel- 
la Ilha com trezentos foldados , e nella ef- 
teve em quanto foi neceflario , íem os Mou- 
ros quererem outra vez provar fua ventura 
nella. Com eíle fueceflb fe começaram os 
Capitães do Idalcan a aíFaílar pêra dentro 

com 



376 ÁSIA de Diogo de Couto 

com tenção de não provarem outra vez a 
mão, nem fazerem mais que defenderem os 
mantimentos , que não paffaflem a Goa. 

CAPITULO V. 

De como o Governador Francifco Barreto 
âefpachou as ndos pêra o Revno , e os 
Mouros começaram a f aliar em pazes , 
que fe lhes concederam : e de como o Ini- 
%amoxá prende o o Embaixador que o Go- 
vernador lhe mandou : e do exercito que 
logo defpedio pêra lhe fazer huma forta- 
leza no Morro : e de como Álvaro Paes 
de Sotomaior partio pêra o EJlreito , e 
ficou em Chaul por caufa da guerra. 

N r A entrada de Novembro depois do 
fucceíTo paíTado chegaram as náos de 
Ormuz , por quem o Governador teve novas 
certas das galés , que não fahíram ; pelo que 
Jogo deo deípacho ás náos doReyno, pêra 
irem tomar a carga a Cochim , que partiram 
até quinze de Janeiro deite anno de fíncoen- 
ta e oito . em que com o favor Divino en- 
tramos , e todas chegaram afalvamento, fo- 
mente a náo Patifa , por outro nome a Águia , 
de que era Capitão João Rodrigues de Car- 
valho , arribou a Moçambique , onde inver- 
nou. O Governador ficou profeguindo na 
guerra de Goa. Mas vendo os Capitães do 

ídàt 



Dec. VIL Liv. V. Cap. V. 377 

Idalcan quão mal lhes fuccedia nella , e que 
não faziam mais que defpezas , começaram 
a fallar em pazes , porque puxaram , com 
ordem deEIRcy, e de feição que os ouvio 
o Governador, e lhas concedeo com as con- 
dições com que antes eflavam feitas , com 
que fe alevantáram 3 e começaram a correr 
os mantimentos , e tornaram as coufas ao 
que dantes eram , e o Governador teve tem- 
po pêra entender em outras , e dar preíTa á 
Armada toda , porque determinava de partir 
11a entrada de Setembro pêra o Achem , por 
achar huma inftrucção de EIRey , em que lhe 
encommendava fizeíTe aquella jornada , pêra 
tirar aquelle inimigo de tão perto de Mala- 
ca , e pela fama da riqueza daquella Ilha , 
e theíouros daquelle Rey , pêra o que le hia 
apercebendo de todas as coufas que lhe eram 
necefíarias pêra a jornada. Deixando agora 
iílo por hum pouco, porque he razão con- 
tinuemos com o Embaixador , que no Ca- 
pitulo paííado deíle V. Liv. deixámos def- 
pedido pêra o Inizamoxá. 

Partido elle de Goa, chegou aChaul em 
breves dias , e dalli paíTou logo pêra a Cor- 
te de Amadanager , onde foi muito bem re- 
cebido daquelle Rey , que o ouvio prefentes 
todos os do íeu Confelho. E quando chegou 
a lhe fallar na fortaleza de Morro, (de que 
dle citava tão ciofo ? parecendo-lhe que com 

o 



378 ÁSIA de Diogo de Couto 

o achaque dos Turcos fc queria fortificar 
nelle , pêra depois pôr Alfandega naquelle 
porto , do que elle receberia muito notável 
perda , ) defpedio o Embaixador pêra fua 
eafa , íèm o acabar de ouvir, e depois por 
conlelho dos feus o mandou prender , e a 
todos os que cotn elle foram : e defpedio 
com muita preíía aFaratecan com vinte mil 
homens , em que entravam finco mil de ca- 
vallo , dando-lhe por regimento , quefefof- 
fe metter no Morro , c fizefíe nelle hum for- 
te peradeílmaginar o Governador. Eíla gen- 
te chegou a Chaul de quinze de Março por 
diante, e oFaratecan fe foi logo metter no 
Morro , e o começou a fortificar com mui- 
ta preíTa , fem bollir com coufa alguma da 
nofla fortaleza, Aquelle dia que chegou , 
apparecêram os montes da outra banda cheios 
de tendas , e gente , o que poz naquelles 
moradores tamanho efpanto , que começou 
a haver antre ellcs grandes defconfianças , a 
que acudio Garcia Rodrigues de Távora , 
Capitão da fortaleza, aos animar 3 e esfor- 
çar , mandando logo fazer tranqueiras mui- 
to fortes nas bocas das ruas pêra fe defen- 
der do inimigo, fe o quizeífe commetter; e 
os moradores todos mandaram logo fuás mu- 
lheres , e filhos pêra Baçaim , e Goa, pêra 
ficarem mais de/embaraçados , e defaílbmbra- 
dos. Mas como oFaratecan não trazia mais 

re- 



Dec. VIL Liv. V. Cap. V. 379 

regimento que pêra fe fortificar no Morro , 
não bollio com outra coufa alguma. 

Aqui aconteceo huma coufa maravilhofa , 
e digna de fe íaber , pêra edificação r.oíía , 
c pêra darmos a Deos nofíò Senhor muitas 
graças, e louvores pelas grandes maravilhas 
que cada dia obra nas partes do Oriente, 
pêra gloria íua , e confusão dos infiéis, que 
o não adoram , nem conhecem , e foi , que 
em os Mouros entrando o Morro , vendo 
eftar huma Cruz na ponta delle , que fica 
fobre o mar , foram pêra a cortar , e nenhum 
machado de muitos que lhe puzerarn ao pé, 
quiz cortar por ella , e todos a acharam tão 
dura, como fefora de hum muito forte dia- 
mante. O que vifto pelos mefmos Mouros , 
chegaram hum elefante a ella pêra a arran- 
car , que poz niíTo toda fua força , mas não 
a pode mover , com fer tão pequena , de 
páo , e eftar mal encaixada em huma pedra 
grande, com o que a deixaram ficar, ealli 
efteve muito tempo. O Capitão de Chaul 
dcípedio recado ao Governador , e foi-fe 
fortificando o melhor que pode, ajudando-o 
os moradores com muito cuidado , e defpe- 
zas , dando alguns delles mezas , e provendo 
osfoldados, que acudiram de fora com todo 
o necefíario. E hum delles chamado Mem 
Lopes Carrafco , homem rico , e abaftado , 
armou mezas públicas pêra todos os que a 

el- 



380 ÁSIA de Diogo de Couto 

elias quizeiTem ir a todo tempo , em quan- 
to efla neceffidade durou; quedeo de comer 
a mais de cem homens muito abaítadamen- 
te , íèrvindo-os a elles em peffoa com feus 
criados , e efcravos , e eícravas. 

O recado que o Capitão tinha defpedi- 
do chegou a Goa em menos de três dias, 
e foi a tempo que o Governador eftava pê- 
ra fazer á vela huma Armada de galeões , 
e fuflas pêra a mandar ao Eíireito de Or- 
muz , (e pêra invernar naquella fortaleza por 
haver novas de galés ,) de que era Capitão 
mor Álvaro Paes de Soto-maior ; e fabendo 
aquella neceffidade , o deípcdio logo, pêra 
que fe foiTe pôr fobre aquella barra 5 e que 
ficaífe ajli favorecendo aquella Cidade até 
elle chegar , porque logo determinou de a 
foccorrer em peflba. Álvaro Paes de Soto- 
maior deo logo a vela com toda fua Arma- 
da , que era de três galeões , de que a fóra 
elle eram Capitães João de Mello de Brito, 
e Henrique de Vafconçellos , e féis fuílas 
mais, em que hiam Diogo Ferreira , Duarte 
Pereira , Diogo de Sá , Cofmo Faia , AfFon- 
fo Coelho • e Gonçalo Garcia. 

Partida efta Armada, foi-fe o Governa- 
dor por na ribeira , e mandou lançar ao mar 
todos os navios que havia , e tomar os que 
alli eftavam de fora pêra fe embarcar , e 
mandou dar muito grande preíía a tudo, a 

que 



Dec. VII. Liv. V. Cap. V- 381 

que acudiram os Fidalgos , e Capitães , ca- 
valleiros , e Cidadãos principacs ; e tomando 
quaefquer que logo achavam negociados, fe 
embarcaram com muita preíía , com muitos 
foldados que pêra iíío lhes acudiram , que 
ífaquelle tempo fe oífereciam pêra o ferviço 
de EIRey , e andavam grangeando os Ca- 
pitães pêra os levarem comíigo , íem paga , 
e fem mais intereíTe que aquella inclinação, 
que então tinham todos áquellas coufas. O 
que fe veio depois a trocar de feição , que 
já hoje não ha hum , ou mui poucos , que 
fe queiram embarcar, fenão mui bem com- 
prados, e alugados dos Capitães ; porque 
além do foldo que lhes EIRey paga , não 
querem já menos de dous , ou três quartéis 
mais dos Capitães, que fe empenham pêra 
iífo ; e cila he a razão , por que o ferviço 
de EIRey cufta já hoje finco , e féis vezes 
dobrado , do que naquelle tempo , em que 
também pela barateza das coufas a ordinária 
que EIRey dava bailava pêra as defpezas 
da jornada , e das mezas que nos invernos 
davam pelas fortalezas , e ainda muitas ve- 
zes poupavam hum pedaço pêra fe prove- 
rem de outras coufas. Mas também naqueile 
tempo pagavam aos foldados feus quartéis 
ordinários de verão, e inverno, e lhes da- 
vam rnezas mui abadadas ; e os Fidalgos ti- 
nham fuás cafas tão cheas de foldados , que 

quan- 



jSí ÁSIA de Diogo de Couto 

quando fe embarcavam não bufcavarn ou- 
tros , porque já os tinham em caía , e fem- 
pre pelas deites Fidalgos haviam nefta Cida- 
de de Goa nos invernos mais de quinhentos 
delies agazalhados , porque elias eram feus 
hofpitaes. O que também anda mudado , por- 
que já ha muito poucos que recolham mais 
que léus criados , por forrarem gados, edef- 
pezas , até os que íahem ricos de fuás for- 
talezas, que antigamente defpendiam a mor 
parte do que delias tiravam no ferviço de 
EIRey. E por EiRey D* João entender que 
era aílim neceííario , tinha feito regimento , 
que nenhum Capitão, que fahifle da fua for- 
taleza , fe foííe pêra o Reyno dentro em três 
annos , porque os queria ter na índia , aííim 
pêra hoípitaes de foldados , como pêra a 
authofidade do confelho do Eftado. Mas 
tudo o bom he tão acabado , que hoje fe 
nota por erro todo opaííado nas coufas do 
governo; e corre antre elles pratica geral, 
que o antigo já não he licito ; e que fe os 
Governadores andavam todos os verões em- 
barcados , que hoje já não era credito do 
Eftado fazerem-no , no que vam contra a 
opinião de todos os doutos antigos , que 
affirmam que os Eflados pêra fe não desfa- 
lecerem fe hão de coníervar com aquellas 
artes com que fe ganharam. Mas deites ma- 
les , e deltas miíerias tem culpa a cubica , 

que 



Dec. VII. Liv. V. Cap. V. 383 

que tem tomado poffe na índia de todo o 
eílado de peííoas , acreditando-fe com a cou- 
h , que mais vituperada foi dos antigos Ca- 
pitães que todas , que he eíle adquirir , e 
guardar, authorizando aquelle antigo adajo 
feito pelo demónio , de quanto tens tanto 
vales. 

E tornando á noiTa ordem. O Governa- 
dor foi dando muita preíía á fua embarca- 
ção , afliíiindo de continuo no cães , e na ri- 
beira pêra dar defpacho ás partes. E pêra 
maior aviamento , paífou mandados aos Offi- 
ciaes , e Almoxarifes pêra darem aos Capi- 
tães dos navios tudo o que lhes foífe necef- 
fario , de mantimentos , munições , cotonias , 
e todos os appareihos de navios 3 de que 
tinham junto huma grande fomma. 

Em quanto fe faz preíles efta Armada > 
continuemos com a de Álvaro Paes de So- 
to-maior, que hia feguindo feu caminho pê- 
ra Chaul devagar por cauía dos Noroeftes 
que curfavam , -que lhe eram contrários ; e 
chegando áquella barra , entrou porella com 
toda fua Armada formoíamente embandei- 
rada , falvando a Cidade com muitos tiros > 
einftrumentos guerreiros, e alegres; e ven- 
do o grande exercito pofto da outra banda , 
e a preíTa que os Mouros davam na forti- 
ficação do Morro , furgio em parte donde 
o pudeííe bater - 7 o que fez com tanto eflron- 

do, 



384 ÁSIA de Diogo de Couto 

do j e terremoto , que os que andavam na 
obra da fortificação , aforam fazendo muito 
devagar , porque a noíía artilheria lha im- 
pedia. Poucos dias depois diíto chegaram 
áquella barra duas galés daquellas grandes , 
e antigas, que vinham deBaçaim, carrega- 
das de madeira ; e achando a couía naquel- 
k eftado , furgíram mais perto do Morro 
que os galeões , e fe puzeram á bateria com 
elle : o que acabou de inquietar os Mouros , 
porque totalmente lhe impediram o ferviço ; 
e le alguma couía faziam , era de noite, 
cuííando ainda deita maneira as vidas a mui- 
tos ; mas todavia não defíftíram do negocio, 
e le foram fortificando o melhor que pude- 
ram com muito trabalho , e perigo. 

CAPITULO VI. 

Da Armada com que o Governador Fran- 
cifeo Barreto partio pêra o Norte , e che- 
gou a Chaul : e das pazes que lhe os 
inimigos mandaram commetter y e 
do que nijjb pafjou. 

DEfpedido Álvaro Paes de Sotomaior, 
ficou o Governador dando preíTa á Ar- 
mada com que havia de partir ; e os Fidal- 
gos , e Capitães, que mais depreda fe pude- 
ram negociar, não quizeram efperar por el- 
le , e fizeram veia pêra Chaul, onde entra- 
vam 



Dec. VIL Liv. V. Cap, VI. 38? 

vam todos os dias 5 de finco em finco, ede 
oito em oiro navios, carregados de muita f 
e luítrofa foldadefca , com o que já lhes da- 
va a todos pouco do poder dos inimigos 1 . 
O Governador de tal maneira fe apreflòu , 
que em menos de quinze dias fe embarcou ,- 
e deo á vela com toda a Armada que havia* 
E porque não he razão que fiquem em ef- 
quecimento os Capitães que nefta jornada fe 
acharam, daremos os nomes de todos , aííiin 
dos que foram diante , coma dos que fica- 
ram pêra acompanharem o Governador $ 
nem faremos diftinçao de peííoas , nem dè 
navios, porque tudo foram fuílas de remo* 
D. Diogo de Noronha o Corços, D. An* 
tonio de Noronha o Catarraz , D. Antão de 
Noronha , D. Álvaro da Silveira, D. Pedro 
de Menezes o ruivo , Gonçalo Falcão , D, 
AíFanfo Henriques , D. Jorge de Menezes 
Baroche 3 Pantaleáo de Sá , D. Filippe de 
Caílro , Ayres Gomes da Silva , D. Vafco 
Fernandes de Ataíde , Martim AfFon fo de 
Miranda , D. Álvaro de Ataíde, Fernão dó 
Soufa de Caftello- branco , D. Martinho da 
Cunha, D. João Coutinho, D, Lourenço de 
Soufa , Pêro de Ataíde Inferno , D. Luiz de 
Almeida, Ayres Telles de Menezes > D.Jor- 
ge Pereira , D. Diogo de Ataíde , António 
de Soufa Coutinho o Langará, Manoel de 
Mello , Lourenço de Soufa 7 Jeronymo Bar* 
Couto.Torn.lKP.L Bb re- 



386 ÁSIA de Diogo de Couto 

reto, Trifiao Vaz da Veiga, Gil de Gces, 
Álvaro Pires de Távora, João Lopes Lei- 
tão, Diogo de Miranda de Azevedo, Hen- 
rique de Macedo , Manoel Travados , Jorge 
Barreto, Manoel de Vafconcellos , António 
Rabello , Jorge da Silva Corrêa , Manoel de 
Mendanha , Henrique Jaques Ouvidor geral , 
Coimo Faia , Jorge de Mello , Álvaro Gon- 
çalves Pinto, Eflevão Pereílrello , Barnabé 
Mafcarenhas , Chriflovao Pereira Homem , 
Duarte Paim de Mello, Luiz Cabral, Agof- 
tinho Nunes , Jorge de Moura , Gafpar de 
Sá Pinheiro , Francifco de Figueiredo , Dio- 
go Pereira, Manoel Fernandes de Manar, 
Ruy Fernandes , António de Efpindola , 
Manoel Mouro , António Martins , Baltha- 
zar da Coita , Diogo Banha , Balthazar Fer- 
nandes , Meftre Pedro, o Secretario, o Ca- 
pitão da Guarda do Governador, o Feitor 
da Armada , João Peixoto , Belchior Corrêa , 
Domingos Borges , Manoel da Coíla , Bel- 
chior Godinho , Martim Rodrigues , André 
Gonçalves de Dio , Braz Fragofo de Cou- 
lão, Francifco Corrêa, Pedralvarez , Gon- 
çalo Sanches , Ruy Godinho , Chriílovão 
Cordeiro , e outros muitos a que não fabe- 
mos os nomes. E primeiro que o Governa- 
dor parriiTe de Goa , entregou o governo 
ao Biípo , e Capitão da Cidade , e deixou 
pelos rios de Goa P c fuás Ilhas muitas man- 

chuas } 



Dec, VIL Liv. V. Cap. VI. 387 

chuas , e catures pêra fua guarda , de que 
ficaram Capitães Roque Fernandes , Anronio 
Carrilho, Diogo Gonçalves, Lançarote Pi- 
ca rd o , Diogo Madeira , Luiz Caftanho , 
Eytor Soares, Gonçalo Corrêa, Balthazar 
Soeiro, António Ferreira , André Gorjão , 
António de Arzila, e outros- 

Partido o Governador, foi feguindo fua 
jornada até chegar a Chaul , e entrou por 
fua barra com toda a Armada formofamente 
embandeirada, efoi falvando a Cidade fem 
fazer caio do Morro , e fe foi ao cães, on- 
de defembarcou , fendo muito bem recebido 
da Cidade ? e apofentado emcafas, que pêra 
elle eítavam preíles ; e logo começou a ter 
confelhos fobre dar nos inimigos , e os dei- 
tar fora do Morro , no que os mais dos Ca- 
pitães concordaram j porque não fabemos 
que efpirito davaDeos aos homens daquelle 
tempo , que todas as coufas lhes pareciam 
faciles , fem nunca já mais refuzarem bata* 
Iha que fe lhes offereceffe. 

Concluído em darem nos inimigos logo 
em frefco , começaram a fazer feus petre- 
chos , e apercebimentos pêra iíTo \ e o Go- 
vernador fez alardo da gente que havia , e 
achou quatro mil Portuguezes, a fóra muitos 
Chriftãos , e efcravos , que podiam muito 
bem pelejar ; e aífím eftavam todos tão al- 
voroçados , que defejavam de fe lançar a 
Bb ii na- 



388 ÁSIA de Diogo de Couto 

nado ás eílancias dos inimigos. Os Capitães 
do Inizamoxá vendo aqueila potencia da 
Armada , e o rio , e o mar todo cheio de 
navios embandeirados , e cheios de muita , 
e mui luftrofa gente , e de muitos inftrunien- 
tos alegres , e guerreiros , que de continuo 
atroavam effcs ares , com que lhes davam 
os uoílbs a entender o alvoroço com que 
citavam , por fe verem já ás mãos com elles , 
receando aquelle poder ; é fendo avifados 
por efpias , como o Governador íe fazia pref- 
tes pêra lhes dar batalha, havendo feu con- 
felho , aflentáram , que feria melhor pedir-lhe 
pazes , e fahirem-fe dalli com fua honra.. 
Pelo que deípedíram. logo hum Mouro em 
liuma almadia com huma bandeira de paz , 
que foi levado ao Governador , e lhe diífe 
» que os Capitães deElRey lhe mandavam 
» pedir licença pêra lhe mandarem luim Em- 
» baixador , pêra com el!e tratar coufas , 
}> que lhe convinham. » O Governador o de- 
teve ; e ajuntando os Capitães do confellio, 
áflentou-fe q.ue-fe ouviííe, e que foubcíle o 
que queria , com o que o defpcdíram. E 
logo fobre a tarde tornou o Embaixador , 
que era hum Mouro criado do Faratecan ., 
e vinha bera acompanhado > que logo foi 
levado ao Governador , que já eftava aviíW 
do da qualidade de fua peíToa ; e em che- 
gando y lhepoz aos pés hum fardete debea- 

ti- 



Dec. VIL Lrv. V, Cap. VI. 389 

rilhas finas, que lhe mandavam deprefente, 
(porque dntre elles não fecoftuma fallar em 
negocio algum femaquillo, quehe final de 
amor, e amizade.) O Governador mandou 
tomar o fardete , e deitar-lho por huma ja- 
nella fora; e muito menencorio lhe mandou 
dizer pelo língua « que o não lançava tam- 
)> bem a elíe , porque não tinha culpa ; mas 
» que diííefle a feu amo que a elíe o havia 
» de fazer. » O Mouro palmado da paixão 
do Governador, íem refponder coufa algu- 
ma , fe foi fahindo , e recolhendo a fuás 
embarcações; epa(Tou«fe logo da outra ban- 
da tão amedrontado , que ainda depois de 
eílar com os Capitães no exercito , não po- 
dia cobrar fôlego pêra fallar. 

Sabendo oFaratecan o que paliava , def- 
pedio logo com muita preíTa hum daquellcs 
Capitães chamado Rafarecan , muito bem 
acompanhado , e com hum preíènte muito 
diíFerente do outro. O Governador recebeo 
efte homem bem , porque era grave , e hon- 
rado , e o ouvio , e elle lhe diíTe da parte 
de feu Rey « que lua tenção mmca fora rom- 
» per guerra com os Portuguezes , de quem 
» era amigo havia tantos annos , e a quem 
» elíe dera aquclle feu porto graciofamente , 
» por eftimar muito tellos por vizinhos; mas 
y> que acudira a fe não mandar elle Gover- 
» nador fortificar naquelle Morro > como lhe 

» dif- 



390 ÁSIA de Diogo de Couto 

» diíTeram que pertendia, porque iíío feria 
» Jançar-lhe hum cadeado naquelle feu por- 
» to, que era o principal que tinha em feu 
» Reyno , pêra não poderem mais entrar, 
)> e fahir fuás náos , que eram livres. Que 
» elie eílava preíles pêra guardar, e cumprir 
» os contratos das pazes feitas pelos Gover- 
» nadores paflados , como íempre fizera, 
» porque era fervidor de EIRey de Portu- 
a gal , e muito amigo delle Governador» 

Francifi^o Barreto o ouvio bem , e lhe 
refpondeo « que fe detivefíe até o outro dia, 
» em que com o Veador da fazenda , Se- 
-% cretario , e mais Officiaes de EiRey tra- 
)> taíTe daquelle negocio, que elles o defpa- 
» chariam.» E o entregou ao lingua do Ef- 
tado , pêra que o apofentaíTe mui bem , e 
lhe deflem todo o neceííario , como fe fez. 

E entrando em negocio , vieram-fe a con- 
firmar as pazes que eíiavam feitas. 

(( E que quanto ao Morro , que logo 
» fe mandaííe desfazer o forte, em que nem 
» elie, nem os Governadores da índia po- 
» deriam nunca já mais mandar fazer nelle 
» fortaleza alguma ; e que o primeiro que 
a teníaíTe fazella , ficaííe fendo o quebranta- 
» dor das pazes , e perdeífe o direito que 
» tinha nelle, e que o outro fe pudeííe for- 
)) íificar nelle fem lho impedirem. 

a E que foiçaria Jogo o Embaixador com 

» to- 



Dec, VIL Liv. V. Cap. VI. 391 

» todos os Portuguezes , que EIRey man- 
» dou prender. 

« E que diante do rnefmo Embaixador 
» juraria EIRey as pazes.\> Afíentados eftes 
contratos , e jurados pelo Governador , e 
pelos Capitães Mouros , que pêra ifíb mof- 
tráram poderes baftantes , mandou logo o 
Governador apregoailas ; o que fe fez aílim 
na Cidade, e fortaleza, como na de Chaul 
de lima , e exercito. Com ifto alevantáram 
os inimigos o campo , e desfizeram as tran- 
queiras , que ettavam no Morro, e fe foram 
pêra o Balagate. 

CAPITULO VIL 

De como o Governador Francifco Barreto 

mandou defapojfar Z). "João de Ataíde da 

Capitania de Ormuz , pêra onde foi D. 

Antão de Noronha : e do que mais 

fez até fe partir pêra Goa. 

DEcIaradas as pazes pela Cidade, tomá- 
ranvfe tanto a mal dos foldados, que 
eftavam alvoroçados pêra fe verem ás mãos 
com os inimigos, que fe começaram a fol- 
iar em palavras contra o Governador , e a 
cantarem-lhe de noite cantigas cujas, e des-' 
honeítas. E porque fe hia gaitando o verão , 
e era tempo de prover nas coufas de Ormuz , 
mandou ver pelos Defembargadores -, que ; 

le- 



392 ASIÀ de Diogo de Couto 

kvou , as culpas que de lá vieram contra 
D. João de Taíde , que lá eftava por Ca- 
pitão ; e foi fentenciado que fe fofle livrar 
á índia ; com o que o Governador defpa- 
chou logo a D. Antão de Noronha , que 
cftava provido daquella Capitania , de que 
já tinha fervido hum anno i mas tinha-lhe 
aquelle vindo do Reyno hum a Provisão de 
EIRey, em que lhe fazia mercê , que lhe 
não correfle aquelie tempo , mas que aca- 
bafle os três annos por encheio. 

E porque das culpas de D. João de Taí- 
de não temos tratado atrás , o faremos ago- 
ra , porque ferviráo de avifo , aílim pêra os 
Capiíães das fortalezas fazerem nellas o que 
dçvem , como pêra os Governadores fe não 
deixarem levar da paixão f e ódio , coufa , 
que tanto desfea hum Varão , por muito fa- 
xnofo que feja. E affirn o que mais engran- 
dece , e fublima hum Capitão, e o que maior 
mágoa , ecaftigo he pêra feus inimigos, he 
fa^er coufas , cobrar feitos, de que lhes eU 
les tenham inveja. Mo he o que accnfelha- 
va aquelle grande Diógenes a hum feu ami- 
go , que lhe perguntou o que faria pêra fe 
vingar de hum inimigo? A que refpondeo: 
Que trabalhaffe por íèr bom , e que lhe ti- 
veífe elle inveja. 

E tornando a noíTo fio. O cafo de D. 
João de Taíde 7 fegundo o que conílava dos 

au- 



Dec. VIL Liv. V. Cap. VII. 393 

autps , foi efte. Era efte Fidalgo hum pouco 
livre ) e apaixonado; e na fua Capitania fa- 
zia algumas coufas , que efcandalizavarn , 
principalmente na matéria dosempreftimos , 
que todcs os Capitães pedem em íuas Ca- 
pitanias aos moradores , a que mais lhe po- 
demos chamar forças , que empreftimos : no 
que elle parece que excedia o modo , do 
que fe mandaram queixar ao Governador, 
e lhe mandaram hum fummario de culpas , 
que lhe lá tiraram em fegredo. E como elle 
ou não eftava muito feu amigo , ou levado 
do efcrupulo da confciencia , mandou em 
principio defte verão tirar delle devaíTas , 
que lhe chegaram eftando em Chaul , e por 
cilas foi fenrenciado que fe fofle livrar a 
Goa ; mas fegundo alguns homens veflhos , 
e honrados daquelle tempo nos difleram , o 
negocio nafceo difto. Quando Pêro Barreto 
Rolim foi ao Cinde , que fez aquella def- 
truiçao, (como atrás diflcmos no Cap. XII. 
do III. Liv. 5 ) eftava D. João deTaíde por 
Capitão em Ormuz , que recebeo grande 
perda naquelle alevantamento ; porque os 
Capitães de Ormuz o mor commercio , tra- 
to , e proveito que tem he o do Cinde ; e 
chegando-lhe novas do que Pêro Barreto Ro- 
Jim fizera , dizem que difíera muito apaixo- 
nado : «Tal balcarriada foi efta , que Fran- 
» cifco Barreto mandou fazer, como a que 

» elle 



394 ÁSIA de Diogo de Couto 

» ellefez em gaitar duzentos mil pardaos em 
» huma groíTa Armada , pêra elle ir a Ba- 
» çaim a coufas de feu gofío.» E como na 
índia nunca faltam mexcdores , e corretores 
de novas aos Vifo-Reys , e Governadores , 
(coufa, que elles muito haviam decftranhar 
por fua authoridade, porque parece que em 
certo modo o defacata quem lhe vai com 
mexericos ; porque aífim como o officio da 
jíiftiça he não enganar , affim o da prudên- 
cia he procurar não fet enganado ,) foi al- 
gum curiofo contar-lhe o que diíTera D. João 
deTaíde, dx> que dizem ficara tão tomado, 
que lhe não pezou com as culpas, que lhe 
delíe mandaram pêra o depor, pelo menos 
não lhasquiz diffimular, coufa tanto contra 
a obrigação do que governa , conforme áquel- 
la fentença deDomicio Aphro , que o Prín- 
cipe que quer faber , e ouvir tudo , he ne- 
cefTario que difílmule , e perdoe tudo. 

Defpachado D. Antão de Noronha pêra 
Ormuz , fez vela na entrada de Abril ; e 
chegando áquella fortaleza , lha entregou D. 
João de Taíde , tendo fervido pouco mais 
de anno e meio, e logo.fe embarcou pêra 
Mafcate , e depois em Setembro pêra Goa. 
Defpachadas eítas coufas , foi o Governador 
aBaçaim, o que lhe todos eftranháram mui- 
to, e murmuraram diffo publicamente, por- 
que alguns dos Fidalgos não eram feus ami* 



Dec. VIL Liv. V- Cap. VIII. 39? 

gos , epejavam-fe com elle naquelle lugar; 
que a inveja faz cuidar a quem a tem , que 
merecem as coufas melhor , que quem as 
poííue , que he o de que o mundo cila 
cheio. 

CAPITULO VIII. 

De como o Governador Francifco Barreto 
fe par tio pêra Goa : e da grande Ar- 
mada y e apercebimentos que fez 
pêra ir ao Achem. 

DEpois que o Governador Francifco Bar- 
reto deípachou D. Antão de Noronha 
pêra Ormuz , paílbu a Baçaim , e deo des- 
pacho a algumas coufas muito depreífa , por- 
que fe fazia tempo de fe ir pêra Goa , como 
fez , pêra prover as fortalezas de Malaca , 
e Maluco , e Ceilão. Chegado a Goa em 
breves dias , defpachou os provimentos pêra 
Ceilão , Malaca , e Maluco , e com ifto fe 
cerrou o inverno , em que o Governador 
tratou de fazer huma Armada muito groífe 
pêra ir ao Achem , fe lhe não vieiTe fuecef- 
for. E porque ascafas doSabayo, pêra on- 
de elle fe mudou por falecimento do Vifo- 
Rey D. Pedro Mafcarenhas , lhe diíleram 
que eítavam pêra cahir , fe mudou pêra a 
fortaleza , que mandou concertar , e fempre 
ficou fendo dahi por diante o apofento dos 
Vifo-Reys, e Governadores. 



396 ÁSIA de Diogo de Couto 

E porque as pazes , que eftavam feitas 
com os Capitães do Idahá ficaram imperfei- 
tas , por fe não jurarem , defpachou o Go- 
vernador hum Embaixador pêra mandar ao 
Idalcan , que foi lá muito bem recebido de 
EIRey , e diante delle as jurou , e logo o 
Governador entrou nos negócios da Arma- 
da , que determinava fazer pêra ir ao Achem 
a fazer huma fortaleza , como EiRey man- 
dava , pêra defaíTombrar a de Malaca da- 
quelle inimigo. E pêra mor aviamento re- 
partio os galeões , e mais vafilhas pelos Ca- 
pitães que havia de levar , pêra correrem 
com feu aviamento ; e paíTou Provisões pêra 
os Almoxarifes darem por eícritos defles Ca- 
pitães todas ascoufas neceífarias pêra os na- 
vios , porque de tudo tinha os almazens mui- 
to bem providos. E como a ribeira das Ar- 
madas tinha ainda neíle tempo perto de qua- 
trocentos homens do mar Portuguezes , fo- 
ram os officiaes dos galeões correndo com 
elles, íèm fe embaraçarem em obra alhea, 
com tanta ordem, e provimento , que quan- 
do fé acabou de negociar hum, o foram. to- 
dos ; porque o Governador todo aquelle 
íempo afliftio na ribeira , onde elíe , e os 
Capitães comiam , e dormiam as mais das 
noites, e andava o Governador fempre com 
a bolfa aberta pêra os trabalhadores , que 
folgavam de fervir a EIRe;/ com muito goi> 

to. 



Dec. VIL Liv. V. Cap. VIII. 397 

to. E quando foi entrada de Setembro ti- 
nha no rio de Goa amais potente Armada, 
que a índia teve , porque eram vinte e fin- 
co galeões, e caravelas, dez galés, e mais 
de ietenta galeotas , e fuílas } e os Capitães , 
que citavam nomeados pêra os galeões, são 
os ieguintes. 

O Governador no S. Mattheus > Jorge 
de Mendoça , D.Jorge de Menezes Baroche , 
Henrique de Macedo , Pêro de Mcfqukaj 
o Licenciado António Rodrigues de Gam- 
boa , Manoel TravaíTos , Manoel de Vaf- 
concellos, D. Martinho da Cunha, Henri- 
que Jaques, Ouvidor geral , Jorge de Mou- 
ra , Diogo Pereira , Manoel de Mello da 
Cunha , Fernão de Noronha , e André de 
Soufa. Os das galés , Martim Affonfo de 
Miranda , Ayres Telles , Triílão Vaz da 
Veiga, Diogo Jufarte Tição, D. Diogo de 
Taíde, D. Vaíco de Taíde, D. Leoniz Pe- 
reira , João Lopes Leitão , António de 
Abreu, e Fernão de Soufa deCaftello-bran- 
co. Os das fuftas , e galeotas não nomeamos 
por fer infinitos. Todas cftas vafilhas eftavam 
providas de of%iaes, artilheria , munições, 
e mantimentos , é tão a ponto , que a cada 
hora podiam fazer viagem. 

E quando foram vinte deAgofto chegou 
á barra de Goa D. João de Taíde , que vi» 
nha de Ormuz , e logo a três de Setembro 

qua- 



398 ÁSIA de Diogo de Couto, 

quatro náos do Reyno , em que vinha por 
Viíò-Rey da índia D. 'Conftantino de Bra- 
gança : e por iflb concluiremos aqui com ef- 
te Governador. Foi Francifco Barreto filho 
fegundo do grande Ruy Barreto , Fronteiro 
mor do Algarve, e de Dona Branca de Vi- 
lhena. Foi cafado com Dona Francifca de 
Caftro , filha de D. Luiz de Menezes , Alfe- 
res mor que foi de Portugal , irmão de D. 
Duarte de Menezes , Senhor da cafa de Ta- 
rouca , de quem houve dous filhos , Ruy 
Nunes Barreto , eLuiz da Silva , que ambos 
morreram na índia. E por fua morte delia , 
depois que acabou de ícr Governador , ca- 
iou com Dona Brites de Taíde , irmã do 
Conde de Atouguia D. Luiz de Taíde , 
mulher que fora de Chriftovão de Brito. 
Depois o encarregou EIRey de Capitão mor 
das galés , com que fe achou em favor de 
EIRey de Caftella na tomada do Pinhão de 
Bellez. Depois o mandou por Governador, 
econquiftador do Império de Monamotapa , 
onde faleceo, como na IX. Década feverá. 



Fim do Liv. V. da Década VIL 



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DS Barros, João de 

4.11 Da Ásia de João de Barros e 

.7 de Diogo de Couto 
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1778 
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